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domingo, outubro 29, 2006

Rádio no ar (2)


Para saborear os últimos pedacinhos de fim-de-semana, o "Planeta3" de Raquel Bulha providencia uma banda sonora muito interessante. Na Antena 3, aos domingos, entre as 22h as 23h, percorrem-se os caminhos da música do mundo. Somos transportados para paisagens distantes antes de regressar para o reinicio de mais uma semana de trabalho.

PS – Atenção à estreia do novo programa dos Gato Fedorento, na RTP 1, às 21h30, "Diz que é uma espécie de magazine"

quinta-feira, agosto 17, 2006

A rádio no ar

Pessoal... e Transmissível e João Lobo Antunes

No panorama radiofónico português, o programa «Pessoal... e Transmissível», de Carlos Vaz Marques, na TSF, é uma canção que nos embala ao fim do dia, de regresso a casa e antes do costumado noticiário televisivo das 20 h. Sempre com uma excelente qualidade ao nível da locução, dos textos e da investigação que o jornalista coloca em cada entrevista, é, sem dúvida, de escuta obrigatória e a lembrar os tempos em que as ondas da rádio não tinham rival.
Hoje tive a felicidade de ouvir, nesse espaço, a entrevista ao Prof. João Lobo Antunes. O neurocirurgião, reputado dentro e fora de portas, mandatário nacional na campanha para as presidenciais do actual Chefe de Estado, é ainda um escritor. «Sobre a mão e outros ensaios», editado pela Gradiva, foi o pontapé de saída para uma conversa de inteligência acima da média.
Lobo Antunes começa por comparar, numa imagem de rara beleza, a intervenção médico-cirúrgica a um ritual sagrado: há paramentação, purificação dos intervenientes e, acima de tudo, a entrega da vida do paciente nas mãos de um punhado de homens e mulheres num momento em que o doente está com a sua «humanidade ferida», como gosta de referir o médico. Contudo, o professor adverte para o perigo de deificação daqueles que julgam que ser clínico é desafiar permanentemente a lei natural da vida. E eis que surge a morte, tema recorrente nas conversas com João Lobo Antunes. O próprio confessa-se surpreso com a insistência com que lhe pedem que aborde a questão e, numa frase lapidar, resume: «a morte serena e em paz é cada vez mais rara, a morte de ter vivido», lembrando que a boa prática e ética clínicas implicam aceitar o limite da inconveniência da intervenção médica quando nada mais de humano se pode esperar. Cita um escritor inglês para ameaçar a morte – «não sejas vaidosa!» –, nega o estrelato a que simpaticamente o jornalista o quer votar e, de forma emotiva, lembra uma frase de um livro que está a ler e em que o epitáfio que a mulher do defunto escolheu seria também aquele que o neurocirurgião quereria para si mesmo: «Aqui jaz um homem que fez algumas coisas que era preciso fazer e disse algumas coisas que era preciso dizer». Uma espécie de «my way» de Sinatra.
Não esconde as suas convicções. Tem por divisas duas parábolas: a do bom pastor e a dos talentos, reconhecendo nesta última aquela que mais o identifica, porquanto traduz em toda a plenitude a vontade do serviço. Assume a sua «intervenção cívica» ao lado de Cavaco Silva sem peias e com uma elegância e um desprendimento de quem, como ele, não precisa da «politiquice» (que não a verdadeira ars de governo da polis).
E remata com duas ideias que me deixaram meditativo. A primeira: o pessimismo, até do exclusivo prisma clínico, é um mal que se concretiza no momento em que se acredite nele. A segunda: temos de aprender a «vendermo-nos caro» (tradução de uma expressão norte-americana que marcou o Prémio Pessoa nos mais de dez anos que exerceu em Nova Iorque), i. é, devemos saber bem o que valemos e apreciarmo-nos por isso. Num País onde tanto se fala de crisis – e ela está aí, em cada casa e em cada rua –, ondas radiofónicas com sabor a «oásis» (piadinha cavaquista…) vêm mesmo a calhar!
E assim se chega a casa de alma cheia!