domingo, março 21, 2010

Salome@Staatsoper Hamburg








Salomé
Música de Richard Strauss a partir de uma obra de Oscar Wilde.

“Das Geheimnis der Liebe sei grösser als das Geheimnis des Todes”

En(tarde)cedo


Salvador Dalí, Liquid Clocks.

Ontem dizem-me que saí tarde.

Não me lembro ao certo,

Por ter sempre tardia memória.

Mas se era assim tão tarde,

Como cheguei hoje tão cedo

À conclusão de que tardiamente

Ontem me afastei daquele lugar?

Não, talvez fosse cedo.

Sim.

Se cedo fora, então como explicar

A tardia hora em que percebi que

O cedo de ontem era o tarde de amanhã,

Ou que o amanhã de tarde ontem cedo despertou?

F.L.


sábado, março 20, 2010

Portrait


RTP`s Portrait by an non-communitarian MPI Researcher ;-)


Thank you AA! *

sexta-feira, março 19, 2010

E a Primavera já chegou a Hamburgo.
Ontem as temperaturas ultrapassaram os 18.º graus!
E as esplanadas e as margens do Lago encheram-se de pessoas!






Ah ... e as joaninhas já deram um ar da sua graça!

quarta-feira, março 17, 2010

Early Night Post (71) - Frühling ou a anunciação da Primavera


Frühling lässt sein blaues Band
Wieder flattern durch die Lüfte
Süße, wohlbekannte Düfte
Streifen ahnungsvoll das Land
Veilchen träumen schon,
Wollen balde kommen
Horch, von fern ein leiser Harfenton!
Frühling, ja du bist's!
Dich hab ich vernommen!

Eduard Mörike (1804-1875)
Como (quase) tudo na Alemanha a Primavera vai ser pontual. O tempo melhorou significativamente.
As temperaturas estão bem mais amenas (hoje máxima de 9, amanhã prevêem-se 12 graus positivos!)
Como me explicaram hoje, a Primavera é um tema muito versado na poesia alemã. Precisamente pela ânsia com que é esperada durante um Inverno muito rigoroso.
E, sobre o mesmo tema, do "nosso" Miguel Torga

ANUNCIAÇÃO
Surdo murmúrio do rio,
a deslizar, pausado, na planura.
Mensageiro moroso
dum recado comprido,
di-lo sem pressa ao alarmado ouvido
dos salgueirais:
a neve derreteu
nos píncaros da serra;
o gado berra
dentro dos currais,
a lembrar aos zagais
o fim do cativeiro;
anda no ar um perfumado cheiro
a terra revolvida;
o vento emudeceu;
o sol desceu;
a primavera vai chegar, florida.
Miguel Torga

terça-feira, março 16, 2010

Early Night Post (71)

Don Quijote, Paula Modersohn-Becker

"Não se tinham adaptado a uma existência comum, às alegrias das pessoas normais, a um destino mediano; viviam lado a lado com a mesma esperança sem nunca falarem nisso, ou porque não se apercebiam ou simplesmanete porque eram soldados ciosos do pudor das suas almas.
Se calhar também Tronk, provavelmente. Tronk seguia à risca os artigos do regulamento, a disciplina matemática, o orgulho da responsabilidade escrupulosa, e tinha a ilusão de que isso lhe bastava. Mas se lhe tivessem dito: será sempre assim enquanto viveres, sempre igual até ao fim, também ele teria despertado. Impossível, teria dito. Algo diferente terá de acontecer, qualquer coisa realmente digna, que nos permita dizer: agora, mesmo que tenha chegado o fim, paciência.
(...)
Parecia que tinha sido ontem, contudo o tempo não deixara de se dissipar com o seu ritmo imóvel, igual para todos os homens, nem mais lento para quem é feliz nem mais veloz para os desventurados.
Nem depressa, nem devagar, três meses tinham passado. O Natal já se dissolvera na distância, e também o novo ano chegara, trazendo por alguns minutos estranhas esperanças aos homens."

"O deserto dos tártaros", Dino Buzzati, Cavalo de Ferro, 2008, pp. 60-61 e

Dar


Dar é guardar sempre um pouco do outro. Receber é sempre entender do outro ao menos um pouco.


F.L.


Foto: Google

KZ- Gedenkstätte Neuengamme








Neuengamme KZ

"Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
(...)"
Primo Levi, “Se isto é um homem” , Teorema, 2009.

domingo, março 14, 2010

Pudera / Could I


Benjamin West, Omnia Vincit Amor aka The Power of Love in the Three Elements.


Pudera eu decidir e comandava o fim da tristeza, da angústia e do isolamento. Nomeava a esperança guardiã do Reino e o sorriso o seu fiel escudeiro. Pudera eu mandar e não mais verteria uma lágrima, não mais esboçaria um gesto de desânimo ou um sinal de fraqueza. Pudera eu reinar e amar-te-ia e tu amar-me-ias como inteiros, como Pessoas com brancos e negros, com escuridões escondidas atrás de portas de despensas. Pudera eu imperar sobre os homens e eles não mais se vergariam ao desmando, ao desprezo, à altivez do poder. Pudera eu soberanear e os únicos limites da Democracia seriam os limites do Homem. Sim, pudera eu mandar e o mundo seria diferente. Mas já não seria o mundo.


Could I decide and I would ordain the end of sadness, of anguish and of isolation. I would nominate hope the Kingdom’s guardian and smile its faithful shield-bearer. Could I command and I would no longer shed a tear, I would no longer outline a gesture of discourage or a sign of weakness. Could I reign and I would love you and you would love me as single pieces, as Persons with whites and blacks, with hidden darkness behind pantries’ doors. Could I domain over men and they would no longer have to bend over tyranny, contempt and powers’ haughtiness. Could I be a sovereign and the sole limits to Democracy would be Men’s limits.

Yes, could I command and the world would be different. But it would no longer be the world.


sexta-feira, março 12, 2010

Early Night Post (70)

Magritte, Decalcomania

"Cada um de nós é vários, é muitos, é uma prolixidade de si mesmos."
Bernardo Soares, O livro do Desassossego.


"Jeder von uns ist mehrere, ist viele, ist ein übermass an Selbsten."
Bernardo Soares, Das Buch der Unruhe.


*****

"E muitos deles (papéis) me parecem de um estranho; desreconheço-me neles."

Bernardo Soares, O livro do Desassossego.


"Und viele von ihnen kommen mir von einem Fremden geschrieben vor; ich kann mich in ihnen nicht wiedererkennen."

Bernardo Soares, Das Buch der Unruhe.

quarta-feira, março 10, 2010

segunda-feira, março 08, 2010

domingo, março 07, 2010

quarta-feira, março 03, 2010

segunda-feira, março 01, 2010

Early Night Post (69)

René Magritte

“Espezinhamos tanto com as palavras na boca como com os pés na erva. Mas com o silêncio também.
Edgar calou-se.
(…)
***

Emudecemos e tornamo-nos desagradáveis, disse Edgar. Falamos e tornamo-nos ridículos.”


Herta Müller, A terra das Ameixas Verdes, Difel, 2009, pp. 9 e 203.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Just Breathe

Pelos Pearl Jam

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

desalento ou a importância da pontuação



já não há poemas

apenas palavras

desalinhadas fora de ordem imprecisas sujas

o poeta desalentou

o sangue do seu ofício já não corre

é simplesmente uma matéria

vermelha e coalhada

as palavras cortantes desenfreadas oxigenadas de vida

partiram para parte incerta

nesse estado de ausência pré-morte presumida

o poeta resiste e das sílabas faz sons

que balbucia a despropositadas horas

segundos minutos horas

palavras apenas de uma outra

que dizem ser «dia»

já não há poemas

apenas palavras

descarnadas pungentes e definitivas


FL

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Cold Water

Cold Water Por Damien Rice.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

domingo, janeiro 31, 2010

Invictus


Invictus, Clint Eastwood, 2009

Mandela: "Forgiveness liberates the soul.
It removes fear. That is why it is such a powerful weapon."
Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

William Ernest Henley (1849–1903)

quinta-feira, janeiro 28, 2010

65 anos - Early Night Post (68)

“(…) porque o Lager é uma grande máquina para nos reduzir a animais, nós não devemos tornar-nos animais; (…) também neste lugar se pode sobreviver, e por isso, é preciso sobreviver, para contar, para testemunhar; (…). Que somos escravos, privados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, condenados à morte quase com certeza, mas que uma faculdade nos restou, e temos de a defender com todo o vigor porque é a última: a faculdade de negar o nosso consentimento. (…) Temos de engraxar os sapatos, não porque a tal obriga o regulamento, mas por dignidade e por propriedade. Temos de caminhar direitos, sem arrastar as socas, certamente não em homenagem à disciplina prussiana, mas para nos mantermos vivos, para não começarmos a morrer.”
***
“É Null Achtzehn. Não tem outro nome, Zero dezoito, os últimos três algarismos do seu número de matrícula: como se cada um se tivesse apercebido de que só um homem é digno de ter um nome, e de que Null Achtzehn já não é um homem. Penso que ele próprio se esqueceu do seu nome, age sem dúvida como se assim tivesse acontecido. Ao falar, ao olhar, dá a impressão de estar interiormente vazio, nada mais do que um invólucro , como algumas cartilagens de insectos (…), pegadas por um fio às pedras, e sacudidas pelo vento."
***
25 de Janeiro [de 1945] Como nos cansamos da alegria, do medo, da própria dor, do mesmo modo também nos cansamos da espera. Chegados a 25 de Janeiro (…), a maioria de nós estava demasiado exausta para esperar. (…)

26 de Janeiro [de 1945]. Jazíamos num mundo de mortos e de larvas. O último vestígio de civilização desaparecera à nossa volta e dentro de nós. (…)
Uma parte da nossa existência reside nas almas de quem entra em contacto connosco: eis porque é não-humana a experiência de quem viveu dias em que o homem foi uma coisa aos olhos do homem. Nós os três [Levi, Charles e Sómogyi] devemos uns aos outros ter conseguido evitá-lo em grande parte (…)
Mas a milhar de metros por cima de nós, nos rasgos entre as nuvens cinzentas, desenvolviam-se os complicados milagres dos duelos aéreos. Por cima de nós, nus, impotentes e inermes, homens do nosso tempo procuravam a morte recíproca com os instrumentos mais requintados. Um gesto do seu dedo podia provocar a destruição de todo o campo, aniquilar milhares de homens; enquanto o conjunto de todas as nossas energias e vontades não chegria para prolongar um minuto a vida de um só de nós.

27 de Janeiro [de 1945]. Madrugada (…)
Os russos chegaram enquanto Charles e eu levávamos Sómogyi para um lugar pouco afastado. Estava muito leve. Virámos a maca na neve cinzenta.
Charles tirou o boné. Tive pena de não ter boné. (...)"

Primo Levi, "Se isto é um homem", Teorema, 2009, p. 40, pp. 43-44 e pp. 174-176.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Tempo

Depois da chuva ...



quarta-feira, janeiro 13, 2010

I love the rain ...

... the most when it stops.

Por Joe Purdy.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Birds

Por EmilianaTorrini

Let's stay awake and listen to the dark

Before the birds, before they all wake up

(...)

Lend me your wings and teach me how to fly

Show me, when it rains

The place you go to hide

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Early Night Post (67)

L`Espoir Rapide, Réné Magritte, Hamburg-Kunsthalle

"Todos descobrem, mais tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também uma infelicidade perfeita é, igualmente não realizável. Os momentos que se opõem à realização de ambos os estados-limites são da mesma natureza: derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito. Opõe-se-lhe o nosso sempre insuficiente conhecimento do futuro; a isto se chama, num caso esperança; no outro, incerteza do amanhã. Opõe-se-lhe a certeza da morte, que impõe um limite a qualquer alegria, mas também a qualquer dor."
Primo Levi, "Se isto é um homem", Teorema, 2009, p. 15

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Early Night Post (66)

A adoração dos Reis Magos, de Jan Brueghel, "O Velho"


A Estrela

Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava

Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava

Do frio das montanhas eu pensei
«Minha pureza me cerca e me rodeia»
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava

E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava

E assim eles disseram: «Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela»
Então soube que a estrela que eu seguia
Era real e não imaginada

Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava

E a estrela do céu parou em cima
de uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água

Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado

Nesse lugar pensei: «Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens e tão perto»

Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, pp.29-31

We Three Kings



Na versão dos Blondie ... para o blog entrar em 2010 (finalmente!) com energia e diversão, e encerrar as festividades natalícias.

Um óptimo 2010 para todos!

quinta-feira, dezembro 24, 2009

O come, o come Emmanuel

Pelos Belle and Sebastian