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desfazem-se à passagem das gentes.

Paula Rego, Mulher-Cão, 1994.
Que vis expansiva é esta que sinto dentro de mim? Que gigante adormecido feito Adamastor habitava no topo de gárgulas de catedrais flutuantes em terrenos fosforescentes de ilusão? O que faço com esta força indómita que me leva ao infinito, que me conduz às portas da loucura e que de novo me abeira da normalidade do acontecer humano? Quem me conhece afinal, no mais fundo e num âmago que nem eu próprio conhecia?
Serás tu, na verdade, parente fiel que me segura a fronte caída e que por mim vela em noites de intensa febre e assintomáticas dores? Serás tu, irmão amado; tu sim, espécie de”herói por conta própria” como um dia escreveste? Para ti guardo o pecúlio acumulado com sacrifício. Com intenso sacrifício. Aquele que mais custa na vida, pois importou da vida desistir, ou ao menos de um segmento importante dela.
Erupção vulcânica de rochas basálticas. Tudo está a transformar-se. Mais verdadeiro, menos inquieto, mais seguro, de mim, de Ti, de todos. Depende-se um pouco menos das convicções externas. Afirma-se um pouco mais a pauta interna.
Os custos estarão para vir, a conta ter-se-á de pagar. Nessa altura recorrerei à fonte campesina das origens, à enxada de terras do Marão e correrei os vendilhões do templo. Haverá balanças injustas e desequilibradas pelo ar, moedas contrafeitas e grilhões de dor desapartados. Não haverá “choro e ranger de dentes”, pois de visão apocalíptica se não trata. Apenas uma rolha de um finíssimo champagne que se abre para ser bebido por bocas que se desejem abeirar do altar da partilha. Serão poucas as flutes servidas, mas o espaço do altar também é exíguo…

Wassily Kandinsky, Conjunto multicolor.
Dá-me um pouco de azul! Não te peço muito!
Apenas que me mires com o espelho do teu olhar.
Dá-me um tudo-nada de verde.
Sempre me interessei por entretecer cores misteriosas
com debruadas lantejoulas de vestidos em corpos subtis.
Dá-me um bocadinho de castanho! Do claro, acobreado.
Daquele matiz com que naturalmente o teu cabelo pintado foi.
Ouvi dizer que é a tonalidade mais sincera.
Uma cor pode ser sincera?
Ainda que os respectivos portadores nem sempre o sejam?
Dá-me algo de branco!
Da tua aura em geral.
Exalas tranquilidade
por cada poro delicado da tua pele de neve vestida.
Como anseio o branco… onde repousar após cada batalha
do acordar-deitar.
E… sim,
dá-me uma pincelada de negro,
apenas para o quadro real tornar.
Não que tenhamos de viver o e no negro, mas convém tê-lo ao pé.
Será como aqueles unguentos que perdem validade por falta de uso.
E lembrar-nos-á a felicidade que temos…
juntos!
F.L.


Acordei com flocos de sol na almofada,
entre raios de esperança na mesa posta do
pequeno-almoço glutão.
Vesti-me a sonhar com algodão doce
envolvido em xaropes vermelhinhos
de romãs e framboesas.
Deitei-me ao mundo em nuvens
de leveza e jurei que o dia
seria um eloquente exercício de Felicidade.
Afinal foi mais ou menos
normal, o dia!
A Felicidade q.b. e
a noite está aí.
A normalidade de um dia
atrás de outro,
o desfiar do tempo em direcção
ao infinito (dizem… E quem diz ao certo?).
Mesmo que seja finito,
há uma casa para onde regressar,
um regaço à espera,
uma mão estendida em
santidade oferecida.
Afinal, foi um bom dia!
F.L.
Escuro manto de silêncio trazes em ti guardado.
Memórias vãs do passado contrapões ao teu destino.
Cordas mansas de violino enuncias na voz.
Pétalas de desgosto ponteiam flores murchas e secas,
dir-se-iam espinhos de calamidades caseiras.
Luz alba e desmaiada robustecida pelo
arco-íris de lágrimas vertidas em copos de
cristal gelado e inerte.
Levantas-te em direcção ao Nada,
vestes-te pensando no Tudo.
Lavas-te sem pensar (?), existindo apenas.
Sais de casa sem rumo, na direcção do poente.
Queres apanhar o dia já no seu fim,
ali mesmo perto do ocaso.
(Assim o tempo custa menos a passar
e a tua vida parece menos desinteressante.)
Regressa para casa!
Amanhã o ritual repete-se.
Tem esperança nisso…
F.L.