Previsão meteorológica para a semana que ora se inicia:
Gente (?) com asas e olheiras enormes sobrevoando o País em monomotores, planadores, avionetas e parafernálias voadoras, com vento moderado a forte por pingos de café e cerveja.

Há uns dias atrás, contaram-me que uma criança, confessando o medo do escuro e perguntada sobre como o resolvia quando fechava os olhos para dormir, respondeu com a candura das coisas óbvias com que estes pequenos grandes seres a cada passo nos surpreendem: “Ora, quando estou a dormir não tenho medo! Aí tenho a luz do sonho!”
Desarmante, a resposta!
Em dia cinzento, prenúncio de um Outono a chegar, é de luzes como esta que todos nos devíamos alimentar!
Pintar com luzes, é o desafio que deixo com este “spot” fabuloso!

Mário Cláudio, Boa Noite, Senhor Soares,
Publicações Dom Quixote, Lisboa: 2008, 10 €.
Ainda não tinha lido nada de Mário Cláudio. Estreei-me agora com o “Boa Noite, Senhor Soares”. Uma excelente estreia!
A ideia é original: como veria um jovem companheiro de trabalho de Fernando Pessoa esse ser misterioso, sério, quase sombrio, tantas vezes austero e outras demasiado humano? Se a isto acrescentarmos o facto de Mário Cláudio cobrir a personagem com o véu de um outro nome – Senhor Soares –, com uma diversa profissão (tradutor de uma empresa comercial e habilidoso na arte de guarda-livros), temos o ambiente criado para uma história de desenvolvimento de um jovem homem que vai crescendo a admirar aquela criatura tão culta, a com ela sonhar durante a velhice e, até certo ponto, a desejar a sua redenção através do Senhor Soares.
O Autor não foge, embora de jeito subliminar, a questões como as da orientação sexual do Poeta, da sua solidão ou até de certos comportamentos erráticos. Tudo em linguagem clara, cristalina, aqui e além colando-se ao estilo pessoano. Sente-se Lisboa, as suas ruelas, o Bairro Alto, a pequenez e a alegre e honrada pobreza de um Portugal ainda mais atrasado, situado nas décadas de 20 em diante do passado século.
Morre o Senhor Soares. Um cortejo de heterónimos desfila ao lado de excelsos desconhecidos. O narrador sobrevive uma velhice como tantas outras. Uma sensação de dever cumprido enche-nos a alma.
Como “bónus”, o leitor é presenteado com a versão da “Medeia” de Eurípedes por Mário Cláudio. Boa ideia original: Medeia é uma decadente actriz em busca de subsídio do Ministério da Cultura, digerindo o facto de Eurípedes a ter transformado para sempre na horrível mulher que, por despeito em ter sido trocada, mata os seus filhos.
Boa ideia, de facto, mas pobre desenvolvimento, principalmente num monólogo em que se vive da extrema força que o texto deve conter. O desafio era enorme e Mário Cláudio parece ter acusado o nível de exigência.

Lavagante, Encontro Desabitado, de José Cardoso Pires, corresponde a um conto que o Autor escreveu e que soa agora, anos após a sua morte, vê a luz do dia.
Escrito sob a divisa napoleónica “É necessário cometer algumas imprudências, mas convém que sejam devidamente calculadas”, trata-se de uma pequena novela passada na Lisboa salazarista, em que um amor proibido entre um alto quadro e uma jovem universitária acaba da maneira mais realista que podíamos imaginar. A comparação com o lavagante, o qual vai alimentando o safio que se mantém em pequenas grutas até atingir dimensões tais que o impedem de sair, altura em que o lavagante mata e se alimenta da sua iguaria tão diligentemente tratada, é uma constante. Tal como o animal, também algumas pessoas vão alimentando relações até que o outro não se conseguir libertar de algo que deixa de ser positivo e passa a ser uma prisão.
Por vários motivos, retenho a seguinte passagem: “(…) com efeito não se nasce homem, (…) não se nasce mulher; (…) é necessário forjar o homem, trabalhá-lo. On devient homme et on devient femme… On devient femme como?” (p. 56).
Uma leve leitura de Verão!

Caso ainda estejam em cartaz, o Tretas aconselha que vejam os filmes O meu irmão é filho único e Eu servi o rei de Inglaterra.
Estilos muito diversos, mas mantendo em comum a originalidade das histórias, a boa realização e o humor acutilante, em especi
al em O meu irmão é filho único, um retrato muito interessante de uma Itália pós-fascista em que se cruzam as vidas de dois irmãos tão diferentes que parecem iguais, disputando um amor que resiste a ideologias, estas, tão a propósito nos nossos dias, desconchavadas e erigidas em nonsense.
Eu servi o rei de Inglaterra impressiona pela esquizofrenia dos assuntos, pelo sarcasmo com que a II Grande Guerra é encarada, entre lautas refeições servidas em restaurantes e hotéis de luxo, entre oportunidades únicas de negócio e sempre com algum erotismo à mistura. Uma produção checa impressiva e desconcertante.
Parabéns à luísa n e ao valter rego!
“Pimpimeira” significa coisa sem sentido, sem gosto, pirosa, sendo palavra de uso muito revente no excelso Reino do Forno e tendo a sua origem na pessoa de Pimpinha (ou será Pipinha?), filha de uma conhecida “socialite” nacional, por via da sua enorme falta de gosto.
“Aquele é um Neves”, como argutamente intuiu o Senhor Dom Valter Rego, significa “aquele é um homem traído, um homem vítima de adultério”. Como de modo óbvio se percebe, terá sido um tal Neves que, no séc. XII, era useiro e vezeiro em ter a cabeça pesada, à custa de Ludovina, moça roliça e de boas carnes que, em moitas, veredas ou fontes, era dada à emancipação da carne… Vai daí, a expressão pegou e nenhuma família no Reino usa hoje tal apelido.
Como é hábito, os felizes contemplados são dignos de graça e de adoração, mandando o Senhor Marquis que o dia de hoje seja proclamado “urbi et orbe” como o dia da “Pimpineve”, em homenagem aos dois distintíssimos amigos deste vetusto monarca.
Em relação ao cargo de Ministra dos Assuntos Culturais, mando o Senhor Marquis que seja nomeada a Senhora Dona Thumbelina, a quem incumbirá, doravante, a responsabilidade deste espaço de protecção e divulgação da língua fornense.
A juventude de hoje, na faixa que vai até aos 20 anos, está perdida.
E está perdida porque não conhece os grandes valores que orientaram os que hoje rondam os trinta.
O grande choque, entre outros nessa conversa, foi quando lhe falei no Tom Sawyer.
'Quem?', perguntou ele. Quem?! Ele não sabe quem é o Tom Sawyer! Meu Deus... Como é que ele consegue viver com ele mesmo?
A própria música: 'Tu que andas sempre descalço, Tom Sawyer, junto ao rio a passear, Tom Sawyer, mil amigos deixarás, aqui e além...' era para ele como o hino senegalês cantado em mandarim.
Claro que depois dessa surpresa, ocorreu-me que provavelmente ele não conhece outros ícones da juventude de outrora.
O D'Artacão, esse herói canídeo, que estava apaixonado por uma caniche; Sebastien et le Soleil, combatendo os terríveis Olmecs; Galáctica, que acalentava os sonhos dos jovens, com as suas naves triangulares; O Automan, com o seu Lamborghini que dava curvas a noventa graus; O mítico Homem da Atlântida, com o Patrick Duffy e as suas membranas no meio dos dedos; A Super Mulher, heroína que nos prendia à televisão só para a ver mudar de roupa (era às voltas,lembram-se?); O Barco do Amor, que apesar de agora reposto na Sic Radical, não é a mesma coisa. Naquela altura era actual...
E para acabar a lista, a mais clássica de todas as séries, e que marcou mais gente numa só geração: O Verão Azul.
Ora bem, quem não conhece o Verão Azul merece morrer. Quem não chorou com a morte do velho Shanquete, não merece o ar que respira. Quem, meu Deus, não sabe assobiar a música do genérico, não anda cá a fazer nada.
Depois há toda uma série de situações pelas quais estes jovens não passaram, o que os torna fracos:Ele nunca subiu a uma árvore!
E pior, nunca caiu de uma. É um mole.
Ele não viveu a sua infância a sonhar que um dia ia ser duplo de cinema.
Ele não se transformava num super-herói quando brincava com os amigos.
Ele não fazia guerras de cartuchos, com os canudos que roubávamos nas obras e que depois personalizávamos.
Aliás, para ele é inconcebível que se vá a uma obra.
Ele nunca roubou chocolates no Pingo-Doce. O Bate-pé para ele é marcar o ritmo de uma canção.
Confesso, senti-me velho...
Esta juventude de hoje está a crescer à frente de um computador.
Tudo bem, por mim estão na boa, mas é que se houver uma situação de perigo real, em que tenham de fugir de algum sítio ou de alguma catástrofe, eles vão ficar à toa, à procura do comando da Playstation e a gritar pela Lara Croft.
Óbvio, nunca caíram quando eram mais novos. Nunca fizeram feridas, nunca andaram a fazer corridas de bicicleta uns contra os outros.
Hoje, se um miúdo cai, está pelo menos dois dias no hospital, a levar pontos e fazer exames a possíveis infecções, e depois está dois meses em casa fazer tratamento a uma doença que lhe descobriram por ter caído.
Doenças com nomes tipo 'Moleculum infanticus', que não existiam antigamente.
No meu tempo, se um gajo dava um malho muitas vezes chamado de 'terno' nem via se havia sangue, e se houvesse, não era nada que um bocado de terra espalhada por cima não estancasse.
Eu hoje já nem vejo as mães virem à rua buscar os putos pelas orelhas, porque eles estavam a jogar à bola com os ténis novos.
Um gajo na altura aprendia a viver com o perigo.
Havia uma hipótese real de se entrar na droga, de se engravidar uma miúda com 14 anos, de apanharmos tétano num prego enferrujado, de se ser raptado quando se apanhava boleia para ir para a praia.
E sabíamos viver com isso. Não estamos cá? Não somos até a geração que possivelmente atinge objectivos maiores com menos idade?
E ainda nos chamavam geração 'rasca'... Nós éramos mais a geração 'à rasca', isso sim. Sempre à rasca de dinheiro,sempre à rasca para passar de ano, sempre à rasca para entrar na universidade, sempre à rasca para tirar a carta, para o pai emprestar o carro. Agora não falta nada aos putos.
Eu, para ter um mísero Spectrum 48K, tive que pedir à família toda para se juntar e para servir de presente de anos e Natal, tudo junto.
Hoje, ele é Playstation, PC, telemóvel, portátil, Gameboy, tudo.
Claro, pede-se a um chavalo de 14 anos para dar uma volta de bicicleta e ele pergunta onde é que se mete a moeda, ou quantos bytes de RAM tem aquela versão da bicicleta.
Com tanta protecção que se quis dar à juventude de hoje, só se conseguiu que 8 em cada dez putos sejam cromos.
Antes, só havia um cromo por turma. Era o totó de óculos, que levava porrada de todos, que não podia jogar à bola e que não tinha namoradas.
É certo que depois veio a ser líder de algum partido, ou gerente de alguma empresa de computadores, mas não curtiu nada.'
(Nota: ...os chocolates não eram gamados no 'Pingo Doce'... Ainda se chamava 'Pão de Açúcar'!!!)
Numa prova de entrada para a Universidade...
Questão : Interpretar o seguinte trecho de poema de Camões:
"Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente,
é um contentamento descontente,
dor que desatina sem doer".
Uma aluna deu a sua interpretação:
"Ah Camões, se vivesses hoje em dia,
tomarias uns antipiréticos,
uns quantos analgésicos
e Prozac para a depressão.
Comprarias um computador,
consultarias a Internet
e descobririas que essas dores que sentias,
esses calores que te abrasavam,
essas mudanças de humor repentinas,
esses desatinos sem nexo,
não eram feridas de amor,
mas somente falta de sexo!"
Teve nota máxima. Foi a primeira vez, depois de mais de 500 anos, que
alguém entendeu qual era a ideia do Camões...
Annuntio vobis gaudium magnum:
Habemus RTP!
O calendário gregoriano assinala 20 de Julho como o dia em que foi eleito o Papa Hormisdas (Habemus Papam, típico do filme Os Bórgias, tão ao gosto de quem virá mais à frente), o dia da Tomada do Castelo de Stirling: Eduardo I de Inglaterra conquista a última fortaleza rebelde na Guerra da Independência Escocesa, bem como em que a Colômbia proclama sua independência da Espanha (é, na verdade, muito independente e moderna a moçoila de que se falará), o dia em que nasceu Carlos Santana (canta maravilhosamente em coros de casamento e afins…), ou a esbelta Gisele Bündchen, modelo brasileira um pedaço mais velha que a figura em referência e um pedaço menos bonita, também… e é o Dia do Amigo, o evento que, sem sombra de dúvidas, mais se aproxima da grande apoteose em termos de acontecimentos marcantes de 20 de Julho……………………
O ANIVERSÁRIO DA RTP!!!!
Há dias assim, em que só maravilhas acontecem, em que os deuses se reúnem em conclave extraordinários e a todos nos deliciam com a beleza, a doçura, a inteligência, sagacidade, tenacidade, Amizade infinda de seres únicos e irrepetíveis como a nossa RTP, a quem temos a imensa joie de vivre de ter como AMIGA!
Dado que para seres tão extraordinários não existem prendas capazes de ombrear com a dignitas de quem se homenageia, estes dois humildes servos deixam uma música que é já antiga (como o filipelamas…) e um pouco lamechas, mas que muito diz do que sentimos pela RTP, neste dia de Santa Paula e São Elias (aqui está a resposta para uma das questões de ontem…)!
Rocky
Filipelamas


E ...

E a Marquise plebeia de origens humildes por quem o marquis est tombé amoureux!


O Prazer da Leitura
AA. VV.
Teorema, Fnac, 2008
4 €
Há livros assim: de qualidade muito desigual, mas que valem a pena pelo aspecto humanitário. É o caso de “O Prazer da Leitura”, lançado por ocasião dos 10 anos de presença da FNAC no nosso País, reunindo contos de escritores renomados como Mário Cláudio, Francisco José Viegas, Lídia Jorge, Nuno Júdice e Rui Zink.
Começando pelo último, de modo a cumprir a determinação bíblica, como sempre, os palavrões são mais que muitos e tentam esconder um texto pobre e uma ideia singela: o computador em que o escritor trabalhava foi desligado em virtude de um corte de fornecimento de energia provocado por quem verdadeiramente trabalha: aqueles que o fazem com as mãos, em trabalho braçal. Fez-me lembrar uma pessoa que, há uns meses, me disse claramente que eu pouco fazia, apesar de o próprio também ter uma profissão dita “intelectual”…
O conto de Francisco José Viegas é um interessante mini-policial com a trama a decorrer na FNAC de Santa Catarina e, mais uma vez, representando um curioso confronto entre as “ciências do espírito” e as “ciências policiais” (pasmem-se!).
Nuno Júdice escreve prosa de modo denso e quase cifrado, em tom um tanto melodramático, mas enxuto, com palavras acutilantes, directas e que, aqui e além magoam o leitor. Porventura o conto mais expressivo desta colectânea.
Para esta época de estio, o preço de 4 € e alguma leveza na construção literária tornam “O Prazer da Leitura” numa espécie de “salada de Verão”, fresquinha e pouco dada a ricos nutrientes.
NOTA DA ADMINISTRAÇÃO
No já longínquo mês de Novembro de 2006, o Pintado de Fresco conhecia o seu último episódio, a que se seguiu uma espera de quase dois anos.
A administração do Tretas entendeu que esta novela dos tempos modernos, escrita a quatro mãos entre mim e a rtp, a que se juntará - esperamos nós - a querida rocky, tinha de regressar, após sentirmos uma vaga de fundo a que não pudemos ficar indiferentes:)
Pedimos ao vastíssimo auditório que clique na etiqueta em baixo deste post e releia os episódios anteriores, de modo a perceber o que ora se publica.
Aguardamos a vossa crítica sincera e temos já de marcar um evento social pelo renascimento desta que é uma pérola da nossa literatura:)
Mário já não se sentia assim desde que, aos quinze anos, no colégio interno para onde os pais o haviam desterrado, conseguiu chegar à fala sobre “coisas de gente grande” com a escultural professora de Inglês, vinda de um mundo diferente, mais ousado, mais desligado de preconceitos e que, sem ele o imaginar, já antevia um futuro de “lady” com o Fontes Jr., por entre peles caríssimas e férias o ano inteiro.
Fora, na verdade, a sua primeira grande desilusão. Depois daqueles encontros furtivos e tórridos junto à praia da Memória (tão adequadamente colocado lhe parecia agora o nome…), adolescente/jovem/adulto, um misto de tudo e de nada, um turbilhão de emoções galgando comportas, sentira que Kate se limitava a ver nele um enorme e chorudo livro de cheques. Correra com ela, por entre berros assustadores em final de tarde de Outono, condizente o tempo meteorológico com o tempo do sentir que ameaçava despedaçar um corpo ainda tão jovem.
Tentava afastar esse pensamento à medida que, sobre as 13 h, se aproximava da entrada do Meridien.
“Deixa-te de infantilidades! É só uma mulher! Mais uma… Não. Mais uma não vale a pena… Já chegou a Madalena!”, parecia rezar em voz baixa. “Como se chama a menina da vespa?...”, o esforço era notório, pois a ressaca ainda não levantara ferros por completo. “Ah! Isso! Margarida!... Eh, pá… Mais um M…”
Já próximo das 13.30 h, o desânimo começou a vencer Mário. Olhava para todos os lados, à procura da rapariga cujo rosto tão claramente ficara gravado na sua retina e, quanto mais vislumbrava os transeuntes, mais se convencia que aquele encontro havia sido um tremendo erro.
“O que vai ela pensar de mim? Como pude ser capaz de deixar um bilhete com o meu número? Já não me conheço…”
As duas horas já haviam feito a sua entrada. O telemóvel permanecia mudo. Nem sinal de Margarida. Tivera o impulso de lhe ligar, mas entendia esta “provação” como o justo castigo pela sua inabilidade.
***
Perto do Mondego, alguém passeava com Alberto Caeiro debaixo do braço. “O guardador de rebanhos” para uma ovelha tresmalhada. A personagem caminhava de semblante pesado, porém sereno, como se transportasse o peso do mundo.
Uma carrinha com os dizeres “Associação Juntos Venceremos”, vestida de um bege muito sujo, já em final de vida, fez soar uma chiadeira aparentada de travões.
- Rodrigo, ‘bora pró Porto, carago!

The Happening (2008) – O Acontecimento
Realização e argumento: Manoj Night Shyamalan
Elenco: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel
The Happening parte de uma ideia muito interessante: e se as plantas se revoltassem contra os humanos, em virtude das constantes agressões que fenómenos como a poluição para elas constituem? Como não se podem mover, a sua “natureza” reclamaria que largassem toxinas na atmosfera capazes de gerar a auto-destruição de todos quantos fossem atingidos, principalmente quando se encontram em grandes grupos, como nas principais cidades dos Estados Unidos.
Um professor de Ciências de Filadélfia, a meio de um casamento em que parece ser traído, vivendo sem paixão verdadeira, torna-se a principal figura da trama. O egoísmo humano motivado pela desesperada luta pela sobrevivência é retratado apenas em esboço.
Se a ideia de base é muito boa, a acção é demasiado caricatural, excessiva mesmo, tornando o filme ainda menos credível.
Esperava-se mais do realizador Manoj Night Shyamalan, o mesmo de “O Sexto Sentido”, em que a reviravolta é suave e apta a deixar-nos atónitos. Tudo o que falta neste “O Acontecimento” que, por rectas contas, de acontecimento cinematográfico tem muito pouco.

Gatos e mais gatos
Doris Lessing
Livros Cotovia
12.50 €
Nunca gostei muito de gatos. Há qualquer coisa naquele modo de ronronar, de ser arisco, de prezar a independência acima de tudo, de muitas vezes “não conhecer o dono”, que me fazem olhá-los de esguelha e raramente ter o impulso de uma festinha sentida.
Contudo, ao ver “Gatos e mais gatos” (1967), da Prémio Nobel da Literatura (2007) Doris Lessing, decidi arriscar, sobretudo pela curiosidade em conhecer a escrita desta mulher nascida na Pérsia e que tem nos gatos referências de vida.
Como seria de esperar, o livro vive de descrições de estórias destes felinos dom
ésticos (e até dos selvagens), desde as longas superfícies da África do Sul até ao mais modesto apartamento nos subúrbios de uma Londres decadente. Existem descrições pungentes do sentimento de culpa de matar gatinhos recém-nascidos devido ao elevado número da ninhada e à falta de donos, episódios de salvamentos de uma gata parideira soterrada aquando de uma forte chuvada em terras para além da metrópole do British Empire.
Sobretudo, Doris Lessing descreve com grande mestria as relações de domínio, dependência e subserviência que se estabelecem entre Gata Cinzenta e Gata Preta, a primeira sempre tratada com maior desvelo e complacência advenientes da culpa (de novo esse sentimento tenebroso assola a Autora, de jeito autobiográfico?) em ter-lhe sido usurpada a maternidade. Nos comportamentos das gatas, nas pequenas diatribes e nas mais clamorosas injustiças, revemos as relações humanas, a certeza de que a maior parte da interacção entre os homens se baseia em equilíbrios de poder. É essa a verdade nua e crua que a Autora nos oferece, assim como a sua preferência pelos animais. De facto, poucas vezes Doris se refere às pessoas, o que nos faz pensar que, apesar da crueldade de algumas atitudes das gatas, tal é preferível a enfrentar, reflectido nos outros, o género de que somos constituídos (medo, fuga de Lessing?).
A cerca de metade da narrativa, nota-se alguma perda de força, como se os gatos tivessem decidido esparramar-se num telhado aberto a um dia solarengo, exigindo do leitor um sacrifício acrescido que, no final, acaba por compensar.
Não me reconcilie com os gatos, porém, aprendi a ver neles pessoas em ponto pequeno. Para o bem e para o mal. Como sempre.