Sebastião Artur Cardoso da Gama (1924-1952)Provavelmente já não serás publicado no dia que se convencionou ser "do professor", como se todos os dias não fossem de alunos e professores. Mas também nunca fui fã desta coisa dos "dias de". Sim, ainda tenho imenso gozo em ser professor. Apesar de tudo. E este "tudo" é, muitas vezes, imensa coisa e nada, tudo ao mesmo tempo. Transpor a porta de uma sala de aulas é um enorme desafio, embora o final seja sempre o mesmo: saio mais rico do que entrei. E não é, certamente, por aquilo (tão pouco!) que possa ensinar (tanto mais que existe uma diferença cada vez mais abissal entre o que ensino e o que se pratica "de Direito"...), mas pelo egoísmo bom de sair mais rico. Sorrisos, novas expressões, novas formas de estar e de pensar. Um mar de novidades. Quando deixar de ser assim (e estou seguro de que esse dia virá), estará na altura de procurar uma profissão, pois ser Professor (agora sim, com maiúscula!) é um turbilhão de emoções e sentimentos, não uma mera profissão.
Como não conheço forma mais bela de definir a atitude de ser Professor, peço licença a Sebastião da Gama (ele não se importaria) para fazer minhas as suas palavras e, acima de tudo, agradecer a quem é a razão de ser deste dia: os Alunos!
Janeiro 12
«O que eu quero principalmente é que vivam felizes».
Não lhes disse talvez estas palavras, mas foi isto o que eu quis dizer. No sumário, pus assim: «Conversa amena com os rapazes». E pedi, mais que tudo, uma coisa que eu costumo pedir aos meus alunos: lealdade. Lealdade para comigo, e lealdade de cada um para cada outro. Lealdade que não se limita a não enganar o professor ou o companheiro: lealdade activa, que nos leva, por exemplo, a contar abertamente os nossos pontos fracos ou a rir só quando temos vontade (e então rir mesmo, porque não é lealdade deixar então de rir) ou a não ajudar falsamente o companheiro.
«Não sou, junto de vós, mais do que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não: falar delas. Aqui e no pátio e na rua e no vapor e no comboio e no jardim e onde quer que nos encontremos».
Não acabei sem lhes fazer notar que «a aula é nossa». Que a todos cabe o direito de falar, desde que fale um de cada vez e não corte a palavra ao que está com ela.
Sebastião da Gama, Diário.