segunda-feira, julho 31, 2006

Intervalos de lucidez, vida de loucura


Bosch, La Nef des Fous, 1498, Le Louvre.

Não tinha esse perfume, dos Narcisos!...
Nem o calor fervente dos Abraços!...
Aquela, a quem um dia abri os braços...-
que me encantava a alma de sorrisos!...
- Vi seus olhos, então!... - os lagos lisos
Não são mais cristalinos...nem mais frios!...
- Pobres Almas de Moços... - Balbucios
E Inocentes! - e ínscios!... - E indecisos!!!...


Ângelo de Lima, in: Poesias Completas, org., pref., e notas de Fernando Guimarães, Assírio & Alvim, 1991.

Em Ângelo de Lima, poeta portuense (1872-1921), encontra-se o eixo de intersecção entre a poesia, o génio e a loucura. Internado no hospital psiquiátrico de Conde de Ferreira e depois no hospital de Rilhafões (Lisboa), onde morreria, apenas em 1971 foram publicadas as suas Poesias Completas. Em quase todas elas perpassa um sabor a alucinação, a desprendimento corpóreo do espírito, a divinização de palavras que o poeta cria, porventura atrás de grades e sob influência de tratamentos hoje banidos da psiquiatria. Dono de intervalos lúcidos, escreveu no segundo volume da revista Orpheu (1915), ao lado de nomes como Pessoa, Mário de Sá Carneiro ou Almada Negreiros. A cidade que o viu nascer para a loucura da vida deve-lhe uma homenagem. Mesmo que seja apenas num simples intervalo de lucidez.

(Leia-se, com interesse, Fernando Hilário, A Loucura de Ângelo de Lima. Eu sinto sempre o que escrevo, Ed. UFP, € 12,00.)

9 comentários:

rtp disse...

Muito bem. Mais um ...

Soneto
Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento...

Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado...
Pára e fica e demora-se um momento.

Pára e fica na doida correria...
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria

Um olhar de aço que essa noite explora...
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

Ângelo de Lima

In "Líricas Portuguesas", seleção, prefácio e notas de Cabral do Nascimento, Portugália Editora, 1945, Portugal

Claudia Sousa Dias disse...

Obrigada pela tua visita, Filipe!


Em reçlação a este post, a escolha do quadro não podia ter sido melhor!

CSD

filipelamas disse...

Magnífico este soneto! Mais um argumento para a merecida homenagem a Ângelo de Lima. Rtp em acção!

Jack disse...

Obrigado. Nós somos felizes que você gosta de nos. Mas nós devemos aprender Portugese apreciar seu blog. (Is this good?)

filipelamas disse...

Está quase perfeito! Almost perfect! We'll try to include some texts in English!

Manuel Proença disse...

"As fronteiras entre a loucura e a sanidade são franqueadas todos os dias, a cada minuto. É essa, porventura, a energia que faz girar o mundo, todos os dias, a cada minuto."
Um amigo meu, acho que intelectual ou assim, pediu-me para enviar isto e eu acedi, embora não compreenda bem nada disto.
Manuel Proença

Gabriel Villa disse...

Seu blog agora está devidamente linkado na minha seção de links. Crescendo para o outro lado do atlântico!

filipelamas disse...

Muito e muito obrigado! A nossa Pátria é a Língua Portuguesa, como dizia Pessoa.

filipelamas disse...

Retribuída a sua gentileza! Blogs irmanados dos dois lados do Atlântico!