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domingo, maio 27, 2007

Post scriptum - "Carta ao Pai", Franz Kafka


Franz Kafka, Carta ao Pai, Almargem do Bispo: Coisas de Ler, 2007.
Preço: € 9.50

Escrita em Novembro de 1919, Carta ao Pai é um manifesto edipiano em que Kafka esquizofrénico (1883-1924) encontra algo ou alguém em quem depositar toda a sua fúria: diante de ti perdi toda a confiança em mim; em contrapartida, recebi uma culpabilidade infinita (p. 58). O ódio ao progenitor - na verdade, mais admiração secreta e profunda inveja - é o escape essencial para Kafka-homem viver consigo próprio. De outro modo, não projectando para fora de si a culpa pelos males que o assolam e que nunca o deixaram ter a paz de espírito que, contudo, porventura, não o teria transformado no escritor que foi, Kafka morreria acto contínuo à primeva percepção de consciência.
Hermann é apresentado como um pai ditador, desprezando tudo o que o filho faz, não faz, diz ou não diz, as suas amizades, os seus gostos, o projecto de futuro que traça, o abandonar do negócio familiar para que estaria predestinado. O filho retrata-se ainda como o fraco que o pai desejava fora forte, o apoio em relação a quezílias familiares que nunca foi; ao invés, o pai vê no seu descendente um aliado para os devaneios das irmãs deste último.
O medo com que a carta inicia depressa alastra para o medo dos trabalhadores de Hermann em relação a um tirano empregador que atira caixas para o chão e apelida os seus colaboradores de inimigos pagos (p. 44). O próprio acto da escrita é apresentado como um paradoxo composto por uma pseudo-libertação e um hino à figura paterna (Kafka colocava os seus manuscritos na mesinha-de-cabeceira do pai e aguardava um comentário. Um dia ele chegou: Agora és livre. - p. 69), ao redor de um medo e repulsa pelo próprio corpo que, no limite, conduziria à hipocondria de Franz, à escolha (?) da profissão – apresentada como o que de mais perto existe do “não fazer nada” – e até mesmo da mulher com quem partilhar o leito.
O tom acre, azedo, ressabiado, não torna a leitura uma tarefa agradável, assim reforçando o modo como esta específica relação paterno-filial se desenrolaria. O estilo está, pois, ao serviço da mensagem.
Pena são, na edição da Coisas de Ler, da responsabilidade de Ana Nereu, os erros de sintaxe e de pontuação estranhamente avultados.
Termino com uma deliciosa referência de Franz Kafka ao Direito – curso que acabaria por tirar (1906) sem qualquer pingo de gosto –, bem demonstrativo da falta de interesse que esta ciência (?) pode ter: Portanto, estudei Direito. Isso significou que durante alguns meses antes dos exames, afectando consideravelmente os nervos, alimentei-me intelectualmente de letras de serradura que, além disso, tinham sido previamente mastigadas para mim por mil bocas.

domingo, março 18, 2007

Brecht, poética, governar e WC

À Rtp e à Rocky, pela oferta de Poemas de Brecht (Porto: Campo das Letras, 2000). A ambas e ao A. pela amizade e reducionismo de problema(s) que me proporcionaram em jantar olhando o Douro.

O Príncipe de Maquiavel é, como sabemos, o livro de cabeceira aconselhado a qualquer político.
A antologia de poemas de Bertolt Brecht deveria ser o livro que todos nós, administrados, deveríamos ler em suaves tragos ao acordar. Lê-lo ao deitar por certo retiraria a tranquilidade necessária para um sono repousado. Ao iniciar o dia, quando bem digerida, a palavra brechtiana seria mais perigosa que qualquer conspiração terrorista.
Não se ignora que Brecht era ideologicamente comprometido. Apesar de nunca se ter inscrito no Partido Comunista, o homem que nasceu alemão (1898) e morreu austríaco (1956) elabora hinos profundos dirigidos à classe operária («Quem construiu Tebas, a das sete portas?/Nos livros vem o nome dos reis./Mas foram os reis que transportaram as pedras?» – Perguntas de um operário letrado). Entre uma super-estrutura e uma infra-estrutura de medo, desânimo, escravatura e uma ironia contagiante, o Poeta ridiculariza Hitler e todos os ditadores. Não que nisto se encontre uma visão maniqueísta. Ela só o é aparentemente. Recorde-se que Brecht parece sentir aversão intrínseca ao arquétipo de "homem bom": «Escolhemos um bom paredão e vamos fuzilar-te com/Boas balas atiradas por bons fuzis e enterrar-te com/Uma boa pá debaixo da terra boa» (de que adianta ser bom?) – Algumas perguntas a um «homem bom». A conclusão de que os proletários são bons e os burgueses e latifundiários são maus é uma redutora e inconsequente visão da sua poética.
A ironia e o desdém em relação aos poderes instituídos são por demais evidentes. No poema Sente-se, cortante é o verso em que a idiotice é apresentado como o sumo alimento da classe: «Não há dinheiro que o pague.». Os políticos são satirizados ao ponto de a sua missão ser apresentada como o alfa e o ómega da ventura humana: «E atrever-se-ia a nascer o sol/Sem a autorização do Führer? [amiúde referido como «o pintor», conhecida que era a vocação de Hitler em dedicar-se a essa carreira. A pintura teria perdido incomensuravelmente menos que a Humanidade…]» (Dificuldade de governar). A esta figura, de jeito tão merecido apresentada como o anti-Cristo em Brecht, está reservado um mimo notável: «Se este homem insubstituível ressuscitasse ao oitavo dia [ao sétimo não poderia ser, marcando-se com a certeza da aritmética o que a História já deixava a descoberto]/Não acharia em todo o império uma vaga de porteiro» (A propósito da notícia da doença de um poderoso estadista).
De modo explícito e em tom acusatório puro: «Ou será que/Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira/São coisas que custam a aprender?» (idem). A resposta é dada e surge com uma simplicidade infantil comovente: «Mas não seria mais simples para o governo/Dissolver o povo/E eleger outro?» (A solução) – o uso de mecanismos democráticos invertidos em um jogo que desafia os traços estruturantes da ciência política.
O Autor fala de modo desabrido de um dos possíveis fins – do suicídio tem uma visão que diríamos romanceada, embora a pedagogia que assalta toda a sua obra logo o obrigue a asseverar-nos que: «De qualquer modo/Não se deve dar a impressão/De que se dava/Muita importância a si mesmo» (Epístola sobre o suicídio). Da relatividade da vida (e da morte) dá testemunho seguro ao ditar-nos o seu testamento (cerrado): «Gostaria que nela [pedra tumular] escrito fosse:/Ele deu sugestões: nós/Aceitámo-las./Uma tal inscrição/A todos honraria.» (Dispenso a pedra tumular).
Brecht não faz poemas para o leitor, mas sim com o leitor. Este último é convidado de honra na sua obra, é estrela da primeira companhia da guerra que tão de perto viveu e que o fez transformar-se em cidadão do Velho e do Novo Mundo. Em Sente-se, Brecht apelida o leitor de «idiota», confrontando-o com a sua pequenez («Você é um idiota./Está realmente a escutar-me?/Não há pois dúvida alguma de que me ouve com clareza e distinção?») e com a crueza do auto-conhecimento («E no entanto não é desinteressante para você saber o que você é/E no entanto é uma desvantagem para você não saber o que toda a gente sabe»).
Ele é capaz do escatológico, com uma inesperada ode heróica ao WC (O canto de Orge): «Nesse lugar é permitida a cada um a alegria/De ter por cima a estrela e, por baixo, a porcaria.»; «Lugar de humildade: nele saberás bem/Que não passas de um homem que nada retém».
Adverte-nos para a necessidade de estarmos sempre abertos ao que é novo, a não nos quedarmos pelo imobilismo, até porque a mudança está inscrita na natureza das coisas: «Quem ainda está vivo nunca diga nunca./O que é seguro não é seguro.» (Elogio da dialéctica). Contudo, da modernidade tem o Autor uma visão desconfiada, sancionando a concepção bíblica de que nada de novo existe sob o sol: «A carne nova come-se com velhos garfos. (…) As novas antenas continuaram a difundir as velhas asneiras. [boutarde à comunicação social?]/A sabedoria continuou a passar de boca em boca.» [um apelo ao historicismo desligado do Volkgeist de que o nacional-socialismo se serviu como sustentáculo de hermenêutica jurídica?]
A visão descomprometidamente comprometida de Brecht fá-lo retornar aos assomos bíblicos: «Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.», revelando o génio da ascese, do sacrifício, do estóico suportar da ignominia: «Pela glória, quem não faria grandes coisas/Mas quem/As faz pelo olvido?» (Elogio do trabalho clandestino).
Dono de uma inigualável riqueza interior, da dor tem a preclara visão de caminho para a redenção e para a mudança: «Para atingir o que é grande há que passar por grandes transformações./E as pequenas transformações são inimigas das grandes transformações./Tenho inimigos. Logo devo ser célebre» (Citação). Cortes abruptos de pensamento são constantes na poética brechtiana.
A inteligência aguda e o modo inquietante como vê de um ângulo nunca visto as realidades estão bem patentes em Da Violência: «Do rio que tudo arrasta se diz que é violento./Mas ninguém diz violentas/As margens que o comprimem.». Ainda mais: «O que tem fome e te rouba/O último pedaço de pão chama-lo teu inimigo/Mas não saltas ao pescoço/Do teu ladrão que nunca teve fome» (Quem é o teu inimigo). Ainda: «Ah, nem todo o homem que regressa a sua casa é um vencedor/Mas não há vencedor que não regresse a sua casa.» (Este homem sabia elaborar um plano, e caiu…). Palavras incómodas contra o comodismo de encarar a realidade segundo grelhas de leitura pré-dadas e que se recebem de forma acrítica. Escrita revolucionária, dado que carregar no sangue o espírito revolucionário é ver o que mais ninguém vê; é sujeitar o mundo a uma leitura alumiada por uma perspectiva de jogo de luzes impassível de apreensão instantânea.
Devemos terminar. Brecht, neste exacto momento, asseveraria, com um olhar que imaginamos matreiro, sagaz e estupidamente humano: «Criança educada deve saber estar calada.» (O que uma criança tem de gramar).

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Post scriptum

Thomas Mann. Mário e o Mágico (Mario und der Zauberer).
Original de 1930.
Publicações D. Quixote, 1988, 4,99 €.

A escrita bebe-se de um trago, ante a fluência e limpidez das palavras e o carácter subliminar da mensagem. No conto Mário e o Mágico tudo está eivado de um segundo sentido que convida o leitor a emaranhar-se na História e a perceber pontos de contacto com as maiores atrocidades cometidas na II Grande Guerra. Não tivesse sido o livro publicado em 1930 e tendo como pano de fundo a Itália fascista («a praia fervilhava de crianças patriotas – um fenómeno contranatura e arrasador»).
Pelas lentes de uma família austríaca que passa férias, em Setembro, numa estância balnear italiana – Torre de Venere –, sentimo-nos incomodados com os olhares reprovadores e sobranceiros que, mesmo em um nível social alto, nos são lançados por quem nos vê como extranei.
Pelo meio, verificações filosóficas: «é sabido que o mundo procura a tranquilidade e afugenta-a ao lançar-se sobre ela numa ânsia ridícula»; «um certo poeta disse que a inércia é que nos amarra a situações penosas» e ditadores de 12 anos: «esse rapaz (…) era um dos pilares de uma mentalidade colectiva que, embora dificilmente palpável, pairava no ar» (porventura já em 1930 algumas crianças fossem tiranos aos quais os pais obedecem como se de um Rei Sol se tratasse).
Grande parte da obra descreve, com extraordinário realismo, a actuação de Cavaliere Cipolla, o mágico (forzatore, illusionista, prestidigitatore) que, perante o clamor e admiração da sala, vai realizando os seus truques, vai humilhando, reprovando comportamentos, hipnotizando. Tudo, por rectas contas, o que os totalitarismos põem em prática. O corcunda mágico é, afinal, a personificação de todos os ditadores do mundo: acena ao povo com um punhado de truques, de balões de ar efémeros e enganadores (como se vivessem) para, no final, conduzir as massas aos seus intentos.
Retém-se o passe de mágica com a Sra. Angioleri, dona da Pensão Eleonora onde a família está hospedada e que se ufana por ter contactos com a irmã de Il Duce. O sarcasmo que Mann dedica à relação matrimonial, ao transformar o marido da estalajadeira em um animal que choraminga pela mão que o alimenta, ridiculariza, em geral, os contactos humanos e, do mesmo passo, mostra-os com toda a sua crueza: relações entre seres incompletos e inseguros.
O modo como Thomas Mann termina o enredo sublima o Homem, é o momento catártico que em surdina se ia desejando com o ardor da Liberdade. Mais ainda porque esse desagrilhoamento dá-se por intermédio de Mário, um giovanotto, pobre empregado de mesa do café Esquisito, de olhar doce e de sorriso fácil, enfim confrontado com o conhecimento público do seu amor julgado secreto: Silvestra. É por desonra que o mágico é morto; é por via da emoção que a Humanidade é salva.
Mann homenageia os verdadeiros heróis: os que a História teima em condenar à penumbra, ostentando, nos anais, à frente de um acontecimento, aquele ou aqueles que detêm o poder. O poder que faz claudicar o poder anterior. Sempre assim foi e sempre assim será.
Ao fim e ao cabo, Thomas Mann tudo resume – pela voz de Cipolla – à vetusta questão do (in)determinismo: «A liberdade existe e também a vontade existe; porém, o livre arbítrio não existe, pois uma vontade que tenha por alvo a sua própria liberdade embaterá no vácuo». Interpela-nos ainda com a afirmação apodíctica: «ordenar e obedecer constituem juntas apenas um princípio, uma unidade indissolúvel; quem sabe obedecer sabe também mandar e vice-versa; um pensamento está implícito no outro, assim como o povo e o seu líder estão implícitos um no outro». Dá que pensar!

PS ao post scriptum: agradeço ao amigo Joe o comodato do livro! Como a imagem do conto não estava disponível no sítio da editora, optei por colocar a capa do original. Claro: li em Português; o meu Alemão é muitíssimo arcaico...

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Post scriptum

Luis Sepúlveda.
O Poder dos Sonhos, El Poder de los Sueños.

Edições Asa, 2006, 9 €.

São 120 páginas de puro fel, de opróbrio, de ressentimento, de um “anti-americanismo” primário e bacoco. É certo que, de quando em vez, a memória de um companheiro de luta ou o idealismo político de uma sociedade sem classes perpassam o discurso e irrompem a mancha opaca de seguidismo ideológico militante.
Depois de ter lido com agrado o “Ninguém Escreve ao Coronel”, Luís Sepúlveda impressionou-me pela negativa.
São bem conhecidas as posições políticas de esquerda marxista-leninista do escritor e as suas “bicadas” ao “imperialismo”, a sua amizade com Chávez, o ódio a W. Bush e a sua idolatria por Allende, El Camarada Presidente.
Tendo integrado o “governo dos 100 dias”, esta recolha de textos publicados em jornais e alocuções proferidas em acontecimentos de índole cultural ou de pura intervenção política, em nada faz justiça ao título El Poder de los Sueños. Recuso-me a acreditar que eles – os sonhos – possam ser vividos quando se tem uma mundividência maniqueísta entre eles – Rice, Cheney, Rumsfedl (à época), Powell (também à época e descrito como um negro envergonhado da sua origem rácica: «um negro que chegou a empalidecer», p. 56) – e nós, os puristas, os ídolos, os que lutam e acreditam.
Apontar o outro como demoníaco é sinónimo de inseguranças por resolver (irresolúveis?) e de ocultas admirações.
A discursividade de Sepúlveda, baseada em uma armadura conceptual de uma certa esquerda decrépita, vai tombando ao longo do livro. Fica a nu uma perspectiva fechada à globalização e incapaz de perceber que o caminho não passa por acabar com este fenómeno mas, ao invés, aproveitar ao máximo as suas potencialidades e fazer dessa universitas algo que, num puro espírito tributário de valores herdados da Revolução Francesa, transforme monstros arcaicos em clusters – como agora se diz – ou, em “Português emigrantês”, em “desémerdés” criativos. Bem vistas as coisas, Sepúlveda está no Restelo como o Velho, ululando contra a Gesta das Descobertas.
Porque não quero ser equívoco, para o registo conste que não sou de todo fã do actual Presidente dos EUA. Talvez por isso recuso-me a entrar no jogo de reverter nessa figura texana o seu “axis of evil”. É tudo uma questão de estratégia. Não tenho a veleidade de que a minha esteja correcta, mas não é com inconsequentes impropérios de tudo o que é poder temporal que “o sonho pula e avança”. Mesmo quando se tem – como Sepúlveda e tantos chilenos – razões de queixa de ditadores como Pinochet.
Não se trata de branquear a História – essa deve ser feita com a isenção só possível com o imprescindível afastamento temporal dos factos e, como se lê nos manuais, os assassinos devem ser punidos –; pelo contrário, trata-se de passar pela História com a certeza de que ela ocorreu, que com ela se aprendeu e que o caminho é adelante. E não preso ao passado.
Para um escritor, por definição perito em sonhar e nos fazer sonhar, exigir menos que isto é pouco. Mesmo poucochinho.

domingo, novembro 26, 2006

Post scriptum


José Saramago, “As Pequenas Memórias”.
Ed. Caminho, 2006, € 8.50.

“As Pequenas Memórias” de Saramago assumem-se, despretensiosamente, como um pequeno livro. Não tanto pelo volume de páginas, mas pelo interesse da história que encerra.
Falar da infância é sempre um momento de reencontro com o passado, de religar o que ficou perdido nas brumas do tempo e de exercitar a memória qual músculo que com o tempo vai perdendo a tonicidade de outrora. Nesta perspectiva, o livro cumpre os seus objectivos, por intermédio de uma escrita escorreita e bem pontuada (afinal Saramago sabe pontuar. Mais dificuldade nos habituais parágrafos longos).
É o autor que aos 84 anos decidiu, de algum modo, render-se à lógica capitalista que tanto diz repugnar. A época do ano em que o livro é lançado, algum espectáculo mediático junto da terra que o viu nascer e uma tradução quase simultânea na terra que o adoptou como filho, demonstram que o nosso Nobel lida muito melhor com as coisas do seu tempo (tê-lo-á sempre feito?).
Há alguns relatos que nos embevecem, como aquele em que a criança Saramago recebe o apelido em jeito de alcunha contra a vontade do pai, o da queda em tropelias de criança que redundam em um joelho esfolado. Surpreendem-se assomos de ternura e austeridade na relação com a avó Josefa e de cumplicidade escondida com o avô de feição militarista.
Ficamos a conhecer melhor o inner circle do Autor, bem como algumas causas de interesses demonstrados em obras como “Levantados do Chão”, “Manual de Pintura e Caligrafia”, “Todos os Nomes” e “Ensaio sobre a Cegueira”.
Talvez a “pequenez” – aqui empregue a palavra no sentido mais próximo da sua origem etimológica – tenha contribuído para uma leitura algo sincopada de “As Pequenas Histórias” que, a dado passo, se mostra algo fastidiosa pela mera adição de episódios comuns e em relação aos quais esperava uma magia particular na altura de os transpor para o papel. Contudo, bem vistas as coisas, Saramago assume-se como mais um dos filhos de Azinhaga do Ribatejo. Pode ser sinal de humildade, mas a um escritor como este exigia-se o esforço suplementar de retroagir através de um óculo de cores multímodas. Assim não foi. É pena.

sábado, outubro 28, 2006

Post Scriptum

Deparando-me com o já lido "Viver para contá-la", no cantinho de uma mesa, em posição periclitante e a pedir para ser arrumado na estante à beira dos seus semelhantes, decidi retomar aqui os fios das impressões de leituras, que deixei uns posts atrás.
A auto-Biografia de Gabriel García Márquez abre com um mote lapidar que me convenceu, de imediato, à leitura: "A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda e como a recorda para contá-la.". Rendi-me à verdade da afirmação – quanto do que lembramos não é fruto da nossa imaginação ao rememorar o pretérito! – e acompanhei o escritor colombiano no desfiar das memórias da primeira metade da sua vida.
O livro principia com uma viagem de Barranquilla para Arataca, de Gabito e sua mãe, com o fito de concluir o negócio da venda da casa da família, mas a história começa muito tempo antes – antes de Gabo nascer, antes de seus pais se conhecerem, antes da revoada da companhia bananeira – em Arataca: "um lugar bom para viver, onde toda a gente se conhecia, na margem de um rio de águas transparentes que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos". (Op. Cit., p. 11). E reconheci logo Macondo de "Cem anos de Solidão" que o autor descreve exactamente com as mesmas palavras (Segunda frase do livro, na minha edição das Publicações Europa-America na p. 9), numa altura em que "o mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome, e para mencioná-las era preciso apontar com o dedo" (idem).
Ora, García Márquez, nesta viagem ao princípio do seu mundo, e que o marcaria indelevelmente, recolhe nostalgias "na casa fatasmal" que, aliás, acaba por não ser vendida ("A casa não se vende – disse [ a mãe de Gabo] – Façamos de conta que aqui nascemos e aqui morremos todos" – "Viver para contá-la", p. 44). Recua e começa a apontar fragmentos da sua (pré-)história . Descobrem-se as sementes de "Cem anos de Solidão" - na família do prémio Nobel de 1982 encontramos a família dos Buendía, em alguns episódios revela-se a inspiração do enredo do famoso livro (Até a personagem Rebeca que, na leitura de "Cem anos de Solidão", tanto me surpreendera por viver sem comer, alimentando-se de terra húmida do jardim e pedaços de cal das paredes, tem o seu original em Margot!)
Percebemos que a vida repleta de percalços, preenchida de aventuras foi um rico manancial para a obra do escritor. Quase que a cada retalho da sua vida está associado um poema, um conto, um romance (fiquei, por isso, com vontade de alargar o meu reduzido conhecimento da obra do escritor).
Esta autobiografia cumpre mais do que a sua (aparente) primacial função - como, aliás, todas as (auto)biografias de pessoas de valor. A leitura de "Viver para contá-la" proporciona uma tripla descoberta: a da vida de Gabo, a da obra de García Márquez, e a da história do início do século XX da Colômbia. Acompanhamos de perto e pela lente comprometida do escritor vários momentos da vida política conturbada do seu país.
Estava no local certo às horas sobressaltadas, pois encontrava-se em Bogotá para cursar Direito. Aí permaneceu, trocando, no entanto, a Faculdade (com o curso apenas iniciado) por uma vida atribulada nas efervescentes redacções de jornais. É interessante perceber as dificuldades que sentiu para seguir este percurso, sobretudo por ter de defraudar as expectativas dos pais que lhe desejavam um diploma académico e suspeitavam de uma minguada existência dedicada à escrita jornalística e literária. Curiosa é também a sua atribulada vida escolar já que traduz a assunção como verdadeira da afirmação de Bernard Shaw "Desde muito pequeno tive de interromper a minha educação para ir à escola".
O tom jubiloso com que desfia as memórias, o despudor com que revela as fraquezas (os erros ortográficos que diz cometer com grande frequência), a variedade e jocosidade dos episódios que viveu (por exemplo, aquele em que, perante a necessidade de eliminar de um livro seu as palavras "masturbação" e "presevativo", sob pena de a publicação ser rejeitada, ele negoceia com os censores a eliminação de uma só, deixando-lhes a escolha da suprimida; ou o episódio dos dois amigos que se envolvem num duelo, em que ambos ficam feridos, e acabam por morrer de pena um pelo outro), a multiplicidade de pessoas com que conviveu e nos apresenta (muitas delas com um papel de relevo na vida pública da Colômbia), ... tudo torna mais aprazível a leitura das quase 600 páginas de parte da vida do escritor colombiano. No fim, apetece concluir que se Márquez, como diz, viveu para contar, agora conta para (re)viver!

segunda-feira, setembro 11, 2006

Post Scriptum

Da acção ficcional de Fortaleza Digital, passei à realidade jornalística de "À Procura de Sana", última obra de Richard Zimler, autor que muito aprecio. Conheci-o através da história da família judia Zarco numa Lisboa quinhentista que assiste ao início da perseguição dos judeus na sequência do édito de D. Manuel I, em "O último cabalista de Lisboa". Acompanhei-o a ele e aos descendentes daquela família num Porto liberal de oitocentos, e numa América no dealbar da sua história independente e ainda dominada pela escravatura, em "Meia-noite ou O princípio do mundo". Reencontrei-o em "Goa ou o Guardião da Aurora" sobre o domínio português por terras do Oriente. Tudo romances históricos com uma forte vertente policial em que o suspense é um dos principais ingredientes.
Agora o registo é diferente. "Á procura de Sana" é um relato jornalístico empolgante de acontecimentos vividos pelo autor. Por isso, ele é o narrador e a história é escrita na primeira pessoa.
Tudo começa na Austrália, a 9 de Fevereiro de 2000, onde Richard Zimler se deslocara para participar num encontro de escritores, em Perth. No hotel onde se instala conhece uma mulher cativante, bailarina de profissão, que lhe pede que autografe um exemplar de "O último cabalista de Lisboa", livro que, nas suas palavras, muito a marcara. Satisfaz o pedido, dedicando-o a Helena, nome com que se apresentara.
No dia seguinte, a assim conhecida Helena põe fim à vida, atirando-se da janela do quarto que ocupava no hotel. O facto, de si trágico, assume uma coloração mais assombrosa, dado que Zimler se encontrava na esplanada a poucos metros do local onde o corpo aterra sem vida.
Um ano mais tarde, numa livraria parisiense onde apresentava um novo livro, o episódio que ainda não digerira inteiramente é reanimado, quando, inesperadamente, se apercebe que uma mulher que dele se abeira tem a versão assinada em Perth. Mais assombrado fica quando se apercebe que esta, sim, era a verdadeira Helena. Sabe, então, que o fugaz contacto na Austrália se dera com Sana.
A partir daqui (e nesta parte consomem-se apenas 17 páginas), o livro conta a investigação que o autor/jornalista empreendeu para conhecer a história de Sana. Esta busca leva-o à Haifa dos anos 50, em que árabes e judeus viviam em paz lado a lado, às posteriores alterações produzidas naquele canto do mundo e aos mais recentes episódios do conflito israelo-árabe. Condu-lo, por fim, a conhecer pormenores arrepiantes da preparação dos atentados de 11 de Setembro e de que deu o devido conhecimento às entidades policiais competentes.
Curioso é que tenha eu lido o livro, em Agosto, numa altura em que o conflito entre Israel e o Líbano estava incandescente e que sobre ele escreva neste dia (era o tema que tinha escolhido para o post seguinte sem me aperceber do significado do dia de hoje). Sem pretender desvendar muito, quero dizer que a foto não retrata as torres gémeas de Nova Iorque, mas duas torres em Bolonha: a Torre degli Asinelli (a mais alta) e a Torre Garisenda, símbolos daquela cidade italiana. E a contemplação dessas torres muito teve a ver com o fatídico acontecimento vivido em Manhattan. E mais não digo... a leitura entusiasmante do livro revelará o resto.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Post Scriptum


Há mais de uma década que nas minhas férias estivais, não dispenso uma estadia num ponto específico da costa oriental espanhola, onde o sol nasce e se põe no mar. Um verdadeiro pedacinho de paraíso na terra. Aí me encho de paz e energia.
No remanso deste meu refúgio, aproveito para pôr a leitura em dia, esquecendo a rígida disciplina que autoinflijo, ao longo do ano, para não me perder no meu vício: os livros. Lanço-me, então, à pilha de espécimes variados que vou acumulando na mesinha de cabeceira. Géneros dispares, estilos dissemelhantes, autores diversos.
Neste ano, comecei por um livro levezinho, não pelo seu peso (tem 440 páginas, o que já é considerável), mas pela despojamento da sua substância. Trata-se do recém-publicado em Portugal, Fortaleza Digital de Dan Brown. (O livro datado de 1998 apareceu agora em terras lusas arrastado pelo fenómeno Código Da Vinci do mesmo autor).
Correspondeu às expectativas que formara. Não as superou, nem defraudou. À semelhança de "Anjos e Demónios", "A Conspiração" e "O Código da Vinci" é um livro de acção bem construído. Tal como neles, a história aparece temporalmente concentrada (tudo se passa num fim-de-semana – e tudo é mesmo muita coisa), numa espiral vertiginosa de acontecimentos com pormenores mirabolantes e de reduzida (para não dizer nula) verosimilhança.
Parte das virtualidades crescentes que os avanços técnicos proporcionam e da concomitante diminuição de liberdade que acarretam. (Diz-nos, a páginas 155, o narrador: "Na era digital, a privacidade tornara-se uma coisa do passado; havia sempre registos de tudo e mais alguma coisa. As companhias telefónicas sabiam exactamente quem ligara para quem e durante quanto tempo tinham falado"). Aborda a questão do voyeurismo tecnológico e da vigilância permanente, lançando apenas uma pergunta "Quis custodiet ipsos custodes?"
Prende o leitor enquanto é lido – os fios da história vão aparecendo cruzados; as personagens ora actuam, ora cedem o protagonismo a outras, ficando suspensas um capitulo até serem de novo lançadas no turbilhão dos acontecimentos – mas depressa é esquecido. As suas marcas são indeléveis. Nada de perene acrescenta ao leitor.
É, por isso, um bom livro para ler em início de férias e de um só golpe (basta um dia e com intervalos para não estupidificar). Não damos trato ao pensamento; oferecemos (algum) descanso ao raciocínio; concedemos férias ao intelecto. Preparamos os sentidos para novas aventuras, suspirando, já, por outras leituras.
PS - Um agradecimento ao NL que gentilmente me ofereceu o livro.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Post scriptum


Miguel de Unamuno, Um Homem, Europa-América, Mem Martins: 2003.

Miguel de Unamuno é, indiscutivelmente, um escritor de craveira no panorama literário espanhol do virar do séc. XIX e das primeiras décadas do século transacto. Reitor da Universidade de Salamanca, a sua obra mais aclamada – Vida de D. Quixote e Sancho (1905) – é um ensaio profundo sobre a obra-prima de Cervantes.
Em férias, tive a ocasião de ler um título, na verdade um conto, menos conhecido mas que, nem por isso, desmerece o autor. Um Homem (Un Hombre, no original), 1916, centra-se no paradoxo da beleza física e das venturas e desventuras a ela associadas. Filha de um homem praticamente arruinado, com negócios menos claros, a inigualável beleza da filha é o tesouro mais precioso que possui e, segundo crê, o salvo-conduto perfeito para a salvação financeira e social.
Contudo, Júlia Yañez sente-se uma mercadoria posta à venda e, quase desdenhando a beleza, tenta fugir de casa com rapazes que nela vêem um troféu e motivo de ufano. Surge, porém, um homem muito rico, desconhecido daquelas paragens, sem berço ou família conhecida, mas com uma força que se diria de um outro mundo, pronto a fazer seu tudo aquilo que deseja – Alexandre Gómez. Júlia não escapa a esta lógica e o fado da mulher-objecto concretiza-se.
Em vão procura ela perscrutar da existência de um verdadeiro amor por parte de Alexandre, para o que enceta um triângulo amoroso com o conde de Bordaviella, nobre tosco, moralmente asqueroso e que também nela vê a tábua de salvação de uma casta arruinada. Contudo, os ciúmes não chegam. Gómez diz ser «um grande homem», insensível a essas coisas e trata o conde com um paternalismo atroz, como um animal de companhia insignificante. Depois de a internar, Alexandre revela, em momento de doença grave de Júlia todo o seu amor. O relato é pungente, num homem de feições rudes e de coração duro que, após a morte da amada, segue-a para a eternidade.
Narrativa realista quanto à equivocidade da beleza, Um Homem formula o convite para que vejamos para além das aparências, num jogo interessante de sentimentos e sua demonstração. Impressiona a necessidade de Júlia, reflexo de todos nós, se sentir amada e que esse amor seja verbalizado.
Escrita simples, quase um espelho límpido em que contemplamos topoi caros à sociedade moderna: o físico, o ciúme, o amor, a loucura, as tramas complexas em que amiúde nos perdemos para captar a atenção e, como é óbvio, a inquietação do que significa ser «um grande homem».
Apetece rematar com um trecho da lírica de Unamuno (El cuerpo canta): El cuerpo canta;/la sangre aúlla; /la tierra charla;/la mar murmura; /el cielo calla y el hombre escucha.

domingo, agosto 27, 2006

Post scriptum


Alves & Ca., Eça de Queirós, Lello & Irmãos Editores, Porto, s/d.

Ainda Eça. Alves & Ca., apresentado em nota prévia pelo filho do escritor (José Maria d’Eça de Queiroz, 1925), responsável pela sua publicação póstuma como um pequeno livro, escrito de um jacto e sem correcções, como era apanágio de Eça apresenta-se, na verdade, como uma obra menor na bibliografia queirosiana.
Não pelo tamanho, mas sim pelo carácter despretensioso que o autor lhe desejou imprimir. Retrato da sociedade burguesa lisboeta do séc. XIX, a trama centra-se na traição de Godofredo Alves, rico comerciante, pela sua mulher Lulu, apanhada em dia de aniversário de casamento a ser cingida pela cintura por Machado, sócio e protegé do marido ferido, que andara com este ao colo e o recebera de braços abertos – também devido à invulgar argúcia para o negócio que Machado demonstrava – na sociedade comercial e na vida privada.
A partir daqui, o mundo de pequenos prazeres – leitura ao final do dia com Lulu a costurar a seu lado, casa bem arrumada, uns leves arrebates carnais – da personagem principal desmorona-se e nasce o férreo desejo de vingança. Depois de algumas peripécias em que Eça descreve com nitidez o conceito de honra da época, um duelo de morte é posto de lado, Lulu vai com os pais para a Ericeira, a fim de «calar a maledicência». Godofredo tem de continuar, por imperativos de cavalheirismo que desconhece (guiado pelos amigos Carvalho e Medeiros), a ver Machado diariamente e a sua existência, como descreve o autor, torna-se «abominável».
Não mais aguentando tal padecimento, o marido traído aproveita um pequeno episódio para reconquistar Lulu. Godofredo volta a ser feliz e, depois de uma série de desgraças na vida de Machado, a amizade reata-se mais forte que nunca. A partir daí, a traição e o desejo de vingança que se lhe seguiu é caracterizado como uma «grande tolice», rematando o personagem central com um seco «que coisa prudente é a prudência».
Retrato de conceitos como a honra, as regras sociais, o choque entre uma nobreza arruinada mas ciosa de pergaminhos de conduta cavalheiresca são o húmus de que se nutre este romance. Tudo de forma muito leve, lida de um trago, a saber a pouco.
De facto, como em tudo, o bom só o é por comparação ao menos bom. Na literatura esta afirmação é a mais crua realidade: por mais genial que o escritor seja – e Eça é-o –, a centelha luminosa não resplandece a cada namoro que a pena tem com o papel.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Post scriptum


José Saramago, Don Giovanni ou O dissoluto absolvido, Lisboa: Caminho, 2005.
Preço: €6,30.
Ao longo de seis cenas, Saramago aceita o enorme desafio de revisitar uma das personagens mais glosadas da literatura universal, mote para a famosa ópera de Mozart, de 1787. Depois de monstros como Molière, Byron ou Dumas, para só citar alguns, o original de Tirso de Molina (El burlador de Sevilla), depois de retratado por Almeida Faria em O Conquistador, é visto através do olhar do Prémio Nobel, em edição enriquecida pela descrição inteligente da génese do libreto de Azio Corghi, da autoria de Graziella Seminara.
Como seria de esperar, esta incursão de Saramago pelo teatro passa pela alteração de perspectiva da personalidade de Don Giovanni. De condenado empedernido, o arrebatador de corações femininos passa a «dissoluto absolvido», ou seja, um pobre diabo que, ao fim de contas, não havia estado com as 2065 mulheres constantes do seu livro de registo que, uma vez trocado por um livro em branco, faz cair a máscara do aventureiro amoroso e revela um simples homem, perdido, porventura mesmo sexualmente impotente, trémulo e ao qual Zerlina dá a mão, quase ao cair do pano. O sedutor é seduzido pela verdade e revela toda a sua humanidade: «Zerlina: Não amo Masetto, amo-te a ti. / Don Giovanni: Tremem-me as mãos. Este não é Don Giovanni. / Zerlina: Este é Giovanni, simplesmente. Vem.»
Esta humanização da personagem é porventura, a par da relação maniqueísmo/determinismo, o que mais ressalta da adaptação de Saramago. Em toda a peça somos interrogados sobre a nossa visão a preto e branco do mundo: bem vs. mal, puro vs. impuro, e convidados a observar a realidade também com tons de cinzento («Don Giovanni: Andais pela vida a distribuir palavras que parecem jóias e afinal são enganos, colocais com fingido amor a mão sobre a cabeça das criancinhas. (…) A gente como vós cospe-a Deus da sua boca.» e, mais, à frente: «Como agora se costuma dizer, é uma questão de ponto de vista.»). Contudo, o autor cai num excessivo relativismo, propendendo para que nada é adquirido, assim abrindo caminho a que tudo seja admitido. Sem farisaísmos, não é esta uma perspectiva aceitável. Se mais não fora, temos aí a História a ensinar-nos que é o relativismo levado ao extremo o responsável pelos mais abomináveis actos e omissões do Homem. Terá de existir sempre, em cada sociedade, um núcleo mínimo de referências, sob pena de a desagregação se erigir em princípio absoluto.
O enredo é perpassado por momentos de humor (v. g., «Don Giovanni: Falhaste, comendador, pelos vistos não tens nenhuma influência no governo do inferno. Talvez por estares no paraíso, talvez não haja linhas de comunicação.») e a mulher é, no final, de certo modo diabolizada («Leporello: (…) Deus e Diabo estão de acordo em querer o que a mulher quer.»), atendendo à época histórica que Saramago retrata ou, quiçá, a uma fina critica da concepção cristã do mundo, tão ao gosto das alfinetadas do escritor.
É também esta uma peça de estereótipos: o criado Leporello – «Aos criados mandam-nos que sejamos descarados, medrosos e cobardes. Não podemos ser outra coisa.»; a condição humana: «É um homem [Don Giovanni], nasceu com defeitos de homem e gostou deles.»; o pai de D. Ana, o Comendador estátua que não pode mentir, em busca da honra perdida da filha enganada (ou enganadora?). Reflectindo sobre a (in)justiça dos homens, Saramago utiliza ditados populares e mesmo uma espécie de «sabedoria de igreja» que, aliás, percorre a peça num tom de ironia, atendendo às próprias convicções do autor.
Para quem deseja ser um verdadeiro Don Giovanni, o conselho fica pela boca do próprio, terminando com a secular impossibilidade lógica de compreender a psicologia feminina: «Uma mulher que se negou uma vez poderá não negar-se segunda, mas nunca o faria por iniciativa própria, esperaria até que a rodeassem de novas súplicas, de novas implorações, em suma, de novas manobras de sedução. Então, sim, içaria a bandeira branca que já tinha preparada.»