sexta-feira, setembro 05, 2008

A luz do sonho

Há uns dias atrás, contaram-me que uma criança, confessando o medo do escuro e perguntada sobre como o resolvia quando fechava os olhos para dormir, respondeu com a candura das coisas óbvias com que estes pequenos grandes seres a cada passo nos surpreendem: “Ora, quando estou a dormir não tenho medo! Aí tenho a luz do sonho!”

Desarmante, a resposta!

Em dia cinzento, prenúncio de um Outono a chegar, é de luzes como esta que todos nos devíamos alimentar!

Pintar com luzes, é o desafio que deixo com este “spot” fabuloso!


quinta-feira, setembro 04, 2008

Overpowered



Uma musiquinha divertida de Roisin Murphy: Overpowered.
Digamos que a indumentária da intérprete, no vídeo, podia fazer pendant com o outfit infra postado. ;-)

sábado, agosto 30, 2008

Moda Outono/Inverno 2008-2009

Ciente da importância extrema das tendências da moda, o Tretas sugere, para a próxima época Outono/Inverno, o seguinte modelo vindo directamente do Reino Unido e fotografado em rigoroso exclusivo pela RTP.
Aceitam-se encomendas. Existem várias cores e tamanhos.

T&L in Liverpool, a few months ago...

Filho de peixe...

Tirando o Nelson Évora e a Vanessa Fernandes, a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos saldou-se por um chorrilho de desculpas: os árbtitros (um clássico português em que somos recordistas mundiais absolutos - se houvesse medalha de ouro para este desporto, ela era, de certeza, dos lusos), o calor, as pernas (essas malditas com que se corre...), enfim, a falta de apoios e de condições de treino...
Quem não se queixou nada foi a figura dos Jogos: o grande (literalmente falando!) Michael Phelps.
Sabe-se agora que esta paixão por chegar sempre primeiro vem de longe...
Filho de peixe...

quinta-feira, agosto 14, 2008

domingo, agosto 10, 2008

Mário Cláudio, "Boa Noite, Senhor Soares"


Mário Cláudio, Boa Noite, Senhor Soares,

Publicações Dom Quixote, Lisboa: 2008, 10 €.

Ainda não tinha lido nada de Mário Cláudio. Estreei-me agora com o “Boa Noite, Senhor Soares”. Uma excelente estreia!

A ideia é original: como veria um jovem companheiro de trabalho de Fernando Pessoa esse ser misterioso, sério, quase sombrio, tantas vezes austero e outras demasiado humano? Se a isto acrescentarmos o facto de Mário Cláudio cobrir a personagem com o véu de um outro nome – Senhor Soares –, com uma diversa profissão (tradutor de uma empresa comercial e habilidoso na arte de guarda-livros), temos o ambiente criado para uma história de desenvolvimento de um jovem homem que vai crescendo a admirar aquela criatura tão culta, a com ela sonhar durante a velhice e, até certo ponto, a desejar a sua redenção através do Senhor Soares.

O Autor não foge, embora de jeito subliminar, a questões como as da orientação sexual do Poeta, da sua solidão ou até de certos comportamentos erráticos. Tudo em linguagem clara, cristalina, aqui e além colando-se ao estilo pessoano. Sente-se Lisboa, as suas ruelas, o Bairro Alto, a pequenez e a alegre e honrada pobreza de um Portugal ainda mais atrasado, situado nas décadas de 20 em diante do passado século.

Morre o Senhor Soares. Um cortejo de heterónimos desfila ao lado de excelsos desconhecidos. O narrador sobrevive uma velhice como tantas outras. Uma sensação de dever cumprido enche-nos a alma.

***

Como “bónus”, o leitor é presenteado com a versão da “Medeia” de Eurípedes por Mário Cláudio. Boa ideia original: Medeia é uma decadente actriz em busca de subsídio do Ministério da Cultura, digerindo o facto de Eurípedes a ter transformado para sempre na horrível mulher que, por despeito em ter sido trocada, mata os seus filhos.

Boa ideia, de facto, mas pobre desenvolvimento, principalmente num monólogo em que se vive da extrema força que o texto deve conter. O desafio era enorme e Mário Cláudio parece ter acusado o nível de exigência.

sábado, agosto 09, 2008

Inspiring quotes (13)


Às vezes um charuto é apenas um charuto.

Sigmund Freud
(1856-1939)






Freud visto por Andy Warhol.

De outros tempos


quinta-feira, agosto 07, 2008

Melpo Mene, I Adore You

Melpo Mene é um grupo sueco a fazer furor nos EUA, muito devido a "I Adore You" ser a banda sonora do anúncio publicitário do C70 da Volvo.
Vale bem a pena, para apaixonados e não apaixonados... e não deixem de reparar no trabalho gráfico do vídeo.

Lavagante, José Cardoso Pires


José Cardoso Pires, Lavagante, Encontro Desabitado, Edições Nelson de Matos, 2,ª ed., Lisboa: 2008, 9.00 €.


Lavagante, Encontro Desabitado, de José Cardoso Pires, corresponde a um conto que o Autor escreveu e que soa agora, anos após a sua morte, vê a luz do dia.

Escrito sob a divisa napoleónica “É necessário cometer algumas imprudências, mas convém que sejam devidamente calculadas”, trata-se de uma pequena novela passada na Lisboa salazarista, em que um amor proibido entre um alto quadro e uma jovem universitária acaba da maneira mais realista que podíamos imaginar. A comparação com o lavagante, o qual vai alimentando o safio que se mantém em pequenas grutas até atingir dimensões tais que o impedem de sair, altura em que o lavagante mata e se alimenta da sua iguaria tão diligentemente tratada, é uma constante. Tal como o animal, também algumas pessoas vão alimentando relações até que o outro não se conseguir libertar de algo que deixa de ser positivo e passa a ser uma prisão.

Por vários motivos, retenho a seguinte passagem: “(…) com efeito não se nasce homem, (…) não se nasce mulher; (…) é necessário forjar o homem, trabalhá-lo. On devient homme et on devient femmeOn devient femme como?” (p. 56).

Uma leve leitura de Verão!

Duas excelentes propostas


Caso ainda estejam em cartaz, o Tretas aconselha que vejam os filmes O meu irmão é filho único e Eu servi o rei de Inglaterra.

Estilos muito diversos, mas mantendo em comum a originalidade das histórias, a boa realização e o humor acutilante, em especial em O meu irmão é filho único, um retrato muito interessante de uma Itália pós-fascista em que se cruzam as vidas de dois irmãos tão diferentes que parecem iguais, disputando um amor que resiste a ideologias, estas, tão a propósito nos nossos dias, desconchavadas e erigidas em nonsense.

Eu servi o rei de Inglaterra impressiona pela esquizofrenia dos assuntos, pelo sarcasmo com que a II Grande Guerra é encarada, entre lautas refeições servidas em restaurantes e hotéis de luxo, entre oportunidades únicas de negócio e sempre com algum erotismo à mistura. Uma produção checa impressiva e desconcertante.

Dicionário explicado

Parabéns à luísa n e ao valter rego!

“Pimpimeira” significa coisa sem sentido, sem gosto, pirosa, sendo palavra de uso muito revente no excelso Reino do Forno e tendo a sua origem na pessoa de Pimpinha (ou será Pipinha?), filha de uma conhecida “socialite” nacional, por via da sua enorme falta de gosto.

“Aquele é um Neves”, como argutamente intuiu o Senhor Dom Valter Rego, significa “aquele é um homem traído, um homem vítima de adultério”. Como de modo óbvio se percebe, terá sido um tal Neves que, no séc. XII, era useiro e vezeiro em ter a cabeça pesada, à custa de Ludovina, moça roliça e de boas carnes que, em moitas, veredas ou fontes, era dada à emancipação da carne… Vai daí, a expressão pegou e nenhuma família no Reino usa hoje tal apelido.

Como é hábito, os felizes contemplados são dignos de graça e de adoração, mandando o Senhor Marquis que o dia de hoje seja proclamado “urbi et orbe” como o dia da “Pimpineve”, em homenagem aos dois distintíssimos amigos deste vetusto monarca.

Em relação ao cargo de Ministra dos Assuntos Culturais, mando o Senhor Marquis que seja nomeada a Senhora Dona Thumbelina, a quem incumbirá, doravante, a responsabilidade deste espaço de protecção e divulgação da língua fornense.

sexta-feira, agosto 01, 2008

segunda-feira, julho 28, 2008

Do meu e-mail (XX)

ARTIGO DE NUNO MARKL P/ OS TRINTÕES
(revejo-me no artigo, até porque, numa aula há alguns meses atrás, quando disse "follow me", ninguém associou ao programa que nos fez a muitos aprender as primeiras palavras em Inglês, ou quando me referi à "pasta medicinal Couto" ou ao "desodorizante Lander"... e não me perguntem a que propósito falei eu destas matérias nas minhas aulas... ninguém sabe!)

http://mail.google.com/mail/?ui=1&realattid=0.0.4&attid=0.0.2&disp=emb&view=att&th=11afcba12b9a3348

A juventude de hoje, na faixa que vai até aos 20 anos, está perdida.

E está perdida porque não conhece os grandes valores que orientaram os que hoje rondam os trinta.

O grande choque, entre outros nessa conversa, foi quando lhe falei no Tom Sawyer.

'Quem?', perguntou ele. Quem?! Ele não sabe quem é o Tom Sawyer! Meu Deus... Como é que ele consegue viver com ele mesmo?

A própria música: 'Tu que andas sempre descalço, Tom Sawyer, junto ao rio a passear, Tom Sawyer, mil amigos deixarás, aqui e além...' era para ele como o hino senegalês cantado em mandarim.

Claro que depois dessa surpresa, ocorreu-me que provavelmente ele não conhece outros ícones da juventude de outrora.

O D'Artacão, esse herói canídeo, que estava apaixonado por uma caniche; Sebastien et le Soleil, combatendo os terríveis Olmecs; Galáctica, que acalentava os sonhos dos jovens, com as suas naves triangulares; O Automan, com o seu Lamborghini que dava curvas a noventa graus; O mítico Homem da Atlântida, com o Patrick Duffy e as suas membranas no meio dos dedos; A Super Mulher, heroína que nos prendia à televisão só para a ver mudar de roupa (era às voltas,lembram-se?); O Barco do Amor, que apesar de agora reposto na Sic Radical, não é a mesma coisa. Naquela altura era actual...

E para acabar a lista, a mais clássica de todas as séries, e que marcou mais gente numa só geração: O Verão Azul.

Ora bem, quem não conhece o Verão Azul merece morrer. Quem não chorou com a morte do velho Shanquete, não merece o ar que respira. Quem, meu Deus, não sabe assobiar a música do genérico, não anda cá a fazer nada.

Depois há toda uma série de situações pelas quais estes jovens não passaram, o que os torna fracos:Ele nunca subiu a uma árvore!

E pior, nunca caiu de uma. É um mole.

Ele não viveu a sua infância a sonhar que um dia ia ser duplo de cinema.

Ele não se transformava num super-herói quando brincava com os amigos.

Ele não fazia guerras de cartuchos, com os canudos que roubávamos nas obras e que depois personalizávamos.

Aliás, para ele é inconcebível que se vá a uma obra.

Ele nunca roubou chocolates no Pingo-Doce. O Bate-pé para ele é marcar o ritmo de uma canção.

Confesso, senti-me velho...

Esta juventude de hoje está a crescer à frente de um computador.

Tudo bem, por mim estão na boa, mas é que se houver uma situação de perigo real, em que tenham de fugir de algum sítio ou de alguma catástrofe, eles vão ficar à toa, à procura do comando da Playstation e a gritar pela Lara Croft.

Óbvio, nunca caíram quando eram mais novos. Nunca fizeram feridas, nunca andaram a fazer corridas de bicicleta uns contra os outros.

Hoje, se um miúdo cai, está pelo menos dois dias no hospital, a levar pontos e fazer exames a possíveis infecções, e depois está dois meses em casa fazer tratamento a uma doença que lhe descobriram por ter caído.

Doenças com nomes tipo 'Moleculum infanticus', que não existiam antigamente.

No meu tempo, se um gajo dava um malho muitas vezes chamado de 'terno' nem via se havia sangue, e se houvesse, não era nada que um bocado de terra espalhada por cima não estancasse.

Eu hoje já nem vejo as mães virem à rua buscar os putos pelas orelhas, porque eles estavam a jogar à bola com os ténis novos.

Um gajo na altura aprendia a viver com o perigo.

Havia uma hipótese real de se entrar na droga, de se engravidar uma miúda com 14 anos, de apanharmos tétano num prego enferrujado, de se ser raptado quando se apanhava boleia para ir para a praia.

E sabíamos viver com isso. Não estamos cá? Não somos até a geração que possivelmente atinge objectivos maiores com menos idade?

E ainda nos chamavam geração 'rasca'... Nós éramos mais a geração 'à rasca', isso sim. Sempre à rasca de dinheiro,sempre à rasca para passar de ano, sempre à rasca para entrar na universidade, sempre à rasca para tirar a carta, para o pai emprestar o carro. Agora não falta nada aos putos.

Eu, para ter um mísero Spectrum 48K, tive que pedir à família toda para se juntar e para servir de presente de anos e Natal, tudo junto.

Hoje, ele é Playstation, PC, telemóvel, portátil, Gameboy, tudo.

Claro, pede-se a um chavalo de 14 anos para dar uma volta de bicicleta e ele pergunta onde é que se mete a moeda, ou quantos bytes de RAM tem aquela versão da bicicleta.

Com tanta protecção que se quis dar à juventude de hoje, só se conseguiu que 8 em cada dez putos sejam cromos.

Antes, só havia um cromo por turma. Era o totó de óculos, que levava porrada de todos, que não podia jogar à bola e que não tinha namoradas.

É certo que depois veio a ser líder de algum partido, ou gerente de alguma empresa de computadores, mas não curtiu nada.'

(Nota: ...os chocolates não eram gamados no 'Pingo Doce'... Ainda se chamava 'Pão de Açúcar'!!!)

quinta-feira, julho 24, 2008

Early Night Posts (43)

Super Lamb Banana *
"É sabido que aquilo com que este cidadão médio sonha são a natureza, o idílico, a paz e a beleza. É igualmente sabido que todas essas coisas belas, que, ainda há pouco tempo, existiam na terra inteira, são para ele pouco saudáveis, uma vez que não as consegue assimilar. Mas como, mesmo assim, as quer ter, como virou a natureza do avesso, foi criada, tal como inventaram o café sem cafeína e os cigarros sem nicotina, uma natureza limpa, sem perigos, higiénica e desnaturada. Em tudo isto reinou o primeiro princípio do moderno comércio da arte: a exigência absoluta de «autenticidade». Essa imposição, que anteriormente não era conhecida, tem toda a razão de ser, pois outrora uma ovelha era de facto uma ovelha e dava lã autêntica, uma vaca era uma vaca verdadeira e dava mesmo leite, e ainda não tinham sido inventadas ovelhas e vacas artificiais. Mas, depois de terem sido inventadas e afastado, quase completamente, as verdadeiras, rapidamente se criou o ideal de autenticidade. (...)
(1925)"

Hermann Hesse, "As mais belas histórias", casa das letras, 3.ª ed., 2008, pp. 7 e 8.
Com um muito obrigada a quem escolheu tão belo presente.

* É, actualmente, um dos ex-libris da cidade de Liverpool. Foi criada, em 1998, por Taro Chiezo, artista plástico sedeado no Japão e procurou constituir um alerta para os perigos dos alimentos geneticamente manipulados, conjugando nesta obra as figuras do cordeiro e da banana (produtos que pontificavam no tráfico comercial que se desenrolou ao longo da história no porto de Liverpool).

terça-feira, julho 22, 2008

Do meu e-mail (XIX)

Numa prova de entrada para a Universidade...

Questão : Interpretar o seguinte trecho de poema de Camões:

"Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente,
é um contentamento descontente,
dor que desatina sem doer".



Uma aluna deu a sua interpretação:


"Ah Camões, se vivesses hoje em dia,
tomarias uns antipiréticos,
uns quantos analgésicos
e Prozac para a depressão.
Comprarias um computador,
consultarias a Internet
e descobririas que essas dores que sentias,
esses calores que te abrasavam,
essas mudanças de humor repentinas,
esses desatinos sem nexo,
não eram feridas de amor,
mas somente falta de sexo!"


Teve nota máxima. Foi a primeira vez, depois de mais de 500 anos, que
alguém entendeu qual era a ideia do Camões...

Recebida via Rocky, que vai dando sinais de vida!:)

domingo, julho 20, 2008

Habemus RTP!

Annuntio vobis gaudium magnum:
Habemus RTP
!

O calendário gregoriano assinala 20 de Julho como o dia em que foi eleito o Papa Hormisdas (Habemus Papam, típico do filme Os Bórgias, tão ao gosto de quem virá mais à frente), o dia da Tomada do Castelo de Stirling: Eduardo I de Inglaterra conquista a última fortaleza rebelde na Guerra da Independência Escocesa, bem como em que a Colômbia proclama sua independência da Espanha (é, na verdade, muito independente e moderna a moçoila de que se falará), o dia em que nasceu Carlos Santana (canta maravilhosamente em coros de casamento e afins…), ou a esbelta Gisele Bündchen, modelo brasileira um pedaço mais velha que a figura em referência e um pedaço menos bonita, também… e é o Dia do Amigo, o evento que, sem sombra de dúvidas, mais se aproxima da grande apoteose em termos de acontecimentos marcantes de 20 de Julho……………………

O ANIVERSÁRIO DA RTP!!!!

Há dias assim, em que só maravilhas acontecem, em que os deuses se reúnem em conclave extraordinários e a todos nos deliciam com a beleza, a doçura, a inteligência, sagacidade, tenacidade, Amizade infinda de seres únicos e irrepetíveis como a nossa RTP, a quem temos a imensa joie de vivre de ter como AMIGA!

Dado que para seres tão extraordinários não existem prendas capazes de ombrear com a dignitas de quem se homenageia, estes dois humildes servos deixam uma música que é já antiga (como o filipelamas…) e um pouco lamechas, mas que muito diz do que sentimos pela RTP, neste dia de Santa Paula e São Elias (aqui está a resposta para uma das questões de ontem…)!

Rocky
Filipelamas

sexta-feira, julho 11, 2008

Early Night Posts (42)


Bernardo Strozzi, A Personification of Fame, 1635-6?, National Gallery, Londres.


O que vale a minha vida? No fim (não sei que fim)
Um diz: ganhei trezentos contos,
Outro diz: tive três mil dias de glória,
Outro diz: estive bem com a minha consciência e isso é bastante...
E eu, se lá aparecerem e me perguntarem o que fiz,
Direi: olhei para as cousas e mais nada.
E por isso trago aqui o Universo dentro da algibeira.
E se Deus me perguntar: e o que viste tu nas cousas?
Respondo: apenas as cousas... Tu não puseste lá mais nada.
E Deus, que apesar de tudo é esperto, fará de mim uma nova espécie de santo.

17-9-1914

Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos.

quinta-feira, julho 10, 2008

Dicionário alternativo 2 in 1

Parabéns, luísa n!
De facto, o Senhor Marquis manda dizer que "mal ajambrado" significa "mal arranjado", "com falta de aprumo", "descuidado quanto à aparência ou quanto a qualquer outra qualidade em que se exige o mínimo de cuidado na apresentação".
Mais manda dizer que, em virtude da vacatura do cargo de Ministro dos Assuntos Culturais, por ora apenas lhe presta público louvor:)

E deixa mais um desafio, ou melhor, dois:

"pimpineira"
"aquele é um Neves".

Alea jacta est!

The Bird and the Bee

"Again and again" dos The Bird and the Bee.

Porto de Vista (XXVII)

O Duarte acertou mais uma vez! Muitos parabéns!
Trata-se de uma fotografia de um pormenor da Capela de Nossa Senhora da Silva.
Deixo aqui outra fotografia com alguns dizeres descritivos do monumento e da sua história.

terça-feira, julho 08, 2008

Porto de Vista (XXVII)

Et voilà!

Neste tempo de aniversário e depois do balanço que fizemos no post anterior, aqui deixamos uma revelação bombástica!
Eis a nobre consorte (com sorte?) do Marquis do Reino (?) Fornense....
A sereníssima Marquise du Forno

E ...


E a Marquise plebeia de origens humildes por quem o marquis est tombé amoureux!

domingo, julho 06, 2008

Dois anos de Tretas

5 de Julho de 2006. 11:09. Nascia o Tretas & Letras!
Inicialmente sem nenhum sentido em especial que não fosse contactar com um irmão em trabalho nos EUA, através de um meio novo para o primeiro "postador".
Seguiu-se o convite, em boa hora feito, à rtp e, pouco tempo depois, à rocky.
Nascia a família T&L. De verdadeira família se pode falar, na medida em que, de colegas de trabalho e de verdadeiros Amigos que já na altura éramos, tem servido este espaço virtual/real para trocar e partilhar ideias, desabafos, emoções, gostos e (des)gostos.
Se a isto acrescentarmos os vários Amigos que nos dão a honra de nos visitarem, muitos deles ilustres desconhecidos antes da abertura do Tretas, o balanço só pode ser positivo.
Ao longo destes dois anos de T&L sentimos o vosso carinho e a vossa presença. Muito e muito obrigado por tudo! Recebemos sempre muito mais do que aquilo que damos.

E se este "post" já chega um pouco atrasado no tempo, para falar e estar com os Amigos nunca existe tempo definido e, muito menos, pré-definido! Por isso, ainda bem que o "post" só agora chega!
Um abraço a todos,

rtp
rocky

filipelamas

La Persistencia de la Memoria, Salvador Dalí, 1931.

quarta-feira, julho 02, 2008

Espanholite aguda e "O Orfanato": variações sobre um tema arcaico


Não sou um iberista como Saramago ou, segundo o próprio disse há já algum tempo, embora as suas afirmações jamais (tem de ser lido em francês) possam ser levadas à letra (fragilidade do elemento literal da hermenêutica linguística?), tão-pouco como Mário Lino. Contudo, não padeço também de espanholite aguda, herdada de traulitadas em Aljubarrota ou de um vírus que assolou esta ditosa Pátria entre 1580 e 1640.
Sou, na verdade, um português que gosta da sua Terra e que, por isso mesmo, sofre com tudo aquilo que fazemos (rectius, não fazemos) dela. Talvez devido a este pragmatismo patriótico, como gosto de o apelidar, sinto um sincero desejo de aprender com quem, em vários domínios, faz mais e melhor.
É facto notório (e provado, mesmo com o paladar) que nos alimentamos de Espanha, literalmente falando: o País de Cervantes (rectius, o País que, ao invés de ridículos acordos ortográficos, sabe conviver com a multiplicidade de modos de falar espanhol ou castelhano – a doutrina divide-se...) serve-nos carne, peixe, legumes e fruta. Mais: permite-nos passar fins-de-semana alegres e descontraídos (?!) no El Corte Inglés, viajar pela agência do mesmo grupo, vestir Zara, Cortefiel e similares.
O reduto da cultura - sem desprimor para os sempre enormes nomes da literatura espanhola, tirando Almodóvar -, não havia chegado – ao que sei – ao cinema de thriller intenso. Pois, mas Espanha não dorme e não se perde em discussões estéreis sobre as razões profundas pelas quais não se passa dos quartos-de-final de um campeonato da Europa de futebol, sobre se a expressão Dia da Raça é ou não adequada, ou sobre se o Cristiano Ronaldo vai ou não para a capital do País vizinho…
Vejam O Orfanato (realização de Juan Antonio Bayona) perdão, El Orfanato (o El faz toda a diferença!) e digam-me qualquer coisa.
Sim, de facto era sobre o filme que me havia proposto falar... Mas isto de ser português tem destas coisas… Acabei por desfiar caracteres sem dizer nada.
Moral da história
: um típico dia português proveitoso e bem passado!

terça-feira, julho 01, 2008

O cargo do milénio!!!

Seguindo uma interessantíssima sugestão da Thumbelina, a instâncias do Senhor Marquis, que deseja introduzir uma brecha no seu regime despótico esclarecido, através do nosso mui selecto blogue, estão abertas as candidaturas para Ministro(a) dos Assuntos Culturais do Reino do Forno!
Para além da enorme e evidente honra do cargo, o Senhor Marquis manda informar que o salário é de 20.000 € mensais, livre de impostos, atendendo a um especial decreto do monarca atinente aos membros do seu Gabinete.
Façam o favor de nos dizer que qualificações/qualidades/comendas e honrarias vos tornam a pessoa indicada para o cargo!

Verdades de Oscar Wilde


Vale a pena ler o pequeníssimo conto "A Esfinge sem Segredo", de Oscar Wilde.
A dado passo, o Autor afirma: «as mulheres estão feitas para serem amadas e não para serem compreendidas».
Como termina o conto, é caso para dizer: «Quem sabe?»

Dicionário Alternativo

O Senhor Marquis, Sua Eminência, acaba de dar novo sinal de vida, presenteando-nos com mais uma pérola da língua fornense, mais convidando o vasto auditório a esclarecer o sentido da expressão:

"bem/mal ajambrado".

Parece que, depois da expulsão do anterior Ministro dos Assuntos Culturais do Reino do Forno, existe um novo dignitário para um dos cargos mais honrosos do Mundo e arredores!

sábado, junho 28, 2008

"O Prazer da Leitura"


O Prazer da Leitura
AA. VV.
Teorema, Fnac, 2008
4 €

Há livros assim: de qualidade muito desigual, mas que valem a pena pelo aspecto humanitário. É o caso de “O Prazer da Leitura”, lançado por ocasião dos 10 anos de presença da FNAC no nosso País, reunindo contos de escritores renomados como Mário Cláudio, Francisco José Viegas, Lídia Jorge, Nuno Júdice e Rui Zink.
Começando pelo último, de modo a cumprir a determinação bíblica, como sempre, os palavrões são mais que muitos e tentam esconder um texto pobre e uma ideia singela: o computador em que o escritor trabalhava foi desligado em virtude de um corte de fornecimento de energia provocado por quem verdadeiramente trabalha: aqueles que o fazem com as mãos, em trabalho braçal. Fez-me lembrar uma pessoa que, há uns meses, me disse claramente que eu pouco fazia, apesar de o próprio também ter uma profissão dita “intelectual”…
O conto de Francisco José Viegas é um interessante mini-policial com a trama a decorrer na FNAC de Santa Catarina e, mais uma vez, representando um curioso confronto entre as “ciências do espírito” e as “ciências policiais” (pasmem-se!).
Nuno Júdice escreve prosa de modo denso e quase cifrado, em tom um tanto melodramático, mas enxuto, com palavras acutilantes, directas e que, aqui e além magoam o leitor. Porventura o conto mais expressivo desta colectânea.
Para esta época de estio, o preço de 4 € e alguma leveza na construção literária tornam “O Prazer da Leitura” numa espécie de “salada de Verão”, fresquinha e pouco dada a ricos nutrientes.

sábado, junho 21, 2008

Pintado de Fresco (VIII)

NOTA DA ADMINISTRAÇÃO

No já longínquo mês de Novembro de 2006, o Pintado de Fresco conhecia o seu último episódio, a que se seguiu uma espera de quase dois anos.
A administração do Tretas entendeu que esta novela dos tempos modernos, escrita a quatro mãos entre mim e a rtp, a que se juntará - esperam
os nós - a querida rocky, tinha de regressar, após sentirmos uma vaga de fundo a que não pudemos ficar indiferentes:)
Pedimos ao vastíssimo auditório que clique na etiqu
eta em baixo deste post e releia os episódios anteriores, de modo a perceber o que ora se publica.
Aguardamos a vossa crítica sincera e temos já de marcar um evento social pelo renascimento desta que é uma pérola da nossa literatura:)


Mário já não se sentia assim desde que, aos quinze anos, no colégio interno para onde os pais o haviam desterrado, conseguiu chegar à fala sobre “coisas de gente grande” com a escultural professora de Inglês, vinda de um mundo diferente, mais ousado, mais desligado de preconceitos e que, sem ele o imaginar, já antevia um futuro de “lady” com o Fontes Jr., por entre peles caríssimas e férias o ano inteiro.
Fora, na verdade, a sua primeira grande desilusão. Depois daqueles encontros furtivos e tórridos junto à praia da Memória (tão adequadamente colocado lhe parecia agora o nome…), adolescente/jovem/adulto, um misto de tudo e de nada, um turbilhão de emoções galgando comportas, sentira que Kate se limitava a ver nele um enorme e chorudo livro de cheques. Correra com ela, por entre berros assustadores em final de tarde de Outono, condizente o tempo meteorológico com o tempo do sentir que ameaçava despedaçar um corpo ainda tão jovem.
Tentava afastar esse pensamento à medida que, sobre as 13 h, se aproximava da entrada do Meridien.
“Deixa-te de infantilidades! É só uma mulher! Mais uma… Não. Mais uma não vale a pena… Já chegou a Madalena!”, parecia rezar em voz baixa. “Como se chama a menina da vespa?...”, o esforço era notório, pois a ressaca ainda não levantara ferros por completo. “Ah! Isso! Margarida!... Eh, pá… Mais um M…”
Já próximo das 13.30 h, o desânimo começou a vencer Mário. Olhava para todos os lados, à procura da rapariga cujo rosto tão claramente ficara gravado na sua retina e, quanto mais vislumbrava os transeuntes, mais se convencia que aquele encontro havia sido um tremendo erro.
“O que vai ela pensar de mim? Como pude ser capaz de deixar um bilhete com o meu número? Já não me conheço…”
As duas horas já haviam feito a sua entrada. O telemóvel permanecia mudo. Nem sinal de Margarida. Tivera o impulso de lhe ligar, mas entendia esta “provação” como o justo castigo pela sua inabilidade.

***

Perto do Mondego, alguém passeava com Alberto Caeiro debaixo do braço. “O guardador de rebanhos” para uma ovelha tresmalhada. A personagem caminhava de semblante pesado, porém sereno, como se transportasse o peso do mundo.
Uma carrinha com os dizeres “Associação Juntos Venceremos”, vestida de um bege muito sujo, já em final de vida, fez soar uma chiadeira aparentada de travões.
- Rodrigo, ‘bora pró Porto, carago!

segunda-feira, junho 16, 2008

Heartstopper

Heartstopper de Emiliana Torrini.

sábado, junho 14, 2008

The Happening - O Acontecimento



The Happening (2008) – O Acontecimento
Realização e argumento: Manoj Night Shyamalan
Elenco: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel

The Happening parte de uma ideia muito interessante: e se as plantas se revoltassem contra os humanos, em virtude das constantes agressões que fenómenos como a poluição para elas constituem? Como não se podem mover, a sua “natureza” reclamaria que largassem toxinas na atmosfera capazes de gerar a auto-destruição de todos quantos fossem atingidos, principalmente quando se encontram em grandes grupos, como nas principais cidades dos Estados Unidos.
Um professor de Ciências de Filadélfia, a meio de um casamento em que parece ser traído, vivendo sem paixão verdadeira, torna-se a principal figura da trama. O egoísmo humano motivado pela desesperada luta pela sobrevivência é retratado apenas em esboço.
Se a ideia de base é muito boa, a acção é demasiado caricatural, excessiva mesmo, tornando o filme ainda menos credível.
Esperava-se mais do realizador Manoj Night Shyamalan, o mesmo de “O Sexto Sentido”, em que a reviravolta é suave e apta a deixar-nos atónitos. Tudo o que falta neste “O Acontecimento” que, por rectas contas, de acontecimento cinematográfico tem muito pouco.

Doris Lessing - "Gatos e mais gatos"


Gatos e mais gatos
Doris Lessing
Livros Cotovia
12.50 €


Nunca gostei muito de gatos. Há qualquer coisa naquele modo de ronronar, de ser arisco, de prezar a independência acima de tudo, de muitas vezes “não conhecer o dono”, que me fazem olhá-los de esguelha e raramente ter o impulso de uma festinha sentida.
Contudo, ao ver “Gatos e mais gatos” (1967), da Prémio Nobel da Literatura (2007) Doris Lessing, decidi arriscar, sobretudo pela curiosidade em conhecer a escrita desta mulher nascida na Pérsia e que tem nos gatos referências de vida.
Como seria de esperar, o livro vive de descrições de estórias destes felinos domésticos (e até dos selvagens), desde as longas superfícies da África do Sul até ao mais modesto apartamento nos subúrbios de uma Londres decadente. Existem descrições pungentes do sentimento de culpa de matar gatinhos recém-nascidos devido ao elevado número da ninhada e à falta de donos, episódios de salvamentos de uma gata parideira soterrada aquando de uma forte chuvada em terras para além da metrópole do British Empire.
Sobretudo, Doris Lessing descreve com grande mestria as relações de domínio, dependência e subserviência que se estabelecem entre Gata Cinzenta e Gata Preta, a primeira sempre tratada com maior desvelo e complacência advenientes da culpa (de novo esse sentimento tenebroso assola a Autora, de jeito autobiográfico?) em ter-lhe sido usurpada a maternidade. Nos comportamentos das gatas, nas pequenas diatribes e nas mais clamorosas injustiças, revemos as relações humanas, a certeza de que a maior parte da interacção entre os homens se baseia em equilíbrios de poder. É essa a verdade nua e crua que a Autora nos oferece, assim como a sua preferência pelos animais. De facto, poucas vezes Doris se refere às pessoas, o que nos faz pensar que, apesar da crueldade de algumas atitudes das gatas, tal é preferível a enfrentar, reflectido nos outros, o género de que somos constituídos (medo, fuga de Lessing?).
A cerca de metade da narrativa, nota-se alguma perda de força, como se os gatos tivessem decidido esparramar-se num telhado aberto a um dia solarengo, exigindo do leitor um sacrifício acrescido que, no final, acaba por compensar.
Não me reconcilie com os gatos, porém, aprendi a ver neles pessoas em ponto pequeno. Para o bem e para o mal. Como sempre.

quinta-feira, junho 12, 2008

terça-feira, junho 10, 2008

3, 2, 1 ... Feist

"1, 2, 3, 4" do álbum The Reminder da Feist.

Porto de Vista Esclarecida (XXVI)

O alf acertou! Parabéns por desvendar este Porto de Vista e pela rapidez na resposta!
Era um fotografia da estátua de Garcia da Orta. Trata-se de uma Estátua de pedra da autoria de Vilar, realizada em 1971 e erigida na Praceta de Tomé Pires à Rua de Sagres nas proximidades da Avenida da Boavista.
No endereço www.vidaslusofonas.pt/garcia_da_orta.htm encontram-se interessantes informações sobre a vida e obra deste importante médico e naturalista do século XVI. Vale a pena uma consulta. Deixo aqui um breve excerto:
«Garcia da Orta nasce em Castelo de Vide, filho de Fernando (Isaac) da Orta e de Leonor Gomes. - 1523: Retorna a Portugal depois de estudar medicina em Salamanca e Alcalá de Henares. - 1530: Ingressa como professor de Lógica na Universidade de Coimbra. - 1534: Parte para Goa, Índia portuguesa, onde passa a residir, a trabalhar como médico e no comércio de especiarias e pedras preciosas. - 1563: Publica o seu Colóquios dos Simples e Drogas da Índia. - 1568: Falece. - 1580, 4 de Dezembro: Condenado post-mortem pelo Tribunal do Santo Ofício pelo "crime" de "judaísmo" (...)». In www.vidaslusofonas.pt/garcia_da_orta.htm

domingo, junho 08, 2008

quarta-feira, junho 04, 2008

Lições intemporais

Enquanto caminhava pelo jardim do palácio, perguntou o jovem príncipe ao sábio grego:
- Mestre, o que é mais importante dominar num povo de modo a que a minha Casa não caia em outras mãos?
- Compreende a música. Domina os músicos.
- Mas... os músicos? – respondeu atónito o príncipe – Eles pouco ganham e não têm poder!
- Atiram com palavras aos corações dos homens, neles semeiam tentações, revoltas, ilusões. Vendem-lhes a percepção de que tudo pode ser mudado. Contra isso, nada podes. Tu, o Senhor teu Pai, nosso Rei, ou o maior monarca de todos os tempos.
Pensativo, o jovem interlocutor voltou à carga:
- Então porque não se matam os músicos todos? Porque enchemos os nossos salões de árias e concertos, de cantos e baladas? – denotava-se argúcia na pergunta.
- Os músicos são como ervas daninhas. Experimenta arrancar uma e logo verás quantas iguais nascem e quão mais fortes se tornam. Aprende, jovem príncipe: o inimigo quer-se por perto, dominável e dominado. Deste modo, o músico é útil à tua Casa: adormece o povo. E enquanto ele dorme, tu e os teus reinam, mandam e desmandam. É a lei natural das coisas...


Acordai - letra: José Gomes Ferreira
música: Fernando Lopes Graça

domingo, junho 01, 2008

Viajar

O cheiro estava ali. Intenso, forte, suave ao mesmo tempo. A chuva miudinha que ameaçava cair dava à cidade uma tonalidade de cinzento que se reflectia nos típicos táxis. Uma rapariga hippie passou por mim esboçando um sorriso. Depois um punk. De seguida um yuppie, de copo da Starbucks na mão, atafulhado com a pasta e uma cópia do The Guardian. Sentia-me leve, uma pena a esvoaçar num mundo que aos poucos me parecia ter sido construído só para mim. Como se o Criador não tivesse descansado ao sétimo dia, mas tivesse continuado a trabalhar por conta própria para um dono de obra exigente. Sentia-me diferente e igual. Aquilo que dentro de portas é pouco convencional – a alegria sincera espelhada no rosto, a resposta “está tudo óptimo!”, à costumeira “então como vais?”, como se a felicidade fosse uma praga que importa conter –, aqui é o vulgar. Os transeuntes fazem-me viajar na viagem, percebendo que não há pautas para ser feliz, apenas notas sonantes e dissonantes que cada um compõe em sinfonia, concerto, música de qualquer estilo. Agarrei uma colcheia, uma breve e uma semi-breve e saciei-me com a arte dos antigos e dos modernos. Deitei-me no jardim da praça central, olhando os altos prédios de multinacionais e admirei o céu que, só para mim, desenhou um caracol com uma língua vermelha. Não mais despertei, pois finalmente percebi que já estava desperto há muito tempo. Apenas precisava de ganhar distância – com gente, espaço e tessitura, de carne e osso.

Senhor Brecht - Gonçalo M. Tavares


Senhor Brecht
Gonçalo M. Tavares
(1.ª ed. 2004; 2.ª ed. 2006)
Editoral Caminho


Gonçalo M. Tavares já nos tem habituado a trabalhos de grande qualidade.
Sr. Brecht não é excepção. O vencedor do Prémio Saramago, em textos curtos, porém muitíssimo densos, vai mostrando como cada um de nós olha para problemas tão diversos como o egoísmo, a política, as relações sociais. Sempre com uma lição forte, despretensiosa de moralismos.
Escrita enxuta, a merecer reflexão, é daqueles livros em que o número de páginas tem de ser multiplicado várias vezes para se atingir o discurso subliminar que nos interpela.
Obrigado, L., pela oferta!

Happy-Go-Lucky

Happy-Go-Lucky (2008)
Realização e argumento: Mike Leigh
Elenco: Sally Hawkins, Alexis Zegerman, Andrea Riseborough, Samuel Roukin, Sinead Matthews
Sítio official: http://www.happy-go-lucky-movie.co.uk/

Deve estar a chegar às salas portuguesas, mas tive a honra de o ver no local de produção… Happy-Go-Lucky (Urso de Prata no Festival de Berlim) é uma sátira às relações humanas, bem ao gosto de Mike Leigh. Uma professora primária bastante irritante (Poppy, Sally Hawkins), sempre sorridente e com comentários despropositados a propósito de tudo e de nada experimenta a sedução do seu instrutor de condução, indivíduo meio sindicalista, revolucionário de sofá, praguejando contra tudo e todos e apaixonado pela sua instruenda, com quem discute e a quem não pode perdoar o facto de ter remexido em feridas que sempre estiveram abertas, mas que a anestesia do tempo tinha tornado suportáveis.

Happy-Go-Lucky tenta ser uma espécie de manual da felicidade, fugindo (nem sempre o conseguindo, porém) a clichés. A proposta é simples: temos tudo aquilo de que necessitamos e se não o tivermos, é porque não nos faz mesmo falta… E a alegria traz mesmo a sorte. Ingenuidade, lirismo? Talvez. Mas numa Liverpool tão acolhedora, numa sala de cinema arquitectonicamente muito diversa daquilo a que estamos habituados, deu bem para acreditar!


Coeurs (Corações)


Coeurs (2006)
Realização: Alain Resnais
Argumento: Jean-Michel Ribes
Elenco: Sabine Azéma, Isabelle Carré, Laura Morante, Pierre Arditi, André Dussollier,
Lambert Wilson.

Neva sem cessar em Paris. Os corações estão aparentemente frios, à espera de algo ou de alguém que os aqueça, nem que seja à custa de um copo de whisky ou de uma reprimida explosão sexual. Por Coeurs (Corações) desfilam as histórias de um agente imobiliário na casa dos 50, 60, conformado a viver com uma irmã bastante mais nova que procura (o Amor?) em encontros fortuitos obtidos com recurso a anúncios de jornal e em que uma flor vermelha serve de identificação em blind dates. Este agente imobiliário acalenta um desejo por uma colega de trabalho, figura central na trama, aparentemente fervorosa católica que trata, depois do emprego, de um velho doente. Mas esta personagem é demasiado rica para se sentar num escritório. A sua cabeça e o seu corpo passam pelo abismo do desejo, da perversão sexual, dos jogos de sedução por vezes doentios, sempre em busca de uma redenção pelos desejos que a impelem a ter uma vida amorosa que os recalcamentos teimam em negar-lhe.

Assiste-se ainda a um ex-militar em busca de um rumo de vida que, à medida que a história vai avançando, se revela uma procura da passagem da adolescência à idade adulta, à volta de bebidas num bar de hotel perante um empregado desgostoso com a vida mas, ao mesmo tempo, com vontade de que o Amor triunfe.

A solidão das grandes cidades, a eterna procura de uma perfeição relacional que não existe, a repressão do desejo, a mania tão humana de negar que o animalesco faz parte da natureza humana… Tópicos para uma introspecção que recomendo!


Terminar com vergonha nacional

ABAIXO-ASSINADO A FAVOR DA ABERTURA DE PÓLO DA CINEMATECA NA CIDADE DO PORTO

"A cidade do Porto sofre de vários e complexos problemas na área da cultura, como é do conhecimento geral. No entanto, esta situação não é generalizável a todo o país. Efectivamente, Lisboa continua a usufruir de forma centralizada dos serviços de certas instituições culturais que deveriam fazer jus ao seu âmbito nacional, como, por exemplo, a Cinemateca Portuguesa, um organismo público suportado pelos contribuintes a nível nacional.

No Porto, é de grande interesse público a criação de uma extensão da Cinemateca, o que permitiria acabar com a carência de exibição cinematográfica sentida na cidade, ao nível da produção anterior à década de 90...."


terça-feira, maio 27, 2008

Recompensa

Intitula-se «um grupo de alunos bem humorados»...
Fizeram-me chegar esta obra-prima típica da literatura de Dostoievski e da música mais requintada de Wagner.
As lições de cadeira tão importante foram bem apreendidas! Aplicação da pena de prisão, critérios de determinação da medida da pena, liberdade condicional... Tudo é abordado em linguagem clara e tecnicamente exacta.
Um belo exemplo de como a tarefa de docente é bem recompensada...

sábado, maio 24, 2008

segunda-feira, maio 19, 2008

Jealousy - Martin Solveig

Uma musiquinha divertida para enxugar as lágrimas que turvam a visão da verdade... ;-))))

Don’t want anymore jealousy....

Ahaaa! Jealousy!Ahaaa!

Somebody set me freeAhaaa!

Jealousy!Somebody help me!

Somebody! Somebody! Somebody!

Stop this jealousy!Ahaaa! Jealousy!

Errata ou a verdade reposta



A recuperar do resfriado de ontem no Estádio Nacional de Oeiras, temos de perdoar a nossa RTP por querer reescrever a História e considerar que a conquista de uma "tacita" é a "imagem do dia" (já parece a Clara de Sousa a abir o "Jornal da Noite" da SIC...)!
Estas duas é que são os traços mais salientes da vitória de ontem: a colocação do SCP no seu devido sítio e a "omenagem" a todos os "coltos" "jugadores" da bola, que nos vão brindando com pontapés... na gramática!

A Imagem do Dia ou a resposta a uma provocação

A imagem do dia (in www.record.pt)
(Porque ao post abaixo só faltava uma imagem :-))))
E, já agora, viva o Sporting!

Boa onda

Seguindo o conselho de CMO, a quem agradeço que me tenha iniciado no mundo maravilhoso deste fantástico one man show, aqui fica uma excelente malha para começar bem a semana!

domingo, maio 18, 2008

Justiça

Há que admitir: o Sporting mereceu ganhar!
Parabéns, rtp!

Dúvida

Dobradinha ou uma simples taça para salvar a época?
Eis a questão... e a resposta está para breve!