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terça-feira, novembro 06, 2007

Regresso ao passado (take #6)


Como eu gostava desta pasta dentífrica nos dias em que ia jantar a casa da minha avó! Ainda guardo aquele sabor nas papilas gostativas de que o cérebro também é dotado.
Era um solene ritual de limpeza dentária e de atestado de maioridade («-Anda, já és um homenzinho! Podes bem lavar os dentes sozinho! Não te esqueças da pasta Couto!», dizia-me a minha avó).
E não esqueci. E até descobri que ela ainda existe.
Tenho de a voltar a comprar, agora que estou na fase em que já não tenho dentes de leite (?!) e ainda estou antes da fase da placa...
Aqui fica o sítio da mítica pasta medicinal Couto!
Ah! E não tentem em casa o número do anúncio televisivo de então em que um moço segurava uma cadeira de madeira com os dentes e a fazia girar!
É bem capaz de ser meio-caminho andado para passar à tal fase da placa...

http://www.couto.pt/pastadentcouto.html

segunda-feira, agosto 13, 2007

A escada, o rissol e o recado


A escada continuava íngreme, em madeira, alcatifada a linóleo verde petróleo e ornada de pedaços de plástico preto. Estava ainda mais puída e brilhante que nunca. O corrimão do lado esquerdo ostentava buracos de bicho-da-madeira e o castanho desbotado do sol que vinha da rua reflectia-se no tecto de estuque branco trabalhado, pintalgado por colónias de líquenes, bactérias, humidades e fungos. Os desenhos mantinham-se em formas florais, com pedaços em falta. O mesmo pedinte andrajoso à entrada, agora com mais cabelos brancos e com uma máscara de pano a impedir o contacto do e com o mundo.
Subi duas escadas com o coração aos pulos. Recuei 15 anos e senti-me de novo o miúdo filho da costureira que vai no autocarro buscar um corte de tecido, uma amostra, um figurino italiano ou francês que acaba de chegar para as clientes supostamente ricas verem e escolherem o que a D. Fernanda iria realizar na perfeição, curvada sobre panos, dedais, linhas, torçais, botões, agulhas, máquina de coser, chuleado, ponteado, ziguezagueado, mangas a três quartos, vestidos de roda, “capelines”… Toda uma parafernália de instrumentos e de tecidos, tafetás, chumaços, fechos.
A placa lá continuava por cima da minha cabeça “Manuel Queiroz. Tecidos”. O mesmo “z” mantinha o toque de antigo; as letras madrepérola contra um fundo preto já a fugir para o cinzento, afastada da parede por uma corrente de dourado duvidoso.
O mesmo ranger das escadas continuava a dar para uma porta cor-de-vinho, que se abre e faz tremer ainda mais a escadaria. Para trás a Rua Formosa e o bulício das obras que agora, como antes, continuam (o Porto é, de facto, a cidade sempre em obras!).
Três divisões iguais, com ripas de madeira com falhas a fazer de chão. Os tecidos de mil cores entulhados e mal dobrados, a grande janela de vidros batidos pelo tempo a dar para o prédio vizinho a escassos metros.
Só a D. Laurinda já lá não estava. Mas estava a Juca! Dizia-me ela que grande eu estava, que diferente do miúdo que lá ia. Que agora já devia ser doutor… Não, sou o mesmo que cá vinha há mais de quinze anos! E a sua mãezinha? Ainda trabalha? Cada vez com menos gente, não é, que a gente nova gosta mais de ir ao pronto-a-vestir… É verdade, mas mantêm-se umas resistentes… Ainda lá vai aquela senhora a quem tiraram um peitinho, salvo seja? Sim, vai. Coitadinha, tão boa senhora…
Lá cortou o tecido, lá fez o papelinho para levar à mãezinha, a atençãozinha por ser cliente de há tantos anos. O beijinho da praxe – sim, parecia que o tempo não passara – e voltei costas àquele lugar do Porto perdido, da minha infância. Ao descer as escadas e colocar o pé na rua acabei por me enganar. O cheiro do rissol que era a paga pelo recado que fazia tinha-me levado para a antiga paragem no Bolhão, para apanhar os antigos 9, 29 ou 59. Qualquer um deles dava. Mas não. Nem o autocarro ali passava mais, nem a confeitaria existia. É agora uma grande loja de roupa, daquelas incaracterísticas e que vemos em qualquer cidade do Mundo.
Aquele pequeno mundo da senha do autocarro, do rissol quentinho comido com sabor a óleo requentado, o chegar a casa com a sensação de missão cumprida. O afago que dizia “A D. Laurinda diz que és muito educadinho!”… Como foi bom voltar a ser pequenino!

quinta-feira, maio 17, 2007

Regresso ao passado (take # 5)


Por ter ouvido ontem na rádio a música desta já mítica série, lembrei-me de como gostava de ver o "He Man" ("Ele Homem" parece mesmo mal...), a "Shera", o "Skeletor" e demais gangada. A eterna luta do bem contra o mal, um pequeno felino que se transformava no automóvel mais avançado da altura, umas cores um bocado pindéricas e um herói com calções apertadinhos, estilo amaricado... Assim era esta série de inícios dos idos de 80. Quem se lembra dela?

domingo, janeiro 28, 2007

Regresso ao passado (take #4)

"Feno de Portugal, Aroma da Natureza"!

Lembram-se da música que acompanhava a publicidade a este sabonete aí pela década de 80? Não sei se ainda se fabricam, mas o certo é que foram destronados por outras marcas. É pena. Feno era de Portugal e tinha um cheirinho óptimo!
Tenho uma excelente memória olfactiva e parece que estou a sentir o odor com que ficava quando, em miúdo, me lavava com Feno. E como era o sabonete que os adultos usavam, tinha a sensação de que já estava a ficar um homenzinho! À sua maneira, para além de contribuir para que não andasse para aí a perturbar o equilíbrio olfactivo dos meus concidadãos, Feno foi uma espécie de instrumento que auxiliava a entrada no estranho mundo dos adultos.
Onde quer que estejas, obrigado Feno! Podes estar orgulhoso porque continuo a tomar banho!

domingo, outubro 08, 2006

Regresso ao passado (take #3)


Um preto de cabeleira loira ou um branco de carapinha… Saudades do restaurador Olex. Não o usava eu, mas era presença constante na barbearia do meu avô. Ele próprio o utilizava e a minha avó queixava-se das almofadas pintadas de preto. O meu avô, imperturbável, dizia-me: -Disto é que os clientes gostam! Vai à tua avó que traga mais um frasco de Olex que este está a acabar.
E lá trazia. Pelo meio vinham mais umas toalhas acabadas de secar nas traseiras, nas cordas do quintal, por entre hortaliça que era o regalo e o domínio absoluto da minha avó Aurora.
Produtos como este não deviam acabar. Também eu, um dia, dele precisarei e já por cá não anda quem mo aplique ou quem mo chegue, com um afago no cabelo.

terça-feira, julho 25, 2006

Regresso ao passado (take #2)


De sua graça José Carlos Souto de Sousa Veloso, este engenheiro agrónomo que, de 1959 a 1990, começou por apresentar, depois produzir, montar e realizar o mítico TV Rural é mais uma das personagens que povoa a infância da malta da minha criação. Lembro-me do «Bom dia, senhores telespectadores! Sejam muito bem-vindos a mais um programa» que ecoava na velha sala da minha avó, vindo de um aparelho de televisão a preto e branco, alimentado por um enorme transformador que fazia pendant com o dito aparelho em quinta ou sexta mão. Era o indício que faltava para o costumado «cozido à portuguesa» domingueiro que se seguia. Por entre veredas, campos de cultivo, cooperativas e montes alentejanos, o Eng.º Sousa Veloso, de brilhantina no cabelo, passeava a sua figura garbosa de galã de cinema, durante cerca de 1500 edições, com a mesma simplicidade com que entrevistava o jornaleiro, a respectiva mulher ou o Ministro. À sua maneira, foi uma espécie de visionário: hoje seria uma figura do jet set, presença constante em eventos sociais. Já estou a imaginar: Sousa Veloso ameaça deixar Cinha se esta não o acompanhar à Feira da Golegã (Vip, Caras, Flash, Lux)...
Bem, o cozido está na mesa e o puto já tem fome depois de ter visto as técnicas da poda, os sulfatos, as nabiças, tomates, gado e cenouras. Tudo servido no prato de domingo.
Como diria o Eng.º: srs. telespectadores, despeço-me com amizade, até ao próximo programa!

quinta-feira, julho 06, 2006

Regresso ao passado (take #1)




Quem não se lembra do "Cinema de Animação" do Vasco Granja, aos sábados de manhã, sempre com o seu inconfundível "olá, amiguinhos!" e os "filmes animados" dos antigos países satélites da ex-URSS? Dava gosto ouvi-lo falar de um Mistovitch qualquer que esboçara uns traços que me pareciam muito estranhos, muito rectilíneos, enquanto olhava a TV a preto e branco como que hipnotizado.
E as típicas entrevistas que VG fazia? Tipo:

Vasco Granja - "então pequenino, como te chamas?"
Miúdo - dizia o nome
VG - "e que idade tens?"
M - dizia a idade
VG - "Então e gostaste dos desenhos animados que mostrámos agora do polaco Miroslav Kusturica?"
M - acena com a cabeça dizendo que sim de forma pouco convincente
VG - "então e gostas dos desenhos animados do búlgaro Pavlov Meszaros?"
M - fica silencioso, com uma expressão entre o embaraçado e o atordoado
VG - "então e do romeno Miklosj Dragulescu?"
M - continua silencioso, ainda com uma expressão de profundo embaraço, e começa a ficar vermelho...
VG - "e então pequenino, diz lá de que desenhos animados gostas mais?"
M - começava a desbobinar - "do Pernalonga, do Dáfidâque, do bipebipe..."
VG - "ah pois, esses hoje não temos para mostrar, por isso vamos antes ver uns lindos desenhos animados do soviético "Dmitryi Kurchatov..."

Chamem-me velho ou nostálgico, mas já não se fazem "filmes animados" como naquela altura nem apresentadores de programas para crianças tão improváveis e autênticos como Vasco Granja!