(...) não há país algum do mundo em que o amor não transforme em poetas os enamorados.Vejo que se fazem todos os dias para aí muitas coisas que não figuram no vosso livro [Bíblia] e que não se faz nada daquilo que o livro diz; confesso-vos que isso me surpreende e aborrece.Se precisais rodear-vos de tantas precauções, é porque não sois pessoas muito dignas.- Meu filho, tudo é físico em nós (...); toda a secreção faz bem ao corpo e tudo que alivia o corpo alivia a alma; nós somos as máquinas da Providência.Realmente, que é a história senão um quadro de crimes e infortúnios?A leitura alarga a alma e um amigo esclarecido dá-lhe consolo.(...) é preciso convir que Deus não criou as mulheres senão para domar os homens.Gosto das fábulas dos filósofos, rio-me das fábulas das crianças e odeio as dos impostores.A verdade brilha com luz própria e não se iluminam os espíritos com as chamas das fogueiras.Quer-me parecer que os juízos dos homens são muitas vezes movidos pela ilusão, pela moda, pelo capricho.Todos aqueles que se fazem perseguir por vãs disputas de escola me parecem pouco sensatos; os que os perseguem parecem-me monstruosos.
Voltaire, O Ingénuo, Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, 2008, pp. 26, 27, 30, 45, 48, 50, 51, 55, 61, 63.
“Um dos mais vulgares e divulgados preconceitos consiste em afirmar que cada pessoa tem apenas as suas características determinadas, que existem pessoas boas ou más, inteligentes ou estúpidas, enérgicas ou apáticas, etc. Mas as pessoas não são assim. Podemos dizer de um individuo que é mais vezes bom do que mau, mais vezes inteligente do que estúpido, mais vezes enérgico do que apático – e vice-versa; mas será mentira se dissermos que uma pessoa é boa e inteligente, e que outra é má e estúpida. No entanto, classificamos sempre as pessoas desta maneira. O que é incorrecto. As pessoas são como os rios: a água deles é igual, a mesma por todo o lado, mas cada rio ora é estreito, ora é largo, ora é rápido, ora calmo, ora límpido, ora turvo, ora frio, ora quente. As pessoas também. Cada qual transporta em si o germe de todas as características humanas e manifesta ora umas, ora outras, e às vezes nem parece ele próprio, mas continuando, no entanto, a sê-lo.”
Lev Tolstói, Ressureição, Editorial Presença, 2010, p. 229.
Está quase a terminar o dia em que se celebra mais um aniversário do filipelamas. Mas a data não podia deixar de ser devidamente assinalada aqui no T&L! Muitos parabéns! E muitas felicidades!
E para nos redimirmos do facto do post ser publicado tão tarde (quase no dia seguinte ao da efeméride! A verdade é que a Rocky esteve a celebrar a conquista do campeonato até agora! ;-)) ), conseguimos que os Beatles te cantassem os parabéns (não é que seja o teu género musical, mas o que conta é a intenção, não é? ;-)) ) e que a nuvem de cinzas islandesas desse umas tréguas para que pudesses regressar ainda hoje ao "contEnente"! ;-)
Porque é que um desgraçado que tem de trabalhar num sábado à tarde, ainda por cima a um feriado maliciosamente apelidado de "Dia do Trabalhador", tem de levar com uma vizinhança que, mau grado habitar a algumas casas de distância, nos deleita (palavra adequada para moi même) com pérolas da Rádio Festival em altíssimos berros? Porque é que quando Deus (ou whoever) distribuiu o civismo, alguns estavam fechados em bunkers preparados para guerras atómicas de 3.ª geração (ou será já de 4.ª, fazendo o paralelo com os telemóveis?)? E, claro, como não pode o País - dizem, mas deve ser mentira... mais uma jogada suja da oposição anti-patriótica que conspira com o Presidente da República... - estar em estado de pré-bancarrota quando exactamente no Dia do Trabalhador não se faz nenhum? E não me digam que o feriado existe em muitos outros Estados, pois cada um sabe as linhas com que se coze... E não será por acaso que o 1.º de Maio também se celebra na... Grécia! Imaginem! Ele há coincidências...
Declaração de intenções (talvez a ter sido colocada a abrir o post): não, não sou nem nunca fui fascista, fascizóide ou fascizante... Acho que deve ser o último hit do Tony Carreira que me está a por neste estado... pré-comatoso...
Digna-se El-Marquis do Forno, Majestade Sereníssima, mandar o seu plebeu Ministro dos Assuntos Culturais e Quejandos informar a populaça que:
1. "Pieira" deriva do alto Fornense "pieirus" e que, segundo cópia do manuscrito datado de 1346, conservado no Real Tombo Fornense, terá sido pela primeira vez utilizado por um indivíduo dos patas ao léu para designar a sua mulher que, acometida de doença hoje conhecida por "gripe", terá ficado com os brônquios atacados, o que lhe provocou um estranho barulho na garganta, a que se alude hodiernamente quando nos referimos a dificuldades respiratórias. O m.q. "ter gatos".
2. Dona LN, Senhora de Aquém e Além Mar, será agraciada com o Grande Colar da Ordem Terceira Fornense, Grau Cultura, por ter iluminado as mentes mais sombrias com tão brilhante explicação.
3. Formula S. Alteza Sereníssima um novo desafio: "Cartimância".
E para constar se lavrou o presente edital que, depois de assinado por mim, Dom Luís de Allbuquerque Mattos de Sarayva e Menndonça, Ministro dos Assuntos Culturais e Quejandos, por graça do Senhor Marquis, vai ser afixado electronicamente nos locais de estilo da Corte.
Palácio de S. Pancrácio Fornense, aos vinte e seis dias do mês de Forno-Quatro do ano da graça do Senhor Marquis de trinta e dois. Dom Luís de Allbuquerque Mattos de Sarayva e Menndonça
Com ou sem cravo na lapela, comemorar Abril não pode continuar a ser uma sucessão de pseudo-moralismos históricos e de recadilhos inter-órgãos de soberania. Não pode ser uma esotérica evocação do passado sem perspectivar o futuro. Não deve ser um apelo ao divisionismo num país marcado pelo desemprego, pela dívida, pelo défice, pela desestruturação do aparelho produtivo nacional e pela perda do controlo de sectores estratégicos que garantem a manutenção de Portugal como Nação (haverá algum mal em usar um conceito de larga tradição sociológica, política e jurídica?). Não deve ser um mero feriado que se lamenta ter calhado a um Domingo. Deve ser um momento de reflexão e de alavancagem: se todos formos um pouco melhores e mais exigentes naquilo que fazemos, da periferia europeia faremos centralidade mundial.
Uma árvore (supostamente :-)) descendente daquela sob a qual Isaac Newton descobriu a gravidade - à entrada do Trinity College onde Newton estudou
Árvore à entrada do Clare College A proeminente capela do King`s College
Mais Punts no River Cam
No interior da sala de jantar do Gonville & Caius College (a imagem não faz jus à magnificência da sala. Um cenário digno de um filme de Harry Potter)
Ao Gonville & Caius College pertenceram 12 prémios Nobel (por exemplo, Sir James Chadwick que descobriu o neutrão ou Francis Crick que descobriu a estrutura do ADN) . Um número extraordinário, mas superado pelo Trinity College.
Uma das famosas cabines de telefone vermelhas e (ao longe) a torre da Biblioteca da Universidade de Cambridge, ambas desenhadas por Sir Giles Gilbert Scott.
Mais Punts
Parker`s Piece
A marca portuguesa - in casu devida aos carregamentos de vinho do Porto
Ippolito Scarsella, Virgin and angels imploring Christ not to punish lust, avarice and pride.
Quero ver o sol beijar os ladrilhos da tua Alma
e aspergir rios de mel em torrentes de lava.
Quero ver a lua ondear teus cabelos de calma
vestidos e de filigrana urdidos.
Quero ver um cometa desfazer a pedra cava
em melodias de orquestrados sentidos.
Quero.
By Appointment and with the necessary Authorization of Her Excellency, the Minister for Cultural Affairs of the High Kingdom of the Oven, Ms. Thumbelina, Duchess of St. Oven-in-the- Fields:
O Príncipe de Maquiavel é, como sabemos, o livro de cabeceira aconselhado a qualquer político.
A antologia de poemas de Bertolt Brecht (Porto: Campo das Letras, 2000) deveria ser o livro que todos nós, administrados, deveríamos ler em suaves tragos ao acordar. Lê-lo ao deitar por certo retiraria a tranquilidade necessária para um sono repousado. Ao iniciar o dia, quando bem digerida, a palavra brechtiana seria mais perigosa que qualquer conspiração terrorista.
Não se ignora que Brecht era ideologicamente comprometido. Apesar de nunca se ter inscrito no Partido Comunista, o homem que nasceu alemão (1898) e morreu austríaco (1956) elabora hinos profundos dirigidos à classe operária («Quem construiu Tebas, a das sete portas?/Nos livros vem o nome dos reis./Mas foram os reis que transportaram as pedras?» – Perguntas de um operário letrado). Entre uma super-estrutura e uma infra-estrutura de medo, desânimo, escravatura e uma ironia contagiante, o Poeta ridiculariza Hitler e todos os ditadores. Não que nisto se encontre uma visão maniqueísta. Ela só o é aparentemente. Recorde-se que Brecht parece sentir aversão intrínseca ao arquétipo de “homem bom”: «Escolhemos um bom paredão e vamos fuzilar-te com/Boas balas atiradas por bons fuzis e enterrar-te com/Uma boa pá debaixo da terra boa» [de que adianta ser bom?] – Algumas perguntas a um «homem bom». A conclusão de que os proletários são bons e os burgueses e latifundiários são maus é uma redutora e inconsequente visão da sua poética.
A ironia e o desdém em relação aos poderes instituídos são por demais evidentes. No poema Sente-se, cortante é o verso em que a idiotice é apresentada como o sumo alimento da classe: «Não há dinheiro que o pague.». Os políticos são satirizados ao ponto de a sua missão ser apresentada como o alfa e o ómega da ventura humana: «E atrever-se-ia a nascer o sol/Sem a autorização do Führer?» [amiúde referido como «o pintor», conhecida que era a vocação de Hitler em dedicar-se a essa carreira. A pintura teria perdido incomensuravelmente menos que a Humanidade…] (Dificuldade de governar). A esta figura, de jeito tão merecido apresentada como o anti-Cristo em Brecht, está reservado um mimo notável: «Se este homem insubstituível ressuscitasse ao oitavo dia [ao sétimo não poderia ser, marcando-se com a certeza da aritmética o que a História já deixava a descoberto] /Não acharia em todo o império uma vaga de porteiro» (A propósito da notícia da doença de um poderoso estadista).
De modo explícito e em tom acusatório puro: «Ou será que/Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira/São coisas que custam a aprender?» (idem). A resposta é dada e surge com uma simplicidade infantil comovente: «Mas não seria mais simples para o governo/Dissolver o povo/E eleger outro?» (A solução) – o uso de mecanismos democráticos invertidos em um jogo que desafia os traços estruturantes da ciência política.
O Autor fala de modo desabrido de um dos possíveis fins – do suicídio tem uma visão que diríamos romanceada, embora a pedagogia que assalta toda a sua obra logo o obrigue a asseverar-nos que: «De qualquer modo/Não se deve dar a impressão/De que se dava/Muita importância a si mesmo» (Epístola sobre o suicídio). Da relatividade da vida (e da morte) dá testemunho seguro ao ditar-nos o seu testamento (cerrado): «Gostaria que nela [pedra tumular] escrito fosse:/Ele deu sugestões: nós/Aceitámo-las./Uma tal inscrição/A todos honraria.» (Dispenso a pedra tumular).
Brecht não faz poemas para o leitor, mas sim com o leitor. Este último é convidado de honra na sua obra, é estrela da primeira companhia da guerra que tão de perto viveu e que o fez transformar-se em cidadão do Velho e do Novo Mundo. Em Sente-se, Brecht apelida o leitor de «idiota», confrontando-o com a sua pequenez («Você é um idiota./Está realmente a escutar-me?/Não há pois dúvida alguma de que me ouve com clareza e distinção?») e com a crueza do auto-conhecimento («E no entanto não é desinteressante para você saber o que você é/E no entanto é uma desvantagem para você não saber o que toda a gente sabe»).
Ele é capaz do escatológico, com uma inesperada ode heróica ao WC (O canto de Orge): «Nesse lugar é permitida a cada um a alegria/De ter por cima a estrela e, por baixo, a porcaria.»; «Lugar de humildade: nele saberás bem/Que não passas de um homem que nada retém».
Adverte-nos para a necessidade de estarmos sempre abertos ao que é novo, a não nos quedarmos pelo imobilismo, até porque a mudança está inscrita na natureza das coisas: «Quem ainda está vivo nunca diga nunca./O que é seguro não é seguro.» (Elogio da dialéctica). Contudo, da modernidade tem o Autor uma visão desconfiada, sancionando concepção bíblica de que nada de novo existe debaixo do sol: «A carne nova come-se com velhos garfos. (…) As novas antenas continuaram a difundir as velhas asneiras. [boutarde à comunicação social?] /A sabedoria continuou a passar de boca em boca.» [um apelo ao historicismo desligado do Volkgeist de que o nacional-socialismo se serviu como sustentáculo de hermenêutica jurídica?]
A visão descomprometidamente comprometida de Brecht fá-lo retornar aos assomos bíblicos: «Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.», revelando o génio da ascese, do sacrifício, do estóico suportar da ignominia: «Pela glória, quem não faria grandes coisas/Mas quem/As faz pelo olvido?» (Elogio do trabalho clandestino).
Dono de uma inigualável riqueza interior, da dor tem a preclara visão de caminho para a redenção e para a mudança: «Para atingir o que é grande há que passar por grandes transformações./E as pequenas transformações são inimigas das grandes transformações./Tenho inimigos. Logo devo ser célebre» (Citação). Cortes abruptos de pensamento são constantes na poética brechtiana.
A inteligência aguda e o modo inquietante como vê de um ângulo nunca visto as realidades estão bem patentes em Da Violência: «Do rio que tudo arrasta se diz que é violento./Mas ninguém diz violentas/As margens que o comprimem.». Ainda mais: «O que tem fome e te rouba/O último pedaço de pão chama-lo teu inimigo/Mas não saltas ao pescoço/Do teu ladrão que nunca teve fome» (Quem é o teu inimigo). Ainda: «Ah, nem todo o homem que regressa a sua casa é um vencedor/Mas não há vencedor que não regresse a sua casa.» (Este homem sabia elaborar um plano, e caiu…). Palavras incómodas contra o comodismo de encarar a realidade segundo grelhas de leitura pré-dadas e que se recebem de forma acrítica. Escrita revolucionário, dado que carregar no sangue o espírito revolucionário é ver o que mais ninguém vê; é sujeitar o mundo a uma leitura alumiada por uma perspectiva de jogo de luzes impassível de apreensão instantânea.
Devemos terminar. Brecht, neste exacto momento, asseveraria, com um olhar que imaginamos matreiro, sagaz e estupidamente humano: «Criança educada deve saber estar calada.» (O que uma criança tem de gramar).
Ainda bem que tenho podido usufruir um bocadinho da extraordinária oferta cultural da cidade de Hamburgo.
- Il Barbieri di Siviglia na Staatsoper Rosina: “Una voce poco fa qui nel cor mi risuonò.” (...) Berta: “Ma che cosa è quest’amore che fa tutti delirar? Egli è un male universale, una smania, un pizzicore, un solletico, un tormento, poverina, anch’io lo sento né so come finirà. Oh, vecchietta maledetta!”
- Brahms pelos St. Petersburg Virtuosen na sala pequena da Laeiszhalle;
Magnífica interpretação de obras Brahms, um músico de Hamburgo.
- Die Weihe des Hauses de Beethoven e Die vier Temperamente de Carl Nielsen na Laeiszhalle, pela Orquestra sinfónica NDR e dirigida por Alan Gilbert na sala grande da Laeishalle;
Concerto memorável. Muito interessante a obra de Carl Nielsen, dinamarquês.
Para Beethoven e a interpretação da orquestra e os dois solistas (violino e violoncelo) não há palavras.
- Matthäus Passion de Bach na St. Michaelis-Kirche.