segunda-feira, setembro 04, 2006

Post Scriptum


Há mais de uma década que nas minhas férias estivais, não dispenso uma estadia num ponto específico da costa oriental espanhola, onde o sol nasce e se põe no mar. Um verdadeiro pedacinho de paraíso na terra. Aí me encho de paz e energia.
No remanso deste meu refúgio, aproveito para pôr a leitura em dia, esquecendo a rígida disciplina que autoinflijo, ao longo do ano, para não me perder no meu vício: os livros. Lanço-me, então, à pilha de espécimes variados que vou acumulando na mesinha de cabeceira. Géneros dispares, estilos dissemelhantes, autores diversos.
Neste ano, comecei por um livro levezinho, não pelo seu peso (tem 440 páginas, o que já é considerável), mas pela despojamento da sua substância. Trata-se do recém-publicado em Portugal, Fortaleza Digital de Dan Brown. (O livro datado de 1998 apareceu agora em terras lusas arrastado pelo fenómeno Código Da Vinci do mesmo autor).
Correspondeu às expectativas que formara. Não as superou, nem defraudou. À semelhança de "Anjos e Demónios", "A Conspiração" e "O Código da Vinci" é um livro de acção bem construído. Tal como neles, a história aparece temporalmente concentrada (tudo se passa num fim-de-semana – e tudo é mesmo muita coisa), numa espiral vertiginosa de acontecimentos com pormenores mirabolantes e de reduzida (para não dizer nula) verosimilhança.
Parte das virtualidades crescentes que os avanços técnicos proporcionam e da concomitante diminuição de liberdade que acarretam. (Diz-nos, a páginas 155, o narrador: "Na era digital, a privacidade tornara-se uma coisa do passado; havia sempre registos de tudo e mais alguma coisa. As companhias telefónicas sabiam exactamente quem ligara para quem e durante quanto tempo tinham falado"). Aborda a questão do voyeurismo tecnológico e da vigilância permanente, lançando apenas uma pergunta "Quis custodiet ipsos custodes?"
Prende o leitor enquanto é lido – os fios da história vão aparecendo cruzados; as personagens ora actuam, ora cedem o protagonismo a outras, ficando suspensas um capitulo até serem de novo lançadas no turbilhão dos acontecimentos – mas depressa é esquecido. As suas marcas são indeléveis. Nada de perene acrescenta ao leitor.
É, por isso, um bom livro para ler em início de férias e de um só golpe (basta um dia e com intervalos para não estupidificar). Não damos trato ao pensamento; oferecemos (algum) descanso ao raciocínio; concedemos férias ao intelecto. Preparamos os sentidos para novas aventuras, suspirando, já, por outras leituras.
PS - Um agradecimento ao NL que gentilmente me ofereceu o livro.

10 comentários:

filipelamas disse...

De Dan Brown li apenas o «Código da Vinci» e, apesar das inverdades e imprecisões históricas, partilho da ideia de que é um bom romance policial (se assim o podemos classificar), sobretudo pela lógica impressa aos capítulos e ao desenrolar da acção. Perfilho também a ideia de que, volta e meia, o cérebro agradece leituras «lights», desde que com algum sumo (pouco calórico)...

filipelamas disse...

Esqueci-me do merecido elogio à artística foto da rtp! Mais uns anos e o «World Press Photo Prize» é teu!

Cleopatra disse...

"Na era digital, a privacidade tornara-se uma coisa do passado; havia sempre registos de tudo e mais alguma coisa. As companhias telefónicas sabiam exactamente quem ligara para quem e durante quanto tempo tinham falado"). Aborda a questão o voyeurismo tecnológico"


O Voyeurismo tecnológico.
Gostei da expressão que me lembrou que nos nossos dias, a qualquer momento alguém entra dentro denós, pelas nossas palavras, pelas nossas conversas...violção de privacidade, segurança de Estado, em nome sei lá de qu~e... E todos sabem tudo de todos... E ninguém tem privacidade... Todos temos medo!

Anónimo disse...

Também li o "Código da Vinci" e "Anjos e Demónios". O autor tem um estilo muito próprio e de facto consegue desenhar uma rede interessante de relações entre as personagens, o que faz com que os livros se leiam bastante bem.

RTP, chegaste a ler o livro do Paul Auster "As loucuras de Brooklin"? Li. Gostei. Talvez seja um dos mais leves do Paul Auster mas sempre ao estilo dele, focando de uma forma tão própria a natureza humana, o papel do acaso na vida do Homem e a forma como pequenos nadas podem ter profundo impacto na vida.

Este ano as férias foram, para mim, longas, pelo que pude percorrer vários livros de autores e estilos diferentes. Ler enche a alma e torna a silly season menos ou nada silly. Agora, de regresso ao trabalho, é muito bom partilhar o que os livros nos trouxeram de novo.

Claudia Sousa Dias disse...

Funciona perfeitamente como entrada!

Para preparar o estômago para a verdadeira substância!


cSd

joaquim.guilherme.blanc disse...

Não li o livro mas banhei-me nessas águas :)
A fotografia, como sempre, muito boa.

rtp disse...

Não, rb. Ainda não li "As loucuras de Brooklin". É o próximo na pilha que ainda é grande, apesar de, nestas férias, já lhe ter causado um grande rombo. :-)

rtp disse...

ah... e quanto à fotografia, muchas gracias.

Carlos Manta Oliveira disse...

Já o li há uns anos. Descobri Dan Brown em 2001 das mãos de um amigo que trabalha num banco de investimento em Nova Iorque.

Ele trouxe-me o livro e disse-me: "Tens que ler, vais gostar, tem montes de matemática e assim, faz o teu género". Btw, ele é geólogo, e trabalha na prospecção de petróleo antes de entrar na banca.

Para o meu gosto, o livro tem pouco de tecnologia, mas é fácil de ler e empolgante. Como se diz em estrangeiro: "unpageturningstopable". Mas quem lê um bom Asimov... Agora ando meio preso com Ian Banks, um fulano contemporâneo escocês que escreve num estilo meio esquesito e publica com dois nomes.

Já agora, recomendo o site:
http://www.librarything.com/profile/ee95104

Sobre a privacidade na era digital, há coisas curiosas e verdadeiras no livro. As agências governamentais americanas têm-se empenhado em espalhar um código de encriptação chamado RSA, que se bem que funcional é... fraco. Ou seja, é possível de quebrar em horas, enquanto que outros só o seriam em anos.

À custa disso, não existe hoje um standard de encriptação em e-mails, o que é notável, já que tecnologicamente, usando PGP seria facílimo de fazer. Bastava vir instalado no Outlook... Alguém deve ter posto uma palavrinha na Microsoft.

rtp disse...

Obrigada pelos esclarecimentos. :-)