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Escrita em Novembro de 1919, Carta ao Pai é um manifesto edipiano
Hermann é apresentado como um pai ditador, desprezando tudo o que o filho faz, não faz, diz ou não diz, as suas amizades, os seus gostos, o projecto de futuro que traça, o abandonar do negócio familiar para que estaria predestinado. O filho retrata-se ainda como o fraco que o pai desejava fora forte, o apoio em relação a quezílias familiares que nunca foi; ao invés, o pai vê no seu descendente um aliado para os devaneios das irmãs deste último.
O medo com que a carta inicia depressa alastra para o medo dos trabalhadores de Hermann em relação a um tirano empregador que atira caixas para o chão e apelida os seus colaboradores de inimigos pagos (p. 44). O próprio acto da escrita é apresentado como um paradoxo composto por uma pseudo-libertação e um hino à figura paterna (Kafka colocava os seus manuscritos na mesinha-de-cabeceira do pai e aguardava um comentário. Um dia ele chegou: Agora és livre. - p. 69), ao redor de um med
o e repulsa pelo próprio corpo que, no limite, conduziria à hipocondria de Franz, à escolha (?) da profissão – apresentada como o que de mais perto existe do “não fazer nada” – e até mesmo da mulher com quem partilhar o leito.O tom acre, azedo, ressabiado, não torna a leitura uma tarefa agradável, assim reforçando o modo como esta específica relação paterno-filial se desenrolaria. O estilo está, pois, ao serviço da mensagem.
Pena são, na edição da Coisas de Ler, da responsabilidade de Ana Nereu, os erros de sintaxe e de pontuação estranhamente avultados.
Termino com uma deliciosa referência de Franz Kafka ao Direito – curso que acabaria por tirar (1906) sem qualquer pingo de gosto –, bem demonstrativo da falta de interesse que esta ciência (?) pode ter: Portanto, estudei Direito. Isso significou que durante alguns meses antes dos exames, afectando consideravelmente os nervos, alimentei-me intelectualmente de letras de serradura que, além disso, tinham sido previamente mastigadas para mim por mil bocas.












