Em certo país, existia um quartel militar perto de uma aldeia. No meio do pátio desse quartel estava um banco de madeira. Era um banco simples, branco e sem nada de especial. E junto desse banco estava um soldado de guarda. Fazia guarda de dia e de noite. Ninguém no quartel sabia porque se fazia guarda junto a esse banco. Mas fazia-se. Os oficiais transmitiam a ordem e os soldados obedeciam. Ninguém duvidava. Ninguém perguntava. Era assim.
Até que um dia foi trabalhar para aquele quartel um oficial que era diferente. Tinha o mau costume de perguntar o que ninguém perguntava. Perguntou porque se fazia guarda junto a esse banco. Responderam-lhe que era algo que sempre se tinha feito assim. Era uma ordem que se cumpria há muito tempo e funcionava. Logo, não podia estar errada. O oficial pediu então para ver a ordem escrita. Foi necessária uma pesquisa profunda nos arquivos do quartel, que já estavam cheios de pó. Por fim, alguém conseguiu encontrá-la. Dezoito anos, três meses e cinco dias atrás, um coronel tinha mandado que ficasse um soldado de guarda junto a esse banco. Aí estava a ordem. O motivo, escrito em baixo com letra pequena, era que o banco estava recém-pintado e havia o perigo de alguém se sentar.
Esta história pode ajudar-nos a reflectir sobre a importância da actividade de pensar. A importância de não actuarmos com o argumento de que sempre se fez assim. Porque pensar é útil. Pensar é necessário. E pensar com calma revela-se, com frequência, algo profundamente eficaz. Algo que evita a perda de muito tempo. Quantas vezes temos a sensação de que uma coisa correu mal porque não pensámos bem antes de actuar? Porque não actuámos com ponderação? Porque nos deixámos levar pelo imediato?
Este frenesi está muito relacionado com a civilização da imagem na qual vivemos. É um facto que muitas pessoas vêem muitas imagens e lêem pouco ou quase nada. Não porque sejam analfabetas, mas porque parece mais fácil adquirir conhecimentos assim. Assusta conhecer pessoas que passam horas diante da televisão e nem consideram a possibilidade de abrir um livro. «Se uma imagem vale por mil palavras, qual é a utilidade da leitura? Se já vi o filme, para que é que vou ler o livro?».
E esta importância excessiva dada à imagem em detrimento da palavra explica em parte o pensamento débil de muitos. Porque a actividade de pensar articula-se com palavras. Palavras que chegam ao fundo do espírito, que convidam à reflexão e despertam a inteligência. Uma das características mais habituais daqueles que lêem pouco é a pobreza de vocabulário. E isso produz uma pobreza de pensamento. Uma facilidade para actuar como todos. Uma propensão para deixar-se manipular por slogans simplistas. Uma dificuldade para transmitir o próprio pensamento com palavras adequadas. E quem não sabe transmitir aquilo que pensa, o mais provável é que não pense bem.
Atendendo à época do ano que vivemos, e como forma de homengear a quadra natalícia de que tanto gosto, inicia-se hoje esta rubrica do Tretas, a que se decidiu colocar o tão original título de "Natasongs"! Começamos pela doce voz de Diana Krall no tema que, invariavelmente, teria de abrir as hostilidades - "Jingle Bells".
Aproximava-se um daqueles cães que, por certo, pertencia ao coro de latidos que escutava sempre que semicerrava os olhos e lhe vinha à lembrança (por assim dizer…) o rosto de uma mulher robusta, forte e inteira, de seios firmes e lábios carnudos, sobre quem matutava até hoje. Mais um esquecimento a juntar àquele que lhe sujava o pijama de um amarelo vivo e que, após uma quentura inicial, se transformava em ácido sabor de palmada pela manhã, por alturas em que aquela mulher insistia em despi-lo e em enxugá-lo de impurezas, mesmo aquelas que, pretas, se incrustaram há largo tempo naquilo a que se convencionara chamar “alma”.
Já sentia o nariz frio do animal quando se encontrou com a placa de cimento limpo e asseado que, e Vianen, se dizia ser “o chão”.
À roda, uma velha desdentada, um jovem com aquelas coisas nos ouvidos, uma miúda ladina e um homem já calvo trajando fato. Ninguém lhe tocava. Mal sabiam que o toque era tudo o que ansiava…
Deve ser um daqueles velhos do lar, dizia a petiz ladina. Anuía o executivo, enquanto o jovem pegava no telemóvel (afinal dava jeito!) e ligava para não sei onde… Fora o jovem a chamar a ambulância. Não qualquer um dos adultos, o que mais uma vez provava a actualidade e a correcção da parábola do bom samaritano. Só não sabemos de onde era o samaritano, pois de Samaria apartado em léguas estava.
Um momento, que fiquei sem sentidos – ao menos sensoriais.
Retomo o copo de cerveja preta azeda que pedi em Utrecht, mais precisamente na rua Wed, num “pub” escuro e com dois cães pequenos e malhados que fazem as delícias de uma mulher típica da Holanda central e do seu amigo (?) que, ao balcão, passa boa parte do dia convencendo-a das vantagens em deitar-se com ele. Ao menos é isso que percebo dessa língua estranha em que se expressam. Ah! O tipo parece que é Frank. Chega mais gente e os pequenos canídeos lambem-me as mãos depois de um dia de reunião em que quase sempre me senti “off-side”.
Os pequenos bichos começam rituais de acasalamento perante a bonomia de todos. Está na hora de deixar este espaço. Tornou-se demasiado claustrofóbico para mim e para o meu estimado e companheiro de longa data complexo de culpa.
Pago. E nessa precisa altura decido que vou tirar o meu pai do longínquo campo de morte a que o condenei. Sem mais. Mesmo que isso me custe o casamento.
Afinal o velho mijão sempre se foi! Realmente, estava a ver que nunca mais! Vagou uma cama, então. Parece que há mais um português na Lista.
Como sempre, ler o livro e depois ver o filme transforma este último num perdedor para o primeiro. “Blindness” não será excepção, mas tem a seu favor a extrema fidelidade ao “Ensaio sobre a Cegueira” de Saramago. Todavia, aqui e além falta chama, como se o miolo da história não contasse com a sageza que se detecta no retrato pungente das atrocidades que qualquer um de nós, em situações extremas, é capaz de perpetrar. Um elenco de bons actores dá veracidade à invenção, fazendo-nos reflectir sobre aquelas partes mais escuras que temos dentro de nós. E se o “mal branco” grassasse, como reagiríamos? Provavelmente de modo muito idêntico ao que agora está na tela. A lembrar que a “massa humana” é toda a mesma. Com melhor ou pior “outfit”, com mais ou menos petulância.
Por vezes acontece que gostamos tanto de um livro que não nos apetece falar sobre ele. Apetece-nos, isso sim, deixar derretê-lo na boca como se fosse um finíssimo chocolate do mais saboroso cacau de paragens recônditas.
Assim me aconteceu com a última obra de Saramago, A Viagem do Elefante. Genial. Mordaz. De um humor aveludado e cortante ao mesmo tempo. Prova de uma lucidez e de uma inteligência que resistem à idade e à doença. E não há nele nada de soturno, de triste. Só luz e sol. Apenas vida e riso.
Acrescente-se profundidade, patente em frases lapidares como esta:
(…) a representação mais exacta, mais precisa, da alma humana é o labirinto. Com ela tudo é possível.(p. 239)
Saía pela primeira vez em meses da gaiola dourada em que se encontrava. Enregelado, com artroses pelo corpo gasto, pôs um gorro de lã vermelha (haveria lã vermelha?) e um cachecol em padrões indizíveis, daqueles que só este Povo que agora o acolhia podia ter sequer imaginado.
Deixara a bengala no quarto que partilhava com um espanhol ainda mais velho, daqueles que se gabava de ter combatido na Guerra Civil e que, sempre que recebia uma carta de um tal familiar, lamentava a perda do Império, a entrada na União Europeia e o fim do domínio na América Latina. Tipo chato, este! Ainda por cima largava-se com frequência, tornando irrespirável o ar já de si abafado daquele retiro obrigatório.
De que se queixava, afinal? Tinha quem o lavasse, quem o alimentasse, quem lhe fizesse a cama e lhe desse o “cocktail” que o mantinha vivo. Vivo? Ao menos com o coração a bater.
Finalmente saíra. Sem deixar aviso. O frio ar do final de tarde em que a luz tão renitentemente aparecida durante o dia se despedia num beijo plácido entrava-lhe agora, sem pedir licença, pelas fossas nasais outrora atraentes. Poderá haver atracção pelas fossas nasais? Quando se é novo, tudo é atraente e belo e apetitosamente degustável… Sempre fora um velho lívido e libidinoso… Sempre fora velho! Mesmo quando dera o primeiro grito fora do ventre materno, parecia ser a voz de um ancião que, descobrindo mais uma verruga na ponta do nariz, lamentava a existência dos espelhos.
Pulmões gelados, cara fria, pés com medo de pisar solo duro e desconhecido. Avistava ao longe uma torre medieval com um relógio dourado apontando as cinco horas. À medida que conquistava centímetros à rua, ia tomando consciência do seu corpo e, miraculosamente, do motivo que o prendia àquela pequena vila de Vianen. Tinha todos os condimentos para se tornar o “El Dorado” dos velhos oprimidos que haviam desperdiçado uma vida entre dinheiro e o modo de o fazer. Fizera dinheiro. Onde estaria ele agora? Havia recebido um panfleto por via do espanhol em que se anunciava uma fundação com o seu nome, responsável por uma daquelas exposições de arte pseudo-culturais em que perceptível é, apenas, o nome do artista e a data de nascimento. Sim, este tipo de “artistas” não tem data aprazada para morrer.
"Pela rédea da música. (...) O homem que não traz em si nenhuma música, Nem o move a concórdia de notas dulcífluas, É dado a estratagemas, traições e pilhagens; Os impulsos do seu espírito são obscuros E os sentimentos negros como o Érebo. Não se confie em tal homem. Ouvir a música!"
O Mercador de Veneza, William Shakespeare, Cotovia, Tradução de Daniel Jonas, 2008, p. 18 e p. 152.
Enquanto não arranjo tempo para o post sobre o muito interessante texto de Shakespeare e para a bela peça que está em cartaz no Teatro Nacional de S.João (Recomenda-se vivamente!), deixo aqui duas passagens que - não tocando, embora, o cerne das mais profundas problemáticas presentes (muitas delas jurídicas) - me marcaram especialmente na passada sexta-feira.
Pelo sonho é que vamos, Comovidos e mudos. Chegamos? Não chegamos? Haja ou não haja frutos, Pelo sonho é que vamos!
Basta a fé no que temos, Basta a esperança naquilo Que talvez não teremos Basta que a alma demos, Com a mesma alegria, Ao que desconhecemos E ao que é do dia-a-dia.
De Johann Wolfgang Goethe, aqui ficam algumas das frases mais marcantes de O Jogo das Nuvens, Lisboa: Assírio & Alvim, 2003.
1. Os fenómenos atmosféricos nunca são estranhos ao olhar do poeta e do pintor: ele ocupa-se deles com interesse nas suas viagens e nos seus passeios (…) (p. 45)
2. E assim cheguei sozinho a uma perspectiva viva, a partir da qual se forma um conceito que depois, numa linha ascendente, se encontrará com a ideia. (p. 46)
3. Já a força se agita que é capaz
De ao que é informe forma dar, e faz
Nascer no ar um leão, um elefante,
Do camelo sai dragão flamejante,
Chega um exército, mas não logo a vitória,
Na alta escarpa tem fim sua glória;
Já o fiel arauto da nuvem se dissipa,
Seu fito é o horizonte, mas aqui abdica.
(p. 80)
4. As montanhas (…) apresentam-se na sua imobilidade ancestral aos nossos sentidos exteriores. Consideramo-las mortas, porque estão petrificadas, julgamo-las inactivas, porque estão em repouso. Eu, porém, já há muito tempo que não consigo deixar de atribuir em grande parte a uma acção interior, silenciosa e secreta delas as mudanças que se dão na atmosfera. (pp. 87-88)
Não é nenhum salvador dos EUA ou do Mundo. Não vai fazer tudo, nem tudo num dia. Não devemos embarcar em "Obamanias",
Mas que hoje é um dia histórico na luta da população negra pela igualdade de direitos, isso é. Não se trata do fim do racismo ou da xenofobia, mas que os "States" e o mundo ficaram um pouco menos racistas, isso é verdade. Mesmo que à custa da concentração de votos anti-Bush e de uma conjuntura económica e social muito favorável. Contudo, repetidas estas condições, recuando umas décadas, a eleição de Obama seria impossível.
Apesar de tudo isto, não me parece que o novo Presidente tenha assim tanto espaço de manobra para operar a "change we can believe". Desde logo, "change" assusta e cria resistência(s), e "believe" depende muito da forma como o mundo souber (ou não) refundar o sistema económico-financeiro. Ao menos, foi bom para o dólar e para os quenianos, que ganharam um dia feriado...