Mostrar mensagens com a etiqueta Curtas sobre metragens. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Curtas sobre metragens. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Sherlock Holmes 2

Sherlock regressa aos ecrãs de cinema com uma realização mais ousada, mais em linha com o seu tempo. Planos mais curtos, imagens em câmara lenta, uma preocupação em manter o espetador colado à trama de aventura que se vai sucedendo.
Quanto ao mais, nada de novo: o mesmo fino humor, a mesma desbragada ironia de Holmes, as picardias com o inefável Dr. Watson, a luta de morte com o Prof. Moriarty. Uma receita infalível de venda de livros, cinema e “merchandising” do grande Sir Arthur Conan Doyle que tem resistido à poeira do tempo.
As representações das lutas entre o bem e o mal configuraram sempre terrenos férteis de produção artística em todas as suas dimensões, pela simples circunstância de revelarem que todos nós somos percorridos por esses dois eixos.
Sem dúvida um filme que cumpre os seus desideratos, ainda que relativamente modestos. Um bom e típico filme de domingo à tarde.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Nanni(smo)

A ideia central do filme é bastante inovadora: um Papa eleito que sofre um ataque de pânico na altura de se assomar à varanda do Palácio Apostólico da Praça de São Pedro e que enfrenta uma profunda crise quanto às suas reais capacidades para assumir a cadeira de Pedro. Uma novíssima maneira de encarar os conclaves, o secretismo envolvente e os jogos de poder amplamente tratados pela filmografia, desde logo com “As sandálias do Pescador”.

Todavia, Nanni Moretti fica alguns furos abaixo do que nos tem habituado. Falta intensidade dramática ao filme e ao personagem para ser um drama e falta muita ironia para estarmos perante uma comédia. Não adianta colocar cardeais e alguns bispos a defrontarem-se num torneio de voleibol, nem tão-pouco o discurso peripatético do psiquiatra desempenhado pelo próprio realizador.

Estamos sempre à espera de mais, de um «volte-face» e o final, apesar de não ser surpreendente, cai mal pela falta de preparação dos espetadores. Falta uma reflexão sobre a luta interior do Papa eleito e, até (porventura fosse pedir demais…) alguma crítica à orgânica e posicionamento da Santa Sé. Lá se vai dizendo pela boca do Papa confundido que muita há a mudar, mas nada mais. Porventura produzir o filme em Itália tenha funcionado como algo que coarta a liberdade artística.

Porém, se é assim, Nanni Moretti está a perder qualidades. O que é, manifestamente, uma pena.



quarta-feira, dezembro 07, 2011

A marca na pele de um estilo

O estilo é inconfundível: grandes planos, filmagens ao sabor de um respirar ora lento ora ofegante, a crueza da realidade e o abandono de efeitos especiais que, muitas vezes, só existem para esconder a mediocridade. Almodóvar em grande estilo, porventura não na sua obra-prima mas, claramente, em registo muito acima da média.
Prova o realizador, uma vez mais, que o cinema europeu não tem de ser chato para ser profundo, não tem de ser escuro para tratar de questões complexas. Almodóvar permanece encantado com a loucura humana, com o sentimento de perda que a morte sempre provoca e com a miríade de matizes que todos nós encontramos para com ela lidar. Umas mais saudáveis, outras, como aqui, do reino do patológico.
Dir-se-ia, ademais, que o realizador encontra a modernidade ou que esta última, por fim, alcançou Alomodóvar. As manipulações transgénicas, a mudança de sexo (ainda que forçada), a habituação a um corpo novo, a uma pele resistente ao fogo, nada mais são que metáforas modernas de angústias seculares: como reconhecermo-nos no e pelo corpo em que habitamos?
A resposta parece estar na frieza e na crueldade como nos vamos tratando nestes tempos que se dizem “civilizados”. A proposta do argumento passa, todavia, por uma crítica mordaz das relações humanas, por uma espécie de odor pútrido de carne que, de tanto feder, ameaça consumir a alma.
Excelente representação de Elena Anaya e bom papel de Banderas, neste reencontro com Almodóvar passados vinte anos de películas tão ousadas quanto polémicas.
Ah! Claro! O sexo. Esse continua em A pele onde eu vivo. Não poderia deixar de gritar “presente” na filmografia a que nos referimos. Porém, é agora mais suave, mau grado cenas que poderiam ser menos explícitas. Não por um qualquer puritanismo serôdio, que “não nos assiste” (expressão tão em voga…), mas apenas e tão-só porque o velado é, quase sempre, mais provocante e produtor de fenómenos imaginários mais profundos.
Confesso que abandonei a sala com um estranho aperto. Não na pele, mas em todo o peito. Porventura ainda não estarei bem na pele em que habito ou, talvez, hipótese mais provável, seja apenas o efeito de Almodóvar que tanto admiro: nunca me deixar indiferente ao que realiza, ao invés do “mundo maravilhoso de Hollywood”.


sábado, outubro 08, 2011

A propósito de "As Serviçais"


Ninguém pode ficar indiferente ao filme “The Help” (“As Serviçais”, na tradução portuguesa). É um raio de um filme que incomoda, perturba, questiona-nos sobre que porcaria somos nós, os ditos “animais racionais”. Apetece saltar do lugar e bater em quase toda a gente que está projectada na tela. Simplesmente isso não adiantaria nada, tal como a luta contra o racismo, a xenofobia e todas as formas de discriminação da diferença não são eficazmente combatidas, pelo menos em geral, pela força dos braços.

Um Mississipi que é apenas um exemplo de uma boa parte da América da década de 60 do passado século em que o segregacionismo era um regime legalmente instituído e em que a criadagem ainda estava a transitar do estatuto jurídico de “escravo” para o de “pessoa”. Um conjunto de mulheres fúteis e desequilibradas que afirmam uma suposta força ao aviltar os mais fracos. Sempre foi assim a relação ente os Homens. De poder, de mando. Todavia – e isto são boas notícias –, um olhar objectivo pela História prova-nos que as condições melhoraram substancialmente: o Homem humanizou-se mais. Não que isto signifique que ele se tornou totalmente humano, pois aí deixaria de ser… Homem.

Os EUA são um grande país. Mas em muitos aspectos da sua História, constituem uma tremenda injustiça, hipocrisia e servilismo ao dinheiro. Não são o único país assim, longe disso, mas o estatuto de única potência mundial acarreta especiais responsabilidades éticas e, insisto, humanas. Toda a Pátria tem um percurso histórico que reflectiu o ambiente da época e Portugal, por exemplo, não é nenhum país de “brandos costumes” como Salazar quis mistificar. Travámos guerras intestinas, estivemos à beira da guerra civil há trinta e tal anos, matámos em nome de Deus ou da Religião, tivemos intrigas e mortes palacianas, tivemos réis cruéis. Se houve piores? Certamente que sim.

Mas, ao ver “The Help”, somos confrontados com aquilo que, se praticado mais amiúde, talvez aplanasse as crises constantes em que mergulhámos. Dizia uma velha criada à menina branca que criara: “Quando te levantares, dirige-te ao espelho e pergunta se hoje vais deixar que eles destruam a tua esperança.”.

E numa outra passagem, uma diferente serviçal ensinava a uma menina de cabelos loiros uma cantilena que serviria de mote de vida: “You is beautiful. You is strong. You is important.” (ou algo assim; e o “is” aqui é típico do modo como se falava naquela zona e naquela franja da população).

Quando nos sentirmos com vontade de desprezar o diferente, vejamos “The Help”. Curar não cura, mas ajuda…


quinta-feira, setembro 29, 2011

Uivo


Allen Ginsberg não deixou ninguém indiferente. Supostamente é isto que caracteriza a literatura da não-literatura, a imortalidade da vida comezinha. O filme sobre «Uivo e outros poemas», na interpretação de James Franco, geralmente convence, embora repetitivo em alguns momentos. É certo que a cadência dadaísta do poeta exigia uma certa repetição dos textos, mas por vezes o argumentista e o realizador exageraram.
Tal como a junção da animação ao filme, ao invés já da troca entre o preto e branco e a cor. As temáticas dariam teses de doutoramento: o que é a literatura, o que se entende por obscenidade, quais os limites da liberdade de expressão e criação artística, o que é a homossexualidade e como reage/reagia a sociedade a essa «condição» (assim lhe chama o poeta).
Tudo temas que demoram a digerir, na certeza de que a Liberdade é sempre uma estrela cadente que urge preservar. Em todos os domínios da vida.

***

A quase totalidade do poema pode ser consultado em:
http://anaphylaxxya.blogspot.com/2010/02/o-uivo-parte-i-allen-ginsberg.html

terça-feira, julho 12, 2011

Pequenos prazeres



Pequenas mentiras entre amigos e Don Giovanni de Mozart no Coliseu.
Dois pequenos grandes prazeres da vida. O primeiro, um poderoso filme francês, supostamente uma comédia, mas que nos interroga sobre a pequena mesquinhez de que todos somos capazes. A não perder! Don Giovanni é sempre uma obra-prima. Ainda que num Coliseu sem condições adequadas, o elenco foi excepcional. Destaco Carla Caramujo, brilhante como nos tem habituado!

domingo, fevereiro 20, 2011

Indomável


"True Grit - Indomável"

Contra as minhas expectativas (e, talvez, também por isso), gostei muito de “Indomável”. O facto de ser um western não augurava um filme que apreciasse. Mas surpreendeu-me muito positivamente!
Não sei se está ao nível de outras obras de Cohen (nem tal me interessa, para ser sincera), mas parece-me um filme muito bom. Aliás, se tivesse que escolher um dos nomeados para melhor filme (e tendo visto, para além dele, “A rede social”, “O Discurso do Rei” e “O Cisne Negro”), entregaria o Óscar a “Indomável”.
E, com grande pena, as minhas certezas quanto ao merecimento da atribuição da estatueta ao Colin Firth, pela sua brilhante actuação em “O Discurso do Rei”, ficaram abaladas com a interpretação de Jeff Bridges. E isto, apesar daquele ser um dos meus actores de eleição (que pena não ter recebido o Óscar por “Um homem singular”!), e o último não ser da minha predilecção...

According to Greta

According to Greta, 2009, um interessante hino à vida. Nada de obra-prima, mas jeitoso para uns dias de forte gripe...

sábado, fevereiro 05, 2011

The king's speech

"O discurso do Rei" impressiona pelas duas interpretações soberbas de Colin Firth e de Geoffrey Rush. Ficamos speechless ao vê-los e a dupla funciona com marcada qualidade. Mais ainda, com um humor muito british, como se impõe. Ver um simples zé-ninguém dar ordens a um monarca na década de 30 do passado século não é para qualquer um. A leveza com que Rush o faz é de sublinhar.
Firth tem aqui um dos seus melhores papéis. O modo como interiorizou a gaguez é brilhante, assim como o misto de fleuma e de sentimentos que assolavam o interior de réis ainda em adaptação às mudanças no Império e ao dealbar da II Grande Guerra.
Vale ainda como documento histórico, relatando o processo de abdicação de Eduardo VIII por via do desejo deste casar com Wallis Simpson.
Quase que se fica com pena dos monarcas... mas se pensarmos melhor, pena mesmo era do povo que não tinha as mesmas mordomias...
Nomeações bem merecidas aos Óscares! A ver vamos!

segunda-feira, janeiro 31, 2011

Hereafter - Outra vida

Hereafter - Outra vida. Enternecedor diálogo de como lidamos com a morte. Esse tabu supremo que nos acomoda ao desconhecido final. Estórias que se entrelaçam e que, como num "puzzle", acabam por fazer sentido no final. Dor e sofrimento sem sentido que, afinal, terão algum. Apenas algum. Não concebo grande sentido na morte de um filho, de um pai ou de um/a companheiro/a de toda a vida.
Alegoria do efémero, do fraquíssimo significado do "sucesso". Inquietação sobre a mudança (tudo muda!).
Bem realizado, excepto no que toca aos efeitos especiais: muito artificiais.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Cópia certificada

De Abbas Kiarostami, com Juliette Binoche, William Shimell e Jean-Claude Carrière nos principais papéis, surpreende pelo modo quase inusitado como termina. Uma teia de rotinas de amor, um fingimento de uma relação que não existe mas que, nessa mesma inexistência, se torna tão real porque igual a tantas relações desgastadas.
Um constante jogo documental do que se cobra entre amantes, das picardias e das grandes arrelias, aqui e além polvilhado por um humor francês?, italiano?, do Médio Oriente?

quinta-feira, novembro 25, 2010

Dos Homens e dos Deuses (Des hommes et des Dieux)

Dos Homens e dos Deuses
Realização : Xavier Beauvois
Argumento: Etienne Comar, Xavier Beauvois
França, 2010, 122 min.

“Dos Homens e dos Deuses” é um filme superior. Daqueles que se demoram muito a escapar da atenção de quem os viu.

A história, baseada em factos verídicos (um conjunto de monges cistercienses que vivem num Mosteiro em Argel em harmonia e cooperação com a população local e são atingidos pelo acção terrorista de grupos de fundamentalistas islâmicos), é contada, por Xavier Beauvois, de um modo muito verdadeiro. Sem artifícios, sem excessos. No tempo devido, com vagar e placidez.

Mas a atenção do espectador não se perde na maior lentidão da narração (sobretudo no início do filme), antes podendo espraiar-se pelos preciosos pormenores de bom gosto que se multiplicam ao longo da história. Penso, por exemplo, nos momentos de reflexão e debate interior da personagem Christian num diálogo mudo com a paisagem circundante e do momento em que finalmente toma uma decisão e como que agradece o esclarecimento a uma árvore secular vizinha. Penso, também, na dança de emoções ao som de uma obra de Tchaicovsky e em tantos outros momentos.
É muito curioso, aliás, que, não havendo nos primeiros 20 minutos do filme extensos diálogos, se consiga perceber o carácter e sentimento das várias personagens (algumas sem terem enunciado uma palavra) e se consiga intuir acertadamente a resposta que darão quando forem confrontados com a decisão de partir ou ficar. A primeira resposta. Depois virão as dúvidas que com eles vivemos e compreendemos.
As interpretações são muito boas, tão boas que quando acompanhamos a história daquele grupo de monges nos esquecemos dos actores que os interpretam. É, por isso, com alguma injustiça para os demais que destaco Michael Lonsdale, como médico Luc, e Lambert Wilson, como irmão Christian.
Parece um filme de outro tempo, feito a partir de uma realidade também de outro tempo e provinda de um espaço distante. E, no entanto, é um filme demasiado próximo e actual.
Não é um filme sobre heróis, a menos que sejam uns heróis diferentes cheios de dúvidas e incertezas e com muitas humanas fraquezas. Diria antes que é um filme sobre os ramos em que os pássaros anseiam por pousar.

domingo, setembro 26, 2010

Wall Street 2 ou o triunfo da economia do nada

Wall Street 2, de Oliver Stone, alia a lucidez da reflexão sobre a actual situação económico-financeira com os mais puros sentimentos humanos. Puros no sentido de serem pertença do género humano. A ganância e a generosidade. O amor e o egoísmo.
De tudo somos mesmo capazes, ainda que em detrimento daqueles que nos são mais próximos. Retenho a frase: "Os pais são os ossos onde os filhos afiam os dentes". Um verdadeiro "case study" para os Colegas psicólogos...
A vertigem do boato e o modo como ele influencia decisivamente os mercados de acções e daí se propaga à dita "economia real" são assustadores. Tudo, ao fim e ao cabo, se baseia na informação: boa ou má, saudável ou "lixo do subprime". A economia produtiva que tanta tinta e sangue fez correr, que alimentou revoluções e ideais, que fez nascer génios e ditadores, essa parece posta de lado, uma espécie de peça de museu. Viva a economia baseada... no Nada..., ou melhor, no nada.
Eu, por mim, preferia aquela que se baseava em produtos que víssemos, em géneros que comêssemos ou mesmo em adornos que pudéssemos usar. Devo ser um antiquado.

sábado, novembro 21, 2009

Irmãos Bloom

"There's no such thing as an unwritten life. Just a badly-written one."
Quase 120 minutos de uma louca sucessão de golpes, na curiosa procura da perfeição na … vigarice. Uma busca que se assemelha desconcertantemente à demanda da felicidade, já que o golpe perfeito é precisamente aquele em que todos alcançam aquilo que desejam.
Humor bem doseado e servido por um elenco de excepção (Rachel Weisz, Adrien Brody, e, claro, Mark Ruffalo), num enredo assente na delicada linha que separa a verdade da falsidade. Uma linha que raramente aparece bem definida. Apenas se entrevê na tonalidade enigmática que macula os punhos de uma camisa branca.

sexta-feira, agosto 21, 2009

A Ressaca


Num registo completamente diferente do post anterior, vale bem a pena "The Hangover".
Uma mistura de Route 66 e de clássicos de amigos-que-vão-a-Vegas-enfrascar-se-em-despedida-de-solteiro, o filme prende pelo nonsense e pelo imprevisto. Em especial, pela cena em que um dos compinchas toca ao piano uma cultíssima (?) música ao lado de uma galinha que olha para o espectáculo como que pensando "estes humanos devem estar loucos!"...

terça-feira, agosto 18, 2009

Los Abrazos Rotos


Não é uma obra-prima, mas impressiona, como sempre em Almodóvar, pela forma em carne viva como se (con)vive com os sentimentos, através de personagens moldados em (por) cada um de nós.

Retive:

¿Y cuál es su secreto? No sé. Tengo de escribirlo para averiguar.

terça-feira, julho 07, 2009

Elegia



Elegia - poema de tom terno e triste, usado ao longo da história da literatura por numerosos Autores, de entre os quais se destaca Ovídio.


Raramente o título de um filme diz tanto e tão pouco ao mesmo tempo sobre a sua temática.


Aparentemente, Elegia trata de um amor impossível entre um velho professor e uma sua jovem aluna. Mas, como sempre, as aparências iludem...


Como acontece sempre nas películas que trazemos para casa a fim de as saborear quando deitamos a cebeça na travesseira, limito-me a dizer que este é um daqueles filmes que mais me marcaram nos últimos tempos, com duas interpretações soberbas: Ben Kingsley e Penélope Cruz, sob a direcção de Isabel Coixet.

http://www.youtube.com/watch?v=_Gq4wixIa-8

quarta-feira, abril 29, 2009

La Ley de Herodes



La Ley de Herodes (México, 1999), realizado pelo conhecido Luis Estrada, é uma metáfora sarcástica e muito bem conseguida do poder político.

Algures numa aldeia perdida do México, em 1949, um humilde e ainda puro funcionário público e do partido PRI é enviado para San Pedro de Saguados, onde o anterior “presidente municipal” havia sido assassinado brutamente pela população.

As eleições estavam próximas e não se podia correr o risco de o Governo não conseguir dar conta de uma insignificante aldeia.

Escolhido por ser pouco dotado pela inteligência, Juan Vargas, então supervisor de limpeza municipal, chega a uma aldeia sem lei, ou melhor, apenas com a lei da corrupção. Vários métodos são experimentados e apenas o crime parece resultar. O outrora simples e honesto Juan transforma-se no mais abominável político pronto a tudo fazer para conseguir extorquir dinheiro ao povo.

As teias de dependências, o castelo de cartas construído com base em favores pessoais e os altíssimos custos que uma aparência de democracia sempre importa, fazem deste filme um excelente exemplo de como o poder corrompe. Rousseau havia de o ter aplaudido de pé e Maquiavel não renegaria os seus ensinamentos.

O nosso Eça ou, antes dele, o nosso Gil Vicente reconhecer-se-iam na crítica do clero, no papel dos pequenos poderes provincianos. Os juristas veriam a autocracia no seu extremo e deliciar-se-iam com o modo extra-rápido de operar revisões constitucionais profundíssimas!

Em ano de tantas eleições, a representação de Juan (Damián Alcázar) não desmerece tantas que são vão vendo por aí. E não falo na América Central ou Latina…

E a moralidade da história? A corrupção compensa. Assim, com toda a impunidade. E com toda a realidade.

Apetece repetir, como na película, ¡O te chingas o te f****!…, ¡El que no tranza no avanza! e ¡Este país no tiene solución!







quinta-feira, fevereiro 12, 2009

The Boy in the Striped Pyjamas


The Boy in the Striped Pyjamas não se baseia em um acontecimento pouco relatado no cinema. Muito pelo contrário, a II Guerra Mundial tem sido retratada sob variadíssimos ângulos.

A novidade do filme (realizado por Mark Herman, em adaptação da obra homónima de John Boyne) é também a dos óculos com que esta página negra da História da Humanidade é observada: os de um pequeno miúdo de 8 anos, filho de um comandante do exército nazi que recebe a incumbência de dirigir um campo de concentração para judeus, na altura do início da “Solução Final”.

Uma amizade proibida surge entre o miúdo Bruno e uma outra criança da mesma idade, Shmuel, que cometeu o pecado capital de ter nascido judeu.

O olhar inocente da infância sob um conflito de proporções tão horrendas e a mutação a que se vai assistindo no afivelar de estereótipos impostos (a dado passo, dos judeus diz-se que “não são verdadeiras pessoas”), capaz de fazer da mentira um modo de salvamento perante situações de tensão, constituem o valor acrescentado da película.

Somos percorridos por uma sensação de estranheza, de quase incredulidade ante tão grande estupidez e desumanidade. Contudo, é essencial que não vejamos o extermínio de qualquer grupo de pessoas como um acontecimento histórico, mas como algo que se vai repetindo e que pode assumir proporções ainda maiores do que as que teve na II Grande Guerra.

E o facto de altos dignitários da Igreja Católica o negarem não ajuda em nada… E também parece que não vai bem com os fundamentos da fé que dizem professar…


quinta-feira, janeiro 29, 2009

Slumdog Millionaire


Tive o prazer de assistir ontem à antestreia de Slumdog Millionaire (2008), traduzido para cá por Quem Quer ser Bilionário? (vá-se lá saber porque não é «milionário»…; talvez seja pelos 20 milhões de rupias em jogo…), um aclamado filme nos Globos de Ouro e um dos candidatos aos Óscares para Melhor Filme e Melhor Realizador. Quanto a este último, depois de êxitos como Trainspotting e 28 Days Later, não é de estranhar que Danny Boyle tenha construído uma verdadeira obra-prima.

O enredo é relativamente simples: Jamal Malik é uma criança de um bairro pobre de Bombaim (mais tarde, Mumbai) que perde a sua mãe num ataque de uma horda selvagem ao local onde se encontravam todos, pelo simples facto de serem muçulmanos. A partir daí, à extrema pobreza material, junta-se o desnorte sentimental, ficando Jamal entregue ao seu irmão Salim, a quem se junta Latika, uma órfã que acede ao lugar de «terceira mosqueteira».
Relato fiel da degradação humana, do aproveitamento vil da pobreza, de uma Índia plena de contrastes, em que as crianças vivem e se alimentam do lixo, em que tudo é sujo e desordenado, o filme surpreende pelo paradoxo das cores alegres e vivas que ponteiam as trevas com a formidável esperança da luz. Esperança essa que se conjuga com um amor sem fronteiras de Jamal por Latika e que, em última análise, conduz à morte de Salim.

Os dois irmãos simbolizam o bem e o mal como respostas a um ambiente extremo de desfavor social, sendo um hino ao indeterminismo. Jamal não precisou de vencer um concurso milionário para sempre o ter sido. Por certo não em rupias, mas em sentimentos nobres, em noção do justo e do recto, em amor verdadeiro e descomprometido que, no fim, triunfa. Também aqui se denota um optimismo por vezes cândido e naïf do argumento (Simon Beaufoy) que ao espectador transmite um enorme sentido de paz.

Os olhos dos actores que representam Jamal (Ayush Khedekar) e Salim (Azharuddin Ismail) falam pela Índia e pelo mundo, no sentido de que não é tudo admissível neste planeta de horror globalizado. Os planos originais de Boyle ajudam a que vejamos a realidade sempre de uma outra perspectiva, mesmo que inclinada. As representações sinceras e despretensiosas de Dev Patel, Madhur Mittal e Freida Pinto mostram que Bollywood, neste domínio, tem coisas melhores que o original.

A banda sonora só tem um adjectivo: sublime!

Um sério candidato aos Óscares! É a minha aposta!