quarta-feira, abril 29, 2009

La Ley de Herodes



La Ley de Herodes (México, 1999), realizado pelo conhecido Luis Estrada, é uma metáfora sarcástica e muito bem conseguida do poder político.

Algures numa aldeia perdida do México, em 1949, um humilde e ainda puro funcionário público e do partido PRI é enviado para San Pedro de Saguados, onde o anterior “presidente municipal” havia sido assassinado brutamente pela população.

As eleições estavam próximas e não se podia correr o risco de o Governo não conseguir dar conta de uma insignificante aldeia.

Escolhido por ser pouco dotado pela inteligência, Juan Vargas, então supervisor de limpeza municipal, chega a uma aldeia sem lei, ou melhor, apenas com a lei da corrupção. Vários métodos são experimentados e apenas o crime parece resultar. O outrora simples e honesto Juan transforma-se no mais abominável político pronto a tudo fazer para conseguir extorquir dinheiro ao povo.

As teias de dependências, o castelo de cartas construído com base em favores pessoais e os altíssimos custos que uma aparência de democracia sempre importa, fazem deste filme um excelente exemplo de como o poder corrompe. Rousseau havia de o ter aplaudido de pé e Maquiavel não renegaria os seus ensinamentos.

O nosso Eça ou, antes dele, o nosso Gil Vicente reconhecer-se-iam na crítica do clero, no papel dos pequenos poderes provincianos. Os juristas veriam a autocracia no seu extremo e deliciar-se-iam com o modo extra-rápido de operar revisões constitucionais profundíssimas!

Em ano de tantas eleições, a representação de Juan (Damián Alcázar) não desmerece tantas que são vão vendo por aí. E não falo na América Central ou Latina…

E a moralidade da história? A corrupção compensa. Assim, com toda a impunidade. E com toda a realidade.

Apetece repetir, como na película, ¡O te chingas o te f****!…, ¡El que no tranza no avanza! e ¡Este país no tiene solución!







sábado, abril 25, 2009

Papillon - Jerry Goldsmith

"Toi qui regardes la mer

Tu es seul avec tes souvenirs

Et malgré tout ce bleu, tout ce vert

Tu es triste à mourir

Mais quand tu fermes les yeux

Un refrain qui te parle en argot

Fait valser tes souvenirs

Avec l'odeur du métro

Chacun s'évade à sa façon

Chacun son rêve papillon"

"Toi qui regardes la mer", com música de Jerry Goldsmith, para o filme "Papillon"

Early Night Post (54)

Pradel representa a vindicta pública. É o acusador oficial e nada tem de humano. Representa a lei, a balança, é ele quem maneja e tudo fará para que esta se incline para o seu lado. Tem um olhar de abutre, fecha um pouco as pálpebras e olha-me intensamente, com toda a altivez.”
Henri Charrière, Papillon.

“Só então encontrou o olhar inexpressivo de Villefort, esse olhar característico dos magistrados, que não querem que lhes leiam o pensamento e que por isso transformam os olhos num vidro despolido. Aquele olhar revelou-lhe que se encontrava diante da justiça, figura de maneiras sombrias.”
Alexandre Dumas, O Conde de Monte-Cristo.

sexta-feira, abril 24, 2009

quarta-feira, abril 15, 2009

Early Night Post (53)

Impression, soleil levant" de Claude Monet
“Muitas vezes pensando nele, mais tarde, frei Petar não podia recordar com exactidão nem a hora nem como chegara ao seu lugar, e muito menos o que dissera na altura. Quando se trata de pessoas com quem mais tarde ficamos próximos, normalmente esquecemos todos os pormenores do primeiro encontro; parece-nos que desde sempre as conhecemos e que desde sempre têm estado connosco. De tudo isso, na memória às vezes surge apenas uma única imagem, vaga e confusa. (..)
A conversa começou espontaneamente. As conversas assim são as melhores. A princípio, algo como uma saudação, palavras escassas e indeterminadas que se procuram e se apalpam. (..)”

Ivo Andric, O Pátio maldito, Cavalo de Ferro, 2008, p. 40-44.

Bach and more

Bach (Concerto for Piano in D major, BWV 1054, Allegro), pelo extraordinário Jacques Loussier e respectivo trio.

La Chinoise

A arte não é o reflexo da realidade, mas a realidade do reflexo.

La Chinoise, Jean-Luc Godard

quarta-feira, abril 01, 2009

To build a home

"To build a home" dos Cinematic Orchestra

terça-feira, março 24, 2009

Legislar


Acabo de receber por e-mail esta "pérola"!

MUITO URGENTE, última alteração ao CPP:

CÓDIGO DE PROCESSO PENAL
LIVRO X - Das execuções
TÍTULO I - Disposições gerais
(...)

Artigo 468°-A
(Águas de Bacalhau)

1. Se o condenado conseguir endrominar pena em que foi condenado, transitada ou não em julgado, por qualquer meio, por período igual ou superior a um ano, nomeadamente com a interposição de recursos manifestamente infundados para todas as instâncias e revista nacionais ou internacionais, ou ainda interpondo recursos extraordinários, iludindo as autoridades responsáveis pela sua captura ou tendo sido declarado na situação de contumácia, tem o direito a requerer ao tribunal que a pena seja declarada em situação de águas de bacalhau.
2. O tribunal não pode deixar de declarar a pena em situação de águas de bacalhau, a qual é irrecorrível, transitando logo em julgado.
3. Se o tribunal não proferir decisão no prazo de 24 horas o cidadão pode recorrer para o julgado de paz competente.
4. A pena declarada em águas de bacalhau não mais poderá ser cumprida ou considerada em cúmulo jurídico, ficando o Ministério Público impedido de promover o respectivo cumprimento.
5. O arguido que tiver pena declarada em situação de águas de bacalhau poderá exigir indemnização ao Estado a calcular no valor de 5.000 € por cada mês ou fracção de prisão não cumprida.
6. Se o arguido for membro ou simpatizante do Partido essa indemnização será de 20.000 € por cada mês ou fracção de prisão não cumprida.
7. No caso previsto no número anterior, nenhuma pessoa ou órgão de comunicação social poderá difundir, ou simplesmente aludir, à existência de pena declarada em situação de águas de bacalhau.

(Redacção introduzida pelo DL 00/2009, com vista a acabar com as campanhas negras contra cidadãos supostamente honestos, que entra imediatamente em vigor e tem efeitos radioactivos e retroactivos desde sempre e enquanto existir o Governo da República).

segunda-feira, março 23, 2009

Dra. Edite Estrela à recepção!

A língua tem destas coisas...

A diferença que um "q" por um "c" faz! Na Rua de Sto. António, em Faro. Dizem...

Peguilhar com uma sportinguista...

Ainda os ecos do desastre sportinguista, depois de uma derrota naquela coisa que tem nome de cerveja, mas que só se ficou a dever a um pénalti mal marcado!
O Paulo Bento bem teve razão no gesto que fez em direcção ao árbitro...

Afinal, a razão do desaire europeu do SCP deve-se a uma dificuldade inultrapassável para quem não é uma empresa de construção civil...
Agradece à Thumbelina a disponibilização da imagem!

Through your eyes

Through your eyes de Nina Kinert.

sexta-feira, março 13, 2009

Gran Torino



Grande Filme!

Gran Torino de Clint Eastwood

Música do próprio e de Jamie Cullum

So tenderly/ Your story is/ Nothing more/ Than what you see/ Or/ What you've done/ Or will become/Standing strong/ Do you belong/ In your skin/ Just wondering/

Gentle now/ The tender breeze/ Blows/ Whispers through/ My Gran Torino/Whistling another/ Tired song

Engine humms/ And bitter dreams/ Grow heart locked/ In a Gran Torino/ It beats/ A lonely rhythm/ All night long/ It beats (...)

Realign all/ The stars/ Above my head/ Warning signs/ Travel far/ I drink instead/ On my own/ Oh,how I've known/ The battle scars/ And worn out beds/

E cantada também pelo Clint Eastwood ...


quinta-feira, março 12, 2009

segunda-feira, março 09, 2009

Early Night Posts (52)

Appel des dernières victimes de la terreur à la prison Saint Lazare à Paris les 7-9 Thermidor an II, Musée national du Château de Versailles

"É uma verdadeira cidade de presos e guardas a que levantinos e marinheiros de todas as nacionalidades chamam Depósito, mas que é mais comhecida por Pátio Maldito, como lhe chama o povo, sobretudo todos os que com ela têm um laço qualquer. (...) Ora, nesta terra, a culpa é muita e de todas as espécies, e a suspeita chega longe, em profundidade e em amplitude. Isto porque a polícia de Constantinopla professa o sagrado princípio de que é mais fácil libertar um inocente do Pátio Maldito do que andar à procura de culpados pelos meandros da cidade"

Ivo Andric, O Pátio Maldito, Cavalo de Ferro, 2.ª ed., 2008, p. 11.

quarta-feira, março 04, 2009

Bei mir bist du schon - Waldeck

"Bei mir bist du schon" por Waldeck.

segunda-feira, março 02, 2009

O mio babbino caro

Não sei bem porquê, hoje fui acompanhado por esta ária. O mio babbino caro, da ópera Gianni Schicchi, de Puccini.

A Cidade dos que Partem



Já não vou a tempo...

Ia recomendar que vissem A Cidade dos que Partem, no Teatro Carlos Alberto, uma produção do grupo Palmilha Dentada. Fabuloso! Rir a bandeiras despregadas sobre um texto inteligente, bem escrito, mordaz. Falar a rir sobre coisas muito sérias: a desumanização das cidades, a partida, a diferença, a podridão de certos núcleos políticos.

Bem, fica ao menos o testemunho!

Fitas





Milk, de facto, é Sean Penn. Fabulosa representação! Cada gesto, cada olhar, retratam na perfeição um líder de um movimento gay que ousou lutar. Muito bem entregue o Óscar!

O Leitor é outro exemplo de excelente representação, agora de Kate Winslet. O romance na adolescência está retratado com sobriedade e encanto. A honra - esse estranho ser - ocupa papel de destaque num mundo de pós-guerra.

Frost/Nixon: uma espécie de policial televisivo. Ocupa o tempo, sem grandes arrebatamentos. Suficiente mais.

Moscow, Belgium, ontem, último dia do Fantasporto. Comédia romântica mediana, com argumento previsível. Valeu por algumas gargalhadas de um Johnny il camionista amoroso...

Pergunta palerma

Porque é que fiquei muito feliz com o facto de "só" ter demorado uma hora na repartição de Finanças? Poderemos exigir assim tão pouco dos nossos serviços públicos?

Descompostura


Vale mesmo a pena ler a descompostura (e não "descompustura") de António Lobo Antunes a Deus. Nem mais. Palavras que, estou seguro, todos subscrevemos várias vezes na vida.

http://aeiou.visao.pt/descompustura-ao-meu-amigo-la-de-cima=f496759

sábado, fevereiro 28, 2009

Early Night Posts (51)


"Todos os dias o saúdo, e todos os dias o Papá Hemingway me responde indicando-me que o ofício de escrever é um trabalho de artesão. Saúdo-o e digo-lhe que os seus conselhos são para mim mandamentos: « (...) Lembra-te de que podem escrever-se excelentes romances com palavras de vinte dólares, mas o mérito está em escrevê-los com palavras de vinte centavos. Nunca te esqueças que o teu ofício é apenas uma parte do teu destino. Uma risca a menos não altera a pele do tigre, mas uma palavra a mais mata qualquer história. (...)"

Luís Sepúlveda, As Rosa de Atacama, Edições ASA, p. 105.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

La Calumnia

Foi sugestão musical de um Colega penalista. Aliás, atendendo a que se trata da ária "La calumnia" do "Barbeiro de Sevilha" de Rossini, só podia ser...
Prestem bem atenção à letra! Não há Comentário do CP que defina melhor este tipo legal de crime! E coitado de quem cai nas malhas dessa brisa quase gentil que vai crescendo, crescendo...

Sensibilidades milenares




EVA: Adão, amas-me ?

ADÃO: Não !

EVA: (a chorar) Então porque fizeste amor comigo?

ADÃO: Hellooooooooooo? Vês por aqui mais alguém?

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Cigarettes

Cigarettes na voz de Lourdes Férnandez (Russian Red).

Bom Tempo. Tempo Bom

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Funcionalismo público? Ainda há disso?


ERA UMA VEZ... 4 funcionários públicos chamados Toda-a-Gente, Alguém, Qualquer-Um e Ninguém.

Havia um trabalho importante para fazer e Toda-a-Gente tinha a certeza que Alguém o faria. Qualquer-Um podia fazê-lo, mas Ninguém o fez. Alguém se zangou porque era um trabalho para Toda-a-Gente. Toda-a-Gente pensou que Qualquer-Um podia tê-lo feito, mas Ninguém constatou que Toda-a-Gente não o faria. No fim, Toda-a-Gente culpou Alguém, quando Ninguém fez o que Qualquer-Um poderia ter feito.

Foi assim que apareceu o Deixa-Andar, um 5º funcionário para evitar todos estes problemas.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Boa sorte, Amigo!

Daqui a pouco tempo será mais um.
Já não é o primeiro Amigo que se vê forçado a partir visto este país não oferecer condições de trabalho.
Portugal retorna à tradição emigrante após um período fugaz de imigração coincidente com a época em que mais se viveu acima das possibilidades.
A música celebrada por Correia de Oliveira sob letra de Rosalía de Castro nunca foi tão actual.
Dá mesmo vontade de fazer o mesmo e de deixar um país onde nada parece funcionar.

Good luck, my Friend!

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

The Boy in the Striped Pyjamas


The Boy in the Striped Pyjamas não se baseia em um acontecimento pouco relatado no cinema. Muito pelo contrário, a II Guerra Mundial tem sido retratada sob variadíssimos ângulos.

A novidade do filme (realizado por Mark Herman, em adaptação da obra homónima de John Boyne) é também a dos óculos com que esta página negra da História da Humanidade é observada: os de um pequeno miúdo de 8 anos, filho de um comandante do exército nazi que recebe a incumbência de dirigir um campo de concentração para judeus, na altura do início da “Solução Final”.

Uma amizade proibida surge entre o miúdo Bruno e uma outra criança da mesma idade, Shmuel, que cometeu o pecado capital de ter nascido judeu.

O olhar inocente da infância sob um conflito de proporções tão horrendas e a mutação a que se vai assistindo no afivelar de estereótipos impostos (a dado passo, dos judeus diz-se que “não são verdadeiras pessoas”), capaz de fazer da mentira um modo de salvamento perante situações de tensão, constituem o valor acrescentado da película.

Somos percorridos por uma sensação de estranheza, de quase incredulidade ante tão grande estupidez e desumanidade. Contudo, é essencial que não vejamos o extermínio de qualquer grupo de pessoas como um acontecimento histórico, mas como algo que se vai repetindo e que pode assumir proporções ainda maiores do que as que teve na II Grande Guerra.

E o facto de altos dignitários da Igreja Católica o negarem não ajuda em nada… E também parece que não vai bem com os fundamentos da fé que dizem professar…


Ainda a crise

Depois de mais uma reunião do Conselho Europeu, alguns dos Chefes de Estado e de Governo decidiram ir "relaxar" para o Louvre.
Ao depararem-se com a pintura abaixo, puseram-se a meditar...

Desabafa Merkel:
- Olhem para a perfeição dos corpos! Ela esguia e esbelta, ele atléticos e musculoso! São de certeza alemães!



Sarkozy não se conteve:
- Nada disso! O erotismo que se nota em cada figura... A tentação... Só podem ser franceses!





Brown atira:
- Not at all! A serenidade dos rostos, a delicadeza da pose, a sobriedade dos gestos! São de certeza britânicos!



José Sócrates não esconde um longo sorriso:
- Estão todos enganados! Vejam: não têm roupa nem sapatos, não têm casa, apenas têm uma maçã para comer... não protestam e ainda pensam que estão no Paraíso! Não tenham a menor dúvida: são de certeza absoluta Portugueses!



quinta-feira, fevereiro 05, 2009

A origem do mau tempo em Portugal

O post anterior do filipelamas desenvolve um raciocínio ... curioso (à falta de melhor palavra). Após uma primeira reacção de estupefacção, pareceu-me que a linha argumentativa nele espraiada pode ser aproveitada para outros domínios com resultados bem mais proveitosos.
Ora, vejamos ...
O ilustre treteiro abordava a séria temática da crise económica e financeira. E perscrutando causas e soluções, naturalmente convocou gente de estirpe elevada com as qualidades adequadas ao sensível problema em discussão: ministras e primeiras-damas de méritos inegáveis para as coisas da política e dos negócios.
Ora, inquietando-me um problema mais prosaico, ainda que igualmente actual e com efeitos depressivos - o mau tempo que tem assolado o nosso país (ele é o frio, a chuva, o vento, o granizo) - perguntei-me se não podia ser usado o mesmo raciocínio.
Ora, o primeiro passo era encontrar um país em que o tempo não se apresentasse tão invernal e ver depois o que é que nele existe e que pode estar em falta em Portugal. Eis que me acorre à mente o Brasil e as imagens de Verão que de lá vêm. Num primeiro momento, poderíamos ser tentados a gizar, para tal, uma explicação que pusesse em destaque a sua localização no hemisfério sul. Demasiado linear ... Espicaçado o engenho à luz da metodologia adoptada por filipelamas, não podemos, no entanto, descartar as influências inegáveis que os astros produzem nessas coisas de meteorologia.
E da astronómica constelação brasileira, eis que nos deparamos com algumas estrelas que por lá brilham

Rodrigo Santoro

Reinaldo Gianecchini
Márcio Garcia

E se estes raios de sol não melhorarem o tempo meteorológico, mal não fazem ao psicológico ... ;-))))))))

terça-feira, fevereiro 03, 2009

A origem da crise portuguesa

Em Espanha, está em funções o Governo com mais mulheres de sempre.

Em Itália, esta senhora, Mara Carfagna, é Ministra... para a Igualdade!!!
Em França, a Primeira-Dama é Carla Bruni.

E em Portugal...


Ainda se admiram que o país esteja em crise!!

Libertango de Astor Piazzola

Hoje tinha que ser Piazzola.

Revolutionary Road

O novo filme de Sam Mendes destaca-se, entre outras coisas, pelas boas interpretações (sobretudo de Michael Shannon e de Kate Winslet) e pela história que conta (da autoria de Richard Yates).
Revolutionary Road retrata a "hopeless emptiness" que invade a vida do simpático casal Wheeler confrontado com a escolha entre um conformado e promissor comodismo e uma louca e incerta prossecução dos sonhos.
Deixa ao espectador a questão maior que é a de saber qual é (deve ser?) a fronteira dos sonhos. Todos justificam uma revolução na vida de quem os sonha ou há alguns que devem apenas ser sonhados?

"And you know what's so good about the truth?
Everyone knows what it is however long they've lived without it.
No one forgets the truth, Frank, they just get better at lying"

* Procurei em vão uma das imagens que mais bem retratam o sentimento que perpassa o filme: a da multidão cinzenta e com chapéu que sai apressada dos comboios.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Slumdog Millionaire


Tive o prazer de assistir ontem à antestreia de Slumdog Millionaire (2008), traduzido para cá por Quem Quer ser Bilionário? (vá-se lá saber porque não é «milionário»…; talvez seja pelos 20 milhões de rupias em jogo…), um aclamado filme nos Globos de Ouro e um dos candidatos aos Óscares para Melhor Filme e Melhor Realizador. Quanto a este último, depois de êxitos como Trainspotting e 28 Days Later, não é de estranhar que Danny Boyle tenha construído uma verdadeira obra-prima.

O enredo é relativamente simples: Jamal Malik é uma criança de um bairro pobre de Bombaim (mais tarde, Mumbai) que perde a sua mãe num ataque de uma horda selvagem ao local onde se encontravam todos, pelo simples facto de serem muçulmanos. A partir daí, à extrema pobreza material, junta-se o desnorte sentimental, ficando Jamal entregue ao seu irmão Salim, a quem se junta Latika, uma órfã que acede ao lugar de «terceira mosqueteira».
Relato fiel da degradação humana, do aproveitamento vil da pobreza, de uma Índia plena de contrastes, em que as crianças vivem e se alimentam do lixo, em que tudo é sujo e desordenado, o filme surpreende pelo paradoxo das cores alegres e vivas que ponteiam as trevas com a formidável esperança da luz. Esperança essa que se conjuga com um amor sem fronteiras de Jamal por Latika e que, em última análise, conduz à morte de Salim.

Os dois irmãos simbolizam o bem e o mal como respostas a um ambiente extremo de desfavor social, sendo um hino ao indeterminismo. Jamal não precisou de vencer um concurso milionário para sempre o ter sido. Por certo não em rupias, mas em sentimentos nobres, em noção do justo e do recto, em amor verdadeiro e descomprometido que, no fim, triunfa. Também aqui se denota um optimismo por vezes cândido e naïf do argumento (Simon Beaufoy) que ao espectador transmite um enorme sentido de paz.

Os olhos dos actores que representam Jamal (Ayush Khedekar) e Salim (Azharuddin Ismail) falam pela Índia e pelo mundo, no sentido de que não é tudo admissível neste planeta de horror globalizado. Os planos originais de Boyle ajudam a que vejamos a realidade sempre de uma outra perspectiva, mesmo que inclinada. As representações sinceras e despretensiosas de Dev Patel, Madhur Mittal e Freida Pinto mostram que Bollywood, neste domínio, tem coisas melhores que o original.

A banda sonora só tem um adjectivo: sublime!

Um sério candidato aos Óscares! É a minha aposta!

quarta-feira, janeiro 28, 2009

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Deolinda na Casa da Música


O Ministro de Estado e das Finanças devia ter estado ontem no concerto da Deolinda na Casa da Música! Seria, estou seguro disso, um excelente bálsamo para a crise mundial e portuguesa que nos afecta!

Um exemplo de reinvenção da dita “canção nacional”, com toques de Madredeus aqui e além, fugas de rock e a encenação de um típico ambiente marialva lisboeta com naprons nas mesas (aqui substituídas por colunas de som) e só mesmo a faltar o cão de louça à entrada com a sua bela língua vermelha a cumprimentar as visitas.

E as letras marcam a nossa portugalidade (seja lá o que isso for...), com selecta ironia, com espírito crítico. A burocracia, o ir-não-ir, a revolução que fica na gaveta ("vão sem mim que eu vou lá ter...") - parece que nos miramos ao espelho.

Pena é que, naturalmente, sendo um projecto relativamente recente, Ana Bacalhau e os restantes membros da Deolinda não tivessem temas diferentes para os dois encores. Mas deu bem para a tantas vezes bacocamente selecta Casa da Música ver o público de pé a aplaudir e a gingar em fabulosos toques de ancas, em solene preparação para uma nova semana…


"Canção ao lado" na Casa da Música

Clandestino dos Deolinda.

Uma das belas canções do disco de estreia "Canção ao Lado".

Bendito direito português!

Os Stella Awards são prémios conferidos anualmente aos casos mais bizarros de processos judiciais nos Estados Unidos.
Têm este nome em homenagem a Stella Liebeck, que derramou café quente no colo e processou, com sucesso, o McDonald's, recebendo quase 3 milhões de dólares de indemnização...
Desde então, os Stella Awards existem como instituição independente, publicando e 'premiando' os casos de maior abuso do já folclórico sistema judicial norte-americano.
Este ano, os vencedores foram:

5º lugar (empatado):
Kathleen Robertson, de Austin, Texas, recebeu 780.000 dólares de indemnização duma loja de móveis, por ter partido o tornozelo ao tropeçar numa criancinha que corria solta na loja. A criança descontrolada era o próprio filho da sra Robertson...

Terrence Dickinson, de Bristol, Pensilvânia, estava saindo pela garagem duma casa que acabara de roubar. Não conseguiu abrir a porta da garagem, porque o sistema automático tinha defeito. Não conseguiu entrar de volta na casa, porque a porta já se fechara por dentro. A família estava de férias e o sr. Dickinson ficou trancado na garagem por 8 dias, comendo ração para cães. Processou o proprietário da casa, alegando que a situação lhe causou profunda angústia mental. Recebeu 500.000 dólares de indemnização.

4º lugar:

Jerry Williams, de Little Rock, Arkansas, foi indemnizado com 14.500 dólares, mais despesas médicas, depois de ter sido mordido pelo beagle do vizinho. O cão estava preso, do outro lado da cerca, mas ainda assim reagiu com violência quando o sr. Williams pulou a cerca e disparou repetidamente contra ele, com uma pressão de ar...

3º lugar:

Um restaurante de Filadélfia foi condenado a pagar 113.500 dólares a Amber Carson, de Lancaster, Pensilvânia, por ela ter escorregado e fracturado o cóccix. O chão estava molhado porque, segundos antes, a própria Amber Carson tinha atirado um copo de refrigerante contra o namorado, durante uma discussão.

2º lugar:

Kara Walton, de Claymont, Delaware, processou o proprietário duma casa de diversão nocturna por ter caído da janela da casa de banho, partindo os dois dentes da frente.
Tentava escapar do bar sem pagar a despesa de 3,50 dólares. Recebeu 12.000 dólares de indemnização, mais despesas dentárias...

E o vencedor:

O grande vencedor do ano foi o sr. Merv Grazinski, de Oklahoma City, Oklahoma.
O sr. Grazinski tinha acabado de comprar um Chrysler Motorhome Winnebago automático e regressava sozinho dum jogo de futebol.
Na estrada, activou o 'cruise control' do carro para 100 km/h , abandonou o banco do motorista e foi para a traseira do veículo preparar um café.
Como era de esperar, o veículo despistou-se, bateu e capotou. O sr. Grazinski processou a Chrysler por não explicar no manual que o 'cruise control' não permitia que o motorista abandonasse o volante. O júri concedeu-lhe a indemnização de 1.750.000 dólares, mais um Chrysler novo do mesmo modelo.
A construtora mudou todos os manuais de proprietário a partir deste processo, para se acautelar contra qualquer outro atrasado mental que comprasse um Chrysler.

O melhor amigo do homem

sábado, janeiro 24, 2009

Curtas sobre metragens - dois em um

Primeiro, “A Onda”.
Enquanto obra cinematográfica talvez não mereça um destaque especial. Mas, com uma linguagem singela e um tom experimental - talvez um pouco naif (para não dizer linear e redutor) - apresenta uma ideia interessante e dá o mote para uma reflexão que ultrapassa em muito a história que, no filme, é contada.
O repto é o estudo da Autocracia. A abordagem heterodoxa do tema por um professor de Ciência Política – que é também treinador da equipa de pólo aquático! – segue de perto o método científico-experimental.
Identificado o problema, a hipótese é formulada sem hesitações: o surgimento de um sistema autocrático na Alemanha actual é uma impossibilidade. A questão podia ser colocada relativamente a outro país ocidental (e foi-o, em meados do século passado, numa escola californiana, por um professor americano, numa experiência real que serve de base ao argumento do filme), mas ganha um significado especial naquele que ainda não esqueceu o seu passado fascista.
Com uma semana apenas para concluir o projecto, passa-se, de imediato, à fase experimental que confirmará ou infirmará a hipótese.
Alinham-se os elementos para uma criação controlada de um sistema autocrático. Identifica-se o ambiente propício: as más condições económicas e sociais, o desemprego crescente, a pobreza grassante, as injustiças várias, e ... a tristeza, muita tristeza. À míngua de alguns destes factores nas vidas dos jovens cientistas, servem, para o mesmo efeito, as suas famílias disfuncionais, os desequilíbrios emocionais, o vazio afectivo, as dificuldades escolares, os problemas de integração cultural e até o tédio gerado por conforto em excesso.
Depois elege-se democraticamente um chefe carismático a quem obedecer e exorta-se à adopção de uma postura alinhada, uma respiração controlada, e um ritmo cadenciado nos movimentos. Assim se ganha o Poder pela disciplina.
De seguida, há que promover a União. Um uniforme (camisa branca), um nome (A Onda, pois Tsunami pareceu exagerado) e uma saudação, potenciam o sentimento de pertença ao todo com anulação da individualidade.
Por fim, há que acrescentar o poder através da Acção.
Ora, aí o cadinho revela-se demasiado pequeno. A Onda galga as paredes do laboratório. Quem é capaz de escapar ao seu poder?
Os resultados acabam por ser desastrosos.
O filme acaba aí. Esquece (ou não?) as fases finais de interpretação dos dados e de extracção de uma conclusão.
No écran, a sucessão apressada de acontecimentos soa a demasiado artificial. É tudo muito simples, demasiado simples. Acontece tudo numa semana. Só na ficção! Talvez com mais tempo ...

Depois, “Vicky, Cristina, Barcelona”.
O novíssimo do Woody Allen agradou-me, mas não me deslumbrou. A tarefa de definir, em pouco mais de 90 m, o que é o amor, estava naturalmente votada ao insucesso. Apesar de serem muito mais minutos do que os 12 que durava o filme sobre o mesmo tema feito por uma das protagonistas (Cristina interpretada pela Scarlett Johansson).
Numa dicotomia à la “Sensibilidade e Bom Senso”, a comédia dramática oscila entre os méritos da estabilidade e da previsibilidade, por um lado, e a superioridade da aventura e da loucura, por outro (e aí entra o pintor Juan António apresentado por Javier Bardem, e sobretudo uma tresloucada Maria Helena muito bem interpretada por Penélope Cruz).
Apesar das boas interpretações, da comicidade permanente, do final curioso, e da cidade de Barcelona (e Oviedo, já agora!) como pano de fundo, parece faltar qualquer coisa.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Anna Ternheim - I say no

Curiosa arma...

A nossa jurisprudência tem destas coisas...
Veja-se o sumário do acórdão do Tribunal da Relação de Évora de 16/12/2008, publicado em http://www.dgsi.pt:

Uma bengala feita de “picha de boi”, que se sabe ter sido originariamente criada para vergastar o lombo dos animais na condução dos mesmos pelos campos e ainda como amparo ao caminhar do pastor (tal como a sua homónima de pau ou o cajado), mas a qual, pela curiosidade do material de que é feita e o aspecto que tem, foi sendo também progressivamente erigida como curioso objecto de artesanato característico de algumas zonas sobretudo do interior centro e norte do país continental e até objecto de decoração (independentemente do bom ou mau gosto da mesma, com o qual ninguém tem nada a ver) – o que justifica a respectiva posse –, podendo embora ser utilizada como meio de agressão, não pode ser havida como arma


Eis o link para os descrentes:

http://www.dgsi.pt/jtre.nsf/c3fb530030ea1c61802568d9005cd5bb/e6d7e5b9f22ea50d8025753f003e432f?OpenDocument