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domingo, novembro 13, 2011

Veias que latejam


Sinto-te nas minhas veias que latejam,

surpreendo-te nas íngremes escadas da Ribeira,

murmuro “amo-te” quando te espreguiças na Foz,

prostro-me em adoração quando, de Gaia,

contemplo com olhos marejados o casario.

Lavo minh’alma nas alvas roupas

que gente de sotaque carregado

lavou com suor, algumas lágrimas e

uma pitada de orgulho por diferente

se respirar o peso granítico do ar.

Surpreendo-te namoradeiro e rapioqueiro

em ruas de má fama, em pregões desafinados,

em eternos queixumes contra os malandros de Lisboa.

Vivo e convivo com as tuas imperfeições,

esconjuro a tua amiúde pequenez,

o teu provincianismo paroquial.

Logo me dou conta que não fazes por mal,

que são espinhos teus erros,

que mora em ti um coração de Rei que, apaixonado,

to legou e te aclamou invicta.


Sim, Porto, és mesmo tu

quem tanto amo!

Sim, Porto, és mesmo tu

quem se entrelaça no meu ser!

F.L.


sábado, novembro 12, 2011

Pavio da chama



René Magritte, Os amantes, 1928, Museu de Arte Moderna, Nova Iorque.

Nos teus olhos azul,

na tua boca vermelho,

da tua alma alvo branco.

As cores da paleta do Pintor

acolhem-se a ti em sinfonias,

em bebedeiras de carícias,

em gestos de amorosa tirania.

Dos teus olhos azul,

da tua boca vermelho,

na tua alma branco alvo.

Quando estás longe

uma parte de mim também parte,

esconde-se em montanhas longínquas

onde pássaros do frio esvoaçam

sem rumo, ecoando nesse voo

a falta de ti.

Dos teus olhos azul,

da tua boca vermelho,

da tua alma branco alvo.

Não morres quando fecho os olhos.

Há uma luz ténue que, resoluta,

teima em queimar o pavio com chama.

A luz não me autoriza a dormir,

mas quem precisa de perder tempo

quando ama?


F.L.

sexta-feira, novembro 11, 2011

Bengala do tempo

Tirei a bengala do tempo e o tempo continuou a andar.
Retirei a vida do corpo e o corpo permaneceu a respirar.
Desguarneci de asas o vento e o vento teimou em silvar.
Mutilei a alma em pedaços e a alma insistiu em reinar.
Arranquei uvas à videira e a videira manteve-se fecunda.
Se te tirassem de mim, ficaria muito diferente.
Não és bengala, vida, asas, pedaços ou uvas:
és gente.
E sendo gente, estranho a ausência do teu beijo,
do teu cheiro, do teu abraço, de ti.
Não te tiro, nem tirarei.
Não te retires tu também.

F.L.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Olhar e ver

Olhei e não vi.

Vi e não olhei.

É com os olhos da alma

que se enxerga melhor;

que se mira o importante.

O que se olha com os olhos de carne é acessório.

Com a alma vê-se o humano:

conjunto de defeitos travestidos de qualidades;

massa de qualidades que teimam em ser defeitos.

Olhei e vi

e logo me apareceste atormentada e duvidosa.

Vi e não olhei

e logo uma parte de mim desejou não ver.

Ver e olhar:

a eterna condição e contradição de enxergar.

F.L.

domingo, outubro 23, 2011

Paragem



Salvador Dalí, A persistência da memória, 1931, MoMA, Nova Iorque.

Estancou o tempo.

O nosso amor ordenou a suspensão de Cronos.

A História conheceu um intervalo

único e irrepetível.

Os voos dos pássaros congelaram,

as folhas das árvores deixaram de ondear,

as ondas dos mares petrificaram,

os sorrisos cristalizaram-se em lábios arqueados,

o choro susteve-se, mantendo as caras feias.

O grito do mundo cessou,

as musas deixaram de respirar.

Tu e eu,

naquele abraço eterno

fizemos tudo isto.

Sem processos científicos complexos,

sem decomposições atómicas,

sem tecnologias de ponta.

Apenas com dois corpos que se unem,

com lábios que se entrelaçam,

com vontades soerguidas que tudo podem,

ao menos naquele instante.

Alimentamo-nos de instantes,

bebemos o efémero,

aspiramos ao inconstante, ao diverso, ao que é novo.

Seremos loucos por assim proceder,

seremos pouco avisados por tanto confiar,

seremos humanos por tanto amar.

Sim, seremos tudo isto!

Ser louco, pouco avisado e humano

é o nosso Destino!

Embarquemos nele!

F.L.

quinta-feira, outubro 20, 2011

Cuidara eu



François Gerard
, Psyche Receiving the First Kiss of Love, 1798, Musée du Louvre, Paris.

Cuidara eu do que é a vida
quando enlevado te conheci.
Momento abençoado pelo colibri,
dedo ansioso espetado em ferida.
Cuidara eu do que é o amor
e jamais o viveria.
Cuidara eu do que é a paixão
e sempre a desejaria.
Cuidara eu do que é a dor
e correria para um comprimido
a fim de ocultar a desilusão
de amor deprimido.
Cuidara eu do que é a luz
em teus olhos refletida
e no nosso refúgio andaluz
teríamos fontes de anos de vida.
Cuidara eu do que seriamos nós
e de início apenas veria prós
e aos contras amarraria nós
que desatados jamais seriam,
pois em teu íntimo morariam!

F.L.

sábado, outubro 15, 2011

E(s)pressão



René Magritte, La reproduction interdite, 1937, Museum Boijmans Van Beuningen, Rotterdam.


Espremi-me por dentro

e da massa de órgãos, sangue, vísceras,

ossos, vasos e veias,

não saiu nenhum líquido azedo,

nenhum pedaço mal digerido,

nada de bílis esverdeada e rancorosa.

Depois de espremer ainda mais,

obtive uma substância da textura do mel.

Porventura não tão doce,

mas mesmo assim adocicada,

despretensiosa e amável,

descomprometida e sincera.

Alimentaste-me de boa seiva,

deste luz ao meu tronco e, assim,

fortificado por ti,

já não sinto rancores, já mal guardo ressentimentos.

Libertaste-me!

E com a libertação veio a paz e a serenidade.

Não criaste um anjo nem um deus,

pois de asas não estou guarnecido

e deus não quero ser –

é tarefa demasiado complexa e aborrecida.

Desfolhaste um ser que ansiava por

sê-lo.

Simplesmente.

Como é.


F.L.