segunda-feira, novembro 24, 2008

Blindness


Como sempre, ler o livro e depois ver o filme transforma este último num perdedor para o primeiro. “Blindness” não será excepção, mas tem a seu favor a extrema fidelidade ao “Ensaio sobre a Cegueira” de Saramago. Todavia, aqui e além falta chama, como se o miolo da história não contasse com a sageza que se detecta no retrato pungente das atrocidades que qualquer um de nós, em situações extremas, é capaz de perpetrar.
Um elenco de bons actores dá veracidade à invenção, fazendo-nos reflectir sobre aquelas partes mais escuras que temos dentro de nós. E se o “mal branco” grassasse, como reagiríamos? Provavelmente de modo muito idêntico ao que agora está na tela. A lembrar que a “massa humana” é toda a mesma. Com melhor ou pior “outfit”, com mais ou menos petulância.

A Viagem do Elefante


Por vezes acontece que gostamos tanto de um livro que não nos apetece falar sobre ele. Apetece-nos, isso sim, deixar derretê-lo na boca como se fosse um finíssimo chocolate do mais saboroso cacau de paragens recônditas.

Assim me aconteceu com a última obra de Saramago, A Viagem do Elefante. Genial. Mordaz. De um humor aveludado e cortante ao mesmo tempo. Prova de uma lucidez e de uma inteligência que resistem à idade e à doença. E não há nele nada de soturno, de triste. Só luz e sol. Apenas vida e riso.

Acrescente-se profundidade, patente em frases lapidares como esta:

(…) a representação mais exacta, mais precisa, da alma humana é o labirinto. Com ela tudo é possível. (p. 239)

Como com Saramago. Tudo é possível.

A Lista (parte I)

Saía pela primeira vez em meses da gaiola dourada em que se encontrava. Enregelado, com artroses pelo corpo gasto, pôs um gorro de lã vermelha (haveria lã vermelha?) e um cachecol em padrões indizíveis, daqueles que só este Povo que agora o acolhia podia ter sequer imaginado.

Deixara a bengala no quarto que partilhava com um espanhol ainda mais velho, daqueles que se gabava de ter combatido na Guerra Civil e que, sempre que recebia uma carta de um tal familiar, lamentava a perda do Império, a entrada na União Europeia e o fim do domínio na América Latina. Tipo chato, este! Ainda por cima largava-se com frequência, tornando irrespirável o ar já de si abafado daquele retiro obrigatório.

De que se queixava, afinal? Tinha quem o lavasse, quem o alimentasse, quem lhe fizesse a cama e lhe desse o “cocktail” que o mantinha vivo. Vivo? Ao menos com o coração a bater.

Finalmente saíra. Sem deixar aviso. O frio ar do final de tarde em que a luz tão renitentemente aparecida durante o dia se despedia num beijo plácido entrava-lhe agora, sem pedir licença, pelas fossas nasais outrora atraentes. Poderá haver atracção pelas fossas nasais? Quando se é novo, tudo é atraente e belo e apetitosamente degustável… Sempre fora um velho lívido e libidinoso… Sempre fora velho! Mesmo quando dera o primeiro grito fora do ventre materno, parecia ser a voz de um ancião que, descobrindo mais uma verruga na ponta do nariz, lamentava a existência dos espelhos.

Pulmões gelados, cara fria, pés com medo de pisar solo duro e desconhecido. Avistava ao longe uma torre medieval com um relógio dourado apontando as cinco horas. À medida que conquistava centímetros à rua, ia tomando consciência do seu corpo e, miraculosamente, do motivo que o prendia àquela pequena vila de Vianen. Tinha todos os condimentos para se tornar o “El Dorado” dos velhos oprimidos que haviam desperdiçado uma vida entre dinheiro e o modo de o fazer. Fizera dinheiro. Onde estaria ele agora? Havia recebido um panfleto por via do espanhol em que se anunciava uma fundação com o seu nome, responsável por uma daquelas exposições de arte pseudo-culturais em que perceptível é, apenas, o nome do artista e a data de nascimento. Sim, este tipo de “artistas” não tem data aprazada para morrer.

(Continua)

sábado, novembro 15, 2008

The music of the day

Daybreak de Lisa Ekdahl

segunda-feira, novembro 10, 2008

Early Night Posts (48)

"Embrace", Gustav Klimt
"Trocámos pelo olhar bilhetes em segredo."

"Pela rédea da música. (...)
O homem que não traz em si nenhuma música,
Nem o move a concórdia de notas dulcífluas,
É dado a estratagemas, traições e pilhagens;
Os impulsos do seu espírito são obscuros
E os sentimentos negros como o Érebo.
Não se confie em tal homem. Ouvir a música!"

O Mercador de Veneza, William Shakespeare, Cotovia, Tradução de Daniel Jonas, 2008, p. 18 e p. 152.
Enquanto não arranjo tempo para o post sobre o muito interessante texto de Shakespeare e para a bela peça que está em cartaz no Teatro Nacional de S.João (Recomenda-se vivamente!), deixo aqui duas passagens que - não tocando, embora, o cerne das mais profundas problemáticas presentes (muitas delas jurídicas) - me marcaram especialmente na passada sexta-feira.

O Sonho



Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
Pelo sonho é que vamos!

Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria,
Ao que desconhecemos
E ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama, Pelo Sonho é que Vamos.

sábado, novembro 08, 2008

Early Night Post


De Johann Wolfgang Goethe, aqui ficam algumas das frases mais marcantes de O Jogo das Nuvens, Lisboa: Assírio & Alvim, 2003.

1. Os fenómenos atmosféricos nunca são estranhos ao olhar do poeta e do pintor: ele ocupa-se deles com interesse nas suas viagens e nos seus passeios (…) (p. 45)

2. E assim cheguei sozinho a uma perspectiva viva, a partir da qual se forma um conceito que depois, numa linha ascendente, se encontrará com a ideia. (p. 46)

3. Já a força se agita que é capaz

De ao que é informe forma dar, e faz

Nascer no ar um leão, um elefante,

Do camelo sai dragão flamejante,

Chega um exército, mas não logo a vitória,

Na alta escarpa tem fim sua glória;

Já o fiel arauto da nuvem se dissipa,

Seu fito é o horizonte, mas aqui abdica.

(p. 80)

4. As montanhas (…) apresentam-se na sua imobilidade ancestral aos nossos sentidos exteriores. Consideramo-las mortas, porque estão petrificadas, julgamo-las inactivas, porque estão em repouso. Eu, porém, já há muito tempo que não consigo deixar de atribuir em grande parte a uma acção interior, silenciosa e secreta delas as mudanças que se dão na atmosfera. (pp. 87-88)

5. (…) É ilusão a imagem

Do bem primeiro e perdido da juventude?

Fausto II, vv. 1059-1060

quarta-feira, novembro 05, 2008

Congratulations, Mr. President!


Não é nenhum salvador dos EUA ou do Mundo.
Não vai fazer tudo, nem tudo num dia.
Não devemos embarcar em "Obamanias",

Mas que hoje é um dia histórico na luta da população negra pela igualdade de direitos, isso é.
Não se trata do fim do racismo ou da xenofobia, mas que os "States" e o mundo ficaram um pouco menos racistas, isso é verdade. Mesmo que à custa da concentração de votos anti-Bush e de uma conjuntura económica e social muito favorável. Contudo, repetidas estas condições, recuando umas décadas, a eleição de Obama seria impossível.

Apesar de tudo isto, não me parece que o novo Presidente tenha assim tanto espaço de manobra para operar a "change we can believe". Desde logo, "change" assusta e cria resistência(s), e "believe" depende muito da forma como o mundo souber (ou não) refundar o sistema económico-financeiro. Ao menos, foi bom para o dólar e para os quenianos, que ganharam um dia feriado...

Feliz modernidade!

SABES QUE ESTÁS A FICAR LOUCO NO SÉCULO XXI QUANDO:

1. Envias um e-mail ou usas o GTalk para conversar com a pessoa que trabalha na mesa ao teu lado;

2. Usas o telemóvel na garagem de casa para pedir a alguém que te ajude a levar as compras;

3. Esquecendo o telemóvel em casa (coisa que não tinhas há 10 anos atrás), ficas apavorado e voltas para buscá-lo;

4. Levantas-te pela manhã e quase que ligas o computador antes de tomar o café;

5. Conheces o significado de tb, qd, cmg, mm, dps, k, ...;

6. Não sabes o preço de um envelope comum;

7. A maioria das piadas que conheces, recebeste por e-mail (e ainda por cima ris sozinho...);

8. Dizes o nome da tua empresa quando atendes ao telefone em tua própria casa (ou até mesmo o telemóvel!!);

Digitas o '0' para telefonar desde tua casa;

10. Vais para o trabalho quando está a amanhecer, voltas para casa quando anoitece de novo;

11. Quando o teu computador pára de funcionar, parece que foi o teu coração que parou;

11. Estás a ler esta lista e a concordar com a cabeça e sorrir;

12. Estás a concordar tão interessado na leitura que nem reparaste que a lista não tem o número 9;

13. Retornaste à lista para verificar se era verdade que faltava o
número 9 e nem viste que há dois números 11;

14. E AGORA ESTÁS A RIR DE TI MESMO!!!

15. Já estás a pensar para quem vais enviar esta mensagem;

16. Provavelmente agora você vais clicar no botão 'Reencaminhar'... é a vida...que mais poderias fazer?... foi o que eu fiz também...

Feliz modernidade!

terça-feira, novembro 04, 2008

Tuesday, USA

What`s the power of the three words?

sábado, novembro 01, 2008

A civilização da imagem

Vale a pena meditar nestas palavras do Pe. Rodrigo Lynce de Faria:

A civilização da imagem

Em certo país, existia um quartel militar perto de uma aldeia. No meio do pátio desse quartel estava um banco de madeira. Era um banco simples, branco e sem nada de especial. E junto desse banco estava um soldado de guarda. Fazia guarda de dia e de noite. Ninguém no quartel sabia porque se fazia guarda junto a esse banco. Mas fazia-se. Os oficiais transmitiam a ordem e os soldados obedeciam. Ninguém duvidava. Ninguém perguntava. Era assim.

Até que um dia foi trabalhar para aquele quartel um oficial que era diferente. Tinha o mau costume de perguntar o que ninguém perguntava. Perguntou porque se fazia guarda junto a esse banco. Responderam-lhe que era algo que sempre se tinha feito assim. Era uma ordem que se cumpria há muito tempo e funcionava. Logo, não podia estar errada. O oficial pediu então para ver a ordem escrita. Foi necessária uma pesquisa profunda nos arquivos do quartel, que já estavam cheios de pó. Por fim, alguém conseguiu encontrá-la. Dezoito anos, três meses e cinco dias atrás, um coronel tinha mandado que ficasse um soldado de guarda junto a esse banco. Aí estava a ordem. O motivo, escrito em baixo com letra pequena, era que o banco estava recém-pintado e havia o perigo de alguém se sentar.

Esta história pode ajudar-nos a reflectir sobre a importância da actividade de pensar. A importância de não actuarmos com o argumento de que sempre se fez assim. Porque pensar é útil. Pensar é necessário. E pensar com calma revela-se, com frequência, algo profundamente eficaz. Algo que evita a perda de muito tempo. Quantas vezes temos a sensação de que uma coisa correu mal porque não pensámos bem antes de actuar? Porque não actuámos com ponderação? Porque nos deixámos levar pelo imediato?

Este frenesi está muito relacionado com a civilização da imagem na qual vivemos. É um facto que muitas pessoas vêem muitas imagens e lêem pouco ou quase nada. Não porque sejam analfabetas, mas porque parece mais fácil adquirir conhecimentos assim. Assusta conhecer pessoas que passam horas diante da televisão e nem consideram a possibilidade de abrir um livro. «Se uma imagem vale por mil palavras, qual é a utilidade da leitura? Se já vi o filme, para que é que vou ler o livro?».

E esta importância excessiva dada à imagem em detrimento da palavra explica em parte o pensamento débil de muitos. Porque a actividade de pensar articula-se com palavras. Palavras que chegam ao fundo do espírito, que convidam à reflexão e despertam a inteligência. Uma das características mais habituais daqueles que lêem pouco é a pobreza de vocabulário. E isso produz uma pobreza de pensamento. Uma facilidade para actuar como todos. Uma propensão para deixar-se manipular por slogans simplistas. Uma dificuldade para transmitir o próprio pensamento com palavras adequadas. E quem não sabe transmitir aquilo que pensa, o mais provável é que não pense bem.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria


Samuel Quinto

4Electric é o novo projecto do "latin jazz piano player" Samuel Quinto. Depois do sucesso do primeiro CD, "Latin Jazz Thrill" (ainda não o têm? À venda nas FNAC, p. ex.), eis que surge o segundo trabalho, já em processo de gravação. O título do CD será "Both Sides", com claras influências de Chick Corea Elektric Band and Pat Metheny Group.
O Tretas teve acesso a este furo jornalístico!

Ora ouçam lá a boa onda!

quinta-feira, outubro 30, 2008

O 25 de Abril está de volta!


Descansem os mais revolucionários, acautelem-se os "grandes capitalistas", protejam-se os "latifundiários" (parece que ainda existem, apesar de a agricultura ser uma espécie em vias de extinção...), soem os tambores da Revolta! O 25 de Abril (do próximo ano, que o deste ano já lá vai) está de volta!
General Loureiro dos Santos dixit:

Presumo que a postura generalizada dos militares é uma sólida disposição, melhor, determinação de não perturbar a normalidade democrática, já que é insuspeita a sua devoção ao regime, para cuja implantação tiveram contribuição decisiva. Mas a angústia provocada por situações de dificuldade, associada ao sentimento de que são objecto de injustiça relativamente à forma como são tratados profissionais da administração pública a que são equiparados, cuja persistência lhes parece absolutamente incompreensível, poderá conduzir a actos de desespero, capazes de gerar consequências de gravidade, que julgaríamos completamente impossíveis de voltar a acontecer.

In: Público, de 25-10-2008.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Martela-cabeças


Por motivos vários, duas frases que me chegaram hoje aos ouvidos, através de dois queridos Amigos, têm-me estado a "martelar" a cabeça:

1. "A vida é feita de cargos e de encargos" (by RTP).

2. "Esta crise é pior que um divórcio: já perdi metade do meu patrimónioe a minha mulher ainda está em casa..." (relatada por PTS e MLG, mas não relacionada directamente com nenhum deles... thank God!)

Portugal no seu melhor!

A não perder!


4ª feira - 29/10/2008 - 21:30 - Samuel Quinto 4Electric

4 Electric é o novo desafio de Samuel Quinto, o pianista que dá o nome ao projecto e de quem são também todos os temas.
A sua proposta é agora bem diferente dos seus últimos trabalhos, nomeadamente do CD “Latin Jazz Thrill”, lançado em 2007, mas igualmente empolgante.

O resultado é um misto de jazz, funk e latin ora exuberante (como no tema “Funk Stop”), ora intimista (como em “Praise 1″), a conhecer em “Both Sides”, nome do álbum de estreia do quarteto a lançar brevemente.
Definitivamente, um som irresistível e electrizante, puro deleite que à irrepreensibilidade técnica junta a suprema virtude de nos surpreender e inspirar, onde reconhecemos as influências de Pat Metheny e do som poderoso de Chick Corea Elektric Band.

Este concerto será gravado, em áudio e vídeo, para posterior lançamento do respectivo DVD.

Samuel Quinto - Piano/Teclados
Neyriam - Sax Alto
Marcos Borges - Baixo Eléctrico
Manuel Santiesteban - Bateria

Entrada: 5,00€ - Alunos EJAN: 3,00€

Rua General Norton de Matos nº 448
4050-424 Porto

(a 30 metros da saída "R. Cap° Henrique Galvão/R. 5 de Outubro" da Estação de Metro da "Casa da Música" na Boavista)

terça-feira, outubro 28, 2008

Apetece dizer...



Apetece dizer, a propósito da discussão jurídica, parafraseando Theodore Roosevelt, que:



The great virtue of my radicalism lies in the fact that I am perfectly ready, if necessary, to be radical on the conservative side
.

Paris


Ver Paris, de Cédric Klapisch é reencontrar espaços mágicos de luz, amor, prazer e dor. Ver Paris é perceber que todas as vidas estão interligadas, que a felicidade pode ser atingida de uma varanda com vista para a cidade eterna. Ver Paris é contemplar o génio de Juliette Binoche, o amor tolo em meia-idade, a história da aluna que aproveita o professor decadente, da gente simples do mercado que busca em todo o lado uma oportunidade de se encontrar com sentimentos nobres e profundos.

Há frases que ficam no ouvido, ao mesmo tempo que uma soberba fotografia nos faz caminhar sobre nuvens. E sai-se diferente do que se entrou: mais confiante nas pessoas.