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sábado, junho 21, 2008

Pintado de Fresco (VIII)

NOTA DA ADMINISTRAÇÃO

No já longínquo mês de Novembro de 2006, o Pintado de Fresco conhecia o seu último episódio, a que se seguiu uma espera de quase dois anos.
A administração do Tretas entendeu que esta novela dos tempos modernos, escrita a quatro mãos entre mim e a rtp, a que se juntará - esperam
os nós - a querida rocky, tinha de regressar, após sentirmos uma vaga de fundo a que não pudemos ficar indiferentes:)
Pedimos ao vastíssimo auditório que clique na etiqu
eta em baixo deste post e releia os episódios anteriores, de modo a perceber o que ora se publica.
Aguardamos a vossa crítica sincera e temos já de marcar um evento social pelo renascimento desta que é uma pérola da nossa literatura:)


Mário já não se sentia assim desde que, aos quinze anos, no colégio interno para onde os pais o haviam desterrado, conseguiu chegar à fala sobre “coisas de gente grande” com a escultural professora de Inglês, vinda de um mundo diferente, mais ousado, mais desligado de preconceitos e que, sem ele o imaginar, já antevia um futuro de “lady” com o Fontes Jr., por entre peles caríssimas e férias o ano inteiro.
Fora, na verdade, a sua primeira grande desilusão. Depois daqueles encontros furtivos e tórridos junto à praia da Memória (tão adequadamente colocado lhe parecia agora o nome…), adolescente/jovem/adulto, um misto de tudo e de nada, um turbilhão de emoções galgando comportas, sentira que Kate se limitava a ver nele um enorme e chorudo livro de cheques. Correra com ela, por entre berros assustadores em final de tarde de Outono, condizente o tempo meteorológico com o tempo do sentir que ameaçava despedaçar um corpo ainda tão jovem.
Tentava afastar esse pensamento à medida que, sobre as 13 h, se aproximava da entrada do Meridien.
“Deixa-te de infantilidades! É só uma mulher! Mais uma… Não. Mais uma não vale a pena… Já chegou a Madalena!”, parecia rezar em voz baixa. “Como se chama a menina da vespa?...”, o esforço era notório, pois a ressaca ainda não levantara ferros por completo. “Ah! Isso! Margarida!... Eh, pá… Mais um M…”
Já próximo das 13.30 h, o desânimo começou a vencer Mário. Olhava para todos os lados, à procura da rapariga cujo rosto tão claramente ficara gravado na sua retina e, quanto mais vislumbrava os transeuntes, mais se convencia que aquele encontro havia sido um tremendo erro.
“O que vai ela pensar de mim? Como pude ser capaz de deixar um bilhete com o meu número? Já não me conheço…”
As duas horas já haviam feito a sua entrada. O telemóvel permanecia mudo. Nem sinal de Margarida. Tivera o impulso de lhe ligar, mas entendia esta “provação” como o justo castigo pela sua inabilidade.

***

Perto do Mondego, alguém passeava com Alberto Caeiro debaixo do braço. “O guardador de rebanhos” para uma ovelha tresmalhada. A personagem caminhava de semblante pesado, porém sereno, como se transportasse o peso do mundo.
Uma carrinha com os dizeres “Associação Juntos Venceremos”, vestida de um bege muito sujo, já em final de vida, fez soar uma chiadeira aparentada de travões.
- Rodrigo, ‘bora pró Porto, carago!

quarta-feira, novembro 01, 2006

Pintado de fresco (VII)


Aviso: Este é o 7.º capítulo de uma novela da vida moderna escrita, para já, a 4 mãos (de futuro, esperamos que a 6) entre mim e a rtp.

O dia acordara chuvoso. O céu ameaçava com um cinzento típico da cidade granítica em que habitava.
Mário levantou-se com a cabeça a latejar do que se passara de véspera e com a sensação de que cometera um dos mais graves erros da sua vida. Depois de um banho retemperador, com a toalha branca em volta de um tronco que já conhecera maior firmeza muscular, assomou-se à janela do apartamento que comprara em resultado da promoção e que dava para as traseiras da Casa da Música. Enfim, pareceu-lhe que aquele pedaço de estrutura ia paulatinamente ganhando raízes naquela zona e se esforçava por condizer com o meio circundante.
Também ele tinha de fazer o mesmo. Aqueceu uma chávena de café feito de véspera e agarrou o telemóvel. Deu com uma chamada não atendida de véspera cujo número desconhecia. Apesar da hora madrugadora, devolveu a chamada.
-Sim, sou Mário Fontes e tinha no telemóvel uma chamada desse número…
-Quem? – respondeu uma voz ensonada – Não sei quem é…
-Sim, mas a senhora terá um nome, por certo… – atirava Mário com o mau-feitio com que por vezes acordava.
-Margarida… – respondera a medo, arrependendo-se de imediato de revelar a sua identidade e cobrindo-se ainda mais com o lençol.
-Margarida … – Mário percorria a sua agenda pessoal memorizada . – De uma vespa… azul?
-Ah, você é que deixou um bilhetinho… É preciso ter lata…
Mário precisava de tudo menos de uma descompostura. Preparado para ser bruto, saiu-lhe:
-Sim, desculpe. Foi um atrevimento da minha parte… Mas a noite passada foi mesmo difícil, como lhe dizia. Olhe, deixe-me melhorar a imagem que deixei…
Margarida levantou-se da cama e o seu coração entrou num ritmo descompassado que a enervava.
-Bem… Isto não é nada normal.
-Sim, tem razão… Mas acredite que a normalidade cansa. Posso convidá-la para um almoço. Há um sítio muito simpático em que podíamos conversar. Nesta aldeia que é o Porto, por certo ainda temos amigos ou interesses profissionais em comum…
-Hoje é difícil…
-Não entre por aí… Margarida, certo? Pelo que vi ontem já é suficientemente crescidinha para tentar esses jogos… - ripostou Mário com uma raiva incontrolada.
Sem contar, a interlocutora sentia-se, agora ela, descomposta pela professora da primária que tão más recordações lhe trazia.
-Sim, Mário, não é? Não sei como é a sua vida, mas eu tenho um horário de trabalho… Se quiser, apareça em frente ao Meridien às 13 em ponto.
-Lá estarei. E, Margarida, não se deixe impressionar pelas aparências…
Ela desligou de imediato o telefone, sentindo os ecos da noite passada.

Bernardo dirigia-se para a “Tempo” cantarolando Armstrong. Sim, o mundo era maravilhoso. Margarida não resistira aos seus encantos depois de tantas investidas. Olhou de soslaio uma loira no carro ao lado e piscou-lhe o olho. Recebeu um olhar de indiferença em troca e lembrou-se que o Don Juan já não se usava.
Chegado à revista onde exercia funções de director de publicidade, a notícia atingira-o como um raio: Madalena fora demitida. Um sururu imenso arrasava a redacção. Especulava-se sobre os acontecimentos da véspera. Alguém sugeria que o presidente do conselho de administração se cansara dela e dos constantes prejuízos que a revista dava. Mais cáustico, um outro colaborador já classificava Madalena como “antiguidade” a ponto de ser trocada pelo Dr. Gustavo.
Apesar da alegria mal disfarçada da redacção, Bernardo temia pela sua posição. Fora a influência da agora “pecadora proscrita” que o conduzira àquele emprego.
Ligou a Madalena. Voltou a fazê-lo. Nada. Apenas o som cavo dos toques e a voz melodicamente irritante da moça do “voice mail”. Onde raio estaria Madalena.

Na sua casa na Foz, Madalena contemplava, por entre os olhos rasos de lágrimas, a fotografia de Mário. Recebera a notícia do seu afastamento há cerca de uma hora, acordando-a de um sono estranhamente tranquilo.
A besta do Gonçalo tratara-a como a uma criada. Começava a sentir na pele o que fizera a Mário. Somente a réstia de orgulho a impedia de lhe ligar. Desejava permanecer imóvel, em roupão, no sofá de sua casa até ao fim dos tempos.

domingo, outubro 15, 2006

Pintado de Fresco (VI)

Aviso: Este é o 6.º capítulo de uma novela da vida moderna escrita a 4 mãos, entre mim e o filipelamas.

Amilcar enterrou no bolso roto das calças o post-it amarelo, depois de o revirar e dobrar em dois. Sem intenção de fazer de cupido, descobriu-lhe, de imediato, outras utilidades.
Encaixou-se no vão de uma porta, aconchegando-se ao granito gasto pelo seu corpo e que lhe servia de cama. Aqueles 20 euros eram uma grande ajuda. Mas ainda não dera a noite por terminada. Queria mais umas moedinhas e, se possível, umas notas inesperadas como aquela. Inquieto, beliscado pela sua dependência, manteve-se atento ao respirar da praça. Afagou a nota encolhida nas suas mãos sujas, secas e sulcadas. Emocionou-se com a perspectiva de ser útil pela primeira vez desde que vivia na rua. Sabia que segurava os fios que sustentavam os sonhos de gente limpa e bem-cheirosa. O sucesso daquelas pessoas mordia-o com violência. Lembrou-se de quando levava recados às clientes de sua mãe ...
Calou o vício que lhe gritava por dentro e esperou, embalado pelo barulho da música do restaurante vizinho.
A festa parecia animada. Muita música, um estrépito repetido de gargalhadas.
Apenas o vislumbre do passado, no beijo fugidio de há pouco, azulara o espírito de Margarida, criando uma surpreendente combinação com a sua indumentária. Esforçava-se com sacrifício por empurrar da memória o peso dos primeiros e únicos meses de casada. Como pudera enganar-se tanto? Ou a vida enganara-os a eles? Conhecera Rodrigo na Faculdade de Letras. Ambos estudantes. Ali se apaixonaram, ali cresceram num abraço de cumplicidades convertido solenemente em aliança. A perda do filho tão desejado, pouco tempo depois do casamento, tumultuou-lhes a existência. Enegreceu-lhes os desejos. Acinzentou-lhes os sonhos. Toldou-lhes o horizonte.
Rodrigo ruíra sob o peso da realidade. Perdera o emprego, entregara-se ao álcool e a outras substâncias. Recusara a sua mão amiga. Fora isso que jamais lhe perdoara. Não lhe permitira cumprir os votos tão ledamente assumidos. Para a saúde e para a doença, para a fortuna e para a desventura.
Nunca mais o vira desde que haviam assinado um montinho de papeis que mãos alheias lhe entregaram como sinal do fim do seu amor.
Onde estaria o Rodrigo? Perguntou-se novamente, silenciando o insulto. O arrependimento reprovava-lhe o epíteto de há pouco. Não, não era um estupor. Era um farrapo de vida.
Ela também se arrastara numa existência lusco-fuscada durante um par de meses. Fugira para Roma. Depois de um exílio de ano e meio, voltara amanhecida. Novinha como uma folha de papel reciclado. De vez em quando, ainda era atingida por estes aguaceiros de recordação. Eram frios, fortes, mas fugazes. Cada vez mais espaçados.
Para empurrar este que viera agora importuná-la, desenlaçou-se do doce abraço de Bernardo. Num acto temerário afoitou-se no karaoke. Percorreu o dossier de folhas plastificadas. A escolha era difícil. Optou pelo "Lado lunar" de Rui Veloso. "Não me mostres o teu lado feliz/ A luz do teu rosto quando sorris/ Faz-me crer que tudo em ti é risonho/ Como se viesses do fundo de um sonho"
Nem reparou no sucesso da sua actuação. Olhava com enlevo para o Bernardo e só via o seu sorriso luminoso.
Todos se uniram no refrão, que soou a hino de encerramento da festa.
As vozes líquidas espalharam-se pela noite que parecia imóvel. As janelas do Palácio ainda iluminadas. A praça adormecida. A vespa abandonada.
- Não te esqueças. Quando te quiseres desfazer desta preciosidade, diz. – estridentava Xana com os restos de baton fugidio
O barulho belisou Amilcar no seu sono. Primeiro só viu sombras. Aproximou-se e lá estava a vespa no meio do magote de pessoas e a seu lado a loira no vestido turquesa apertadinho como uma luva nova a estrear. Não teve dúvidas. Era ela a destinatária da mensagem.
- Toma lá! É para ti. E uma moedinha, faz favor. O gajo tem muita guita. O carro era uma bomba ... ele não tinha unhas para aquilo... Então, a moedinha?
- Pega lá e vai-te embora – despediu-o o Luís, com uma moeda de 50 cêntimos.
- Só isto pelo arranjinho?! – resmoneou Amilcar enquanto corria em perseguição de dois convidados da festa do palácio que lhe prometiam uma melhor colheita.
- Oh, Xana. Sempre a fazer estragos! – atirou-lhe Margarida.
- Oui, c`est moi. Deve ser o presidente da Vince ... Cruzei-me com ele há pouco. Deixou a porta do elevador fechar-se na minha cara. Nada cavalheiro...
Olhou para o post-it. Os últimos números haviam saído a custo com uma tinta desbotada.
- Uhm... o Dr. Gustavo cansou-se da Madalena?
- Aquela mulher cansa qualquer um – ripostou Luís.
As cabeças voltaram-se todas para ele.
- Não que o saiba por experiência própria... Diz-se ...
- Bem, isso tem de ser averiguado, noutra altura... que se faz tarde.
Por entre beijos e abraços o grupo foi-se despegando.
Na boleia até ao parque da Alfândega, Margarida ziguezagueou propositadamente por entre os trilhos do eléctrico. Bernardo enroscou-se mais, num abraço de segurança.
- Então, gostaste do passeio? – brincou Margarida, enquanto via a lua a bailar no soalho encerado do rio.
- Dentro do género. Uma espécie de desporto radical!
- Radical? Estás muito mal habituado, flor de estufa. - e pousou o olhar num barco rabelo que baloiçava exausto na outra margem do Douro.
- Flor de estufa, eu? Dá-me uma oportunidade. Deixa-me mostrar o meu lado lunar.
Sem esperar resposta enfiou-lhe uma pulseira verde no pulso. Leu Dj Good Vibes na discoteca Vogue. No dia seguinte.
- E é desta forma que pensas fazê-lo? ... uhm... bem, vou ter de descobrir roupa que combine com esta fluorescência!
Margarida arrancou com o sorriso de Bernardo estampado na retina.

Mário dormia um sono intermitente. As horas escorriam lentas.
O percurso pacificara-o. Também pudera. Quase galgara o passeio! O susto obrigara-o a acalmar. Ao entrar em casa, o silêncio e a escuridão terminaram a tarefa. Foi invadido por um torpor.
Deitou-se, evitando a censura do espelho.
O telemóvel, que jazia entre a "Criação do Mundo" e o cinzeiro, remexeu-se várias vezes. Afónico arquivou na sua memória mais uma chamada perdida.

domingo, outubro 01, 2006

Pintado de fresco (V)

Aviso: Este é o 5.º episódio de uma novela da vida moderna escrita a quatro mãos entre mim e a rtp.
Bernardo estava especado a olhar para Margarida. Um sorriso nervoso fugia-lhe por entre os lábios. Na casa dos 25, loiro, de olhos azuis, encorpado, era um Adónis dos tempos modernos. De fato escuro, gravata vermelha, com gel no cabelo e de olhar terno, pensava agora para consigo que só Margarida conseguia que as suas mãos gelassem perante a ideia de a encontrar.
-Olá, Bernardo! Por aqui? Tens a certeza de que não te enganaste na festa? Olha que aqui não há caviar…
-Típico comentário… Vá, deixa-te disso! A festa da Tempo está uma daquelas secas… Ah! Tirando a parte em que a minha chefe deu um estaladão na cara de um armante qualquer com quem ela andou metido…
-Sempre a cortar na casaca… Ora aí está o Bernardo da escola secundária…
Depois de alguma conversa e de uns quantos copos de tinto bem bebidos, Margarida deu-se conta de que estava nos braços daquele que sempre fora um apaixonado por si. No momento em que os lábios de ambos se tocaram, múltiplas interrogações assolaram a jornalista. Decerto arrepender-se-ia de sucumbir agora aos encantos de um filhinho da mamã rico, exactamente o oposto de Rodrigo, o pai do filho que perdera a meio de uma gravidez tumultuosa, há quase dois anos.
«Sim, onde estaria aquele estupor do Rodrigo?», pensava Margarida enquanto se agarrava cada vez mais a Bernardo.

Mário acabara por entrar no seu bólide. Estava de rastos. Madalena fizera-o relembrar o quanto sofrera naqueles quatro meses em que partilhara a sua casa com aquela mulher. Amava-a como nunca amara, mas não perdoava traições. Quando descobriu Madalena enrolada com o presidente do conselho de administração da consultora em que ele próprio trabalhara, decidiu não perdoar. Expulsou-a de casa e afrontou o traidor. Como forma de comprar o silêncio, o presidente arranjara-lhe uma promoção.
-Um par de cornos vale uma promoção… – dizia Mário em voz baixa, enquanto duas grossas lágrimas rolavam pela face em direcção ao queixo, terminando o seu percurso na aba do smoking.
De repente, uma energia fulgurante acordara-o do torpor em que por vezes caía. Afinal, havia decidido naquela manhã não mais ter pena de si mesmo. Limpou as pistas do desespero e olhou para o lado. A vespa ainda se encontrava ali. A miúda que a conduzia tinha-o impressionado. Sempre gostara de mulheres joviais e com a alegria contagiante que aquela parecia ter.
Saiu do bólide, chamou o arrumador que entretanto estava a contar os trocos para a dose da noite e entregou-lhe um bilhete enrolado numa nota de 20.
-Entrega isto à dona desta vespa. Ouviste? Tens aqui dinheiro. Olha que é importante!
Meio envergonhado, Mário arrancou em grande velocidade, quase galgando um passeio cheio de estudantes trajados. Ouviu uns impropérios e começou a contar os copos de whisky que emborcara.
Amílcar – assim se chamava o arrumador – não resistiu a ler o escrito. «Desculpe a minha falta de educação. Foi uma noite complicada… Gostava de a conhecer. Sei que não é nada ortodoxo, mas deixo-lhe o meu telemóvel».
-Que tanso! Sai-me cada cromo… Eu é que meto prá veia... – balbuciou Amílcar através dos raros e podres dentes que exibia.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Pintado de fresco (IV)

Aviso: Este é o 4.º capítulo de uma novela da vida moderna escrita a 4 mãos, entre mim e o filipelamas.
Poucos se aperceberam do que realmente tinha ocorrido. Mas, treinados para farejar a notícia, os repórteres fotográficos accionam as suas máquinas, sem hesitação.
Madalena ofereceu-lhes um dos seus melhores sorrisos, ciente de que o tempo de reacção impedira uma foto em flagrante.
À falta de desenvolvimento, os convidados pegam, distraídos, nos fios das conversas deixadas em suspenso. A pouco e pouco, os círculos de convívio retomam a forma interrompida. O rumorejar sobe de volume.
Percebendo que evitara os estragos que o seu acto irreflectido poderia ter causado, Madalena volta-se para Mário, disparando-lhe com um ar glacial:
- Já fizeste o teu número. Vai-te embora. Não me estragues a festa. Esta fica por conta da …
Os acordes iniciais de um excerto de Scheherazade abafam o resto da frase.
Madalena afasta-se com uma andar meneado procurando esconder o sobressalto que a domina.
Mário, um tumulto por dentro, mas seráfico por fora, com a flute de champagne que um empregado nervoso, entretanto, lhe colocara nas mãos, cumpre competentemente a sessão de cumprimentos que aquele infeliz acontecimento quase perturbara. Quando dá por si, está no patamar exterior. De cada um dos lados, os últimos convidados esforçam-se por galgar apressadamente os lanços de escada, iluminados por pequenas velas azuis.
A noite já aterrara na cidade. Mas a lua cheia derrama um brilho prateado sobre a praça, quase deserta. Um grupo de jovens ruma alegremente à beira-rio. Do outro lado da rua, como que num outro mundo, o mundo sem fardas e smokings, um arrumador andrajoso descansa na soleira de uma porta. Um pouco acima, à boca de uma ladeira iluminada pelo reclame de um pitoresco restaurante, uma silhueta azul ciranda sem sentido. Mário sorri. Reconhece, na distância, a rapariga empertigada que numa tangente ao seu carro, estacionara a sua pequena vespa numa nesga entre dois carros.
- Cuidado! Olhe por onde anda! Não estamos em Itália! – ainda lhe gritara, depois de travar a fundo.
Como resposta recebera um grande sorriso da inesperada cinderela que, de um salto, já estava no passeio sem capacete e num vestido azul de alças que lhe denunciava as formas elegantes. Ficara desarmado quando ela rematara, com um piscar de olhos: “É vero! Desculpe”.
Distintamente aquele ponto azul era ela. Ainda pensara que fosse uma convidada da festa a que ia assistir. Assim o esperou. Via agora que em vão.
Margarida permanecia perto do local onde estacionara. Fora pontual, para variar. Esforçara-se, numa quase sonâmbula sucessão de acções, por vencer os ponteiros do relógio. Conseguira. E para quê? Ali estava aprumada, à espera dos outros membros da redacção. De qualquer modo, tinha de dar o exemplo, era a sua directora. Cantarolava o “Bang, Bang” de Nancy Sinatra, com que acordara e que não mais lhe saíra da cabeça – “Seasons came and change the time…”.
Felizmente, o cenário que tinha defronte dava-lhe distracção suficiente para ocupar o tempo. Era um rodopio a festa da revista “Tempo”. Uma revista de antiguidades com um orçamento milionário festejava o primeiro ano de vida com pompa e brilhantismo. A sua, com quase a mesma idade, sobrevivia a custo, contando os tostões para permanecer nas bancas. Podia estar do outro lado, na festa. Teria feito bem, quando recusara um lugar na redacção da "Tempo"? Preferira a liberdade de dirigir uma revista descomprometida. Confirmou o acerto da sua decisão à medida que iam chegando os 18 colaboradores que a acompanhavam, desde o início, naquele projecto e que, agora, sentia como seus amigos.
Enchiam o pequeno restaurante onde se encontravam depois do fecho de cada uma das 11 edições da revista. Não lhe agradava a perspectiva do karaoke prometido para o fim da noite. Fora ideia da Xana, seu braço direito. As garantias de que era muito divertido e que fomentava a confraternização não a haviam convencido. Mas como podia discordar de quem frequentava festas como hobby?
Meio-adormecida e deliciada com a amena cavaqueira familiar que a rodeava, lembrou-se do incidente do início da noite com o bólide metalizado. Recordou o atractivo yuppie que o conduzia e a surpresa que lhe ficara estampada no rosto. Sorriu por dentro. Tinha de ter mais cuidado. Já não estava em Roma.
Bang, Bang. Acordou pela segunda vez nesse dia, agora com um leve toque no braço e:
- Para ti. Uma rosa para ti, Margarida.

terça-feira, setembro 19, 2006

Pintado de fresco (III)

AVISO: Este é o 3.º capítulo de uma novela da vida moderna escrita a quatro mãos entre mim e a rtp. A minha mora quase se convertia em incumprimento definitivo. Espero que ainda mantenham o interesse objcetivo (e subjectivo) nesta prestação e que façam um update lendo os outros dois episódios que constam já dos arquivos do T&L.

Mário saía enfim de casa. O lusco-fusco daquele dia de Outono iluminava o seu carro topo de gama e dava um especial destaque ao smoking que comprara de véspera. O anterior estava fora de moda e a soirée por ocasião do primeiro aniversário da revista cujo nome lhe tinha passado por completo exigia especiais cuidados na indumentária. Estaria o presidente do conselho de administração da corretora em que trabalhava e, enquanto administrador com, de entre outras, a área das relações públicas, tinha de gramar festas do tipo.
Durante a viagem, a queimar os semáforos vermelhos, acordou para a realidade de ter de encarar Madalena. Desde que ela era directora da revista Tempo (afinal o nome aparecera-lhe com estranha clareza), as relações entre ambos haviam deixado aquele rame rame de um flirt que só lhe trouxera dores de cabeça. A mulher era danada! Inteligente, acutilante, adivinhava-lhe os pensamentos e desarmava-o de um certo charme que um trintão gosta de impor.
Aproximava-se agora do Palácio da Bolsa e entregava a chave a um daqueles moços simpáticos de gravata posta à pressa e que lhe faziam lembrar um galã de cinema dos anos 70 cruzado com um arrumador da modernidade.
-Vê lá se tens cuidado e não deixes que as tuas trombas falem por ti! – reflectia.
O ambiente era de luxo. Demasiado até para uma revista como aquela. Sorriu-se com malícia ao pensar que Madalena poderia estar a relacionar-se demasiado bem com o velho gordo e calvo que dirigia com pulso de ferro o grupo editorial em que a Tempo se integrava.
Cumprimentou uns quantos circunstantes e vislumbrou Madalena, de copo na mão, sorriso rasgado, vestido preto comprido colado ao corpo, de decote generoso e com a cabeleira negra que recordava das noites passadas a dois.
Apercebeu-se que ela o vira e que, de propósito, se enlaçara num abraço artificial com um fulano empertigado que conhecia de reuniões de negócios em Lisboa.
Por lhe dar especial gozo, dirigiu-se a Madalena como um verdadeiro profissional:
-Sra. Dra., em nome da Vince Consultants, endereço-lhe as mais vivas felicitações pelo sucesso que a Tempo tem registado ao longo deste ano!
Madalena estava incrédula e Mário sentia-se triunfante.
-Muito obrigada, Mário. Evite a formalidade falsa. Vai mal com o seu currículo.
Apesar da rapidez das frases, elas traziam um misto de surpresa, pouco à-vontade e daquela determinação que caracterizava Madalena.
-Sim, de facto o meu currículo é impressionante. Há uma ou outra mancha…
-Vícios ocultos, Dr. Mário?
-Encontros que nunca deviam ter acontecido. Mas deixemo-nos de conversa fiada. Não há champagne nesta festa, em especial para o representante de uma empresa que financia esse vosso pasquim?
Levada pelo instinto, em pleno Salão Árabe do Palácio da Bolsa, Madalena levou a fina mão atrás e só a viu parar na face angulosa de Mário. O som ecoava como um relâmpago. O ruído de fundo calara-se e as objectivas dos fotógrafos ofuscavam o rosto endurecido de mulher despeitada.

terça-feira, julho 25, 2006

Pintado de Fresco (II)

Tinha sido uma jornada intensa. Só se apercebeu da corrida do tempo, quando, ao sair do moderno arranha-céus onde trabalhava, foi atingida à socapa pelos primeiros raios do sol que, envergonhado, espreitava no horizonte.
Pôs-se a caminho de casa, saboreando a brisa refrescante que varria a cidade e lhe deixava em desalinho as longas madeixas de cabelo. Respirou fundo. Sentia-se livre ao comando da sua velhinha vespa azul-bébé. Gostava de andar de mota. Fora um hábito que lhe ficara do tempo que vivera em Roma, em que enfrentava o trânsito infernal em hora de ponta, serpenteando pelas elegantes ruas da cidade eterna. Recordava com saudade esse período em que estagiara numa revista de moda italiana situada oportunamente na luxuosa Via Condotti nascida no sopé da Scalignata di Spagna. Espantou as recordações com um longo bocejo.
Em cada esquina, era surpreendida com a face ainda ensonada da cidade. As ruas desertas, as lojas fechadas, as persianas corridas, esparsas luzes a pontilhar os edifícios - tudo emprestava feições desconhecidas a um cenário familiar. Era uma sensação agradável, mas estranha, para quem sempre se sentira mais confortável no meio da confusão e do bulício citadino.
Embrenhada nestes pensamentos, e sem sentir a chuva miudinha que se esforçava por acordar a cidade, vence o percurso. Ainda antes de entrar em casa, faz uma paragem na pastelaria em frente para calar um lamento do estômago. Sai sem prestar atenção às notícias bombardeadas por uma apresentadora frenética e sem reparar no vizinho do andar de baixo que, numa mesa ao fundo, despede o sono com um café fumegante.
Finalmente em casa, deita-se exausta mas com a sensação de dever cumprido. Percorre de memória o artigo sobre Amsterdão, em que trabalhara afincadamente no último mês. No dia seguinte estaria nas bancas o novo número da revista de viagens de que era directora.
Regula o despertador para as cinco da tarde. O talão azul em cima da mesinha-de-cabeceira recorda-lhe que ainda não fora buscar o vestido azul à lavandaria. Precisava dele para o jantar daquela noite. A redacção em peso ia festejar o fecho atempado de mais uma edição.

quarta-feira, julho 12, 2006

Pintado de fresco (I)


Acordara revigorado. A noite passara-a em branco ao som de um adágio vespertino de um CD emprestado por um amigo.
Estava agora em frente ao espelho acariciando uma barba farta e negra. Lembrava-se de Saramago: «o homem duplicado». A imagem reflectida agradava-lhe. Curiosamente agradava-lhe. Decidira, de véspera, num daqueles momentos existenciais passados em frente a um produto em promoção numa grande superfície comercial, mudar de perspectiva.
Não mais teria pena de si mesmo enquanto reclamava com o mundo e o fado que lhe fora destinado. Tomara essa resolução ao olhar embevecido para uma criança rechonchuda e sardenta, com cabelo crispado, ao colo de uma mãe disforme vestindo calças de licra. Sempre fora assim: deixava-se tocar por imagens grandiosas de fealdade e beleza justapostas.
Frequentemente pensava que tinha a mania de ser diferente e fazia gala disso. «Ser diferente é ser alguém!», lera num desses calendários com pensamentos vendidos a metro e prontos a consumir por cérebros com mais de um neurónio. E sempre desejara ser alguém. Também não ansiava ser alguém enorme, com um busto à entrada de uma escadaria fria e distante. Bastava ser aquela pessoa de gestos simples (mesmo simplórios) que cumprira as funções que a Natureza lhe ditara.
Entretanto, um fio vermelho escorria-lhe pela face, recordando-lhe que acabara de adicionar ao rol um problema desta feita comezinho: estancar o sangue. Um arrepio gélido acordou-o do meio-sono em que mergulhara.
Voltou a olhar para o espelho enquanto uma força inelutável o impelia a deixar corre a água no lavatório.
Voltou às funções que se impusera enquanto homem e ao rosto da criança sardenta. Apetecia-lhe ouvir Korsakov. Afinal, não era todos os dias que tinha programa para a noite.