sexta-feira, julho 14, 2006

Early Night Posts (3)


«(...) citei Rilke: "Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém - é a isto que é preciso chegar.»(...)

Se há coisas na vida que contam com o tempo, são a amizade e a velhice. (O tempo fez-me perder a primeira, enquanto acentuava a segunda.) (...)

Mas ninguém possui verdadeiramente alguma coisa. As coisas do mundo pertencem a todos e, sobretudo, a quem aprendeu a nomeá-las. E eu já não consigo nomear nada. (...)

Deixei que os ventos e as chuvas apagassem o desejo no rasto dos répteis incandescentes. (...)

Não confio nos homens, ainda menos em Deus. (...) Repito: não confio nos homens. Confio na sabedoria remota das minhas mãos. (...)
Há homens com quem se pode aprender a ver aquilo que dentro de nós existe e não sabíamos.
Reconhecêmo-los pelo olhar. Quando se aproximam, a noite reflecte-se clara nos seus rostos. Têm gestos lentos, precisos, como os dos deuses marinhos que habitaram, além, no mar rente à ilha. (...) Transportam no coração a alegria de quem viaja.»

Al Berto, O Anjo Mudo, 2.ª ed., Lisboa: Assíro & Alvim, 2001, pp. 26-28, 32, 34.

4 comentários:

armando disse...

escreveu r. m. rilke na 10ª anotação de malte laurids brigge:

"fiz uma coisa contra o medo. toda a noite fiquei sentado a escrever[...]e uma pessoa não tem ninguém nem nada e viaja pelo mundo fora com uma mala e uma caixa com livros e sem qualquer tipo de curiosidade.de facto, que vida é esta?sem casa, sem coisas herdadas, sem cães.se ao menos uma pessoa tivesse recordações!mas quem as têm? se houvesse infância...mas ela está como que enterrrada. talvez seja preciso ser-se velho para poder alcançar tudo isso.penso que deve ser bom ser velho."

dá-me ideia que al berto partilha emoções com rilke. a epígrafe de o medo é exactamente a transcrição da primeira parte desta anotação q acabei de citar. a juntar a esta fabulosa sugestão do tetras & letras.

filipelamas disse...

Meu caro Armando,

Antes de mais, muito obrigado pela sua visita! É para nós motivo de sincera alegria! Lemos com muito interesse tudo o que escreve e, mais uma vez, este seu comentário não podia vir mais de encontro ao que a obra de Al Berto nos traz: a secura e a crueza dos sentimentos verdadeiros, a simplicidade das coisas difíceis, a prova de que palavras vulgares e aparentemente desconexas são, na verdade, uma espécie de elixir que salva a figura do «caminhante», tão querida a este nosso escritor e a Rilke. De facto, não podia estar mais de acordo: apesar das diversas coordenadas espácio-temporais, é curioso como as almas se aparentam aqui e além.

Anónimo disse...

só coltura...

Anónimo disse...

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Sandy Carlson
Standing under the Sky