sexta-feira, julho 11, 2008

Early Night Posts (42)


Bernardo Strozzi, A Personification of Fame, 1635-6?, National Gallery, Londres.


O que vale a minha vida? No fim (não sei que fim)
Um diz: ganhei trezentos contos,
Outro diz: tive três mil dias de glória,
Outro diz: estive bem com a minha consciência e isso é bastante...
E eu, se lá aparecerem e me perguntarem o que fiz,
Direi: olhei para as cousas e mais nada.
E por isso trago aqui o Universo dentro da algibeira.
E se Deus me perguntar: e o que viste tu nas cousas?
Respondo: apenas as cousas... Tu não puseste lá mais nada.
E Deus, que apesar de tudo é esperto, fará de mim uma nova espécie de santo.

17-9-1914

Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos.

quinta-feira, julho 10, 2008

Dicionário alternativo 2 in 1

Parabéns, luísa n!
De facto, o Senhor Marquis manda dizer que "mal ajambrado" significa "mal arranjado", "com falta de aprumo", "descuidado quanto à aparência ou quanto a qualquer outra qualidade em que se exige o mínimo de cuidado na apresentação".
Mais manda dizer que, em virtude da vacatura do cargo de Ministro dos Assuntos Culturais, por ora apenas lhe presta público louvor:)

E deixa mais um desafio, ou melhor, dois:

"pimpineira"
"aquele é um Neves".

Alea jacta est!

The Bird and the Bee

"Again and again" dos The Bird and the Bee.

Porto de Vista (XXVII)

O Duarte acertou mais uma vez! Muitos parabéns!
Trata-se de uma fotografia de um pormenor da Capela de Nossa Senhora da Silva.
Deixo aqui outra fotografia com alguns dizeres descritivos do monumento e da sua história.

terça-feira, julho 08, 2008

Porto de Vista (XXVII)

Et voilà!

Neste tempo de aniversário e depois do balanço que fizemos no post anterior, aqui deixamos uma revelação bombástica!
Eis a nobre consorte (com sorte?) do Marquis do Reino (?) Fornense....
A sereníssima Marquise du Forno

E ...


E a Marquise plebeia de origens humildes por quem o marquis est tombé amoureux!

domingo, julho 06, 2008

Dois anos de Tretas

5 de Julho de 2006. 11:09. Nascia o Tretas & Letras!
Inicialmente sem nenhum sentido em especial que não fosse contactar com um irmão em trabalho nos EUA, através de um meio novo para o primeiro "postador".
Seguiu-se o convite, em boa hora feito, à rtp e, pouco tempo depois, à rocky.
Nascia a família T&L. De verdadeira família se pode falar, na medida em que, de colegas de trabalho e de verdadeiros Amigos que já na altura éramos, tem servido este espaço virtual/real para trocar e partilhar ideias, desabafos, emoções, gostos e (des)gostos.
Se a isto acrescentarmos os vários Amigos que nos dão a honra de nos visitarem, muitos deles ilustres desconhecidos antes da abertura do Tretas, o balanço só pode ser positivo.
Ao longo destes dois anos de T&L sentimos o vosso carinho e a vossa presença. Muito e muito obrigado por tudo! Recebemos sempre muito mais do que aquilo que damos.

E se este "post" já chega um pouco atrasado no tempo, para falar e estar com os Amigos nunca existe tempo definido e, muito menos, pré-definido! Por isso, ainda bem que o "post" só agora chega!
Um abraço a todos,

rtp
rocky

filipelamas

La Persistencia de la Memoria, Salvador Dalí, 1931.

quarta-feira, julho 02, 2008

Espanholite aguda e "O Orfanato": variações sobre um tema arcaico


Não sou um iberista como Saramago ou, segundo o próprio disse há já algum tempo, embora as suas afirmações jamais (tem de ser lido em francês) possam ser levadas à letra (fragilidade do elemento literal da hermenêutica linguística?), tão-pouco como Mário Lino. Contudo, não padeço também de espanholite aguda, herdada de traulitadas em Aljubarrota ou de um vírus que assolou esta ditosa Pátria entre 1580 e 1640.
Sou, na verdade, um português que gosta da sua Terra e que, por isso mesmo, sofre com tudo aquilo que fazemos (rectius, não fazemos) dela. Talvez devido a este pragmatismo patriótico, como gosto de o apelidar, sinto um sincero desejo de aprender com quem, em vários domínios, faz mais e melhor.
É facto notório (e provado, mesmo com o paladar) que nos alimentamos de Espanha, literalmente falando: o País de Cervantes (rectius, o País que, ao invés de ridículos acordos ortográficos, sabe conviver com a multiplicidade de modos de falar espanhol ou castelhano – a doutrina divide-se...) serve-nos carne, peixe, legumes e fruta. Mais: permite-nos passar fins-de-semana alegres e descontraídos (?!) no El Corte Inglés, viajar pela agência do mesmo grupo, vestir Zara, Cortefiel e similares.
O reduto da cultura - sem desprimor para os sempre enormes nomes da literatura espanhola, tirando Almodóvar -, não havia chegado – ao que sei – ao cinema de thriller intenso. Pois, mas Espanha não dorme e não se perde em discussões estéreis sobre as razões profundas pelas quais não se passa dos quartos-de-final de um campeonato da Europa de futebol, sobre se a expressão Dia da Raça é ou não adequada, ou sobre se o Cristiano Ronaldo vai ou não para a capital do País vizinho…
Vejam O Orfanato (realização de Juan Antonio Bayona) perdão, El Orfanato (o El faz toda a diferença!) e digam-me qualquer coisa.
Sim, de facto era sobre o filme que me havia proposto falar... Mas isto de ser português tem destas coisas… Acabei por desfiar caracteres sem dizer nada.
Moral da história
: um típico dia português proveitoso e bem passado!

terça-feira, julho 01, 2008

O cargo do milénio!!!

Seguindo uma interessantíssima sugestão da Thumbelina, a instâncias do Senhor Marquis, que deseja introduzir uma brecha no seu regime despótico esclarecido, através do nosso mui selecto blogue, estão abertas as candidaturas para Ministro(a) dos Assuntos Culturais do Reino do Forno!
Para além da enorme e evidente honra do cargo, o Senhor Marquis manda informar que o salário é de 20.000 € mensais, livre de impostos, atendendo a um especial decreto do monarca atinente aos membros do seu Gabinete.
Façam o favor de nos dizer que qualificações/qualidades/comendas e honrarias vos tornam a pessoa indicada para o cargo!

Verdades de Oscar Wilde


Vale a pena ler o pequeníssimo conto "A Esfinge sem Segredo", de Oscar Wilde.
A dado passo, o Autor afirma: «as mulheres estão feitas para serem amadas e não para serem compreendidas».
Como termina o conto, é caso para dizer: «Quem sabe?»

Dicionário Alternativo

O Senhor Marquis, Sua Eminência, acaba de dar novo sinal de vida, presenteando-nos com mais uma pérola da língua fornense, mais convidando o vasto auditório a esclarecer o sentido da expressão:

"bem/mal ajambrado".

Parece que, depois da expulsão do anterior Ministro dos Assuntos Culturais do Reino do Forno, existe um novo dignitário para um dos cargos mais honrosos do Mundo e arredores!

sábado, junho 28, 2008

"O Prazer da Leitura"


O Prazer da Leitura
AA. VV.
Teorema, Fnac, 2008
4 €

Há livros assim: de qualidade muito desigual, mas que valem a pena pelo aspecto humanitário. É o caso de “O Prazer da Leitura”, lançado por ocasião dos 10 anos de presença da FNAC no nosso País, reunindo contos de escritores renomados como Mário Cláudio, Francisco José Viegas, Lídia Jorge, Nuno Júdice e Rui Zink.
Começando pelo último, de modo a cumprir a determinação bíblica, como sempre, os palavrões são mais que muitos e tentam esconder um texto pobre e uma ideia singela: o computador em que o escritor trabalhava foi desligado em virtude de um corte de fornecimento de energia provocado por quem verdadeiramente trabalha: aqueles que o fazem com as mãos, em trabalho braçal. Fez-me lembrar uma pessoa que, há uns meses, me disse claramente que eu pouco fazia, apesar de o próprio também ter uma profissão dita “intelectual”…
O conto de Francisco José Viegas é um interessante mini-policial com a trama a decorrer na FNAC de Santa Catarina e, mais uma vez, representando um curioso confronto entre as “ciências do espírito” e as “ciências policiais” (pasmem-se!).
Nuno Júdice escreve prosa de modo denso e quase cifrado, em tom um tanto melodramático, mas enxuto, com palavras acutilantes, directas e que, aqui e além magoam o leitor. Porventura o conto mais expressivo desta colectânea.
Para esta época de estio, o preço de 4 € e alguma leveza na construção literária tornam “O Prazer da Leitura” numa espécie de “salada de Verão”, fresquinha e pouco dada a ricos nutrientes.

sábado, junho 21, 2008

Pintado de Fresco (VIII)

NOTA DA ADMINISTRAÇÃO

No já longínquo mês de Novembro de 2006, o Pintado de Fresco conhecia o seu último episódio, a que se seguiu uma espera de quase dois anos.
A administração do Tretas entendeu que esta novela dos tempos modernos, escrita a quatro mãos entre mim e a rtp, a que se juntará - esperam
os nós - a querida rocky, tinha de regressar, após sentirmos uma vaga de fundo a que não pudemos ficar indiferentes:)
Pedimos ao vastíssimo auditório que clique na etiqu
eta em baixo deste post e releia os episódios anteriores, de modo a perceber o que ora se publica.
Aguardamos a vossa crítica sincera e temos já de marcar um evento social pelo renascimento desta que é uma pérola da nossa literatura:)


Mário já não se sentia assim desde que, aos quinze anos, no colégio interno para onde os pais o haviam desterrado, conseguiu chegar à fala sobre “coisas de gente grande” com a escultural professora de Inglês, vinda de um mundo diferente, mais ousado, mais desligado de preconceitos e que, sem ele o imaginar, já antevia um futuro de “lady” com o Fontes Jr., por entre peles caríssimas e férias o ano inteiro.
Fora, na verdade, a sua primeira grande desilusão. Depois daqueles encontros furtivos e tórridos junto à praia da Memória (tão adequadamente colocado lhe parecia agora o nome…), adolescente/jovem/adulto, um misto de tudo e de nada, um turbilhão de emoções galgando comportas, sentira que Kate se limitava a ver nele um enorme e chorudo livro de cheques. Correra com ela, por entre berros assustadores em final de tarde de Outono, condizente o tempo meteorológico com o tempo do sentir que ameaçava despedaçar um corpo ainda tão jovem.
Tentava afastar esse pensamento à medida que, sobre as 13 h, se aproximava da entrada do Meridien.
“Deixa-te de infantilidades! É só uma mulher! Mais uma… Não. Mais uma não vale a pena… Já chegou a Madalena!”, parecia rezar em voz baixa. “Como se chama a menina da vespa?...”, o esforço era notório, pois a ressaca ainda não levantara ferros por completo. “Ah! Isso! Margarida!... Eh, pá… Mais um M…”
Já próximo das 13.30 h, o desânimo começou a vencer Mário. Olhava para todos os lados, à procura da rapariga cujo rosto tão claramente ficara gravado na sua retina e, quanto mais vislumbrava os transeuntes, mais se convencia que aquele encontro havia sido um tremendo erro.
“O que vai ela pensar de mim? Como pude ser capaz de deixar um bilhete com o meu número? Já não me conheço…”
As duas horas já haviam feito a sua entrada. O telemóvel permanecia mudo. Nem sinal de Margarida. Tivera o impulso de lhe ligar, mas entendia esta “provação” como o justo castigo pela sua inabilidade.

***

Perto do Mondego, alguém passeava com Alberto Caeiro debaixo do braço. “O guardador de rebanhos” para uma ovelha tresmalhada. A personagem caminhava de semblante pesado, porém sereno, como se transportasse o peso do mundo.
Uma carrinha com os dizeres “Associação Juntos Venceremos”, vestida de um bege muito sujo, já em final de vida, fez soar uma chiadeira aparentada de travões.
- Rodrigo, ‘bora pró Porto, carago!

segunda-feira, junho 16, 2008

Heartstopper

Heartstopper de Emiliana Torrini.

sábado, junho 14, 2008

The Happening - O Acontecimento



The Happening (2008) – O Acontecimento
Realização e argumento: Manoj Night Shyamalan
Elenco: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel

The Happening parte de uma ideia muito interessante: e se as plantas se revoltassem contra os humanos, em virtude das constantes agressões que fenómenos como a poluição para elas constituem? Como não se podem mover, a sua “natureza” reclamaria que largassem toxinas na atmosfera capazes de gerar a auto-destruição de todos quantos fossem atingidos, principalmente quando se encontram em grandes grupos, como nas principais cidades dos Estados Unidos.
Um professor de Ciências de Filadélfia, a meio de um casamento em que parece ser traído, vivendo sem paixão verdadeira, torna-se a principal figura da trama. O egoísmo humano motivado pela desesperada luta pela sobrevivência é retratado apenas em esboço.
Se a ideia de base é muito boa, a acção é demasiado caricatural, excessiva mesmo, tornando o filme ainda menos credível.
Esperava-se mais do realizador Manoj Night Shyamalan, o mesmo de “O Sexto Sentido”, em que a reviravolta é suave e apta a deixar-nos atónitos. Tudo o que falta neste “O Acontecimento” que, por rectas contas, de acontecimento cinematográfico tem muito pouco.

Doris Lessing - "Gatos e mais gatos"


Gatos e mais gatos
Doris Lessing
Livros Cotovia
12.50 €


Nunca gostei muito de gatos. Há qualquer coisa naquele modo de ronronar, de ser arisco, de prezar a independência acima de tudo, de muitas vezes “não conhecer o dono”, que me fazem olhá-los de esguelha e raramente ter o impulso de uma festinha sentida.
Contudo, ao ver “Gatos e mais gatos” (1967), da Prémio Nobel da Literatura (2007) Doris Lessing, decidi arriscar, sobretudo pela curiosidade em conhecer a escrita desta mulher nascida na Pérsia e que tem nos gatos referências de vida.
Como seria de esperar, o livro vive de descrições de estórias destes felinos domésticos (e até dos selvagens), desde as longas superfícies da África do Sul até ao mais modesto apartamento nos subúrbios de uma Londres decadente. Existem descrições pungentes do sentimento de culpa de matar gatinhos recém-nascidos devido ao elevado número da ninhada e à falta de donos, episódios de salvamentos de uma gata parideira soterrada aquando de uma forte chuvada em terras para além da metrópole do British Empire.
Sobretudo, Doris Lessing descreve com grande mestria as relações de domínio, dependência e subserviência que se estabelecem entre Gata Cinzenta e Gata Preta, a primeira sempre tratada com maior desvelo e complacência advenientes da culpa (de novo esse sentimento tenebroso assola a Autora, de jeito autobiográfico?) em ter-lhe sido usurpada a maternidade. Nos comportamentos das gatas, nas pequenas diatribes e nas mais clamorosas injustiças, revemos as relações humanas, a certeza de que a maior parte da interacção entre os homens se baseia em equilíbrios de poder. É essa a verdade nua e crua que a Autora nos oferece, assim como a sua preferência pelos animais. De facto, poucas vezes Doris se refere às pessoas, o que nos faz pensar que, apesar da crueldade de algumas atitudes das gatas, tal é preferível a enfrentar, reflectido nos outros, o género de que somos constituídos (medo, fuga de Lessing?).
A cerca de metade da narrativa, nota-se alguma perda de força, como se os gatos tivessem decidido esparramar-se num telhado aberto a um dia solarengo, exigindo do leitor um sacrifício acrescido que, no final, acaba por compensar.
Não me reconcilie com os gatos, porém, aprendi a ver neles pessoas em ponto pequeno. Para o bem e para o mal. Como sempre.

quinta-feira, junho 12, 2008

terça-feira, junho 10, 2008

3, 2, 1 ... Feist

"1, 2, 3, 4" do álbum The Reminder da Feist.

Porto de Vista Esclarecida (XXVI)

O alf acertou! Parabéns por desvendar este Porto de Vista e pela rapidez na resposta!
Era um fotografia da estátua de Garcia da Orta. Trata-se de uma Estátua de pedra da autoria de Vilar, realizada em 1971 e erigida na Praceta de Tomé Pires à Rua de Sagres nas proximidades da Avenida da Boavista.
No endereço www.vidaslusofonas.pt/garcia_da_orta.htm encontram-se interessantes informações sobre a vida e obra deste importante médico e naturalista do século XVI. Vale a pena uma consulta. Deixo aqui um breve excerto:
«Garcia da Orta nasce em Castelo de Vide, filho de Fernando (Isaac) da Orta e de Leonor Gomes. - 1523: Retorna a Portugal depois de estudar medicina em Salamanca e Alcalá de Henares. - 1530: Ingressa como professor de Lógica na Universidade de Coimbra. - 1534: Parte para Goa, Índia portuguesa, onde passa a residir, a trabalhar como médico e no comércio de especiarias e pedras preciosas. - 1563: Publica o seu Colóquios dos Simples e Drogas da Índia. - 1568: Falece. - 1580, 4 de Dezembro: Condenado post-mortem pelo Tribunal do Santo Ofício pelo "crime" de "judaísmo" (...)». In www.vidaslusofonas.pt/garcia_da_orta.htm

domingo, junho 08, 2008

quarta-feira, junho 04, 2008

Lições intemporais

Enquanto caminhava pelo jardim do palácio, perguntou o jovem príncipe ao sábio grego:
- Mestre, o que é mais importante dominar num povo de modo a que a minha Casa não caia em outras mãos?
- Compreende a música. Domina os músicos.
- Mas... os músicos? – respondeu atónito o príncipe – Eles pouco ganham e não têm poder!
- Atiram com palavras aos corações dos homens, neles semeiam tentações, revoltas, ilusões. Vendem-lhes a percepção de que tudo pode ser mudado. Contra isso, nada podes. Tu, o Senhor teu Pai, nosso Rei, ou o maior monarca de todos os tempos.
Pensativo, o jovem interlocutor voltou à carga:
- Então porque não se matam os músicos todos? Porque enchemos os nossos salões de árias e concertos, de cantos e baladas? – denotava-se argúcia na pergunta.
- Os músicos são como ervas daninhas. Experimenta arrancar uma e logo verás quantas iguais nascem e quão mais fortes se tornam. Aprende, jovem príncipe: o inimigo quer-se por perto, dominável e dominado. Deste modo, o músico é útil à tua Casa: adormece o povo. E enquanto ele dorme, tu e os teus reinam, mandam e desmandam. É a lei natural das coisas...


Acordai - letra: José Gomes Ferreira
música: Fernando Lopes Graça

domingo, junho 01, 2008

Viajar

O cheiro estava ali. Intenso, forte, suave ao mesmo tempo. A chuva miudinha que ameaçava cair dava à cidade uma tonalidade de cinzento que se reflectia nos típicos táxis. Uma rapariga hippie passou por mim esboçando um sorriso. Depois um punk. De seguida um yuppie, de copo da Starbucks na mão, atafulhado com a pasta e uma cópia do The Guardian. Sentia-me leve, uma pena a esvoaçar num mundo que aos poucos me parecia ter sido construído só para mim. Como se o Criador não tivesse descansado ao sétimo dia, mas tivesse continuado a trabalhar por conta própria para um dono de obra exigente. Sentia-me diferente e igual. Aquilo que dentro de portas é pouco convencional – a alegria sincera espelhada no rosto, a resposta “está tudo óptimo!”, à costumeira “então como vais?”, como se a felicidade fosse uma praga que importa conter –, aqui é o vulgar. Os transeuntes fazem-me viajar na viagem, percebendo que não há pautas para ser feliz, apenas notas sonantes e dissonantes que cada um compõe em sinfonia, concerto, música de qualquer estilo. Agarrei uma colcheia, uma breve e uma semi-breve e saciei-me com a arte dos antigos e dos modernos. Deitei-me no jardim da praça central, olhando os altos prédios de multinacionais e admirei o céu que, só para mim, desenhou um caracol com uma língua vermelha. Não mais despertei, pois finalmente percebi que já estava desperto há muito tempo. Apenas precisava de ganhar distância – com gente, espaço e tessitura, de carne e osso.

Senhor Brecht - Gonçalo M. Tavares


Senhor Brecht
Gonçalo M. Tavares
(1.ª ed. 2004; 2.ª ed. 2006)
Editoral Caminho


Gonçalo M. Tavares já nos tem habituado a trabalhos de grande qualidade.
Sr. Brecht não é excepção. O vencedor do Prémio Saramago, em textos curtos, porém muitíssimo densos, vai mostrando como cada um de nós olha para problemas tão diversos como o egoísmo, a política, as relações sociais. Sempre com uma lição forte, despretensiosa de moralismos.
Escrita enxuta, a merecer reflexão, é daqueles livros em que o número de páginas tem de ser multiplicado várias vezes para se atingir o discurso subliminar que nos interpela.
Obrigado, L., pela oferta!

Happy-Go-Lucky

Happy-Go-Lucky (2008)
Realização e argumento: Mike Leigh
Elenco: Sally Hawkins, Alexis Zegerman, Andrea Riseborough, Samuel Roukin, Sinead Matthews
Sítio official: http://www.happy-go-lucky-movie.co.uk/

Deve estar a chegar às salas portuguesas, mas tive a honra de o ver no local de produção… Happy-Go-Lucky (Urso de Prata no Festival de Berlim) é uma sátira às relações humanas, bem ao gosto de Mike Leigh. Uma professora primária bastante irritante (Poppy, Sally Hawkins), sempre sorridente e com comentários despropositados a propósito de tudo e de nada experimenta a sedução do seu instrutor de condução, indivíduo meio sindicalista, revolucionário de sofá, praguejando contra tudo e todos e apaixonado pela sua instruenda, com quem discute e a quem não pode perdoar o facto de ter remexido em feridas que sempre estiveram abertas, mas que a anestesia do tempo tinha tornado suportáveis.

Happy-Go-Lucky tenta ser uma espécie de manual da felicidade, fugindo (nem sempre o conseguindo, porém) a clichés. A proposta é simples: temos tudo aquilo de que necessitamos e se não o tivermos, é porque não nos faz mesmo falta… E a alegria traz mesmo a sorte. Ingenuidade, lirismo? Talvez. Mas numa Liverpool tão acolhedora, numa sala de cinema arquitectonicamente muito diversa daquilo a que estamos habituados, deu bem para acreditar!


Coeurs (Corações)


Coeurs (2006)
Realização: Alain Resnais
Argumento: Jean-Michel Ribes
Elenco: Sabine Azéma, Isabelle Carré, Laura Morante, Pierre Arditi, André Dussollier,
Lambert Wilson.

Neva sem cessar em Paris. Os corações estão aparentemente frios, à espera de algo ou de alguém que os aqueça, nem que seja à custa de um copo de whisky ou de uma reprimida explosão sexual. Por Coeurs (Corações) desfilam as histórias de um agente imobiliário na casa dos 50, 60, conformado a viver com uma irmã bastante mais nova que procura (o Amor?) em encontros fortuitos obtidos com recurso a anúncios de jornal e em que uma flor vermelha serve de identificação em blind dates. Este agente imobiliário acalenta um desejo por uma colega de trabalho, figura central na trama, aparentemente fervorosa católica que trata, depois do emprego, de um velho doente. Mas esta personagem é demasiado rica para se sentar num escritório. A sua cabeça e o seu corpo passam pelo abismo do desejo, da perversão sexual, dos jogos de sedução por vezes doentios, sempre em busca de uma redenção pelos desejos que a impelem a ter uma vida amorosa que os recalcamentos teimam em negar-lhe.

Assiste-se ainda a um ex-militar em busca de um rumo de vida que, à medida que a história vai avançando, se revela uma procura da passagem da adolescência à idade adulta, à volta de bebidas num bar de hotel perante um empregado desgostoso com a vida mas, ao mesmo tempo, com vontade de que o Amor triunfe.

A solidão das grandes cidades, a eterna procura de uma perfeição relacional que não existe, a repressão do desejo, a mania tão humana de negar que o animalesco faz parte da natureza humana… Tópicos para uma introspecção que recomendo!


Terminar com vergonha nacional

ABAIXO-ASSINADO A FAVOR DA ABERTURA DE PÓLO DA CINEMATECA NA CIDADE DO PORTO

"A cidade do Porto sofre de vários e complexos problemas na área da cultura, como é do conhecimento geral. No entanto, esta situação não é generalizável a todo o país. Efectivamente, Lisboa continua a usufruir de forma centralizada dos serviços de certas instituições culturais que deveriam fazer jus ao seu âmbito nacional, como, por exemplo, a Cinemateca Portuguesa, um organismo público suportado pelos contribuintes a nível nacional.

No Porto, é de grande interesse público a criação de uma extensão da Cinemateca, o que permitiria acabar com a carência de exibição cinematográfica sentida na cidade, ao nível da produção anterior à década de 90...."


terça-feira, maio 27, 2008

Recompensa

Intitula-se «um grupo de alunos bem humorados»...
Fizeram-me chegar esta obra-prima típica da literatura de Dostoievski e da música mais requintada de Wagner.
As lições de cadeira tão importante foram bem apreendidas! Aplicação da pena de prisão, critérios de determinação da medida da pena, liberdade condicional... Tudo é abordado em linguagem clara e tecnicamente exacta.
Um belo exemplo de como a tarefa de docente é bem recompensada...

sábado, maio 24, 2008

segunda-feira, maio 19, 2008

Jealousy - Martin Solveig

Uma musiquinha divertida para enxugar as lágrimas que turvam a visão da verdade... ;-))))

Don’t want anymore jealousy....

Ahaaa! Jealousy!Ahaaa!

Somebody set me freeAhaaa!

Jealousy!Somebody help me!

Somebody! Somebody! Somebody!

Stop this jealousy!Ahaaa! Jealousy!

Errata ou a verdade reposta



A recuperar do resfriado de ontem no Estádio Nacional de Oeiras, temos de perdoar a nossa RTP por querer reescrever a História e considerar que a conquista de uma "tacita" é a "imagem do dia" (já parece a Clara de Sousa a abir o "Jornal da Noite" da SIC...)!
Estas duas é que são os traços mais salientes da vitória de ontem: a colocação do SCP no seu devido sítio e a "omenagem" a todos os "coltos" "jugadores" da bola, que nos vão brindando com pontapés... na gramática!

A Imagem do Dia ou a resposta a uma provocação

A imagem do dia (in www.record.pt)
(Porque ao post abaixo só faltava uma imagem :-))))
E, já agora, viva o Sporting!

Boa onda

Seguindo o conselho de CMO, a quem agradeço que me tenha iniciado no mundo maravilhoso deste fantástico one man show, aqui fica uma excelente malha para começar bem a semana!

domingo, maio 18, 2008

Justiça

Há que admitir: o Sporting mereceu ganhar!
Parabéns, rtp!

Dúvida

Dobradinha ou uma simples taça para salvar a época?
Eis a questão... e a resposta está para breve!

sexta-feira, maio 16, 2008

«Pura Anarquia», Woody Allen


Comprei «Pura Anarquia» de Woody Allen (Gradiva) em trânsito para paragens insulares e durante a tão desejada viagem de avião a visão do expectável concretizou-se.
Woody não desiludiu. Juntou uma série de artigos publicados na imprensa norte-americana e serviu-nos uma cosmovisão do mundo do espectáculo, da física, dos sentimentos e do estrito «nonsense» em que é perito. Somos assomados por momentos de um leve sorriso e outros de uma gargalhada estridente, apesar de, em alguns artigos/contos se notar alguma falta de criatividade pela apresentação de estereótipos gastos como a loira pouco inteligente ou o produtor de cinema sacana e esmifra…
Acima de tudo, o livro vale pelo relato de como Woody parece ver o mundo: uma caixa de sapatos com buracos para garantir a qualidade do ar que se vai respirando no seu interior…

quinta-feira, maio 15, 2008

B.S.O. Almodóvar

Fui presenteado com o duplo CD «B.S.O. Almodóvar», editado em Portugal este ano pela EMI.
Uma reunião de músicas marcantes de filmes que demonstram bem o génio do realizador espanhol. Como ele escreve no texto de abertura do CD, cada filme só tem sentido com uma adequada banda sonora que, nas suas personagens, tantas vezes substitui linhas do argumento.
Vamos navegando por sentimentos que vão desde o bucolismo do amor à raiva da vingança.
Tem-me acompanhado nos últimos dias. Obrigado por isso ao R. e à S., pelo presente!
Queria deixar-vos, mau grado a dificuldade de escolha, «Luz de Luna», de Chavela Vargas, do filme «Kika» (1990). Não encontrei no You Tube versão digna do auditório, pelo que deixo, da mesma cantora, «En el último trago» (também incluída no CD).
Fica, ainda, «Tajabone», de Ismaël Lo, da película «Todo sobre mi madre» (1996).
Deliciem-se!




terça-feira, maio 13, 2008

The Real Sky

"Jedes Herz ist eine revolutionäre Zelle!" (in "Os Edukadores" de Hans Weingartner)

"The real sky" de Jeff Cole.

Porto de Vista Esclarecida (XXIV e XXV)

O alf acertou no Porto de Vista XXIV! Muitos Parabéns!
Tratava-se , de facto, um pormenor do interior do Teatro Nacional S. João.
Deixo algumas informações (retiradas da página oficial http://www.tnsj.pt/)sobre esta bela sala de espectáculos portuenses.
"Denominado, originalmente, como Real Teatro de São João, o edifício primitivo – projectado pelo arquitecto italiano Vincenzo Mazzoneschi (à época cenógrafo do Teatro de São Carlos, em Lisboa) – foi inaugurado em Maio de 1798 e seria quase totalmente destruído pelo fogo, na noite de 11 para 12 de Abril de 1908. A sua estrutura interior era semelhante à do Teatro de São Carlos e a sua composição próxima dos teatros de tipo italiano que se tinham estabelecido como regra de sucesso até ao nascimento do "teatro francês", derivado igualmente desse modelo. Após o incêndio, a partir de 1912, o Teatro de São João foi reconstruído pelo arquitecto portuense José Marques da Silva (1869-1947), muito influenciado por uma visita a Paris, em 1908, durante a qual observou a recuperação do frontispício do Théâtre d’Amiens (1778-80), assinado pelo arquitecto Jacques Rousseau. O novo Teatro de São João foi inaugurado a 7 de Março de 1920 e, numa tentativa de continuidade, a sua programação foi naturalmente dedicada ao teatro e à ópera. Mas, logo a partir de 1932, e seguindo os ares do tempo, a exibição cinematográfica tomou conta da casa que adoptou a designação de São João Cine.
O imóvel seria adquirido pelo Estado no dia 8 de Outubro de 1992 e inaugurado, como Teatro Nacional São João (TNSJ), um mês e meio depois, a 28 de Novembro, sob a direcção de Eduardo Paz Barroso. É o início do projecto de reabilitação, assinado pelo arquitecto João Carreira. Os trabalhos, da responsabilidade do IPPAR – Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico, com o apoio do programa FEDER, foram iniciados a 2 de Janeiro de 1995. Durante oito meses e meio, o TNSJ foi objecto de um complexo processo de recuperação, conservação, inserção e restauro do seu interior, tendo sido igualmente equipado com todas as infra-estruturas e equipamentos apropriados e actuais. A reabertura foi feita a 16 de Setembro do mesmo ano."

A maria acertou no Porto de Vista XXIII. Muitos parabéns também!
Era uma foto de um dos bancos existentes no interior do Museu de Serralves.

sábado, maio 10, 2008

PARABÉNS!!!!!!!!!!!!!

Neste dia feliz, queremos dar os parabéns e desejar as maiores felicidades ao nosso grande amigo e treteiro-mor FilipeLamas.
A falta de tempo – estamos a aperaltar-nos para comparecer devidamente apresentadas às grandiosas festas que o Forno organiza para homenagear o seu marquis – e a falta de inspiração impedem-nos de fazer o post que ele merece!
(E parecia mal limitarmo-nos a subscrever a afirmação do e-card infra postado, não é verdade? Não é que nos faltasse vontade! Ehehe!)
Deixamos um pedacinho de uma música que já é um clássico (sim, para ti, tinha que ser!) numa voz que o filipelamas muito aprecia. Porque com amigos como ele o mundo é, sem dúvida, um "wonderful world". (Apesar de ser um lugar-comum a resvalar para o piroso - nós avisámos que estamos sem inspiração – é, neste caso, a mais pura verdade)

Com grande beijinho,
RTP
e ....
e ...
a Wally tão procurada e finalmente encontrada neste dia glorioso ... ROCKY

Com amigos assim...

Professor sofre!


quinta-feira, maio 08, 2008

Evolução na continuidade?

O que esperar de Medvedev?

Caricatura de Peter Brookes, in "The Times", 07.05.2008.

La mamma non è morta

Das cenas que mais me tocaram no cinema, musicada por uma das mais belas árias de sempre da ópera: "La mamma morta", "Andrea Chénier", de Umberto Giordano.
Tal como na ópera, em plena Revolução Francesa, também em "Filadélfia", a morte, a destruição combatem a esperança, a divindade que existe na doença, no sofrimento.



La mamma morta m'hanno
alla porta della stanza mia
Moriva e mi salvava!
poi a notte alta
io con Bersi errava,
quando ad un tratto
un livido bagliore guizza
e rischiara innanzi a' passi miei
la cupa via!
Guardo!
Bruciava il loco di mia culla!
Così fui sola!
E intorno il nulla!
Fame e miseria!
Il bisogno, il periglio!
Caddi malata,
e Bersi, buona e pura,
di sua bellezza ha fatto un mercato,
un contratto per me!
Porto sventura a chi bene mi vuole!
Fu in quel dolore
che a me venne l'amor!
Voce piena d'armonia e dice
Vivi ancora! Io son la vita!
Ne' miei occhi è il tuo cielo!
Tu non sei sola!
Le lacrime tue io le raccolgo!
Io sto sul tuo cammino e ti sorreggo!
Sorridi e spera! Io son l'amore!
Tutto intorno è sangue e fango?
Io son divino! Io son l'oblio!
Io sono il dio che sovra il mondo
scendo da l'empireo, fa della terra
un ciel! Ah!
Io son l'amore, io son l'amor, l'amor
E l'angelo si accosta, bacia,
e vi bacia la morte!
Corpo di moribonda è il corpo mio.
Prendilo dunque.
Io son già morta cosa!

Maio, paz e Gilberto

Em Maio de 2008, recordando o de 1968, fica a paz de um certo ministro da cultura.

Quiz

Onde está e quem será o/a Wally que tanto procuro?

quarta-feira, maio 07, 2008

terça-feira, maio 06, 2008

Early Night Posts (41)

*****
"Ah! Querem uma luz melhor que
a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas
Que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores
Contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que eu quero é um sol mais sol
Que o Sol,
O que eu quero é prados mais prados
Que estes prados,
O que eu quero é flores mais estas flores
Que estas flores –
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!"
Alberto Caeiro
****** Obrigada

terça-feira, abril 22, 2008

ZOOMático

Verão (mas bastava a Primavera)

sexta-feira, abril 18, 2008

"Poesia"

Esta tem sido uma semana de rara beleza!
Descobri a música que se segue, chamada "Poesia", de um duo de cantoras nacionais que desconhecia. O modo como as vozes se articulam na perfeição, a qualidade da técnica vocal das duas e a elaborada coreografia tornam esta, para mim, numa das melhores descobertas do presente ano.
Reparem ainda na qualidade técnica e cinematográfica do "clip", em especial no comedimento das manifestações de ternura que tornam este vídeo um excelente exemplo de compromisso entre a plena visão do Amor e a inteligência da sua representação.
Uma carreira a seguir! E descobri que o duo virá em breve ao Coliseu do Porto. Estarei na primeira fila!

quinta-feira, abril 17, 2008

Sea Lion Woman - Feist

Há Pessoa(s) na FDUP


Quem ontem se deslocou à Faculdade de Direito do Porto e assistiu à representação da peça “Quinto Império”, da obra de Fernando Pessoa, pelo “DireitoàCena”, grupo de teatro daquela instituição de ensino, composto por actuais e antigos estudantes e por docentes daquela Casa, teve a oportunidade única de viajar, guiado pelo próprio, pelos incomensuravelmente difíceis meandros do génio criador do nome maior da Poesia portuguesa.

Com base na carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, sobre a génese dos seus heterónimos, numa interpretação muito inspirada de Sérgio Rocha, íamos ouvindo dizer e viver Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e o próprio Pessoa. Cada palavra era sentida e dita com garra, com bonomia, com paixão, desalento, sofrimento.

O universo pessoano ia desfilando perante um cenário minimalista e muito bem iluminado (parabéns ao Afonso Bianchi), em que as demais actrizes, vestidas de batas brancas que conjugavam a loucura de manicómios e a assepsia da alva cor, pelas vozes, corpos e movimentos de Inês Vouga, Joana Neto, Liliana Borges da Costa, Margarida Correia, Maria Raquel Ferreira Neves e Marta Faria.

Nunca se fica igual de encontros com a obra de Pessoa. Quando ela é tão bem interpretada, só desejamos sonhar com guardadores de rebanhos, mensagens, opiários, mostrengos…

Quem não viu ainda, tem oportunidade hoje e amanhã, às 21.30 h. O bilhete custa 5 € e pode ser comprado na portaria da FDUP durante o dia ou antes do espectáculo.

sábado, abril 12, 2008

Uma Segunda Juventude


Uma Segunda Juventude, Francis Ford Coppola

Sítio oficial: http://www.ywyfilm.com/

Coppola é um nome que dispensa apresentações. Talvez por isso, quando sabemos que um novo filme com a sua assinatura se encontra em cartaz, corremos a vê-lo.

Assim foi com «Uma Segunda Juventude» («Youth without Youth»). O argumento, baseado no livro de Mircea Eliade, é muito bem pensado: um professor universitário (fantástica interpretação de Tim Roth) faz a busca da sua vida em torno das origens da linguagem, a procura daquele momento primevo em que a articulação de sons permitiu a comunicação humana. Tudo sacrificou a este desiderato, negligenciando a sua vida amorosa e perdendo a mulher da sua vida.

Já velho, um aparatoso acidente com um relâmpago torna-o de novo jovem, como se a vida lhe concedesse uma segunda oportunidade, agora dotado de extraordinários poderes que passam por capacidade intelectuais fenomenais e um desdobramento da personalidade que funciona como «tribunal da Razão», para dizê-lo com Kant.

Nova paixão carregada de sofrimento e, uma vez mais, a escolha entre a obra de uma vida e o Amor. Desta feita, a escolha recai sobre o último, mas esta opção traz a morte.

A narrativa é, contudo, demasiado lenta, embora com saltos temporais que em muito dificulta a compreensão cabal do argumento, facto desejado e que amplifica a dificuldade das escolhas da personagem principal.

Uma história interessante, porém demasiado longa (é a primeira longa-metragem de Francis Ford Coppola em 10 anos) e aquém de sucessos com a mesma assinatura tais como a trilogia «O Padrinho» e «Apocalypse Now».

Deixa-nos a interrogação: o que mudaríamos se tivéssemos uma nova oportunidade de viver?


quinta-feira, abril 10, 2008

Teatro: Quinto Império - Fernando Pessoa - direitoÀcena


A não perder, mais esta peça do Grupo de Teatro da Faculdade de Direito da U.Porto - DireitoàCena -, nos dias 16, 17 e 18 de Abril, às 21.30h, na FDUP (Rua dos Bragas, 223).
Os bilhetes podem ser adquiridos na Portaria da Faculdade, a partir de hoje, dia 10/4, bem como na própria altura do espectáculo.
Os textos de Fernando Pessoa não podiam ser melhor mote para representações que, tenho a certeza, vão ficar guardadas na memória!
Apareçam!


terça-feira, abril 08, 2008

Time to kill - Sophie Zelmani

"Time to kill" de Sophie Zelmani.

A pensar no vol. IV do Best-of do T&L, agora que o vol. III já está pronto. (Obrigada, Thumbs!)

quarta-feira, abril 02, 2008

Sugestões


Filme: "Nunca é tarde demais"(The Bucket List), com os enormes Jack Nicholson e Morgan Freeman. O tema da morte pode ser divertido se for explorado com a inteligência de um bom argumento e com as interpretações magistrais destes dois Senhores que nos dão uma lição sobre Vida e Amizade. Retenho a ideia de que sabemos que valeu a pena viver pelo número de pessoas que decidiram tomar-nos como exemplos a seguir.
Espreitem:
http://video.aol.com/video-detail/nunca-e-tarde-demais-trailer-portugues/1142794214

Livro: Corpo Presente, de Anne Enright, Gradiva, 2007. A história da família Hegarty em volta da morte e funeral do mais novo de uma série de irmãos numa típica família de Dublin, entre o catolicismo tradicionalista e a quebra de convenções. Um olhar maduro e realista sobre pequenas grandes invejas familiares, sobre uma aparente capa de convenções. A autora recebeu, por esta obra, o prestigiado Man Booker Prize de 2007. Ideal para quem gosta de olhares apaixonados sobre fragmentos pungentes da vida, polvilhados de selecta ironia e sarcasmo.

Boa sorte * Vanessa da Mata e Ben Harper

Não é apenas sorte, de tempos a tempos, sermos abençoados com músicas como esta nas vozes de Vanessa da Mata e Ben Harper.

sábado, março 29, 2008

Ani Chöying Drolma

Tibetana, monja, cantora. Ani Chöying Drolma utiliza os mantras da sua religião como modo de exprimir as vivências das gentes daquelas terras longínquas e, ao que parece, como forma de captar a atenção do mundo para o agora de novo tão discutido «problema do Tibete».
Vale a pena escutar estas meditações tranquilas com a certeza de que cada dia neste espaço deve ser um passo rumo a um maior nível de perfeição. Afinal, um princípio do budismo, de muitas religiões e de todas as éticas.


sexta-feira, março 28, 2008

Herculano


Alexandre Herculano nasceu no dia que hoje passa, em 1810.
Grande autor do romantismo português, a sua poética é menos conhecida quando comparada com o romance histórico.
Aqui fica um excerto de «Deus»:


Eis o Tempo, o Universo, o Movimento

Das mãos sai do Senhor:

Surge o Sol, banha a terra, e desabrocha

Sua primeira flor:

Sobre o invisível eixo range o globo:

O vento o bosque ondeia:

Retumba ao longe o mar: da vida a força

A natureza anseia!

Perdidamente

À entrada de mais um fim-de-semana, apetece ouvir boa música com excelentes poemas.
É o caso de «Perdidamente», de Florbela Espanca, nas vozes de Sara Tavares e Nuno Guerreiro.
«Ter asas de condor» é, na verdade, um desafio hercúleo, mas que vale a pena aceitar! Sem perdas, sem perder, perdidamente em alguém...

domingo, março 23, 2008

Trupe Vocal


Trupe Vocal
Fátima Serro, Maria João Mendes e Kiko (vozes)
Paulo Gomes (piano); Hugo Carvalhais (contrabaixo) e Leandro Leonet (bateria)

Os Trupe Vocal são já um conceituado projecto de jazz dito «clássico», desde o “Gospel” aos ritmos da fundação americana, até à bossa nova.
Donos de vozes em que se destaca Fátima Serro, ouvir também Kiko e Maria João Mendes é sempre garantia de um pedaço de tempo muito bem passado. A isto juntem-se músicos inspirados, de entre os quais o baterista Leandro Leonet. Assim foi ontem no Servartes (http://www.servartes.com/), espaço que se vai cada vez mais afirmando pela qualidade das suas propostas musicais e das exposições que acolhe.
Pena mesmo é algum público que tem dificuldade em entender que em concertos como este, a música é para ser escutada em silêncio e não em altos berros. Cada coisa tem o seu lugar e esta trapalhada bem portuguesa de misturar tudo teve ontem um exemplo paradigmático. Quem disse que a vida de artista é fácil?

sábado, março 22, 2008

Anima Mea


«Coro Anima Mea». Amadores que são quase profissionais. Cantam com muita alma e com a beleza do divino.
O «Stabat Mater» foi constituído por uma primeira parte com peças de compositores dos sécs. XVI a XVIII, de que destaco o «In Monte Oliveti» de Fabordão. A segunda parte foi quase toda preenchida pelo «Stabat Mater» de João Rodrigues Esteves (c. 1690-1755). Os solistas deram cartas.
Ah! Tudo isto na Igreja de Sto. António das Antas, com entrada gratuita.
Com coros destes até a mim me apetece cantar! (podem estar descansados que vos poupo esse suplício!)

Das Tripas ao Coração


Lê-se de um fôlego. Apesar de já ter alguns anos, datando do Porto 2001, «Das Tripas ao Coração» é uma antologia trilingue (Português, Inglês e Francês) de poemas de autores do Porto ou que com esta cidade têm uma ligação especial, organizada por Egito Gonçalves e Rosa Alice Branco (Campo das Letras, Porto 2001, Porto: 2001).
O título diz muito deste nosso Porto: as tripas são o elo gastronómico com a cultura do coração, daquele granítico e tantas vezes bruto e brutal som da cidade que nos embala umas vezes e nos estremece outras. A escolha de mais duas línguas tenta demonstrar que o Porto, apesar de ainda preso a algum provincianismo de que se queixava Garrett, tem uma legítima pretensão de universalidade.
Deixo a minha própria selecção:

As palavras

São como um cristal,
As palavras.
Algumas, um punhal,
Um incêndio.
Outras,
Orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
Barcos ou beijos,
As águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
Leves.
Tecidas são de luz
E são noite.
E mesmo pálidas
Verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
As recolhe, assim,
Cruéis, desfeitas,
Nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

Compêndio

Dizias: daqui o mar parece
Uma tarântula
Azul. Eu respondi:
Vermelhas
São as flâmulas
Das algas e o fermento
Das águas.
Escrever
É isso: fazer
Da vida uma pauta
E um compêndio de espuma.

Albano Martins

quarta-feira, março 19, 2008

Ken Lee ou o inglês em búlgaro

Stacey Kent - a voz do divino

Foi dos concertos que mais me tocou.
Uma voz cristalina, com uma dicção perfeita, percorreu alguns clássicos do jazz em inglês e francês (que bem fica esta última língua neste estilo musical!), enquanto se transpirava uma união sibilina entre os elementos da banda, em especial James Tomlinson, o marido de Stacey Kent (os restantes músicos são Art Hirahara - piano -, David Chamberlain - contrabaixo - e Matthew Skelton - bateria).
Apresentaram o mais recente disco, Breakfast on the Morning Tram, editado pela prestigiada Blue Note.
Stacey é uma excelente contadora de histórias, agora com Kazuo Ishigo como letrista. Esta cantora, nascida em Nova Iorque, iniciou a sua carreira musical em Oxford, tendo já recebido vários prémios, de entre os quais se destacam o British Jazz Award (2001) e o BBC Jazz Award (2004).
Com uma voz destas, dá-se mesmo largas ao sonho!
Aqui fica uma música (também) na nossa língua!

terça-feira, março 11, 2008

Joplin * Mercedes


Não sei bem porquê, hoje esta música não me sai da cabeça!
Não sou nada louco por automóveis, nem faço muita questão de ter um Mercedes ou um grande carrão... Já me dou por contente se a minha lata já a caminhar para velhota não me der problemas.
Talvez por isso, a letra desta música de Janis Joplin é um divinal hino contra o consumismo e contra a «inveja de vizinho».

"Mercedes Benz"

Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz ?
My friends all drive Porsches, I must make amends.
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz ?

Oh Lord, won’t you buy me a color TV ?
Dialing For Dollars is trying to find me.
I wait for delivery each day until three,
So oh Lord, won’t you buy me a color TV ?

Oh Lord, won’t you buy me a night on the town ?
I’m counting on you, Lord, please don’t let me down.
Prove that you love me and buy the next round,
Oh Lord, won’t you buy me a night on the town ?

Everybody!
Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz ?
My friends all drive Porsches, I must make amends,
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz ?

That’s it!

sexta-feira, março 07, 2008

Perguntas palermas (III)

Se a corte portuguesa desembarcou em 1808 no Brasil, fugindo das tropas napoleónicas, com receio de que o país deixasse de ser independente, agora, em 2008, em que já não somos mesmo independentes, não haverá mais razões para fazermos todos as malas e irmos de vez para a terra do samba e do calor, de papo para o ar?

Se «Portugal convida», porque é que nunca paga a conta? Não aprendemos que «quem paga convida?»