quinta-feira, maio 03, 2007

The funny side of Dublin (V)

Hard Rock Cafe, Temple Bar, Dublin, Abril de 2007

Early Night Posts (25)

Le thérapeute, René Magritte,1941, Colecção Privada


"Foi então que Akáki Akákievitch, percebendo que era impossível passar sem capote novo, desanimou por completo. Mas como, sim, como, com que dinheiro faria o capote? (...) Precisava de calças novas, de pagar ao sapateiro uma velha dívida de umas gáspeas que mandara deitar às botas e, além disso, encomendar três camisas à costureira e duas peças dessa roupa interior que é considerado indecoroso mencionar em letra de imprensa – numa palavra, todo o dinheiro ia para estas despesas; (...)Akáki Akákievitch decidiu que era necessário reduzir as despesas rotineiras, pelo menos durante um ano: prescindir do chá à noite, não acender as velas à noite ( ...); ao andar, na rua, pisar pedras e lajes o mais cautelosa e levemente possível, quase em bicos de pés, para não gastar tão depressa as solas; reduzir as entregas de roupa à lavadeira e, para que se sujasse menos, tirá-la logo que chegasse a casa e vestir a sua velhíssima bata de fustão, poupada pelo próprio tempo. Verdade seja dita que, nos primeiros tempos, lhe era um pouco difícil(...); em compensação, alimentava-se espiritualmente, sempre com a eterna ideia do futuro capote na mente. Desde então, a sua vida pareceu tornar-se mais cheia, (...) como se não fora sozinho mas tivera a seu lado um ser amigo e simpático que aceitara caminhar de mão dada com ele pelos caminhos da vida – e tal ser amigo mais não era do que esse capote, de algodão grosso por dentro e um forro sólido e resistente."


Nikolai Gógol, O capote, Assírio e Alvim, 2002, pp. 39-41

quarta-feira, maio 02, 2007

Good Morning Heartache ou o Bálsamo Celestial

É curioso como um momento de entretenimento assumidamente leve pode deixar marcas. Foi o que me aconteceu depois de assistir no Coliseu do Porto à peça «Sua Excelência, o Candidato». Exceptuando alguns momentos genuinamente hilariantes protagonizados por Wilson de Santos, que representava Eurípedes, o mordomo travesti, tratou-se de uma verdadeira travessia do deserto. Para retratar o clima de corrupção generalizada na sociedade brasileira, em geral, e na classe política, em particular, choveram clichés já muito gastos, fórmulas destinadas a arrancar automaticamente o riso e o entusiasmo da plateia. Curiosamente, nem tanto teria sido necessário: é que bastou a presença do protagonista (Reynaldo Gianecchini) para a plateia se render. Felizmente para ele, a admiração da maioria das pessoas que estiveram na plateia era incondicional, if you know what I mean…
Por isso, procurando refazer-me da experiência, deixo-vos aqui um bálsamo celestial: «Good Morning Heartache», interpretado por Eleanora Fagan Gough, mais conhecida como Billie Holiday, uma das minhas cantoras favoritas. Cada música que interpretava parecia um pedaço arrancado à sua vida, tal era o sentimento e a autenticidade com que o fazia.

terça-feira, maio 01, 2007

Luz (I)

Candeeiro na ponte Ha`Penny sobre o rio Liffey. O nome desta ponte pedestre deriva do montante da portagem (half penny) que outrora tinha de ser pago para fazer a travessia entre as duas margens, entre o norte e o sul da cidade de Dublin.

segunda-feira, abril 30, 2007

sexta-feira, abril 27, 2007

Life is beautiful that way


Depois da referência a uma perspectiva sonhadora da vida “à la Floribela” e para ultrapassar algum cinzentismo da vida quotidiana, deixo aqui uma melodia entranhável e perfumada que é um hino à vida e à alegria de viver. A composição é de Nicola Piovani. Faz parte da banda sonoro de “A vida é bela” de Roberto Begnini. É interpretada pela voz divinal da cantora israelita Noa.
Para erradicar algum desalento e pessimismo, fica, então, o mote:
"Smile, without a reason why
Love, as if you were a child
Smile, no matter what they tell you
Don’t listen to a word they say
'Cause life is beautiful that way

(...)

Keep the laughter in your eyes
Soon, your long awaited prize
Well forget about our sorrow
And think about a brighter day
'Cause life is beautiful that way."

Como afinal não é possível "postar" o vídeo em questão, deixo o endereço do you-tube onde pode ser vista esta canção bem-disposta: http://www.youtube.com/watch?v=9HuXWD3ViW4

O mesmo


Metropolis, George Grosz, 1916-17, Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid.

Toquei hoje o limite do céu,
do azul, do cinzento, do negro.
Viajei em espumas de nuvens fofinhas
ao acordar de noite tormentosa.
Não era eu quem ia ao leme,
nem representava um povo;
tão-pouco ia a mando de um rei.
Ia. Navegava. Naufragava.
Quando as carótidas incharam
até rebentar,
uma fada madrasta despertou-me
para de novo me embalar,
agora em dia final de Abril
a caminho de um trabalho que mais não posso suportar.
A janela do carro aberta até ao fim
invade o fato que tenho como cruzeta
de um odor a cidade poluída.
Não noto a diferença.
A poluição corre-me nas veias,
num sorriso forçado, num aperto de mão fingido.
Desaperto o nó da gravata ao passar
pela ilha e pelo bairro social
que a sociedade tanto evita.
Oiço aí risos. Sem mais nada.
Só risos.
Ao tempo que não me rio!
Ou melhor, ao tempo que do sorriso
não tiro um riso. Sincero. Amigo. Libertador.
Em pedaços de latas mais ou menos requintadas
ouvem-se as mesmas músicas escolhidas por outros,
as mesmas notícias inventadas por outros,
as mesmas mezinhas para as maleitas modernas,
inventadas por outros.

Nós e os outros –
é este o único sentimento de pertença
que nos resta.
Fazer parte de um grupo,
mesmo sem cartão de militante, sócio, associado,
filiado, fundador, aluno, docente, doente.

E os outros andam nas mesmas latas,
ouvem as mesmas músicas,
comem as mesmas notícias,
têm os mesmos cartões,
apenas de díspares cores.
Sua Excelência A Mesmidade!
Sua Excelência O Marasmo!

O semáforo está verde.
Vai, em direcção ao mesmo!

F.L.

quinta-feira, abril 26, 2007

William Butler Yeats


Aedh Wishes For The Clothes Of Heaven
Had I the heavens' embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

quarta-feira, abril 25, 2007

Abril


Um povo rural, adormecido,
preso por grilhões de atavismo,
contemplando retratos poeirentos,
obrigado a venerar deuses impostos,
acorda em manhã simples, pura e grande.
Com armas nas ruas,
corações em sobressalto,
Capitães do sonho e da lembrança da guerra
anunciam «posto de comando»
de vontades, de fraternidade, em Grândola.
A Vila Morena e a azinheira
são campos de cravos que pululam
em espingardas, canhões, peitos agora abertos,
em vozes que gritam «Liberdade!».
Revolução quase sem mortos,
sem que muitos dela tivessem real consciência:
assim são as coisas exactas na vida dos Povos –
estão lá, omnipresentes, em hibernação,
apenas aguardando o retumbar dos tambores
para espreguiçarem a ditadura
e restituírem a escolha do caminho a seguir.
De inofensivos cravos nas mãos,
os Portugueses atónitos contemplam
esta esquecida palavra de cristal: «Liberdade!».
O que fazer com ela?
O que fazer dela?

Abril nunca estará cumprido.
Aí reside o seu extremo significado.
Tal como a perfeição, Abril
faz-se por aproximações sucessivas,
em jardins de cravos, e rosas, e orquídeas,
e papoilas, e margaridas, e flores campestres.
É nessa multiplicidade de cores
que ainda hoje dorme a força de Abril,
à espera do príncipe que ponha termo
à Letargia.
Este príncipe é o operário, o agricultor,
o professor, o profissional liberal, o militar.
Príncipe é quem queira de Abril
receber a capa da Fraternidade e abrir
auto-estradas de ilusão de duplo sentido,
vagas e precisas, abstractas e concretas.

Impossível cumprir Abril?
Quem disse que os sonhos se cumprem?

F.L.

terça-feira, abril 24, 2007

Curtas sobre Metragens - A pianista


Título original: «La Pianiste».
De Michael Haneke.
Com Isabelle Huppert, Benoît Magimel e Annie Girardot.
130 minutos.
Áustria/França.
2001.

Associada à viva recomendação que me fora feita deste filme vinha apenas a vaga advertência do seu peso, que o tornaria alegadamente indigesto para os estômagos mais sensíveis e optimistas. Na verdade, passadas algumas semanas, ainda não o consegui digerir inteiramente, mas também não creio na eficácia do poder catártico desta crónica!
O filme encontra a protagonista, Erika Kohut, nos seus quarenta anos. Professora de piano no Conservatório de Viena, ela vive ainda com a mãe, uma mulher dominadora que usa todos os meios para forçar a filha a atingir os objectivos desde cedo traçados: ser uma pianista genial e reconhecida como tal. São objectivos que exigem uma dedicação total à profissão, mesmo que esvaziem a protagonista de vida própria e tornem a relação mãe-filha insuportável e violenta: a mãe revista-lhe a carteira, controla-lhe os horários e destrói-lhe as roupas demasiado femininas. Cedo se percebe que os objectivos são da mãe e não da filha, que se sente subjugada. Pegando nas palavras de Michael Haneke, a família é o locus de uma guerra em miniatura. A pergunta que se impõe a cada instante é: por que é que Erika não se revolta?
A única fuga a este «outro mundo» que Erika empreende são as idas praticamente diárias a peep shows e sessões de cinema pornográfico. A sexualidade representa para ela uma libertação do domínio materno, mas nunca é vivida na primeira pessoa - sempre por intermédio das vivências dos outros. Ela respira, observa e consome um pouco da vida dos outros, na falta de uma vida própria. Esta atitude de voyerismo é acompanhada de um masoquismo que chega à auto-mutilação. Será para ver se é capaz de sentir algo? Curiosamente, quando encontra um aluno seu a espreitar revistas pornográficas, admoesta-o fortemente, considera-o um pervertido, humilha-o e ameaça-o. Tudo isto na sala de aula, claro, o seu território exíguo de poder. Na verdade, submissa ao poder da mãe, Erika faz questão de submeter à sua tirania os alunos que orienta, inspirando-lhes medo e provocando-lhes humilhações. Perante eles, ela é, ao mesmo tempo, uma pianista dotada e uma mulher gélida e inclemente.
A esperança parece, finalmente, surgir quando Walter Klemmer (interpretado de forma muito convincente por Benoît Magimel), um jovem estudante de piano, entra na vida de Erika. Fascinado pela professora quando a ouve interpretar Schubert, declara-se apaixonado e tenta por todos os meios seduzi-la, usando dois trunfos importantes: o seu ar irresistível e o seu talento aparentemente inato para o piano. Aqui começa, porém, um jogo de recíproca submissão e dominação que conduzirá, não à esperada salvação mas à destruição. Surpreendendo todas as expectativas de Walter, Erika cede às suas investidas, mas em vez de mostrar, pela primeira vez, alguma afectividade, traz à luz do dia todas as suas neuroses: o medo das emoções, o medo de perder o controlo e o medo de se submeter mais uma vez. Erika afirma que é desprovida de sentimentos e que, se algum dia vier a tê-los, eles nunca poderão vencer a sua inteligência. A sua reacção a estes medos é inesperada: Erika exige a Walter que a torture de forma cruel, de acordo com regras rigorosamente traçadas numa carta escrita, já que estes desejos são demasiado inconfessáveis para serem ditos. Ela assume o comando da «relação», exigindo a sua própria submissão! Confirma-se: também o sexo é um palco do poder. De ser amado, a personagem interpretada por Isabelle Huppert passa a ser abjecto, desprezado e incompreendido. No entanto, ela limita-se a transportar para a relação com Klemmer os elementos da violência, da submissão e da falta de afectividade, bem presentes na relação filial. Ela magoa e quer ser magoada, tal como terá aprendido durante a infância e a juventude.
E, afinal, tudo o que ela exige concretiza-se brutalmente, mas num momento em que, aparentemente, já nada deseja. As lágrimas que chora são verdadeiras e amargas. Já não encontra prazer na violência – só sofrimento. Somos confrontados com a perda de qualquer réstia de dignidade humana, com a degeneração completa. A pianista vive (a pedido) a experiência de uma mulher desprovida de todo o poder numa sociedade machista e repressiva. Porque é maltratada, maltrata e maltrata-se. Assim ela não vive, ela vai morrendo interiormente.
Isabelle Huppert desempenha com mestria o papel. Sem qualquer exuberância dramática, conduz-nos permanentemente para a penumbra que habita e impede-nos de desviar o olhar. Mergulha-nos na introspecção e aprisiona-nos na sua imobilidade. Choca-nos com a sinceridade das suas pulsões contraditórias e inconfessáveis.
Sabemos que o livro de Elfriede Jelinek, no qual se baseou o filme, é, em grande parte, autobiográfico. A mãe da escritora galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 2004 morreu aos 96 anos, completamente louca. Partilhavam a mesma casa em Viena, na qual a velha mulher, nos últimos tempos, proibira a entrada do genro. Tal como Erika, também a escritora tem uma sólida formação musical, na qual a mãe concentrou todas as suas ambições. Ao contrário daquela personagem, porém, Elfriede conseguiu escapar a este domínio.
Diferentemente do que sucede com o livro de Jellinek, que ainda recua ao passado de Erika na tentativa de explicar o presente, o filme de Michael Haneke nada explica, limitando-se a relatar experiências com o intuito de deixar ao espectador liberdade total para interpretar e tirar conclusões sobre o que vê. Trata-se, porém, de um presente envenenado: perante uma falta de explicação para a violência e para a perda do que é mais essencial no Homem, o espectador sente-se sem esperança, desalentado, desiludido. A ferida provocada pelos tempos que correm fica exposta: será este o resultado das constantes lutas de poder, da busca desenfreada do sucesso, da perda de solidariedade e do esvaziamento da importância da família e do afecto?

segunda-feira, abril 23, 2007

domingo, abril 22, 2007

Crónica da semana que se inicia


A grandeza de um ser humano mede-se pelo despojamento com que enfrenta canhões eivado da serenidade de pisar um campo de margaridas floridas e com a certeza de que sem Liberdade a vida nada mais é que uma sucessão de episódios em que à noite, pousada a cabeça no travesseiro, se sente vergonha ao olhar para um filho e ao dizer-se filho de uma Pátria.

F.L.

Deste modo singelo, o T&L lança o tema mais marcante da semana que ora se inicia e presta homenagem ao capitão de Abril.

Black & White - Amigos de Parabéns!!


No âmbito do 4.º Festival Audiovisual Black & White, o qual decorreu de 19 a 21/4/2007 na Universidade Católica Portuguesa – Centro Regional do Porto, Joaquim Guilherme Blanc e Nuno Sá arrecadaram um dos prémios mais desejados: melhor curta-metragem. Os estudantes de Direito deram provas de elevada qualidade e, como amigos do Tretas, estão duplamente de parabéns!
A curta, intitulada “Suite”, fez furor por entre trabalhos de estudantes de cinema, num festival com obras internacionais e já com considerável sucesso, organizado pela Escola das Artes da Católica.
Estamos todos ansiosos por ver esta primeira “master piece” da dupla Guilherme/Nuno! Passem pelo “Bunker”, aqui linkado.

PARABÉNS!

quinta-feira, abril 19, 2007

Sunset - Nitin Sawhney

"Sunset" pertence a "Prophesy", álbum de 2001 de um dos meus músicos favoritos: Nitin Sawhney.
Os trabalhos reflectem as suas raízes. É britânico de ascendência indiana.
Para além de misturar muito bem as sonoridades do mundo ocidental (nomeadamente electrónicas) com as das culturas orientais, utiliza a música para transmitir mensagens muito interessantes. Em variadas canções, e sobretudo nos videos, deparamo-nos com uma perspectiva crítica de certas características do nosso mundo.
Já era fã. Mas depois do vibrante concerto a que tive o imenso prazer de assistir na Casa da Música, há cerca de dois anos, redobrei a minha admiração. Sawhney, na apresentação de “Philtre” arrebatou o público numa sala 1 apinhada.

quarta-feira, abril 18, 2007

Tributo

Com a desculpa de que hoje se comemora, no Brasil, o "Dia do Amigo", aqui deixo um tributo a todos quantos me concedem o dom de serem meus Amigos!
Ninguém como O'Neill conseguiu captar a vera essência da Amizade. Nunca, em tempo algum, será possível escrever hino mais profundo e belo a esse sentimento.

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O’Neill, in No Reino da Dinamarca

terça-feira, abril 17, 2007

The funny side of Dublin (II)


Doors of Dublin - Abril 2007


Uma das características curiosas de Dublin é a profusão de cores das portas das casas: amarelo, vermelho, branco, várias tonalidades de azul e verde …
A austeridade e traços rectilíneos dos edifícios em tijolo castanho escuro e o sentido de proporção e simetria das suas fachadas - típicos do estilo georgiano (século XVIII, reinados de George I, II e III) que caracteriza quase toda a face arquitectónica da cidade - são quebrados pela coloração divertida das suas portas.
Este interessante facto encontra, aparentemente, a sua origem histórica no início do século XX. Parece que, aquando da morte da rainha Victoria, em 1901, foi emanado um decreto (“decree”) que dispunha que as portas das casas deveriam ser pintadas de preto em sinal de dor e em homenagem à monarca falecida. Ora, os irlandeses, fazendo jus à sua fama de rebeldia e aproveitando o ensejo para manifestar os seus ímpetos independentistas, pintaram as portas com todas as cores do arco-iris, excluindo o preto.
Existe uma outra explicação para um tão vasto espectro de cores. Uma explicação bem mais prosaica. Diz-se que é uma forma de os irlandeses, perante um complexo urbanístico tão uniforme, conseguirem identificar a respectiva casa, no regresso ao lar, depois de uma noite bem bebida nos pubs.
Qualquer que seja a explicação, as “doors of Dublin” são um divertido ícone desta cidade animada, despretensiosa e acolhedora.

segunda-feira, abril 16, 2007

The funny side of Dublin

@ Parnell Street, transversal da O`Connell Street (uma das avenidas principais de Dublin)

Lições de Dublin (III)

Vale de Avoca, onde se encontram os rios Avonmore e Avonbeg, formando o rio Avoca
Abril de 2007


The Meeting of the Waters

THERE is not in the wide world a valley so sweet
As that vale in whose bosom the bright waters meet;
Oh! the last rays of feeling and life must depart,
Ere the bloom of that valley shall fade from my heart.

Yet it was not that nature had shed o’er the scene
Her purest of crystal and brightest of green;
’Twas not her soft magic of streamlet or hill,
Oh! no—it was something more exquisite still.

’Twas that friends, the beloved of my bosom, were near,
Who made every dear scene of enchantment more dear,
And who felt how the best charms of nature improve,
When we see them reflected from looks that we love.

Sweet vale of Avoca! how calm could I rest
In thy bosom of shade, with the friends I love best,
Where the storms that we feel in this cold world should cease,
And our hearts, like thy waters, be mingled in peace.

Thomas Moore (1779–1852)

domingo, abril 15, 2007

Lições de Dublin (II)


Hélas!

To drift with every passion till my soul
Is a stringed lute on which all winds can play,
Is it for this that I have given away
Mine ancient wisdom, and austere control?
Methinks my life is a twice-written scroll
Scrawled over on some boyish holiday
With idle songs for pipe and virelay,
Which do but mar the secret of the whole.
Surely there was a time I might have trod
The sunlit heights, and from life's dissonance
Struck one clear chord to reach the ears of God:
Is that time dead? lo! with a little rod
I did but touch the honey of romance -
And must I lose a soul's inheritance?

Oscar Wilde (Dublin, 1854 - Paris, 1900), The Collected Works of Oscar Wilde, Londres: Wordsworth Editions, 1997, p. 769.

sábado, abril 14, 2007

Lições de Dublin


No centro de Dublin, na movimentada O'Connell Street, há uma estátua que prende a nossa atenção.
Um homem de braços erguidos, em posição de orador e de guia de multidões parece interpelar-nos e exigir-nos mais do que uma simples passagem por uma cidade de que se aprende a gostar, principalmente pela afabilidade das suas gentes.
Trata-se de James (Big Jim) Larkin (Séamas Ó Lorcáin - 1876-1947), importante fundador do movimento sindicalista do Éire e impulsionador do Dublin Lockout de 1913 que esteve na base, para além de uma multiplicidade de outros factores, da independência da Irlanda, em 1922, com a entrega do poder, no Upper Yard do Castle of Dublin, por parte do Vice-Rei (representante da coroa do Reino Unido) a Michael Collins, do então recém-criado Estado Livre da Irlanda.
Mais do que o movimento sindicalista, mais do que o apoio à revolução bolchevique e os ensinamentos da doutrina comunista que Larkin foi beber nos EUA (valendo-lhe uma condenação em pena de prisão, entretanto parcialmente perdoada), de entre os muitos discursos inflamados deste nacionalista (porventura hoje tido como terrorista...), há uma frase que se encontra numa lápide aposta na dita estátua e que trouxe gravada em letras que não quero esquecer:

Les grands ne sont grands que parce que nous sommes à genoux: Levons-nous!


Ní uasal aon uasal ach sinne bheith íseal: Éirímis!


The great appea
r great because we are on our knees: Let us rise!

O francês, o gaélico e o inglês dão uma dimensão ainda mais universal a uma verdade em si mesma comum a toda a Humanidade.