terça-feira, novembro 09, 2010

Mendes Corrêa (1888-1960)


Um dos erros mais banais da nossa época é o de supôr que certos valores cristalizaram em fórmulas definitivas e que muitas das nossas concepções não sofrerão no futuro as transformações profundas que o nosso tempo impoz às do passado.

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As figuras históricas desfilam sem excepção nas galerias clínicas.

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Antes a ignorância, a sorrir e a cantar numa atmosfera de douradas ilusões, do que uma aparente sabedoria, cruel e macabra, semeando de ruínas tristes e de lúgubres fantasmas o caminho rude da vida!

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E quantos patifes passam a vida praticando imoralidades, sem que a lei penal os encarcere nas suas malhas!

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A virtude não floresce na secura dos desertos da alma nem na água pútrida dos pântanos sociais.

Corrêa (A. A. Mendes), A Nova Antropologia Criminal, Pôrto: Faculdade de Sciências da Universidade do Pôrto, Instituto de Antropologia, 1931, pp. 63-64, 67-68, 268, e 318.

quinta-feira, outubro 28, 2010

"Tango, mas pouco": novela em estreia




Resumo da semana:



Dulcineia fala com Sancho e decidem sentar-se à mesa para conversar sobre os problemas que os afligem. De repente, entram mais pessoas na sala e também se sentam. Gera-se uma enorme barafunda com papéis a voar e com vizinhos a entrar casa dentro a queixarem-se do barulho.
Entretanto, Aristóteles conversa com uns estrangeiros num Inglês técnico perfeito sobre coisas complicadas, mas que metem "bancarrota", FMI e doação de um tal Portugal a quem quiser. O filósofo recebe uma chamada do Chefe Supremo a ralhar-lhe por andar a falar com os estrangeiros e a revelar segredos. De volta a Dulcineia e Sancho, dança-se o tango, mas só um bocadinho. A música pára e Sancho, afinal, decide que já não ama Dulcineia. Esta, dá pulos de contente e Sancho explica aos pais o porquê do fim do noivado.
Pôr-do-sol e muitos pobres a remexerem no lixo que, entretanto, se acumulou.

O crime da mãe ou a mãe do crime

Afinal, acabo de descobrir que os tipos legais de crime têm uma família como todos nós! Com direito a mãe e tudo:

TVI (claro...):
Maria...
Mãe do homicídio

Mais uma pérola da TV portuguesa...

terça-feira, outubro 26, 2010

Bentham







Is it possible for a man to move the earth? Yes; but he must first find out another earth to stand upon.




Jeremy Bentham
, An introduction to the principles of morals and legislation, Oxford: Claredon Press, 1907, p. 5.

Early night post (74)


Descubrí que mi obsesión de que cada cosa estuviera en su puesto, cada asunto en su tiempo, cada palabra en su estilo, no era el premio merecido de una mente en orden, sino el contrario, todo un sistema de simulación inventado por mí para ocultar el desorden de mi naturaleza. Descubrí que no soy disciplinado por virtud, sino como reacción contra mi negligencia; que parezco generoso por encubrir mi mezquindad, que me paso de prudente por mal pensado, que soy conciliador para no sucumbir a mis cóleras reprimidas, que sólo soy puntual para que no se sepa cuán poco me importa el tiempo ajeno. Descubrí, en fin, que el amor no es un estado del alma sino un signo del zodíaco.

Gabriel García Márquez, Memoria de mis putas tristes, Barcelona: Debolsillo, 2009, p. 66.

sexta-feira, outubro 22, 2010

Prémios Príncipe de Astúrias (2010)

"Mi identifico fuertemente con todo el mundo latino: Italia, España e Hispanoamérica, Portugal y Brasil, sin olvidar, por supuesto, Francia. Lo que caracteriza mejor para mí el mundo latino es su ausencia de correspondencia permanente y sólida entre sus ciudadanos y sus instituciones. Francia y los franceses, España y los españoles, Italia y los italianos, nunca fueron las dos caras de la misma moneda. Siempre hemos tenido todos con el país del cual somos ciudadanos una relación que se parece más a una relación de amor, con sus pasiones y sus conflictos, que a una identificación profesional o filosófica."
ALAIN TOURAINE, na cerimónia de entrega do Prémio Príncipe de Astúrias de Comunicação e Humanidades, 22 de Outubro de 2010

"Tal como lo expresó otro novelista, Milan Kundera, Cervantes envió a Don Quijote a hacer pedazos los velos hechos con remiendos de mitos, máscaras, estereotipos, prejuicios e interpretaciones previas; velos que ocultan el mundo que habitamos y que intentamos comprender. Pero estamos destinados a luchar en vano mientras el velo no se alce o se desgarre. Don Quijote no fue conquistador, fue conquistado. Pero en su derrota, tal como nos enseñó Cervantes, demostró que «la única cosa que nos queda frente a esa ineludible derrota que se llama vida es intentar comprenderla». Eso fue el gran descubrimiento sin parangón de Miguel de Cervantes; una vez hecho, jamás se puede olvidar. Todos los que trabajamos en las humanidades seguimos el camino abierto por ese descubrimiento. Estamos aquí gracias a Cervantes.
Hacer pedazos el velo, comprender la vida… ¿Qué significa esto? Nosotros, humanos, preferiríamos habitar un mundo ordenado, limpio y transparente donde el bien y el mal, la belleza y la fealdad, la verdad y la mentira estén nítidamente separados entre sí y donde jamás se entremezclen, para poder estar seguros de cómo son las cosas, hacia dónde ir y cómo proceder. Soñamos con un mundo donde las valoraciones puedan hacerse y las decisiones puedan tomarse sin la ardua tarea de intentar comprender. De este sueño nuestro nacen las ideologías, esos densos velos que hacen que miremos sin llegar a ver. Es a esta inclinación incapacitadora nuestra a la que Étienne de la Boétie denominó «servidumbre voluntaria». Y fue el camino de salida que nos aleja de esa servidumbre el que Cervantes abrió para que pudiésemos seguirlo, presentando el mundo en toda su desnuda, incómoda, pero liberadora realidad: la realidad de una multitud de significados y una irremediable escasez de verdades absolutas. Es en dicho mundo, en un mundo donde la única certeza es la certeza de la incertidumbre, en el que estamos destinados a intentar, una y otra vez y siempre de forma inconclusa, comprendernos a nosotros mismos y comprender a los demás, destinados a comunicar y de ese modo, a vivir el uno con y para el otro."
ZYGMUNT BAUMAN, na cerimónia de entrega dos Prémios Príncipe de Astúrias para a Comunicação e Humanidades, 22 de Outubro de 2010

quarta-feira, setembro 29, 2010

Embargo

"Embargo", de António Ferreira, baseado na obra homónima de José Saramago, é uma experiência de "nonsense" e de algum humor. Um homem preso ao carro que urina pelas pernas abaixo, um coelho "mágico", uma trotinete em troca de uma máquina ultra-moderna que elabora desenhos tridimensionais de pés que seria a grande aposta da indústria do calçado...
Interpretações fraquinhas, com falta de vigor e de expressão, luz fraca e planos antiquados compõem o ramalhete.
Vale por alguns momentos de humor e por alguma alegoria do Homem preso à máquina, à tecnologia, por alguma (pouca) densidade de um diálogo entre pai e filha, pelo alheamento da realidade.

Obrigado à T. e ao T. pelo convite:)

domingo, setembro 26, 2010

Wall Street 2 ou o triunfo da economia do nada

Wall Street 2, de Oliver Stone, alia a lucidez da reflexão sobre a actual situação económico-financeira com os mais puros sentimentos humanos. Puros no sentido de serem pertença do género humano. A ganância e a generosidade. O amor e o egoísmo.
De tudo somos mesmo capazes, ainda que em detrimento daqueles que nos são mais próximos. Retenho a frase: "Os pais são os ossos onde os filhos afiam os dentes". Um verdadeiro "case study" para os Colegas psicólogos...
A vertigem do boato e o modo como ele influencia decisivamente os mercados de acções e daí se propaga à dita "economia real" são assustadores. Tudo, ao fim e ao cabo, se baseia na informação: boa ou má, saudável ou "lixo do subprime". A economia produtiva que tanta tinta e sangue fez correr, que alimentou revoluções e ideais, que fez nascer génios e ditadores, essa parece posta de lado, uma espécie de peça de museu. Viva a economia baseada... no Nada..., ou melhor, no nada.
Eu, por mim, preferia aquela que se baseava em produtos que víssemos, em géneros que comêssemos ou mesmo em adornos que pudéssemos usar. Devo ser um antiquado.

O curso de Direito segundo Mexia

Pedro Mexia in Grande Reportagem


Uma amiga de longa data pediu-me que lhe corrigisse as vírgulas na Tese de
Doutoramento. Com certeza que sim. Atirei-me, pois, às vírgulas. Mas
confesso que não estava preparado. É que a tese - não sei como dizer isto -
debruça-se sobre a problemática da cessão dos créditos.

Confortavelmente esticado na minha caminha, de lápis na mão, dei por mim
teletransportado ou, se preferirem, transplantado para a década de noventa
do século passado. Essa tarde recordou-me outras tardes, árduas e
infindáveis, há 12 ou 13 anos. Era, nessa época, aluno do curso de Direito.

Saquei o canudo em 1995. E, depois disso, tenho mantido o silêncio.
Mas agora, passado o período de nojo, aproveito para deixar aos meus
leitores dois ou três avisos sobre o dito curso.

Pois bem: trata-se da mais inconcebível, árida, macilenta e desprezível das
criações humanas. Reparem que nem sequer me refiro ao Direito propriamente
dito: sobre essa matéria a conivência dos juristas com tiranias sortidas e
as obras completas do Kafka chegam e sobram. Quero agora evocar apenas o
curso, aqules cinco penosos anos de colónia penal. Convém aliás explicar que
o curso de Direito tem cinco anos não por exigências curriculares mas como
forma de homenagem aos planos quinquenais soviéticos. A lógica de opressão,
de dirigismo e de extermínio é a mesmíssima. Não vou agora aqui sumariar a
minha experiência estudantil, a qual, aliás, foi aprazível a princípio e se
tornou depois indiferente.

Mas recordo-me bem do momento de viragem. Em pleno terceiro ano, o meu
descontentamento veio ao de cima violentamente, como um almoço mal digerido.
Estava numa aula de Direitos Reais. Estava aborrecido. Estava com sono.
Escrevinhava coisas num caderno. E em cima do estrado, o monocórdico mestre
dissertava sobre a «servidão de estilicídio». Eu explico: trata-se de
garantir escoamento das águas quando um prédio vizinho não está a mais de
cinco decímetros do outro. A minha vaga insatisfação com o curso tornou-se,
nesse segundo, algo de muito mais agudo, como uma úlcera que rebenta. Eu não
sabia o que queria fazer da minha vida; mas não era certamente estudar o
escoamento de águas e a distância entre os prédios. Que se lixasse o
estilicídio. Eu queria distância era do curso. Porque essa era a nossa
faina. Engolíamos, como óleo de rícino, noções assim intragáveis durante dez
infindáveis semestres.

Não apenas a acção de despejo, o IRS ou a recorribilidade do acto
administrativo, assuntos minimamente perceptíveis, mas muitas e muitas
bizarrias. A Constituição da Costa Rica. O inadimplemento culposo. A
impugnação pauliana. A venda a retro. A ineptidão da petição inicial. As
prescrições presuntivas. A substituição quase-pupilar. O fideicomisso. O
anatocismo. A enfiteuse. Os vícios redibitórios. Os impedimentos dirimentes
relativos. O contrato sinalagmático. O registo das sociedades em comandita.
O benefício da excussão. E, claro, a cessão de créditos. É preciso ter um
interesse desmesurado acerca das regras que regulam uma sociedade, em todos
os seus nauseabundos detalhes, para estudar estas salgalhadas. E para
aguentar os infindáveis casos entre o "senhor A" e o "senhor B", que vendiam
um ao outro casas, se processavam, pediam licenças de uso e porte de arma,
deixavam violas de gamba em usufruto, e por aí em diante. Por vezes iam mais
longe: o usufruto era em Amesterdão, a arma de Poiares da Beira, o processo
na Califórnia e a casa nas Comores. Quid juris?, perguntavam, sacanas, os
lentes. Não sabíamos nem queríamos saber.

Por esta altura, todos nós queríamos mais era que o senhor A e o senhor B se
quilhassem. Manhãs e tardes a fio assisti a isto. Noites e noites a fio
estudei isto. Vou ter olheiras para sempre por causa disto. Arruinei a minha
caligrafia por causa disto. Sofri horrores de nervos e bexiga por causa
disto. Aguentei o prof. Soares Martinez por causa disto. Comprei e sublinhei
de capa a capa catrapázios de setecentas páginas sobre a pensão de alimentos
por causa disto. Por isso vos digo, ó finalistas do liceu: não se metam
nisso.

Parafraseando Jaques Séguéla, diria que há actividades bem mais decentes.
Como pianista num bordel.

quarta-feira, setembro 22, 2010

Bravo, Isabel!

Só agora tive o (des)prazer de visualizar a mensagem de bom ano lectivo de Isabel Alçada.
Aconselho vivamente que todos a vejam. Um exemplo monumental do estado da educação em Portugal e de como não se dirigir a alguém. Antes de mais, o estilo: a Sra. Ministra parece que está a falar para mentecaptos. Mesmo (ou "memo", como ela própria diz...) um aluno de 6 anos acharia o tom infantil, com referências buçais e que roçam o anedótico – desde indicações sobre o pequeno-almoço, a importância de "comer coisas boas", até à maravilhosa descoberta de que o dia tem 24 horas e que os meninos devem dormir bem, dedicar-se a práticas desportivas... e estudar!
Já se sabia que os manuais de estudo, os métodos propostos (impostos) pelos "cientistas da educação" advogavam uma infantilização de consequências ainda não totalmente perceptíveis. Agora, não se esperava que a titular da pasta da Educação (!!) participasse neste suicídio colectivo que é o de desresponsabilizar os estudantes, diminuindo-os a seres inferiores incapazes de pensar.
O tom de voz, a extrema lentidão do discurso é o retrato fiel do País: empatado, a ruir por dentro, em estado de implosão.
Bravo, Sra. Ministra! Adorei esta "Uma Aventura no início do ano lectivo"! "Memo"!


sexta-feira, setembro 17, 2010

A Gaivota

A Gaivota, Teatro Nacional São João.
A Gaivota” nas palavras do Autor do texto (Tchékhov) numa carta enviada a Aleksei Suvórin em 1895: “Estou a escrever uma peça. […] Escrevo‑a com bastante agrado, embora pecando horrivelmente contra as regras de cena. É uma comédia com três papéis femininos, seis masculinos, quatro actos, uma paisagem (vista para um lago); muita conversa sobre literatura, pouca acção, cinco arrobas de amor”.

segunda-feira, julho 26, 2010

Memória


Xavier Cortada, "The Memory Painting", 1997

- Mestre, para construir algo de novo, por onde devo começar: pelas fundações ou pelo telhado?

- Que diz a tua consciência?

- Pelas estruturas de base, pois são elas que sustêm o telhado que abriga das intempéries.

- De que te serve ter um telhado se não deixas nada da antiga construção que te recorde o que ela significou para ti e tudo aquilo de bom que ela te proporcionou? De que adianta o novo pelo novo quando não tens memória?

FL

quinta-feira, julho 22, 2010

Muito obrigada pelas mensagens de parabéns e pelos votos formulados!
AA, muito obrigada pelo novo retrato. :-)

terça-feira, julho 20, 2010

Parabéns à menina da TV!!!!!!!


Deixámos passar em branco os 4 anos do Tretas, mas não podíamos deixar de "parabenizar" a nossa querida RTP por mais este dia natalício em que completa 13 anos de idade:) Está a ficar crescidinha!
Quem a viu e quem a vê, agora, uma senhora toda bem posta, inteligente e divertida, Amiga sincera e de todas as horas! Sim, senhor, os papás também estão de parabéns!

Embora um pouco tardiamente (as tarefas de fim de ano estão ao rubro...), aqui fica um grande beijinho de parabéns para aquela que é uma das almas deste blog e uma inspiração para todos nós!

Que viva a RTP, em HD, em 3D ou em qualquer formato!!!

Beijinhos,

Filipelamas
Rocky

quarta-feira, julho 14, 2010

terça-feira, julho 13, 2010

segunda-feira, julho 12, 2010

Synesthesia

"Synesthesia" de Terri Timely, premiada no Festival de Curtas de Vila do Conde, na competição de videos musicais.