domingo, agosto 06, 2006

Curtas sobre Metragens


The Wind That Shakes the Barley, Brisa de Mudança, 2005.
Realização: Ken Loach
Elenco: Cillian Murphy; Padraic Delaney; Liam Cunningham; Gerard Kearney; William Ruane
Argumento: Paul Laverty
Género:Drama
Duração:127 min.

Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2006, o filme interroga-nos de modo pungente sobre os valores em que acreditamos e sobre os limites até aos quais estamos dispostos a levá-los. No argumento (de Paul Laverty), em geral de muito boa qualidade, dois irmãos ligados pela mesma vontade de uma Irlanda livre do jugo britânico, caminham lado a lado até ao ponto em que a real politik entra em cena e, como tantas vezes, um deles opta pelo possível e realista, enquanto outro, um sonhador e porventura utópico médico, não capitula perante um tratado de paz com o poderoso Reino Unido e, fiel à morte de um companheiro de brincadeira que se viu forçado a infligir em nome dos seus princípios, junta-se a outros camaradas para passar a lutar, agora contra outros irlandeses. A luta fratricida acaba em desgraça, com uma intensidade dramática adequada, sem cair em dramalhões soturnos e sem apego à realidade.
Esta é, também – ou sobretudo – uma reflexão sobre a inflexibilidade e a teimosa extrema que, em nome de princípios democráticos, nada mais é que uma dura tirania. Através de alguns planos de paisagens deslumbrantes da orografia da República da Irlanda, somos conduzidos à certeza de que a vida faz-se com soluções de compromisso. Ao invés, a luta intransigente e cega por propalados valores é apresentada como egoísmo egocêntrico (a redundância é propositada) e posta com toda a sua crueza: a morte física de Damien (Cillian Murphy) e a morte interior de Teddy O´Donovan (Padraic Delaney).
«Daqui a algum tempo, ajuda o Teddy. Ele vai precisar. Acredito que uma parte dele já estará morta nesta altura», escreve Damien à sua amada Seamus, em carta que o próprio mandante Teddy se encarrega de levar à mulher destroçada. Frase poderosa não apenas pela grandeza do gesto do perdão de quem percebe que os ideais extremados são contra natura, mas também pela lição histórica: os extremismos vividos na Irlanda de 1920 são, no essencial, os mesmos que hoje pululam, entre outros, na guerra entre Israel e o Hezbollah (ou o Líbano, consoante a leitura política que se prefira).
Representações acima da média de Cillian Murphy e de Padraic Delaney, em especial do primeiro, para um guarda-roupa que, sem ser excelente, faz jus ao filme. Contudo, algumas cenas do filme poderiam, sem prejuízo do argumento, ser retiradas, de tal modo que a película ganhasse ainda mais acutilância.
Em época de silly season, eis um bom motivo para manter alguma ginástica mental. Ken Loach continua em bom nível depois de Land and Freedom (1995), não se aproximando em demasia de Michael Collins, o que é sempre tentador nesta temática.

2 comentários:

Gabriel Villa disse...

Bom saber... vou ver também, quando sair no Brasil.

filipelamas disse...

Cá está a cooperação entre os dois blogs irmãos!
Grande abraço.