terça-feira, fevereiro 20, 2007

Inacabado


Pablo Picasso, Guernica, 1937, Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madrid.


Palavra solta,
Sem sentido,
Lançada na cegueira branca
Da folha amachucada.
Perdida, desencontrada.
Letra por letra, sílaba por sílaba.
Os acordes da sinfonia
De Letras
Em vão se procuram
E se desejam.
De soslaio se captam,
De frente se chocam.
Em uníssono,
As palavras
Gritam “vivas” e “aleluias”
Ao Rei que é Sol,
Alfa e Ómega,
O asfalto e o empedrado.
A mão criadora
Faz uma aparição
Rasgada,
Dilacerada,
Ao pé de uma fonte de letras
Armazena munições.

Porque letras podem ser guerras
Mas as guerras não são de certeza letras!

F.L.

13 comentários:

rtp disse...

Interessante homenagem a uma obra de arte impressionante! Impressionante pela pungência das imagens, pela força que irradia, pela profundidade da interpelação que nos dirige. Impressionante até pelas suas dimensões. Enorme! Enche a sala onde se encontra. Sufoca-a. Parece não caber lá. Pelo menos, o grito que emite ultrapassa - tem de ultrapassar - aquele espaço físico. Contra todas as guerras! Não mais Guernicas em qualquer parte do mundo! É a lição que nos ensina!

Serenidade disse...

Com toda a certeza, as letras podem ser guerra, o Homem tem essa capacidade, até na alteração de uma simples vírgula se transfigura todo o significado de uma frase; no entanto a guerra nunca são letras.

Beijo de luz serena

Anónimo disse...

As tuas palavras soltas t~em sempre sentido, não são cegas nem se perdem, ensinam-nos relembram-nos e alertamnos.
Os teus sentidos em palavras, são armas de alma de poeta com causas, com um saber pleno que o poema é uma munição contra a guerra e pela humanidade....O meu muito obrigado pela imagem,....Um abraço

Samantar Mohi disse...

Grande poema com vigor e ritmo com paixão e loucura e simplesmente escrito como os outros...e porque não as guerras serem letras?

Abraço, passa no meu blog ;)

Maria Strüder disse...

Picasso, não aprecio.
Os meus gostos vão mais para Munch e Dali.

J disse...

E o que é a poesia senão uma guerra intestinal entre as mais básicas necessidades fisiológicas e a vontade de nos tornarmos imortais.

O Micróbio II disse...

Conjugação perfeita entre a "Guernica" de Picasso e estas palavras...

Páginas Soltas disse...

Que belo poema!!
Quanta garra senti em cada palavra que li...lindo!!

Podem fazer guerras com as palavras....e com uma simples palavra...iniciar uma guerra.

Obrigada pela visita!
Vou colocar o teu link no meu Blog...adorei o que vi aqui!

Beijos da
Maria

filipelamas disse...

Gentileza retribuida!

joaquim.guilherme.blanc disse...

Este é, sem dúvida, um dos melhores poemas publicados no T&L. Não me canso de o ler e reler.

GBN disse...

Caro Poeta: por vezes, as palavras conluiadas com as mãos (como que ganhando autonomia e no mais puro desrespeito pelo entendimento) impõem pesadamente letras na "folha amachucada" como que numa bellum sine bello. Por vezes é inevitável esse bombardeamento; kátharsis na maioria das vezes. Este seu poema lembrou-me esse oxímoro pessoano.

Maria Carvalho disse...

Visito-te através da portuguesapoesia. Gosto dos teus poemas.

Claudia Sousa Dias disse...

Olá Filipe!

Poema excelente.

Eu só eliminava o verso "Perdida, desencontrada"

Mas é a minha opinião pessoal...


Beijinho.


CSD