terça-feira, junho 10, 2008

Porto de Vista Esclarecida (XXVI)

O alf acertou! Parabéns por desvendar este Porto de Vista e pela rapidez na resposta!
Era um fotografia da estátua de Garcia da Orta. Trata-se de uma Estátua de pedra da autoria de Vilar, realizada em 1971 e erigida na Praceta de Tomé Pires à Rua de Sagres nas proximidades da Avenida da Boavista.
No endereço www.vidaslusofonas.pt/garcia_da_orta.htm encontram-se interessantes informações sobre a vida e obra deste importante médico e naturalista do século XVI. Vale a pena uma consulta. Deixo aqui um breve excerto:
«Garcia da Orta nasce em Castelo de Vide, filho de Fernando (Isaac) da Orta e de Leonor Gomes. - 1523: Retorna a Portugal depois de estudar medicina em Salamanca e Alcalá de Henares. - 1530: Ingressa como professor de Lógica na Universidade de Coimbra. - 1534: Parte para Goa, Índia portuguesa, onde passa a residir, a trabalhar como médico e no comércio de especiarias e pedras preciosas. - 1563: Publica o seu Colóquios dos Simples e Drogas da Índia. - 1568: Falece. - 1580, 4 de Dezembro: Condenado post-mortem pelo Tribunal do Santo Ofício pelo "crime" de "judaísmo" (...)». In www.vidaslusofonas.pt/garcia_da_orta.htm

domingo, junho 08, 2008

quarta-feira, junho 04, 2008

Lições intemporais

Enquanto caminhava pelo jardim do palácio, perguntou o jovem príncipe ao sábio grego:
- Mestre, o que é mais importante dominar num povo de modo a que a minha Casa não caia em outras mãos?
- Compreende a música. Domina os músicos.
- Mas... os músicos? – respondeu atónito o príncipe – Eles pouco ganham e não têm poder!
- Atiram com palavras aos corações dos homens, neles semeiam tentações, revoltas, ilusões. Vendem-lhes a percepção de que tudo pode ser mudado. Contra isso, nada podes. Tu, o Senhor teu Pai, nosso Rei, ou o maior monarca de todos os tempos.
Pensativo, o jovem interlocutor voltou à carga:
- Então porque não se matam os músicos todos? Porque enchemos os nossos salões de árias e concertos, de cantos e baladas? – denotava-se argúcia na pergunta.
- Os músicos são como ervas daninhas. Experimenta arrancar uma e logo verás quantas iguais nascem e quão mais fortes se tornam. Aprende, jovem príncipe: o inimigo quer-se por perto, dominável e dominado. Deste modo, o músico é útil à tua Casa: adormece o povo. E enquanto ele dorme, tu e os teus reinam, mandam e desmandam. É a lei natural das coisas...


Acordai - letra: José Gomes Ferreira
música: Fernando Lopes Graça

domingo, junho 01, 2008

Viajar

O cheiro estava ali. Intenso, forte, suave ao mesmo tempo. A chuva miudinha que ameaçava cair dava à cidade uma tonalidade de cinzento que se reflectia nos típicos táxis. Uma rapariga hippie passou por mim esboçando um sorriso. Depois um punk. De seguida um yuppie, de copo da Starbucks na mão, atafulhado com a pasta e uma cópia do The Guardian. Sentia-me leve, uma pena a esvoaçar num mundo que aos poucos me parecia ter sido construído só para mim. Como se o Criador não tivesse descansado ao sétimo dia, mas tivesse continuado a trabalhar por conta própria para um dono de obra exigente. Sentia-me diferente e igual. Aquilo que dentro de portas é pouco convencional – a alegria sincera espelhada no rosto, a resposta “está tudo óptimo!”, à costumeira “então como vais?”, como se a felicidade fosse uma praga que importa conter –, aqui é o vulgar. Os transeuntes fazem-me viajar na viagem, percebendo que não há pautas para ser feliz, apenas notas sonantes e dissonantes que cada um compõe em sinfonia, concerto, música de qualquer estilo. Agarrei uma colcheia, uma breve e uma semi-breve e saciei-me com a arte dos antigos e dos modernos. Deitei-me no jardim da praça central, olhando os altos prédios de multinacionais e admirei o céu que, só para mim, desenhou um caracol com uma língua vermelha. Não mais despertei, pois finalmente percebi que já estava desperto há muito tempo. Apenas precisava de ganhar distância – com gente, espaço e tessitura, de carne e osso.

Senhor Brecht - Gonçalo M. Tavares


Senhor Brecht
Gonçalo M. Tavares
(1.ª ed. 2004; 2.ª ed. 2006)
Editoral Caminho


Gonçalo M. Tavares já nos tem habituado a trabalhos de grande qualidade.
Sr. Brecht não é excepção. O vencedor do Prémio Saramago, em textos curtos, porém muitíssimo densos, vai mostrando como cada um de nós olha para problemas tão diversos como o egoísmo, a política, as relações sociais. Sempre com uma lição forte, despretensiosa de moralismos.
Escrita enxuta, a merecer reflexão, é daqueles livros em que o número de páginas tem de ser multiplicado várias vezes para se atingir o discurso subliminar que nos interpela.
Obrigado, L., pela oferta!

Happy-Go-Lucky

Happy-Go-Lucky (2008)
Realização e argumento: Mike Leigh
Elenco: Sally Hawkins, Alexis Zegerman, Andrea Riseborough, Samuel Roukin, Sinead Matthews
Sítio official: http://www.happy-go-lucky-movie.co.uk/

Deve estar a chegar às salas portuguesas, mas tive a honra de o ver no local de produção… Happy-Go-Lucky (Urso de Prata no Festival de Berlim) é uma sátira às relações humanas, bem ao gosto de Mike Leigh. Uma professora primária bastante irritante (Poppy, Sally Hawkins), sempre sorridente e com comentários despropositados a propósito de tudo e de nada experimenta a sedução do seu instrutor de condução, indivíduo meio sindicalista, revolucionário de sofá, praguejando contra tudo e todos e apaixonado pela sua instruenda, com quem discute e a quem não pode perdoar o facto de ter remexido em feridas que sempre estiveram abertas, mas que a anestesia do tempo tinha tornado suportáveis.

Happy-Go-Lucky tenta ser uma espécie de manual da felicidade, fugindo (nem sempre o conseguindo, porém) a clichés. A proposta é simples: temos tudo aquilo de que necessitamos e se não o tivermos, é porque não nos faz mesmo falta… E a alegria traz mesmo a sorte. Ingenuidade, lirismo? Talvez. Mas numa Liverpool tão acolhedora, numa sala de cinema arquitectonicamente muito diversa daquilo a que estamos habituados, deu bem para acreditar!


Coeurs (Corações)


Coeurs (2006)
Realização: Alain Resnais
Argumento: Jean-Michel Ribes
Elenco: Sabine Azéma, Isabelle Carré, Laura Morante, Pierre Arditi, André Dussollier,
Lambert Wilson.

Neva sem cessar em Paris. Os corações estão aparentemente frios, à espera de algo ou de alguém que os aqueça, nem que seja à custa de um copo de whisky ou de uma reprimida explosão sexual. Por Coeurs (Corações) desfilam as histórias de um agente imobiliário na casa dos 50, 60, conformado a viver com uma irmã bastante mais nova que procura (o Amor?) em encontros fortuitos obtidos com recurso a anúncios de jornal e em que uma flor vermelha serve de identificação em blind dates. Este agente imobiliário acalenta um desejo por uma colega de trabalho, figura central na trama, aparentemente fervorosa católica que trata, depois do emprego, de um velho doente. Mas esta personagem é demasiado rica para se sentar num escritório. A sua cabeça e o seu corpo passam pelo abismo do desejo, da perversão sexual, dos jogos de sedução por vezes doentios, sempre em busca de uma redenção pelos desejos que a impelem a ter uma vida amorosa que os recalcamentos teimam em negar-lhe.

Assiste-se ainda a um ex-militar em busca de um rumo de vida que, à medida que a história vai avançando, se revela uma procura da passagem da adolescência à idade adulta, à volta de bebidas num bar de hotel perante um empregado desgostoso com a vida mas, ao mesmo tempo, com vontade de que o Amor triunfe.

A solidão das grandes cidades, a eterna procura de uma perfeição relacional que não existe, a repressão do desejo, a mania tão humana de negar que o animalesco faz parte da natureza humana… Tópicos para uma introspecção que recomendo!


Terminar com vergonha nacional

ABAIXO-ASSINADO A FAVOR DA ABERTURA DE PÓLO DA CINEMATECA NA CIDADE DO PORTO

"A cidade do Porto sofre de vários e complexos problemas na área da cultura, como é do conhecimento geral. No entanto, esta situação não é generalizável a todo o país. Efectivamente, Lisboa continua a usufruir de forma centralizada dos serviços de certas instituições culturais que deveriam fazer jus ao seu âmbito nacional, como, por exemplo, a Cinemateca Portuguesa, um organismo público suportado pelos contribuintes a nível nacional.

No Porto, é de grande interesse público a criação de uma extensão da Cinemateca, o que permitiria acabar com a carência de exibição cinematográfica sentida na cidade, ao nível da produção anterior à década de 90...."


terça-feira, maio 27, 2008

Recompensa

Intitula-se «um grupo de alunos bem humorados»...
Fizeram-me chegar esta obra-prima típica da literatura de Dostoievski e da música mais requintada de Wagner.
As lições de cadeira tão importante foram bem apreendidas! Aplicação da pena de prisão, critérios de determinação da medida da pena, liberdade condicional... Tudo é abordado em linguagem clara e tecnicamente exacta.
Um belo exemplo de como a tarefa de docente é bem recompensada...

sábado, maio 24, 2008

segunda-feira, maio 19, 2008

Jealousy - Martin Solveig

Uma musiquinha divertida para enxugar as lágrimas que turvam a visão da verdade... ;-))))

Don’t want anymore jealousy....

Ahaaa! Jealousy!Ahaaa!

Somebody set me freeAhaaa!

Jealousy!Somebody help me!

Somebody! Somebody! Somebody!

Stop this jealousy!Ahaaa! Jealousy!

Errata ou a verdade reposta



A recuperar do resfriado de ontem no Estádio Nacional de Oeiras, temos de perdoar a nossa RTP por querer reescrever a História e considerar que a conquista de uma "tacita" é a "imagem do dia" (já parece a Clara de Sousa a abir o "Jornal da Noite" da SIC...)!
Estas duas é que são os traços mais salientes da vitória de ontem: a colocação do SCP no seu devido sítio e a "omenagem" a todos os "coltos" "jugadores" da bola, que nos vão brindando com pontapés... na gramática!

A Imagem do Dia ou a resposta a uma provocação

A imagem do dia (in www.record.pt)
(Porque ao post abaixo só faltava uma imagem :-))))
E, já agora, viva o Sporting!

Boa onda

Seguindo o conselho de CMO, a quem agradeço que me tenha iniciado no mundo maravilhoso deste fantástico one man show, aqui fica uma excelente malha para começar bem a semana!

domingo, maio 18, 2008

Justiça

Há que admitir: o Sporting mereceu ganhar!
Parabéns, rtp!

Dúvida

Dobradinha ou uma simples taça para salvar a época?
Eis a questão... e a resposta está para breve!

sexta-feira, maio 16, 2008

«Pura Anarquia», Woody Allen


Comprei «Pura Anarquia» de Woody Allen (Gradiva) em trânsito para paragens insulares e durante a tão desejada viagem de avião a visão do expectável concretizou-se.
Woody não desiludiu. Juntou uma série de artigos publicados na imprensa norte-americana e serviu-nos uma cosmovisão do mundo do espectáculo, da física, dos sentimentos e do estrito «nonsense» em que é perito. Somos assomados por momentos de um leve sorriso e outros de uma gargalhada estridente, apesar de, em alguns artigos/contos se notar alguma falta de criatividade pela apresentação de estereótipos gastos como a loira pouco inteligente ou o produtor de cinema sacana e esmifra…
Acima de tudo, o livro vale pelo relato de como Woody parece ver o mundo: uma caixa de sapatos com buracos para garantir a qualidade do ar que se vai respirando no seu interior…

quinta-feira, maio 15, 2008

B.S.O. Almodóvar

Fui presenteado com o duplo CD «B.S.O. Almodóvar», editado em Portugal este ano pela EMI.
Uma reunião de músicas marcantes de filmes que demonstram bem o génio do realizador espanhol. Como ele escreve no texto de abertura do CD, cada filme só tem sentido com uma adequada banda sonora que, nas suas personagens, tantas vezes substitui linhas do argumento.
Vamos navegando por sentimentos que vão desde o bucolismo do amor à raiva da vingança.
Tem-me acompanhado nos últimos dias. Obrigado por isso ao R. e à S., pelo presente!
Queria deixar-vos, mau grado a dificuldade de escolha, «Luz de Luna», de Chavela Vargas, do filme «Kika» (1990). Não encontrei no You Tube versão digna do auditório, pelo que deixo, da mesma cantora, «En el último trago» (também incluída no CD).
Fica, ainda, «Tajabone», de Ismaël Lo, da película «Todo sobre mi madre» (1996).
Deliciem-se!




terça-feira, maio 13, 2008

The Real Sky

"Jedes Herz ist eine revolutionäre Zelle!" (in "Os Edukadores" de Hans Weingartner)

"The real sky" de Jeff Cole.

Porto de Vista Esclarecida (XXIV e XXV)

O alf acertou no Porto de Vista XXIV! Muitos Parabéns!
Tratava-se , de facto, um pormenor do interior do Teatro Nacional S. João.
Deixo algumas informações (retiradas da página oficial http://www.tnsj.pt/)sobre esta bela sala de espectáculos portuenses.
"Denominado, originalmente, como Real Teatro de São João, o edifício primitivo – projectado pelo arquitecto italiano Vincenzo Mazzoneschi (à época cenógrafo do Teatro de São Carlos, em Lisboa) – foi inaugurado em Maio de 1798 e seria quase totalmente destruído pelo fogo, na noite de 11 para 12 de Abril de 1908. A sua estrutura interior era semelhante à do Teatro de São Carlos e a sua composição próxima dos teatros de tipo italiano que se tinham estabelecido como regra de sucesso até ao nascimento do "teatro francês", derivado igualmente desse modelo. Após o incêndio, a partir de 1912, o Teatro de São João foi reconstruído pelo arquitecto portuense José Marques da Silva (1869-1947), muito influenciado por uma visita a Paris, em 1908, durante a qual observou a recuperação do frontispício do Théâtre d’Amiens (1778-80), assinado pelo arquitecto Jacques Rousseau. O novo Teatro de São João foi inaugurado a 7 de Março de 1920 e, numa tentativa de continuidade, a sua programação foi naturalmente dedicada ao teatro e à ópera. Mas, logo a partir de 1932, e seguindo os ares do tempo, a exibição cinematográfica tomou conta da casa que adoptou a designação de São João Cine.
O imóvel seria adquirido pelo Estado no dia 8 de Outubro de 1992 e inaugurado, como Teatro Nacional São João (TNSJ), um mês e meio depois, a 28 de Novembro, sob a direcção de Eduardo Paz Barroso. É o início do projecto de reabilitação, assinado pelo arquitecto João Carreira. Os trabalhos, da responsabilidade do IPPAR – Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico, com o apoio do programa FEDER, foram iniciados a 2 de Janeiro de 1995. Durante oito meses e meio, o TNSJ foi objecto de um complexo processo de recuperação, conservação, inserção e restauro do seu interior, tendo sido igualmente equipado com todas as infra-estruturas e equipamentos apropriados e actuais. A reabertura foi feita a 16 de Setembro do mesmo ano."

A maria acertou no Porto de Vista XXIII. Muitos parabéns também!
Era uma foto de um dos bancos existentes no interior do Museu de Serralves.

sábado, maio 10, 2008

PARABÉNS!!!!!!!!!!!!!

Neste dia feliz, queremos dar os parabéns e desejar as maiores felicidades ao nosso grande amigo e treteiro-mor FilipeLamas.
A falta de tempo – estamos a aperaltar-nos para comparecer devidamente apresentadas às grandiosas festas que o Forno organiza para homenagear o seu marquis – e a falta de inspiração impedem-nos de fazer o post que ele merece!
(E parecia mal limitarmo-nos a subscrever a afirmação do e-card infra postado, não é verdade? Não é que nos faltasse vontade! Ehehe!)
Deixamos um pedacinho de uma música que já é um clássico (sim, para ti, tinha que ser!) numa voz que o filipelamas muito aprecia. Porque com amigos como ele o mundo é, sem dúvida, um "wonderful world". (Apesar de ser um lugar-comum a resvalar para o piroso - nós avisámos que estamos sem inspiração – é, neste caso, a mais pura verdade)

Com grande beijinho,
RTP
e ....
e ...
a Wally tão procurada e finalmente encontrada neste dia glorioso ... ROCKY

Com amigos assim...

Professor sofre!


quinta-feira, maio 08, 2008

Evolução na continuidade?

O que esperar de Medvedev?

Caricatura de Peter Brookes, in "The Times", 07.05.2008.

La mamma non è morta

Das cenas que mais me tocaram no cinema, musicada por uma das mais belas árias de sempre da ópera: "La mamma morta", "Andrea Chénier", de Umberto Giordano.
Tal como na ópera, em plena Revolução Francesa, também em "Filadélfia", a morte, a destruição combatem a esperança, a divindade que existe na doença, no sofrimento.



La mamma morta m'hanno
alla porta della stanza mia
Moriva e mi salvava!
poi a notte alta
io con Bersi errava,
quando ad un tratto
un livido bagliore guizza
e rischiara innanzi a' passi miei
la cupa via!
Guardo!
Bruciava il loco di mia culla!
Così fui sola!
E intorno il nulla!
Fame e miseria!
Il bisogno, il periglio!
Caddi malata,
e Bersi, buona e pura,
di sua bellezza ha fatto un mercato,
un contratto per me!
Porto sventura a chi bene mi vuole!
Fu in quel dolore
che a me venne l'amor!
Voce piena d'armonia e dice
Vivi ancora! Io son la vita!
Ne' miei occhi è il tuo cielo!
Tu non sei sola!
Le lacrime tue io le raccolgo!
Io sto sul tuo cammino e ti sorreggo!
Sorridi e spera! Io son l'amore!
Tutto intorno è sangue e fango?
Io son divino! Io son l'oblio!
Io sono il dio che sovra il mondo
scendo da l'empireo, fa della terra
un ciel! Ah!
Io son l'amore, io son l'amor, l'amor
E l'angelo si accosta, bacia,
e vi bacia la morte!
Corpo di moribonda è il corpo mio.
Prendilo dunque.
Io son già morta cosa!

Maio, paz e Gilberto

Em Maio de 2008, recordando o de 1968, fica a paz de um certo ministro da cultura.

Quiz

Onde está e quem será o/a Wally que tanto procuro?

quarta-feira, maio 07, 2008

terça-feira, maio 06, 2008

Early Night Posts (41)

*****
"Ah! Querem uma luz melhor que
a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas
Que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores
Contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que eu quero é um sol mais sol
Que o Sol,
O que eu quero é prados mais prados
Que estes prados,
O que eu quero é flores mais estas flores
Que estas flores –
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!"
Alberto Caeiro
****** Obrigada

terça-feira, abril 22, 2008

ZOOMático

Verão (mas bastava a Primavera)

sexta-feira, abril 18, 2008

"Poesia"

Esta tem sido uma semana de rara beleza!
Descobri a música que se segue, chamada "Poesia", de um duo de cantoras nacionais que desconhecia. O modo como as vozes se articulam na perfeição, a qualidade da técnica vocal das duas e a elaborada coreografia tornam esta, para mim, numa das melhores descobertas do presente ano.
Reparem ainda na qualidade técnica e cinematográfica do "clip", em especial no comedimento das manifestações de ternura que tornam este vídeo um excelente exemplo de compromisso entre a plena visão do Amor e a inteligência da sua representação.
Uma carreira a seguir! E descobri que o duo virá em breve ao Coliseu do Porto. Estarei na primeira fila!

quinta-feira, abril 17, 2008

Sea Lion Woman - Feist

Há Pessoa(s) na FDUP


Quem ontem se deslocou à Faculdade de Direito do Porto e assistiu à representação da peça “Quinto Império”, da obra de Fernando Pessoa, pelo “DireitoàCena”, grupo de teatro daquela instituição de ensino, composto por actuais e antigos estudantes e por docentes daquela Casa, teve a oportunidade única de viajar, guiado pelo próprio, pelos incomensuravelmente difíceis meandros do génio criador do nome maior da Poesia portuguesa.

Com base na carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, sobre a génese dos seus heterónimos, numa interpretação muito inspirada de Sérgio Rocha, íamos ouvindo dizer e viver Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e o próprio Pessoa. Cada palavra era sentida e dita com garra, com bonomia, com paixão, desalento, sofrimento.

O universo pessoano ia desfilando perante um cenário minimalista e muito bem iluminado (parabéns ao Afonso Bianchi), em que as demais actrizes, vestidas de batas brancas que conjugavam a loucura de manicómios e a assepsia da alva cor, pelas vozes, corpos e movimentos de Inês Vouga, Joana Neto, Liliana Borges da Costa, Margarida Correia, Maria Raquel Ferreira Neves e Marta Faria.

Nunca se fica igual de encontros com a obra de Pessoa. Quando ela é tão bem interpretada, só desejamos sonhar com guardadores de rebanhos, mensagens, opiários, mostrengos…

Quem não viu ainda, tem oportunidade hoje e amanhã, às 21.30 h. O bilhete custa 5 € e pode ser comprado na portaria da FDUP durante o dia ou antes do espectáculo.

sábado, abril 12, 2008

Uma Segunda Juventude


Uma Segunda Juventude, Francis Ford Coppola

Sítio oficial: http://www.ywyfilm.com/

Coppola é um nome que dispensa apresentações. Talvez por isso, quando sabemos que um novo filme com a sua assinatura se encontra em cartaz, corremos a vê-lo.

Assim foi com «Uma Segunda Juventude» («Youth without Youth»). O argumento, baseado no livro de Mircea Eliade, é muito bem pensado: um professor universitário (fantástica interpretação de Tim Roth) faz a busca da sua vida em torno das origens da linguagem, a procura daquele momento primevo em que a articulação de sons permitiu a comunicação humana. Tudo sacrificou a este desiderato, negligenciando a sua vida amorosa e perdendo a mulher da sua vida.

Já velho, um aparatoso acidente com um relâmpago torna-o de novo jovem, como se a vida lhe concedesse uma segunda oportunidade, agora dotado de extraordinários poderes que passam por capacidade intelectuais fenomenais e um desdobramento da personalidade que funciona como «tribunal da Razão», para dizê-lo com Kant.

Nova paixão carregada de sofrimento e, uma vez mais, a escolha entre a obra de uma vida e o Amor. Desta feita, a escolha recai sobre o último, mas esta opção traz a morte.

A narrativa é, contudo, demasiado lenta, embora com saltos temporais que em muito dificulta a compreensão cabal do argumento, facto desejado e que amplifica a dificuldade das escolhas da personagem principal.

Uma história interessante, porém demasiado longa (é a primeira longa-metragem de Francis Ford Coppola em 10 anos) e aquém de sucessos com a mesma assinatura tais como a trilogia «O Padrinho» e «Apocalypse Now».

Deixa-nos a interrogação: o que mudaríamos se tivéssemos uma nova oportunidade de viver?


quinta-feira, abril 10, 2008

Teatro: Quinto Império - Fernando Pessoa - direitoÀcena


A não perder, mais esta peça do Grupo de Teatro da Faculdade de Direito da U.Porto - DireitoàCena -, nos dias 16, 17 e 18 de Abril, às 21.30h, na FDUP (Rua dos Bragas, 223).
Os bilhetes podem ser adquiridos na Portaria da Faculdade, a partir de hoje, dia 10/4, bem como na própria altura do espectáculo.
Os textos de Fernando Pessoa não podiam ser melhor mote para representações que, tenho a certeza, vão ficar guardadas na memória!
Apareçam!


terça-feira, abril 08, 2008

Time to kill - Sophie Zelmani

"Time to kill" de Sophie Zelmani.

A pensar no vol. IV do Best-of do T&L, agora que o vol. III já está pronto. (Obrigada, Thumbs!)

quarta-feira, abril 02, 2008

Sugestões


Filme: "Nunca é tarde demais"(The Bucket List), com os enormes Jack Nicholson e Morgan Freeman. O tema da morte pode ser divertido se for explorado com a inteligência de um bom argumento e com as interpretações magistrais destes dois Senhores que nos dão uma lição sobre Vida e Amizade. Retenho a ideia de que sabemos que valeu a pena viver pelo número de pessoas que decidiram tomar-nos como exemplos a seguir.
Espreitem:
http://video.aol.com/video-detail/nunca-e-tarde-demais-trailer-portugues/1142794214

Livro: Corpo Presente, de Anne Enright, Gradiva, 2007. A história da família Hegarty em volta da morte e funeral do mais novo de uma série de irmãos numa típica família de Dublin, entre o catolicismo tradicionalista e a quebra de convenções. Um olhar maduro e realista sobre pequenas grandes invejas familiares, sobre uma aparente capa de convenções. A autora recebeu, por esta obra, o prestigiado Man Booker Prize de 2007. Ideal para quem gosta de olhares apaixonados sobre fragmentos pungentes da vida, polvilhados de selecta ironia e sarcasmo.

Boa sorte * Vanessa da Mata e Ben Harper

Não é apenas sorte, de tempos a tempos, sermos abençoados com músicas como esta nas vozes de Vanessa da Mata e Ben Harper.

sábado, março 29, 2008

Ani Chöying Drolma

Tibetana, monja, cantora. Ani Chöying Drolma utiliza os mantras da sua religião como modo de exprimir as vivências das gentes daquelas terras longínquas e, ao que parece, como forma de captar a atenção do mundo para o agora de novo tão discutido «problema do Tibete».
Vale a pena escutar estas meditações tranquilas com a certeza de que cada dia neste espaço deve ser um passo rumo a um maior nível de perfeição. Afinal, um princípio do budismo, de muitas religiões e de todas as éticas.


sexta-feira, março 28, 2008

Herculano


Alexandre Herculano nasceu no dia que hoje passa, em 1810.
Grande autor do romantismo português, a sua poética é menos conhecida quando comparada com o romance histórico.
Aqui fica um excerto de «Deus»:


Eis o Tempo, o Universo, o Movimento

Das mãos sai do Senhor:

Surge o Sol, banha a terra, e desabrocha

Sua primeira flor:

Sobre o invisível eixo range o globo:

O vento o bosque ondeia:

Retumba ao longe o mar: da vida a força

A natureza anseia!

Perdidamente

À entrada de mais um fim-de-semana, apetece ouvir boa música com excelentes poemas.
É o caso de «Perdidamente», de Florbela Espanca, nas vozes de Sara Tavares e Nuno Guerreiro.
«Ter asas de condor» é, na verdade, um desafio hercúleo, mas que vale a pena aceitar! Sem perdas, sem perder, perdidamente em alguém...

domingo, março 23, 2008

Trupe Vocal


Trupe Vocal
Fátima Serro, Maria João Mendes e Kiko (vozes)
Paulo Gomes (piano); Hugo Carvalhais (contrabaixo) e Leandro Leonet (bateria)

Os Trupe Vocal são já um conceituado projecto de jazz dito «clássico», desde o “Gospel” aos ritmos da fundação americana, até à bossa nova.
Donos de vozes em que se destaca Fátima Serro, ouvir também Kiko e Maria João Mendes é sempre garantia de um pedaço de tempo muito bem passado. A isto juntem-se músicos inspirados, de entre os quais o baterista Leandro Leonet. Assim foi ontem no Servartes (http://www.servartes.com/), espaço que se vai cada vez mais afirmando pela qualidade das suas propostas musicais e das exposições que acolhe.
Pena mesmo é algum público que tem dificuldade em entender que em concertos como este, a música é para ser escutada em silêncio e não em altos berros. Cada coisa tem o seu lugar e esta trapalhada bem portuguesa de misturar tudo teve ontem um exemplo paradigmático. Quem disse que a vida de artista é fácil?

sábado, março 22, 2008

Anima Mea


«Coro Anima Mea». Amadores que são quase profissionais. Cantam com muita alma e com a beleza do divino.
O «Stabat Mater» foi constituído por uma primeira parte com peças de compositores dos sécs. XVI a XVIII, de que destaco o «In Monte Oliveti» de Fabordão. A segunda parte foi quase toda preenchida pelo «Stabat Mater» de João Rodrigues Esteves (c. 1690-1755). Os solistas deram cartas.
Ah! Tudo isto na Igreja de Sto. António das Antas, com entrada gratuita.
Com coros destes até a mim me apetece cantar! (podem estar descansados que vos poupo esse suplício!)

Das Tripas ao Coração


Lê-se de um fôlego. Apesar de já ter alguns anos, datando do Porto 2001, «Das Tripas ao Coração» é uma antologia trilingue (Português, Inglês e Francês) de poemas de autores do Porto ou que com esta cidade têm uma ligação especial, organizada por Egito Gonçalves e Rosa Alice Branco (Campo das Letras, Porto 2001, Porto: 2001).
O título diz muito deste nosso Porto: as tripas são o elo gastronómico com a cultura do coração, daquele granítico e tantas vezes bruto e brutal som da cidade que nos embala umas vezes e nos estremece outras. A escolha de mais duas línguas tenta demonstrar que o Porto, apesar de ainda preso a algum provincianismo de que se queixava Garrett, tem uma legítima pretensão de universalidade.
Deixo a minha própria selecção:

As palavras

São como um cristal,
As palavras.
Algumas, um punhal,
Um incêndio.
Outras,
Orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
Barcos ou beijos,
As águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
Leves.
Tecidas são de luz
E são noite.
E mesmo pálidas
Verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
As recolhe, assim,
Cruéis, desfeitas,
Nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

Compêndio

Dizias: daqui o mar parece
Uma tarântula
Azul. Eu respondi:
Vermelhas
São as flâmulas
Das algas e o fermento
Das águas.
Escrever
É isso: fazer
Da vida uma pauta
E um compêndio de espuma.

Albano Martins

quarta-feira, março 19, 2008

Ken Lee ou o inglês em búlgaro

Stacey Kent - a voz do divino

Foi dos concertos que mais me tocou.
Uma voz cristalina, com uma dicção perfeita, percorreu alguns clássicos do jazz em inglês e francês (que bem fica esta última língua neste estilo musical!), enquanto se transpirava uma união sibilina entre os elementos da banda, em especial James Tomlinson, o marido de Stacey Kent (os restantes músicos são Art Hirahara - piano -, David Chamberlain - contrabaixo - e Matthew Skelton - bateria).
Apresentaram o mais recente disco, Breakfast on the Morning Tram, editado pela prestigiada Blue Note.
Stacey é uma excelente contadora de histórias, agora com Kazuo Ishigo como letrista. Esta cantora, nascida em Nova Iorque, iniciou a sua carreira musical em Oxford, tendo já recebido vários prémios, de entre os quais se destacam o British Jazz Award (2001) e o BBC Jazz Award (2004).
Com uma voz destas, dá-se mesmo largas ao sonho!
Aqui fica uma música (também) na nossa língua!

terça-feira, março 11, 2008

Joplin * Mercedes


Não sei bem porquê, hoje esta música não me sai da cabeça!
Não sou nada louco por automóveis, nem faço muita questão de ter um Mercedes ou um grande carrão... Já me dou por contente se a minha lata já a caminhar para velhota não me der problemas.
Talvez por isso, a letra desta música de Janis Joplin é um divinal hino contra o consumismo e contra a «inveja de vizinho».

"Mercedes Benz"

Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz ?
My friends all drive Porsches, I must make amends.
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz ?

Oh Lord, won’t you buy me a color TV ?
Dialing For Dollars is trying to find me.
I wait for delivery each day until three,
So oh Lord, won’t you buy me a color TV ?

Oh Lord, won’t you buy me a night on the town ?
I’m counting on you, Lord, please don’t let me down.
Prove that you love me and buy the next round,
Oh Lord, won’t you buy me a night on the town ?

Everybody!
Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz ?
My friends all drive Porsches, I must make amends,
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz ?

That’s it!

sexta-feira, março 07, 2008

Perguntas palermas (III)

Se a corte portuguesa desembarcou em 1808 no Brasil, fugindo das tropas napoleónicas, com receio de que o país deixasse de ser independente, agora, em 2008, em que já não somos mesmo independentes, não haverá mais razões para fazermos todos as malas e irmos de vez para a terra do samba e do calor, de papo para o ar?

Se «Portugal convida», porque é que nunca paga a conta? Não aprendemos que «quem paga convida?»

Portugal de vista (IX)

Especial agradecimento a Baudolino.

quarta-feira, março 05, 2008

Dicionário alternativo ou o castigo do Senhor Ministro

Soubemos de fonte segura que o Senhor Ministro dos Assuntos Culturais do Reino do Forno está em retiro espiritual nos montes sagrados do Peloponeso Fornense, a mando do Senhor Marquis, após uma imperdoável gaffe daquele dignitário na sacrossanta língua latina.
Antes do cumprimento da penitência, o Senhor Ministro pede para informar que "zubaida" é, de facto, como intuira GBN, uma mulher gorda, feia e mal-ajambrada. Porque o Ministro está de castigo, não há, por ora, qualquer condecoração atribuída.
Ainda como forma de aplacar o desejo sanguinário do Senhor Marquis, o Senhor Ministro pede-nos encarecidamente que divulguemos mais um desafio dessa língua tão misteriosa que é o Fornense, hoje em dose dupla:

"peladiço"
"gente xiribi".

Ajudemos este tão amargurado Ministro! O Senhor Marquis prometeu demonstrar a sua magnanimidade para com tão desventurado ser caso esta rubrica contasse com uma participação recorde!
Salvemos o Ministro!

segunda-feira, março 03, 2008

As pedras não ardem


René Magritte, L'Empire des Lumières, 1953-54, Museu Guggenheim, Nova Iorque.

As pedras não ardem,
os corpos não se extinguem.
Apenas tu ardes
na memória do Sonho
que vivo acordado
em sobressalto de
pedra vulcânica, doce, amargurada.

[Silêncio. Entras. Eis-te!]

Agora, as pedras já ardem!
O teu corpo já queima!
Tudo em ti exala segredo
e Vida. E Morte.

Que ardam as Pedras!
Qu'irrompa a Vida!

Idanha-a-Velha, 29.12.2007 Primeiro verso dado por rocky.

F.L.

Inspiring quotes (12)


Varium et motabile sempre femina.

A mulher sempre foi um ser vário e mutável.

Virgílio, Eneida, IV, 569.

Depois aproveitado este mote por Vítor Hugo na sua obra Le Roi s'Amuse, bem como por Piave, para encerrar o libreto da ópera Rigoleto, com o famoso la donna è mobile.

sábado, março 01, 2008

Early Night Post (40)


Poprishchin, Ilya Répin (1844-1930)

«Suspeito desde há muito que o cão é bastante mais esperto do que o homem: sempre estive convencido, até, de que o cão sabe falar, só que tem um feitio teimoso. O cão é um político extraordinário: repara em tudo, em todos os passos do homem.»

«É que a Lua se fabrica, normalmente, em Hamburgo, e é de péssima qualidade. Admira-me que a Inglaterra não preste atenção a este facto. O fabricante é um tanoeiro coxo, e vê-se logo que é imbecil, não tem a mínima noção de Lua. Utilizou uma corda alcatroada e uns restos de azeite de lâmpada rançoso; por isso é terrível o fedor por toda a Terra, é obrigatório tapar o nariz. Daí que a própria Lua seja uma bola tão frágil que as pessoas não podem viver nela, pelo que agora só lá moram narizes. É por esta mesma razão que não podemos ver os nossos próprios narizes, uma vez que estão todos na Lua.»

Nikolai Gógol, Diário de um Louco, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, pp. 23 e 45, respectivamente.

Útil e inútil

Útil e inútil.

Ainda se mantinha com aquelas duas palavras na cabeça debitadas do rádio-despertador que lhe infligia o horror matinal de acordar maldisposto.

Não lhe tinha vindo à ideia a dicotomia que agora o voltava a atormentar durante o duche, momento em que o seu cérebro, após o torpor nocturno, parecia acordar e regalá-lo com brilhantes expressões, com tralha para fazer, assuntos a não esquecer e, até, pasme-se com sonhos mirabolantes. Pois, nisso dava não sonhar durante a noite.

A caminho do escritório, embrenhado em cálculos mentais para pôr a porcaria da fabriqueta a render mais uns cobres e a competir (tinha sido isso que o Primeiro afirmara em entrevista recente àquela finguelas que tem a mania que é esperta, não fora?) com os tigres (que raio de nome! Pareciam mais umas sanguessugas!) do oriente, numa rubrica de saúde, o médico de serviço (dos poucos que ainda trabalhava em urgências… como gostava ele de meter uma bucha política em tudo o que era pensamento! À sua maneira era um grito de revolta, cansativo que seria inscrever-se num sindicato ou coisa assim) dizia que era útil comer vegetais.

Sim, sim, comer vegetais. Já agora, praticar exercício físico, não comer carne, só peixinho cozido ou grelhado, não fumar, não beber, não ter sexo. Enfim, aquelas tretas que os médicos debitam e não cumprem por saberem que deixariam de ser humanos caso o fizessem.

Se bem que, deixar de ser humano depois da tampa de ontem era muito tentador. Também quem é que ia adivinhar que a tipa com ar de santinha afinal era uma interesseira que só queria uma porcaria de emprego de secretária na fabriqueta nos arrabaldes da cidade? Nem era muito bem paga…

«A taxa de desemprego voltou a subir. A Comissão Europeia recomenda…»

Bem, esta tipa da rádio anda a ler-me os pensamentos! E os bacanos da Comissão se mandassem em vez de recomendar, as coisas estariam melhor. Como diz o X, esse grande intelectualóide de esquerda punhos de renda, era importar políticos! Assim como assim, já importamos tudo e não nos importamos nada…

Ai a filha da mãe da jeitosa que estancou no amarelo! Será que esta gente não tem pressa de chegar ao trabalho? Não deve ir trabalhar… A avaliar pela bomba que tem nas mãos, deve ser dessas dondocas que só levam os pirralhos ao colégio…

Isso, agora espana por aí fora…

Fazia então bem à saúde comer vegetais. Era útil, pelo menos a quem desejasse viver mais uns anos. E valeria a pena? O aquecimento global, o degelo, o efeito de estufa e essas coisas todas que os ambientalistas agora erguem como bandeiras e que até dão prémios a ex-presidentes do maior poluidor mundial, tornariam útil a vida neste planeta? E útil era o quê, afinal? Que jeito lhe dava ter estado mais atento às aulas da stôra de Filosofia do secundário, em vez de espreitar pelo decote da Y, com um belo par de matéria-prima pronta a sair daquele top musculado que agrilhoava aquelas hormonas prontas a encontrar abrigo no seu acne borbulhoso. Hum, que imagem linda…

Desligou a ficha e ligou à terra onde não se pensava em nada, mas simplesmente se acompanhava a mudança de velocidades com uma carregadela na embraiagem do citadino barato que lhe servia de lata e que comprara em suaves prestações mensais a uma TAED estupidamente elevada com o dinheiro que a avó (que Deus a tenha em eterno descanso) lhe havia deixado em boa hora às portas da morte. Esta de a morte ter portas faz dela uma espécie de casa, talvez mesmo com janelas, móveis, biblots, carpetes, cortinados, portiers. Quem morará nessa casa? O Diabo? O Diabo e os Santos em alegre convívio? Sorrira levemente, erguendo o lábio superior daquela maneira sexy que usava como arma de arremesso sempre que conhecia uma miúda nova. Mas não queria desenvolver a ideia da morte, de uma casa e de um eventual paralelismo sórdido entre o fim da vida e bairros pobres ou chiques. Deixaria isso para quem, àquela mesma hora, estaticamente na China, estaria a ter a mesmíssima ideia, só que em outra língua, ou melhor, em outro idioma que se projectava em ondas sonoras que ecoavam na caixa craniana pois, ao que consta e ele se apercebesse, o seu pensamento ainda não fazia barulho.

Entrara no edifício, designação demasiado simpática para um casebre em madeira e tijolos já velhos que albergavam dois recém-licenciados que estavam para descobrir aquela fórmula que faria do algodão importado uma espécie de seda mais barata e que lhe daria a tal vantagem competitiva. Pelo menos assim gostava de pensar ao vê-los embrenhados em pipetas e tubos de ensaio. Mesmo que tal não acontecesse, os miúdos ficavam baratos com os programas governamentais que existiam, reforçados em véspera de eleições. Benditas manifestações soberanas do poder do Povo escolher livremente, em sufrágio directo e universal, os seus lídimos representantes na casa comum da Democracia!

Que belo discurso! A minha mãe sempre disse que eu estava bem era na política…

Fábula do país adormecido

Era uma vez um país muito antigo que, em «depressão major», chegou a uma encruzilhada. Como em vários locais de (in)decisão, duas placas indicando a «Terra do Faz-de-Conta» e a «Terra da Realidade».

A decisão afigurava-se grave: ia-se (sobre)vivendo em estado pré-comatoso (comatoso?) induzido pela pletora arcaica de achaques e arrebiques de passados lautos engalanados com candeeiros de fuste e chiques camas de dossel, tudo seduzindo para um mundo rosa de riqueza mantida à custa de balões de oxigénio contaminado, chamados «bancos», propagandeando regaladas férias ao sol, princesas e príncipes perfeitos, cidades de chocolates e galáxias de brinquedos.

Escolher a realidade implicaria optar pela bruxa má e pelos monstros feiosos que obrigavam os meninos a despender energias em projectos concretizados à medida das migalhas de bolachas que se tinha no bolso. O terror maior era, porém, dar razão à irritante formiga trabalhadora e aforradora, bem como queimar em lume inquisitorial inapagável o papel de figurante do tal país em que se podia ostentar uma superioridade ociosa escondida sob um mando de inferioridade coitadinha de fado inelutável, mesmo que esse papel amiúde terminasse com oiro, pimenta e cravinho transformados em incómodas complicações gástricas.

Estava o dito país de Inês posto em desassossego quando soaram incómodos barulhos de exércitos de esfomeados, estropiados e demais classes malcheirosas. Anunciavam uma crise social profunda, uma perda de identidade e de espírito gregário de um povo partilhando, até ali, língua, cultura (?) e etnia similares, tidas por poção mágica contra qualquer mal.

Estremeceu o país e quem carregava o leme, ansiando por um milagre ao jeito de umas pequenas crianças em aldeia perdida nas serranias. À falta de intervenção divina, por ali passou um mocho escolástico debitando teorias e análises multifactoriais, por horas discursando. Embevecido, o país deu vivas e ordenou a construção de um estádio com o nome do mocho. Todavia, logo perscrutou que nada mudara por duas razões: estava sobretudo acostumado ao imobilismo e soavam mais fortes as rocas dos bandos urrantes.

De novo atando as mãos à cabeça, pejorando contra divindades e amaldiçoando bolorentas bonomias seculares, o vento de Leste trouxe uma chita magra e simpática que, após amena cavaqueira, engoliu o tal país e, engordada, seguiu em frente, por uma terceira via dita progressista, humanista e sensível a profundos sentimentos sociais.

E assim, no interior da barriga da ágil chita, limitando-se a escolher o melhor lado onde estender o travesseiro, o tal país viveu feliz para sempre.


quinta-feira, fevereiro 28, 2008

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Early Night Post (39)

Gustave Coubert, A falésia de Étretat depois da tormenta
"- (...) Sabe a história do homem a quem perguntaram por que andava ao longo da praia, depois de uma tempestade, devolvendo à água as estrelas do mar que a corrente arrastara para terra quando havia milhares delas que deviam morrer? Ele respondeu que o fazia porque as poucas que podia salvar voltariam para o mar e seriam felizes.
- Até à próxima tempestade, não era o que ia dizer, (...)?
- Não, mas talvez o pensasse. E interessa-me o facto de você estar a pensar do mesmo modo.
- Quer dizer que estou a pensar de modo mais realista (...)?
- Quero, sim, é isso mesmo. Mas já lhe disse muitas vezes que tem muito mais estrelas nos olhos do que lhe conviria para seu próprio bem."
Doris Lessing, O Sonho mais doce, Editorial presença, 2007, p. 292.

domingo, fevereiro 24, 2008

Juno

Com as sensações produzidas pelo filme "Juno" ainda por amortecer e com as suas singelas músicas a ecoar nos ouvidos - portanto, sem espaço (nem tempo, já agora!) para as palavras do merecido post que ele deverá suscitar - deixo aqui a canção "All I want is You" de Barry Louis Polisar do genérico.

"If I was a flower growing wild and free /All I'd want is you to be my sweet honey bee/ And if I was a tree growing tall and greeen/ All I'd want is you to shade me and be my leaves(...) All I want is you, will you be my bride/ Take me by the hand and stand by my side/ All I want is you, will you stay with me? Hold me in your arms and sway me like the sea. If you were a river in the mountains tall,The rumble of your water would be my call. If you were the winter, I know I'd be the snowJust as long as you were with me, let the cold winds blow (...) If you were a wink, I'd be a nodIf you were a seed, well I'd be a pod.If you were the floor, I'd wanna be the rug. And if you were a kiss, I know I'd be a hug. (...) If you were the wood, I'd be the fire.If you were the love, I'd be the desire. If you were a castle, I'd be your moat,And if you were an ocean, I'd learn to float.All I want is you, will you be my brideTake me by the hand and stand by my side All I want is you, will you stay with me? Hold me in your arms and sway me like the sea.(...)"

E já agora, porque toda a banda sonora é especial (e hesitei muito quanto ao que aqui devia postar), fica, também, a tocante "Anyone else but you" cantada pela protagonista Ellen Page (que bela interpretação!) e pelo actor Michael Cera: http://www.youtube.com/watch?v=nBDbUVXXp-U

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Porto de Vista Esclarecida (XXIII)

O filipelamas acertou! Parabéns!
Tratava-se, de facto, de uma fotografia do tecto de um átrio junto à entrada principal da Faculdade de Letras da Universidade do Porto!
A razão de ter escolhido esse pormenor foi precisamente a oposição entre a sua branca sobriedade e o policromatismo do edifício, em particular do seu exterior. Tentei, dessa forma - mas em vão - dificultar o desafio.
Não apreciando a estética do projecto arquitectónico em questão – e de que não consegui identificar o autor, por falta de tempo –, julgo que inconveniente maior é a falta de funcionalidade do edifício e a quantidade de "espaço" perdido na estrutura labiríntica.

Berlim: Uma Cidade, Dois Olhares




Ainda a propósito da exposição Berlim: Uma Cidade, Dois Olhares, aqui fica a correcção de que a mesma estará patente até ao dia 1/3/2008 e, para vos tentar ainda mais, deixo algumas das fotografias expostas, agradecendo ao Nuno Lago a sua disponibilização.