Mostrar mensagens com a etiqueta Palco das letras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Palco das letras. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, janeiro 26, 2011

1974

Valeu a pena passar pelo Teatro S. João e ver a peça "1974", criada pelo "Teatro Meridional" e encenada por Miguel Seabra.
Os quadros retratam o Portugal antes e depois do 25 de Abril. Revemo-nos todos em tantos pormenores da nossa história colectiva. Ficamos abismados com a fraqueza dos actuais dias (o último quadro diz respeito à adesão à então CEE), agarrados aos telemóveis e aos demais bens de consumo, deambulando à toa pela cidade.
Excelente representação de um elenco de actores jovens, que dominam com mestria a movimentação em palco, o corpo e a criação de distintos sentimentos, desde a alegria da Revolução à apatia do neoliberalismo.

sábado, novembro 07, 2009

Emilia Galotti


Na sequência do tão amável convite do "DireitoàCena", quase todo o Tretas foi em romagem ao TECA a fim de assistir a "Emilia Galotti". Aparte a doença de Ana Bustorff que a impediu de participar na peça, tendo sido substituída por Teresa Sobral, em registo de leitura encenada (bem), tudo correu sem sobressaltos de maior...
O texto, não fosse ele de Lessing, é bastante forte e denso e contém expressões bem curiosas sobre os insondáveis caminhos da justiça, em especial daquela que era aplicada em tempos de monarquias mais ou menos absolutas.
A encenação de Nuno M. Cardoso peca por não ter sido capaz de transmitir maior vivacidade à peça, possivelmente encurtando a sua duração e, em algumas cenas, conferindo mais acção a dados diálogos em registo mais monocórdico. Bom, mas aí entra o trabalho dos actores. Em registo claramente mono esteve Carlos Pimenta (Coronel Odoardo Galotti). Quase desaparecido na trama e sem chama, David Santos (Conde Appiani). Já bastante expressivo e com gestos que raiavam a loucura, o Príncipe Hettore Gonzaga (Albano Jerónimo) e um magnífico Dinarte Branco (Marquês Marinelli).
A trama pode parecer démodée, mas o Amor, o sofrimento por ele e a loucura que se comete em seu nome são intemporais.
No TECA até hoje, 8/11, às 21.30 h.

domingo, setembro 13, 2009

Teatro x2


Duas experiências de teatro muito diversas: Hedda Gabler, do norueguês Henrik Ibsen, no Teatro do Campo Alegre, e Os Idiotas, de Fiódor Dostoiévski.
Gabler é uma experiência simpática, em ambiente familiar no qual se vai desenrolando uma pequena-grande tragédia que tem o tédio, a falta de amor e o casamento tonto por ingredientes principais. Confesso que Sofia Alves claudica em momentos-chave da peça, não deixando de parecer algo deslocada do que era pedido a uma Hedda dona do mundo e simultaneamente de uma fragilidade assustadora. Nota mais para Vítor de Sousa que, em alguns momentos, parece também ele deslocado, mas agora em função de alguma «televisice TVI/Morangos com Açúcar» da protagonista.
Os Idiotas, no Teatro Nacional São João adivinhava-se como um exercício de «endurance» possivelmente incapaz de ser superado. E foi mesmo... A peça durava 5 horas e meia. Aguentámos 3 h... Já não foi mau! A peça falada em Lituano e com tradução em Português, através de um aparelho que mal dava para ler e acompanhar o desenvolvimento cénico ao mesmo tempo, a que se juntou uma história excessivamente longa e, em muitos passos, desconcertante e «nonsense», aconselharam a saída...
Já se sabe como são as obras de Dostoiévski, mas bem que podiam ter feito um resumo...

segunda-feira, março 02, 2009

A Cidade dos que Partem



Já não vou a tempo...

Ia recomendar que vissem A Cidade dos que Partem, no Teatro Carlos Alberto, uma produção do grupo Palmilha Dentada. Fabuloso! Rir a bandeiras despregadas sobre um texto inteligente, bem escrito, mordaz. Falar a rir sobre coisas muito sérias: a desumanização das cidades, a partida, a diferença, a podridão de certos núcleos políticos.

Bem, fica ao menos o testemunho!

sexta-feira, maio 16, 2008

«Pura Anarquia», Woody Allen


Comprei «Pura Anarquia» de Woody Allen (Gradiva) em trânsito para paragens insulares e durante a tão desejada viagem de avião a visão do expectável concretizou-se.
Woody não desiludiu. Juntou uma série de artigos publicados na imprensa norte-americana e serviu-nos uma cosmovisão do mundo do espectáculo, da física, dos sentimentos e do estrito «nonsense» em que é perito. Somos assomados por momentos de um leve sorriso e outros de uma gargalhada estridente, apesar de, em alguns artigos/contos se notar alguma falta de criatividade pela apresentação de estereótipos gastos como a loira pouco inteligente ou o produtor de cinema sacana e esmifra…
Acima de tudo, o livro vale pelo relato de como Woody parece ver o mundo: uma caixa de sapatos com buracos para garantir a qualidade do ar que se vai respirando no seu interior…

segunda-feira, outubro 15, 2007

Palco das Letras - O Cerejal

A Sepultura dos Lutadores, René Magritte, Nova Iorque, Colecção Particlar

Fui ao Jardim das Cerejeiras no Teatro Carlos Alberto e gostei do que vi. O grupo Ensemble Sociedade de Actores, ao revisitar o Cerejal de Anton Tchéckhov cumpriu o desígnio do autor, dando às palavras da última peça do russo, uma roupagem de comédia. Não sendo um espectáculo imperdível vale, desde logo, pelas interpretações consistentes, em especial, de Emília Silvestre, de Jorge Pinto e de um magnífico Alexandre Falcão.
A profusão de risinhos e o espalhafato de algumas reacções (em minha opinião, numa toada um pouco excessiva) quase escondiam a profundidade de um texto denso composto de frases curtas e sincopadas construídas com palavras simples, mas delicadas.
É, pois, num quadro de jocosidade imprópria para a gravidade do momento vivido, que as personagens se vão inconscientemente afundando num naufrágio anunciado: a venda em hasta pública do Cerejal, em finais de Agosto para saldar as múltiplas dívidas que se foram acumulando.
Vai-se, então, encrespando o mar revolto em que uma família de robusta posição social e patrimonial desagua após um passado de glória e respeito. Estamos na Rússia de finais de oitocentos, inícios de novecentos - tão bem descrita, não só por de Tchékov, mas também por Dostoievsky ou Tolstoi - em que a riqueza pessoal se media em número de almas (rectius, escravos, ou melhor, mujiques). E, é nesta encruzilhada de tempos, em que se joga a passagem para um futuro em que o progresso chega ao ritmo do caminho-de-ferro, que vamos conhecendo: uma Luibov Andreievna regressada a casa, após uma desilusão amorosa na civilizada Paris, para um exílio que se avizinha sombrio; o seu irmão Gaev, um jovem de meia-idade que esgota a sua riqueza em rebuçados e que, no fim da vida, tem de trocar o jogo de bilhar por um lugar, bem remunerado, numa instituição bancária; Trofímov, o eterno estudante que, imbuído das lições materialistas, proclama, com alegria, viver acima do amor (como se tal possível e desejável fora!); e o Múgique (Lopákhin) surpreendentemente vazio depois de conquistar o seu sonho, comprando o cerejal, propriedade em que os seus pais viveram agrilhoados ("onde nem na cozinha entravam").
E tudo se desenrola sob o olhar e aroma da personagem principal, símbolo e motor de um passado romântico e glorioso e que tem que ser sacrificado nas arras de um futuro que se antevê civilizado, eficiente e evoluído. O Cerejal não chega a ser visto. Nunca. E, no entanto, está lá. Sempre. O cerejal ou a ideia do cerejal. Não se vê, mas existe. Existirá? Sente-se. Percebe-se a sua presença. E que é existir, senão ser percebido?

No Teatro Carlos Alberto, até dia 21 de Outubro.

segunda-feira, abril 02, 2007

Palco das Letras - "Felizmente não é Natal"


Felizmente não é Natal
Rivoli – Grande Auditório
Elenco: Lourdes Norberto, Manuela Maria, Paula Lobo Antunes e Álvaro Faria.
Tradução e Adaptação: Marta Mendonça.
Produção: C. M. Oeiras – Publicoleto.
Até 8/Abril/2007
Quinta a Sábado: 21.30h // Domingos: 17h
Bilhetes de 10 € a 25 €

Um cenário minimalista: um quarto de um lar de idosos, bem arrumado, relativamente luxuoso. Uma iluminação arejada e eficaz. Duas grandes senhoras do teatro português: Lourdes Norberto e Manuela Maria.
Com base num texto de Carles Alberola, a trama reflecte o dia-a-dia de um depósito de velhos em que Fernanda (Lourdes Norberto) e Leonor (Manuela Maria) desenrolam mágoas sobre a vida e sobre o crepúsculo da vida, sempre em tom jocoso e bem-disposto, a arrancar grossas gargalhadas a propósito da milenar dicotomia homens/mulheres, saúde/doença, vida/morte.
Leonor vive uma história que julga ser só sua, mas que contudo é partilhada por todo o microcosmos do lar: o seu filho Alberto (ou António, como Leonor o vê) vinha visitá-la nos dois primeiros anos de permanência naquele lugar de onde se vêem laranjeiras que antes de morrer decidem florir como nunca, apenas para depois… morrerem. E no mundo de Leonor continuava a vir todos os meses. No mundo do real (seja lá o que isso for), já se haviam passado sete anos desde o último encontro). Religiosamente, Leonor vestia-se a preceito para estar sentada no banco de jardim, sozinha, a falar sobre a neta, a nora, o filho.
Fernanda é o arquétipo de mulher de armas, revoltada interiormente e dessa revolta alimentando a sua força. Os filhos não a visitam pela simples razão de estarem no estrangeiro. Ou também assim não será? Viverão as duas num mundo imaginário?
E a empregada (Paula Lobo Antunes) que está grávida de um tal Luís que o mais certo é não ser o pai da criança? Será ela real?
Reais foram as palmas emocionadas do público perante a chegada do filho Alberto (Álvaro Faria), como se a plateia se projectasse no drama tão familiar a que assistia, desejando, de forma ardente, o regresso do filho pródigo para poder continuar a tarde de Domingo em descanso, com a esperança de que a velhice trará amparo, afago e carinho.
Retrato bem-humorado, inteligente e mordaz da velhice na Europa e nos ditos países “civilizados”. E sim, o Natal nos lares deve ser mesmo triste. Felizmente (ainda) não é Natal.
Não fora o riso, o assunto seria sério. Talvez o seja.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Palco das Letras - "A última gravação de Krapp"

Uma secretária. Sobre ela um gravador antigo onde se destaca, proeminente, um microfone. Acima deles pende um candeeiro, que os cobre de luz. Apenas a eles. Sobre o resto do espaço a noite derrama a escuridão. Estamos no andar de cima da Livraria Lello, transformado em palco às sextas e sábados, a partir das 21h30. Estamos nós, doze espectadores (o que, in casu, constitui já sobre-lotação). A nós vem juntar-se um sorumbático e meditativo Krapp, para a sua última gravação.
Percorre o pequeno espaço do improvisado palco, comendo bananas (?), quando algo o desperta da soturnidade. Animado de uma estranha energia, segue as coordenadas 3, 5. Três é o número de uma caixa, cinco é o número de uma bobine (Bobiiiiiiine, como insistentemente lhes chama). Instala-se, procura comodidade – livra-se, com uma sacudidela de braço, de todas as outras caixas contendo bobines – e começa a rebobinar o passado. Recua três décadas, atingindo o dia em que celebrava 39 anos. Ouve-se. Ouve a sua voz. Uma voz mais forte e pomposa. Mais nova. Ela recorda-lhe a compra do candeeiro – aquele que ainda ali está – e que quebrando "toda a escuridão à sua volta" o fez (faz) sentir-se menos só.
Vai rememorando o passado, seleccionando memórias e emoções. Avança as menos boas, ouve repetidamente as mais agradáveis. Krapp (quase) não age, (apenas) reage ao já vivido. E, nós, vamos assistindo ao caleidoscópio de emoções, através das suas expressões. Nós e os livros – todos os livros. Apenas um – um dicionário – assume, por breves instantes, algum protagonismo, desvendando o significado de "viduidade".
Ouve-se, lá fora, uma autocarro que passa. Sinal de vida, de acção. Mas Krapp, como na sua gravação, permanece quieto, enquanto o mundo em volta se move e o move.
A voz gravada evoca resoluções incumpridas. Escarnece das aspirações antigas. Por entre o desfile de lamentos, Krapp vislumbra "o momento mais feliz dos últimos quinhentos mil momentos". Ouve o seu relato repetidamente. Revive-o uma e outra vez.
Desconcerta-nos quando, quebrando o seu choro de lamúrias, à pergunta "Reviver?" responde veementemente "Não!", ou quando se auto-impõe a repressão das suas doces quimeras.
Afirmação e ordem vãs. De novo, mergulha nas lembranças, lançando a questão que o verdadeiramente tortura. Podia ter sido feliz?. Podia?
Sempre na dúvida, tira a bobine e coloca outra. Esta, a estrear. Grava a sua última gravação. Porque precisa de ser, "ser outra vez, ser outra vez.". Poucas são as palavras ditas. As derradeiras, no entanto, muito significativas: "talvez os melhores anos já tenham passado. Aqueles em que havia uma chance de felicidade. Mas não os queria de volta. Não com o fogo, em mim, agora. Não, não os queria de volta."
Depois vem o silêncio. Acendem-se as luzes. A "Última gravação de Krapp" terminara.

Jorge Pinto, actor, um muito verosímil Krapp, recebe os aplausos merecidos. Coube-lhe, não só a interpretação, como também a tradução do texto de Samuel Beckett (1958) e a encenação.

Até 24 de Fevereiro. Na Livraria Lello, às sextas e sábados, às 21h30. Por 7.50 €. Com uma duração de cerca de uma hora. É conveniente reservar.

domingo, dezembro 03, 2006

Eraritjaritjaka

No Teatro Nacional S. João, ontem à noite, assisti a "Eraritjaritjaka" - palavra dificilmente pronunciável e que, na expressão poética dos aborígenes da tribo australiana Aranda, significa "cheio de um desejo por algo que se perdeu". É Elias Canetti, , autor do texto de base, que no-lo explica.
A partir das reflexões deste romancista búlgaro premiado com o Nobel de Literatura em 1981, Heiner Goebbels criou um muito interessante espectáculo, cruzando teatro, música e vídeo. Através desta mistura das várias artes cénicas construiu um verdadeiro laboratório do pensamento. E os espectadores não podem deixar de se maravilhar, espantados, com cada uma das experiências discursivas e reflexivas que lá se vão realizando durante a hora e meia de peça.
Não conhecia a obra de Elias Canetti. Depois dos fragmentos de vários dos seus escritos, num texto elíptico, repetitivo e ritmado que foi sendo dito num francês profundo, fiquei a apreciar e com vontade de aprofundar o conhecimento.
Somos confrontados com imagens bizarras de sociedades exóticas (onde, pasme-se, cada pessoa só pode chorar uma vez), com mundos singulares (em que uma criança de nove anos prefere um livro a chocolate e sonha ter uma biblioteca quando for grande), com interpelações sobre o homem moderno (Seremos pinos rectos e rígidos à espera do golpe que nos provocará a queda?; e os bichos terão menos medo por não conhecerem as palavras?; E se chegada a uma certa idade começássemos a diminuir, garantido, no entanto, o respeito dado pela sabedoria. Como seria esse mundo onde até os mais poderosos seriam seres liliputianos?).
Ah ... E nunca mais olharei para um maestro de igual forma. É um ser soberano omnisciente. Domina orquestra – só ele sabe o que cada elemento da orquestra vai tocar – e o público – que fica dependente da sua ordem para aplaudir e, que até lá, se mantém, obedientemente, silencioso a ouvir. Ao seu gesto as vozes morrem e ressuscitam. Este senhor dos gestos é legislador e magistrado, que julga, de imediato e publicamente, quando algum se desvia da lei que está inscrita na partitura..
Nesta visita pelo Museu das frases contamos com a companhia e excelente interpretação de André Wilms, parceiro nesta aventura tríptica, iniciada em 1993, já que esta peça se junta a duas anteriores na formação de conjunto de reflexões críticas sobre a sociedade do século XX. A sua voz cava quadra à densidade do texto e à sobriedade do cenário. É um exímio diseur, já que o espectáculo vive muito das palavras que vão sendo ditas. (ou que vão marchando, pois as palavras em regra marcham; porém, quando cantadas nadam)
Em palco encontra-se, também, o Quarteto Mondriaan de Amesterdão, interpretando um repertório variado que inclui, entre outros, Bach, Lobanov, Ravel, até o próprio Heiner Goebbels. A abertura com ChostaKovitch dá o tom adequado à peça. Um estridentismo moderado que, qual moscardo socrático, não nos deixa repousar e nos obriga a pensar sobre o que vai sendo dito.
E, sem querer levantar o véu, para quem eventualmente fique tentado a ver ou já tivesse intenção de o fazer, apenas digo que André Wilms vai levar-nos a passear pelo Porto, vai cozinhar para nós e vai mostrar o que, enquanto assistimos à peça, perdemos (?) no ecrã da televisão nacional.
Eraritjaritjaka tem, no entanto, uma passagem fugaz na sala portuense, já que, apenas terá nova representação hoje, dia 3 de Dezembro.
Um espectáculo só recomendado a quem esteja disposto a experimentar a sensação de entrar num quadro de Magritte.
Grazie di cuore a quem me ofereceu os bilhetes. ;-)

quinta-feira, novembro 23, 2006

PALCO DAS TRETAS - MORGANA

Há temas que perturbam a Humanidade desde sempre e que certamente continuarão a fazê-lo, como é o caso da eterna e universal luta entre o Bem e o Mal. Sempre actual, é esta dicotomia que pinta de cores variadas e, por vezes, indefiníveis, o palco do Auditório Municipal de Vila Nova de Gaia, onde, até ao próximo dia 10 de Dezembro, de quinta-feira a domingo, é representada pelo Teatro Experimental do Porto a peça MORGANA.
Foi Paulo Mira Coelho quem escreveu o texto de MORGANA, baseado em lendas populares originárias de Gales e da Bretanha de língua céltica, contadas e desenvolvidas a partir do século XII em vários países, dando origem a inúmeros livros, de que é exemplo o livro de Marion Zimmer Bradley, As Brumas de Avalon.
As personagens desta história são os já conhecidos Rei Artur, Merlin, Morgana, Gwiniviere, Mabus e Mordred. Artur, herói de emocionantes aventuras, nasceu por influência do feiticeiro Merlin, que o educou para ser um rei corajoso, sensato e justo. Morgana, a sua meia-irmã, é o oposto, representando a inveja e a perversidade. O seu aspecto atraente e as suas motivações suscitam, porém, a nossa compreensão e até alguma simpatia: pretendendo cumprir os seus desígnios de mulher e buscando felicidade e amor, Morgana clama aos céus o nascimento de um filho. No entanto, tendo em vista colocar um emissário no domínio do mundo terreno, apenas Lúcifer está disposto a satisfazer-lhe o desejo, apresentando-lhe a visão do filho, Mordred, que seria gerado pelo seu irmão, Artur. Morgana não chega a compreender que Mordred e Artur formam as cargas negativa e positiva da mesma entidade, pois não sabe que a mesma pessoa tem em potência o Bem e o Mal.
As duas faces do mesmo ser representam os dilemas que a vida coloca aos Homens livres, condenados a escolherem autonomamente o caminho que irão percorrer. Artur não escapa a esta realidade tão humana quando sucumbe às investidas sedutoras da sua maquiavélica irmã. É a prova de que o Bem e o Mal não encontram poiso em personagens unívocas. Todas elas questionam o amor (“O amor só é apanágio dos reis e dos ladrões, mas são estes seres verdadeiramente livres?”), o prazer (“O prazer antecipado é sempre maior do que o obtido”), a pureza da alma (“O brilho espiritual de uma alma desperta e afasta os cinco ladrões e a intempérie!”), a rectidão (“O olhar de um homem à procura de Deus devia ser uma linha recta.”), a lei (“Mesmo tu, rei de Avalon, estás sujeito à lei! Ninguém está mais preso à lei do que aquele que se sente livre!”), o sentido da acção (“Na cama em que te deitares, dela te levantarás!”; “Não há inferno – só consequências dos actos.”) e a responsabilidade (“Sei que não nasci para viver como um homem, mas sim para lutar por memórias futuras.”).
É Ruy de Carvalho quem aparece como cabeça de cartaz de MORGANA. No entanto, apesar da interpretação competente do vetusto mago e conselheiro com o dom de ouvir, não é a estrela que mais cintila em Avalon. Esse lugar pertence a Mónica Garcês, magnífica no papel da indomável e majestosa Morgana, tocante no papel da mulher amargurada e desiludida com Artur, “um homem que navegou em mim sem descoberta nem amor”. De assinalar ainda a estreia em teatro de Ricardo Trêpa (sim, o neto de Manuel de Oliveira), que, apesar da sua já assinalável experiência no cinema (sobretudo em filmes realizados pelo avô), acusa a inexperiência no teatro, apesar de devermos aplaudir o seu primeiro papel como Artur, o rei amargurado e atormentado pelos enigmas da vida.

Vale a pena não perder a oportunidade de ver, mais uma vez, o TEP em Gaia.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Ecos de uma peça de teatro – ou ecos de um texto e do talento de um grande actor

Há alguns meses, depois de assistir à representação da peça "À espera de Godot", no Teatro Nacional S. João, senti que cruzava as portas da bela sala de espectáculos do Porto acompanhada por um redemoinho de palavras. O texto de Samuel Beckett perseguiu-me, então, um par de dias. Precisei de algum tempo e esforço para conseguir despistá-lo e libertar-me da sua influência.
Refeita, assisti, agora, à peça "Começar a acabar" do mesmo autor. E a sensação repetiu-se. A torrente de palavras ficou, de novo, a ecoar, aprisionada na minha mente. O presente post serve, então, para deixar fluir o caudal palavroso.
No ano de centenário do nascimento do Prémio Nobel da Literatura de 1969, é representada pela primeira vez em Portugal, esta peça construída, em 1970, pelo próprio Beckett, a partir de três obras que escrevera depois do fim da segunda guerra mundial. ("Malone está a morrer", "Molloy" e "O inominável"). Trata-se de uma co-produção do Teatro Nacional D. Maria II, do Teatro do Bolhão e d`Os Crónicos. A interpretação está a cargo (e que bem que ele o desempenha!) de João Lagarto. Decorre no auditório da ACE/Teatro do Bolhão, à praça Coronel Pacheco, no Porto, entre 9 e 19 de Novembro.
É um monólogo. Dura pouco mais do que uma hora. O palco encontra-se vazio e mal iluminado por três lâmpadas de filamentos pronunciados. João Lagarto surge-nos andrajoso e poeirento. A peça - um exemplo do teatro do Absurdo, em que Beckett é exímio mestre - é um exercício, em solilóquio, sobre a angústia do fim. E, no entanto, ... ela ilumina o espírito.
Tudo começa com o (prenúncio de) fim. "Acho que em breve vou morrer. Podia morrer hoje mesmo se fizesse um bocadinho de força." – eis a confissão de quem nos surge, em passo arrastado, na penumbra do palco. Um mendigo? Um "mendigo de alma" (na expressão feliz de João Lagarto)? Podia ser Vladimir ou Estragon de "Á espera de Godot". É mais um louco beckettiano ("Todos nascemos loucos. Alguns permanecem assim" como nos diz, na agora citada, famosa peça). Como aos demais, ainda lhe sobra uma réstia de esperança. Admite sobreviver mais alguns meses, até à Ascensão. Mas, a partir daí, o mundo prosseguirá sem ele.
Que mundo? Um mundo próprio com uma lógica diferente. Um mundo de que não se atreve a sair. Um mundo que não muda. ("... nada muda aqui desde que cá estou, mas não me atrevo a concluir que nunca mudará nada").
Para matar o tempo que lhe resta, vai desfiando episódios soltos da sua história. Numa espécie de ladainha circular, vão surgindo as interrogações sobre os enigmas da vida e da morte. Sente que tudo é novo e tudo é repetição. Ao mesmo tempo que se lamenta pelo muito inacabado que recorda na sua, quase finda, existência, deixa escapar o desejo: "Que seja sempre hoje, sem antes nem depois".
Sente-se compelido a falar. Solitário, procura explicar o inexplicável. Não consegue calar-se. O discurso impõe-se-lhe num jorro de palavras que aparecem não se sabe bem de onde e, nem sempre, se percebe bem porquê. Chegam até ele. E ele precisa de todas elas. A sua existência é das palavras. E, as verdadeiramente importantes são tão poucas! Ficamos com a impressão de que, talvez, não tenham sido as que foram ditas. ("Estas coisas que digo, que vou dizer, se puder, já não são, ou ainda não são, ou nunca foram, ou nunca serão, ou, se foram, se são, se forem, não foram aqui, não são aqui, não serão aqui, mas noutro lugar qualquer")
Sente-se compelido a pensar. Desespera. Perde uma ideia. Surge outra. Não sabe se é a mesma. Pois as ideias parecem-lhe todas tão semelhantes, à medida que as vai conhecendo.
A rotina aparece como uma grande enfermidade do tempo. Tal como se encontra em "Á espera de Godot" surge-nos a sentença: "O ar está cheio dos nossos gritos. O hábito é um importante amortecedor".
A crítica ao homem moderno aparece acerada no jogo vivo de palavras em que o progresso é apresentado. E, apesar dele, "o homem encurta e definha ... concorrentemente".
O humor está presente em toda a peça. As gargalhadas são uma constante (aliás, Beckett assim o pretendia). O episódio em que conta como guardava a sua preciosa colecção de 16 pedras é, disso, o expoente máximo.
E, por fim, (mais) uma palavra para o actor. Aliás, João Lagarto é, aqui, mais do que um actor. Perseguiu o texto, traduziu-o, encenou-o e interpretou-o E que interpretação soberba! Soa a música. As palavras são cantadas. O ritmo é modulado. Colocou a si próprio um desafio, que superou enormemente.
Apetece citar Beckett, no final de "O Inominável": "... aqui onde estou, não sei, nunca saberei, no silêncio não se sabe, tenho de continuar, não posso continuar, vou continuar." (Assírio & Alvim, p. 189)
A não perder!

sábado, outubro 28, 2006

Post Scriptum

Deparando-me com o já lido "Viver para contá-la", no cantinho de uma mesa, em posição periclitante e a pedir para ser arrumado na estante à beira dos seus semelhantes, decidi retomar aqui os fios das impressões de leituras, que deixei uns posts atrás.
A auto-Biografia de Gabriel García Márquez abre com um mote lapidar que me convenceu, de imediato, à leitura: "A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda e como a recorda para contá-la.". Rendi-me à verdade da afirmação – quanto do que lembramos não é fruto da nossa imaginação ao rememorar o pretérito! – e acompanhei o escritor colombiano no desfiar das memórias da primeira metade da sua vida.
O livro principia com uma viagem de Barranquilla para Arataca, de Gabito e sua mãe, com o fito de concluir o negócio da venda da casa da família, mas a história começa muito tempo antes – antes de Gabo nascer, antes de seus pais se conhecerem, antes da revoada da companhia bananeira – em Arataca: "um lugar bom para viver, onde toda a gente se conhecia, na margem de um rio de águas transparentes que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos". (Op. Cit., p. 11). E reconheci logo Macondo de "Cem anos de Solidão" que o autor descreve exactamente com as mesmas palavras (Segunda frase do livro, na minha edição das Publicações Europa-America na p. 9), numa altura em que "o mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome, e para mencioná-las era preciso apontar com o dedo" (idem).
Ora, García Márquez, nesta viagem ao princípio do seu mundo, e que o marcaria indelevelmente, recolhe nostalgias "na casa fatasmal" que, aliás, acaba por não ser vendida ("A casa não se vende – disse [ a mãe de Gabo] – Façamos de conta que aqui nascemos e aqui morremos todos" – "Viver para contá-la", p. 44). Recua e começa a apontar fragmentos da sua (pré-)história . Descobrem-se as sementes de "Cem anos de Solidão" - na família do prémio Nobel de 1982 encontramos a família dos Buendía, em alguns episódios revela-se a inspiração do enredo do famoso livro (Até a personagem Rebeca que, na leitura de "Cem anos de Solidão", tanto me surpreendera por viver sem comer, alimentando-se de terra húmida do jardim e pedaços de cal das paredes, tem o seu original em Margot!)
Percebemos que a vida repleta de percalços, preenchida de aventuras foi um rico manancial para a obra do escritor. Quase que a cada retalho da sua vida está associado um poema, um conto, um romance (fiquei, por isso, com vontade de alargar o meu reduzido conhecimento da obra do escritor).
Esta autobiografia cumpre mais do que a sua (aparente) primacial função - como, aliás, todas as (auto)biografias de pessoas de valor. A leitura de "Viver para contá-la" proporciona uma tripla descoberta: a da vida de Gabo, a da obra de García Márquez, e a da história do início do século XX da Colômbia. Acompanhamos de perto e pela lente comprometida do escritor vários momentos da vida política conturbada do seu país.
Estava no local certo às horas sobressaltadas, pois encontrava-se em Bogotá para cursar Direito. Aí permaneceu, trocando, no entanto, a Faculdade (com o curso apenas iniciado) por uma vida atribulada nas efervescentes redacções de jornais. É interessante perceber as dificuldades que sentiu para seguir este percurso, sobretudo por ter de defraudar as expectativas dos pais que lhe desejavam um diploma académico e suspeitavam de uma minguada existência dedicada à escrita jornalística e literária. Curiosa é também a sua atribulada vida escolar já que traduz a assunção como verdadeira da afirmação de Bernard Shaw "Desde muito pequeno tive de interromper a minha educação para ir à escola".
O tom jubiloso com que desfia as memórias, o despudor com que revela as fraquezas (os erros ortográficos que diz cometer com grande frequência), a variedade e jocosidade dos episódios que viveu (por exemplo, aquele em que, perante a necessidade de eliminar de um livro seu as palavras "masturbação" e "presevativo", sob pena de a publicação ser rejeitada, ele negoceia com os censores a eliminação de uma só, deixando-lhes a escolha da suprimida; ou o episódio dos dois amigos que se envolvem num duelo, em que ambos ficam feridos, e acabam por morrer de pena um pelo outro), a multiplicidade de pessoas com que conviveu e nos apresenta (muitas delas com um papel de relevo na vida pública da Colômbia), ... tudo torna mais aprazível a leitura das quase 600 páginas de parte da vida do escritor colombiano. No fim, apetece concluir que se Márquez, como diz, viveu para contar, agora conta para (re)viver!

quarta-feira, outubro 25, 2006

Palco das letras - «Biblioteca Infernal», DireitoàCena

Adaptando um original de Zoran Zivkovic, o T&L em peso esteve ontem numa representação que anunciara – «Biblioteca Infernal» –, levada a efeito pelo «DireitoàCena», Grupo de Teatro da Faculdade de Direito da Universidade do Porto.
A singularidade e beleza únicas do espaço que serviu de cenário – a Biblioteca da Faculdade – foram solo fecundo para um texto que nos interroga de modo profundo. A leitura, rectior, a ausência dela, se entendida como um crime capaz de conduzir um ser humano à condenação infernal, aplicada em «medida de coacção» exactamente proporcional à inexistência de hábitos de leitura do arguido, de imediato condenado é, de per se, uma ideia genial. Associar-lhe a reflexão de que «todas as épocas têm o seu inferno» e rejeitar clichés sobre esse local demoníaco, fazendo-nos ponderar se as nossas vidas, tal como as vivemos (ou não vivemos), são já, elas próprias, um inferno, encerra uma mensagem que não pode senão deixar-nos inquietos.
Se a isto juntarmos poesia e prosa dos mais representativos Autores nacionais e estrangeiros, desde «As Farpas» de Ortigão e Eça, à «Biblioteca» de Umberto Eco, passando pelo inevitável Pessoa em «Ai que prazer» e as deslumbrantes «Queixas e imprecações de um condenado à morte», de Ary dos Santos, ditos por actores amadores, no sentido de verdadeiros amantes da arte de representar e de dizer literatura, então a sala de Penal encheu-se, por entre exasperadas perspectivas ético-retributivas iniciais, de um krausismo regenerador (aqui estavam eles, respondendo às «Farpas»…).
O Grupo de Teatro que já nos habituou a um magnífico brinde de Kafkfa em «O Processo» e a uma «Medeia» de assinalável nível é uma certeza. E não o digo quase a domino, pelos laços que me ligam a quase todos os actores. Quem, no final da adaptação de Zivkovic, de forma tão comovente, passa a mensagem de que os julgadores são, por rectas contas, seres iguais ao condenado, também sentenciados a uma eternidade assustadora, faz do teatro uma forma de expressão de sentimentos que doem, numa dor gostosa.
Tanto que cheguei a casa e não pude conter a escrita numa catarse de algo que trouxe (ou que já se encontrava) dentro de mim, ao som pungente da Suite n.º 3, em Dó maior, BWV 1068, de Johann Sebastian Bach.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Teatro: "Biblioteca Infernal" - Biblioteca da FDUP

Grupo de Teatro da FDUP Direitoàcena.
O "cenário" da Biblioteca da FDUP Prof. Doutor Jorge Ribeiro de Faria será utilizado pelo Grupo de Teatro da FDUP Direitoàcena, para apresentação de uma adaptação do texto "Biblioteca Infernal" do sérvio Zoran Zivkovic, nos próximos dias 23, 24 e 25 de Outubro.
Bilhetes à venda a partir de 17 deOutubro, na FDUP.


Quem não comparecer pode bem contar com uns chamuscos do Inferno!!!!

sábado, julho 29, 2006

Palco das tretas - Ensaio, de José Peixoto



As Três Irmãs de Tchekhov constituem o pano de fundo à peça de teatro Ensaio, com texto de José Peixoto, direcção de Roberto Merino e elenco composto por Diana Couto (Catarina), Diana Morais (Sofia) e Sandra Ribeiro (Inês), alunas finalistas do curso superior de Teatro da ESAP, em exibição desde quinta-feira (27/7) até hoje, sempre às 21:30h, no Pequeno Auditório do Rivoli Teatro Municipal.
O T&L esteve na estreia e ficou sobretudo impressionado com a elevada qualidade do texto, bem como com a simplicidade do cenário, bem ao gosto dos que têm do teatro uma visão mais «purista»: mais palavra e menos «fita». No decurso de um ensaio numa casa suburbana em lugar remoto e com cocós de cão pelos passeios, as três actrizes intercalam o riquíssimo texto de Tchekhov com reflexões sobre as relações humanas. Cada uma delas, qual três irmãs, é um microcosmos em ebulição. Desde a loura frívola, de voz quase irritante, empenhada em mostrar um «polimento» que não tem e perdida em constantes telefonemas de um homem casado com quem se relaciona, até uma personagem mais densa, ideologicamente comprometida com uma esquerda complexada em choque com uma representante de uma espécie de direita envergonhada, esposa, mãe e amante, disparando boutades em todas as direcções, maxime em relação aos homens, terminando numa outra mais sofisticada, bloco de pedra aparente que acaba por revelar segredos escondidos e que constitui o contra-peso de inteligência, tudo caminha para o fim do ensaio, dando a sensação de que a densidade do texto perde pela profusão exagerada de temas e por interpretações que, como é natural, comportam ainda grande espaço de evolução.
Peça aparentemente anti-masculina, de permanentes paradoxos, transforma-se num hino à expressão de sentimentos e à admissão da mera condição humana de Malraux.