segunda-feira, dezembro 22, 2008

"Tailorado"


René Magritte, Le fils de l'homme, 1964.


Em mim mesmo não caibo.

A minha pele estica e sobrepõe-se

ao ser que debaixo dela irrompe.

Em cada manhã me contemplo

e estranho, como a água estranha

a quentura e por isso borbulha.

Em meus ossos me não parto.

Mas também me não sinto.

Sou um fato sem cabide, despido

de irreverências e de rebuços, tailorado

em fazenda axadrezada de vida exagerada.

Ao contrário de Pessoa, tudo nada

exagero

e assim me motivo e passo indelével

pelos dias loquazes.

Parece que caibo em minha carne

quando calco o empedrado da rua e

em solas vivo.

Mas é mesmo minha a carne,

ou do estranho que nela habita?


Filipe Lamas

domingo, dezembro 21, 2008

Natasongs#6

"I believe in Father Christmas" na versão dos U2.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Early Night Posts (49)


Aquilo que as pessoas que esgrimem a analogia com a selva querem realmente dizer, mas não dizem porque parece demasiado pessimista, demasiado predestinista, é: homo homini lupus. Não podemos colaborar porque a natureza humana – pondo de parte a natureza do mundo – é degradada, viciosa, predadora (Pobres feras difamadas! O lobo não é predador de outros lobos: lupus lupo lupus seria uma calúnia.)

J. M. Coetzee (Prémio Nobel da Literatura 2003), Diário de um Mau Ano, Alfragide: Publicações D. Quixote, 2008, p. 86.

Ewige Wiederkunft


Dizem que sou velho. Só se for por ter vivido tempos cinzentos de mordaça ao peito e de desfiar rotineiro de vãos fados. Talvez seja por me recordar de serões passados em volta de lareiras fumegantes de corações entrelaçados e urdidos em tessituras têxteis de tule tecidas. Porventura referem-se às épocas em que jardins de flores sobressaíam em cidades humanizadas de tamanho portátil para gente com rosto. Ah! Se calhar é por mendigar tanto por ideologias fundacionais e utópicas, por sonhos políticos infantis e contagiantes. Nada disso… Criticam-me o facto de ainda contemplar as hastes de animais selvagens nas nuvens de cal branca em precipitação sobre os montes.

Sim! Deixá-los escarnecer. Lamentam os pobres coitados viver estes tempos tal como os meus avós não haviam digerido a era de seus pais e eu próprio abomino a dos meus.

Hipótese: o que sentimos pelo presente é inveja de um passado que conforta quando se antecipa o futuro.

Método: científico, pois claro!

Conclusão: regresso ao início ou a inveja pelo eterno retorno.

Natasongs #5

Os três Grandes, em "Amazing Grace".

segunda-feira, dezembro 15, 2008

It's shoe time!!!

Disponível em http://www.caglepost.com/cartoon/Dave+Granlund/58792/Bush++Iraq+Shoes.html

domingo, dezembro 14, 2008

Natasongs #4

"Let it snow" interpretada por Jamie Cullum

Do meu email

sábado, dezembro 13, 2008

Simples-mente


Frederick Bazille, Retrato de Renoir, 1867, Musée d'Orsay (Paris)


Se quiseres sorrir, sorri simplesmente.

Não contorças os lábios

nem faças um esgar de olhos.

Nada no sorriso esqueças,

desde o levantar do lábio

ao mostrar dos dentes.

Não te preocupes com a beleza dos lábios

nem com a qualidade dos dentes.

És sempre belo quando sorris!

Nas pequenas coisas da tua cara

evita dar ordens racionais:

o pensamento é inimigo do sorriso.

Assim, quando te apetecer sorrir

e depois rir,

não te escondas atrás de tapumes,

nem peças licença para o fazer!

Mostra antes a todos que os teus lábios

se desprenderam

e, separados um do outro,

conduzem uma sinfonia de felicidade!

Só desta forma rirás e

renegarás qualquer outra!

Apenas desta maneira o sol aquece:

sem mais. Simplesmente aquece.


Filipe Lamas

quinta-feira, dezembro 04, 2008

terça-feira, dezembro 02, 2008

A civilização da imagem

Mais um belo texto do Pe. Rodrigo Lynce de Faria:

Em certo país, existia um quartel militar perto de uma aldeia. No meio do pátio desse quartel estava um banco de madeira. Era um banco simples, branco e sem nada de especial. E junto desse banco estava um soldado de guarda. Fazia guarda de dia e de noite. Ninguém no quartel sabia porque se fazia guarda junto a esse banco. Mas fazia-se. Os oficiais transmitiam a ordem e os soldados obedeciam. Ninguém duvidava. Ninguém perguntava. Era assim.

Até que um dia foi trabalhar para aquele quartel um oficial que era diferente. Tinha o mau costume de perguntar o que ninguém perguntava. Perguntou porque se fazia guarda junto a esse banco. Responderam-lhe que era algo que sempre se tinha feito assim. Era uma ordem que se cumpria há muito tempo e funcionava. Logo, não podia estar errada. O oficial pediu então para ver a ordem escrita. Foi necessária uma pesquisa profunda nos arquivos do quartel, que já estavam cheios de pó. Por fim, alguém conseguiu encontrá-la. Dezoito anos, três meses e cinco dias atrás, um coronel tinha mandado que ficasse um soldado de guarda junto a esse banco. Aí estava a ordem. O motivo, escrito em baixo com letra pequena, era que o banco estava recém-pintado e havia o perigo de alguém se sentar.

Esta história pode ajudar-nos a reflectir sobre a importância da actividade de pensar. A importância de não actuarmos com o argumento de que sempre se fez assim. Porque pensar é útil. Pensar é necessário. E pensar com calma revela-se, com frequência, algo profundamente eficaz. Algo que evita a perda de muito tempo. Quantas vezes temos a sensação de que uma coisa correu mal porque não pensámos bem antes de actuar? Porque não actuámos com ponderação? Porque nos deixámos levar pelo imediato?

Este frenesi está muito relacionado com a civilização da imagem na qual vivemos. É um facto que muitas pessoas vêem muitas imagens e lêem pouco ou quase nada. Não porque sejam analfabetas, mas porque parece mais fácil adquirir conhecimentos assim. Assusta conhecer pessoas que passam horas diante da televisão e nem consideram a possibilidade de abrir um livro. «Se uma imagem vale por mil palavras, qual é a utilidade da leitura? Se já vi o filme, para que é que vou ler o livro?».

E esta importância excessiva dada à imagem em detrimento da palavra explica em parte o pensamento débil de muitos. Porque a actividade de pensar articula-se com palavras. Palavras que chegam ao fundo do espírito, que convidam à reflexão e despertam a inteligência. Uma das características mais habituais daqueles que lêem pouco é a pobreza de vocabulário. E isso produz uma pobreza de pensamento. Uma facilidade para actuar como todos. Uma propensão para deixar-se manipular por slogans simplistas. Uma dificuldade para transmitir o próprio pensamento com palavras adequadas. E quem não sabe transmitir aquilo que pensa, o mais provável é que não pense bem.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

sexta-feira, novembro 28, 2008

Natasongs #3

Josh Groban, "The Christmas Song" (OST de "LoveActually").

Tributo ao inefável GWB


Vamos sentir saudades deste ser... Com quem vamos gozar agora?
Volta, W! Estás "aperdoado"!!

Natasongs #2

E o 2.º clássico desta rubrica é "White Christmas", na voz dos "Il Divo", a comemorar o lançamento do seu último álbum.
Enjoy it (or not...)!

quarta-feira, novembro 26, 2008

Natasongs #1

Atendendo à época do ano que vivemos, e como forma de homengear a quadra natalícia de que tanto gosto, inicia-se hoje esta rubrica do Tretas, a que se decidiu colocar o tão original título de "Natasongs"!
Começamos pela doce voz de Diana Krall no tema que, invariavelmente, teria de abrir as hostilidades - "Jingle Bells".

terça-feira, novembro 25, 2008

A Lista (parte II)

(Continuado de post anterior)

Aproximava-se um daqueles cães que, por certo, pertencia ao coro de latidos que escutava sempre que semicerrava os olhos e lhe vinha à lembrança (por assim dizer…) o rosto de uma mulher robusta, forte e inteira, de seios firmes e lábios carnudos, sobre quem matutava até hoje. Mais um esquecimento a juntar àquele que lhe sujava o pijama de um amarelo vivo e que, após uma quentura inicial, se transformava em ácido sabor de palmada pela manhã, por alturas em que aquela mulher insistia em despi-lo e em enxugá-lo de impurezas, mesmo aquelas que, pretas, se incrustaram há largo tempo naquilo a que se convencionara chamar “alma”.

Já sentia o nariz frio do animal quando se encontrou com a placa de cimento limpo e asseado que, e Vianen, se dizia ser “o chão”.

À roda, uma velha desdentada, um jovem com aquelas coisas nos ouvidos, uma miúda ladina e um homem já calvo trajando fato. Ninguém lhe tocava. Mal sabiam que o toque era tudo o que ansiava…

Deve ser um daqueles velhos do lar, dizia a petiz ladina. Anuía o executivo, enquanto o jovem pegava no telemóvel (afinal dava jeito!) e ligava para não sei onde… Fora o jovem a chamar a ambulância. Não qualquer um dos adultos, o que mais uma vez provava a actualidade e a correcção da parábola do bom samaritano. Só não sabemos de onde era o samaritano, pois de Samaria apartado em léguas estava.

Um momento, que fiquei sem sentidos – ao menos sensoriais.

Retomo o copo de cerveja preta azeda que pedi em Utrecht, mais precisamente na rua Wed, num “pub” escuro e com dois cães pequenos e malhados que fazem as delícias de uma mulher típica da Holanda central e do seu amigo (?) que, ao balcão, passa boa parte do dia convencendo-a das vantagens em deitar-se com ele. Ao menos é isso que percebo dessa língua estranha em que se expressam. Ah! O tipo parece que é Frank. Chega mais gente e os pequenos canídeos lambem-me as mãos depois de um dia de reunião em que quase sempre me senti “off-side”.

Os pequenos bichos começam rituais de acasalamento perante a bonomia de todos. Está na hora de deixar este espaço. Tornou-se demasiado claustrofóbico para mim e para o meu estimado e companheiro de longa data complexo de culpa.

Pago. E nessa precisa altura decido que vou tirar o meu pai do longínquo campo de morte a que o condenei. Sem mais. Mesmo que isso me custe o casamento.

Afinal o velho mijão sempre se foi! Realmente, estava a ver que nunca mais! Vagou uma cama, então. Parece que há mais um português na Lista.

20.11.2008

Utrecht – Rua Wed – Pub Heen & Weer