sábado, março 22, 2008

Das Tripas ao Coração


Lê-se de um fôlego. Apesar de já ter alguns anos, datando do Porto 2001, «Das Tripas ao Coração» é uma antologia trilingue (Português, Inglês e Francês) de poemas de autores do Porto ou que com esta cidade têm uma ligação especial, organizada por Egito Gonçalves e Rosa Alice Branco (Campo das Letras, Porto 2001, Porto: 2001).
O título diz muito deste nosso Porto: as tripas são o elo gastronómico com a cultura do coração, daquele granítico e tantas vezes bruto e brutal som da cidade que nos embala umas vezes e nos estremece outras. A escolha de mais duas línguas tenta demonstrar que o Porto, apesar de ainda preso a algum provincianismo de que se queixava Garrett, tem uma legítima pretensão de universalidade.
Deixo a minha própria selecção:

As palavras

São como um cristal,
As palavras.
Algumas, um punhal,
Um incêndio.
Outras,
Orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
Barcos ou beijos,
As águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
Leves.
Tecidas são de luz
E são noite.
E mesmo pálidas
Verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
As recolhe, assim,
Cruéis, desfeitas,
Nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

Compêndio

Dizias: daqui o mar parece
Uma tarântula
Azul. Eu respondi:
Vermelhas
São as flâmulas
Das algas e o fermento
Das águas.
Escrever
É isso: fazer
Da vida uma pauta
E um compêndio de espuma.

Albano Martins

quarta-feira, março 19, 2008

Ken Lee ou o inglês em búlgaro

Stacey Kent - a voz do divino

Foi dos concertos que mais me tocou.
Uma voz cristalina, com uma dicção perfeita, percorreu alguns clássicos do jazz em inglês e francês (que bem fica esta última língua neste estilo musical!), enquanto se transpirava uma união sibilina entre os elementos da banda, em especial James Tomlinson, o marido de Stacey Kent (os restantes músicos são Art Hirahara - piano -, David Chamberlain - contrabaixo - e Matthew Skelton - bateria).
Apresentaram o mais recente disco, Breakfast on the Morning Tram, editado pela prestigiada Blue Note.
Stacey é uma excelente contadora de histórias, agora com Kazuo Ishigo como letrista. Esta cantora, nascida em Nova Iorque, iniciou a sua carreira musical em Oxford, tendo já recebido vários prémios, de entre os quais se destacam o British Jazz Award (2001) e o BBC Jazz Award (2004).
Com uma voz destas, dá-se mesmo largas ao sonho!
Aqui fica uma música (também) na nossa língua!

terça-feira, março 11, 2008

Joplin * Mercedes


Não sei bem porquê, hoje esta música não me sai da cabeça!
Não sou nada louco por automóveis, nem faço muita questão de ter um Mercedes ou um grande carrão... Já me dou por contente se a minha lata já a caminhar para velhota não me der problemas.
Talvez por isso, a letra desta música de Janis Joplin é um divinal hino contra o consumismo e contra a «inveja de vizinho».

"Mercedes Benz"

Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz ?
My friends all drive Porsches, I must make amends.
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz ?

Oh Lord, won’t you buy me a color TV ?
Dialing For Dollars is trying to find me.
I wait for delivery each day until three,
So oh Lord, won’t you buy me a color TV ?

Oh Lord, won’t you buy me a night on the town ?
I’m counting on you, Lord, please don’t let me down.
Prove that you love me and buy the next round,
Oh Lord, won’t you buy me a night on the town ?

Everybody!
Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz ?
My friends all drive Porsches, I must make amends,
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz ?

That’s it!

sexta-feira, março 07, 2008

Perguntas palermas (III)

Se a corte portuguesa desembarcou em 1808 no Brasil, fugindo das tropas napoleónicas, com receio de que o país deixasse de ser independente, agora, em 2008, em que já não somos mesmo independentes, não haverá mais razões para fazermos todos as malas e irmos de vez para a terra do samba e do calor, de papo para o ar?

Se «Portugal convida», porque é que nunca paga a conta? Não aprendemos que «quem paga convida?»

Portugal de vista (IX)

Especial agradecimento a Baudolino.

quarta-feira, março 05, 2008

Dicionário alternativo ou o castigo do Senhor Ministro

Soubemos de fonte segura que o Senhor Ministro dos Assuntos Culturais do Reino do Forno está em retiro espiritual nos montes sagrados do Peloponeso Fornense, a mando do Senhor Marquis, após uma imperdoável gaffe daquele dignitário na sacrossanta língua latina.
Antes do cumprimento da penitência, o Senhor Ministro pede para informar que "zubaida" é, de facto, como intuira GBN, uma mulher gorda, feia e mal-ajambrada. Porque o Ministro está de castigo, não há, por ora, qualquer condecoração atribuída.
Ainda como forma de aplacar o desejo sanguinário do Senhor Marquis, o Senhor Ministro pede-nos encarecidamente que divulguemos mais um desafio dessa língua tão misteriosa que é o Fornense, hoje em dose dupla:

"peladiço"
"gente xiribi".

Ajudemos este tão amargurado Ministro! O Senhor Marquis prometeu demonstrar a sua magnanimidade para com tão desventurado ser caso esta rubrica contasse com uma participação recorde!
Salvemos o Ministro!

segunda-feira, março 03, 2008

As pedras não ardem


René Magritte, L'Empire des Lumières, 1953-54, Museu Guggenheim, Nova Iorque.

As pedras não ardem,
os corpos não se extinguem.
Apenas tu ardes
na memória do Sonho
que vivo acordado
em sobressalto de
pedra vulcânica, doce, amargurada.

[Silêncio. Entras. Eis-te!]

Agora, as pedras já ardem!
O teu corpo já queima!
Tudo em ti exala segredo
e Vida. E Morte.

Que ardam as Pedras!
Qu'irrompa a Vida!

Idanha-a-Velha, 29.12.2007 Primeiro verso dado por rocky.

F.L.

Inspiring quotes (12)


Varium et motabile sempre femina.

A mulher sempre foi um ser vário e mutável.

Virgílio, Eneida, IV, 569.

Depois aproveitado este mote por Vítor Hugo na sua obra Le Roi s'Amuse, bem como por Piave, para encerrar o libreto da ópera Rigoleto, com o famoso la donna è mobile.

sábado, março 01, 2008

Early Night Post (40)


Poprishchin, Ilya Répin (1844-1930)

«Suspeito desde há muito que o cão é bastante mais esperto do que o homem: sempre estive convencido, até, de que o cão sabe falar, só que tem um feitio teimoso. O cão é um político extraordinário: repara em tudo, em todos os passos do homem.»

«É que a Lua se fabrica, normalmente, em Hamburgo, e é de péssima qualidade. Admira-me que a Inglaterra não preste atenção a este facto. O fabricante é um tanoeiro coxo, e vê-se logo que é imbecil, não tem a mínima noção de Lua. Utilizou uma corda alcatroada e uns restos de azeite de lâmpada rançoso; por isso é terrível o fedor por toda a Terra, é obrigatório tapar o nariz. Daí que a própria Lua seja uma bola tão frágil que as pessoas não podem viver nela, pelo que agora só lá moram narizes. É por esta mesma razão que não podemos ver os nossos próprios narizes, uma vez que estão todos na Lua.»

Nikolai Gógol, Diário de um Louco, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, pp. 23 e 45, respectivamente.

Útil e inútil

Útil e inútil.

Ainda se mantinha com aquelas duas palavras na cabeça debitadas do rádio-despertador que lhe infligia o horror matinal de acordar maldisposto.

Não lhe tinha vindo à ideia a dicotomia que agora o voltava a atormentar durante o duche, momento em que o seu cérebro, após o torpor nocturno, parecia acordar e regalá-lo com brilhantes expressões, com tralha para fazer, assuntos a não esquecer e, até, pasme-se com sonhos mirabolantes. Pois, nisso dava não sonhar durante a noite.

A caminho do escritório, embrenhado em cálculos mentais para pôr a porcaria da fabriqueta a render mais uns cobres e a competir (tinha sido isso que o Primeiro afirmara em entrevista recente àquela finguelas que tem a mania que é esperta, não fora?) com os tigres (que raio de nome! Pareciam mais umas sanguessugas!) do oriente, numa rubrica de saúde, o médico de serviço (dos poucos que ainda trabalhava em urgências… como gostava ele de meter uma bucha política em tudo o que era pensamento! À sua maneira era um grito de revolta, cansativo que seria inscrever-se num sindicato ou coisa assim) dizia que era útil comer vegetais.

Sim, sim, comer vegetais. Já agora, praticar exercício físico, não comer carne, só peixinho cozido ou grelhado, não fumar, não beber, não ter sexo. Enfim, aquelas tretas que os médicos debitam e não cumprem por saberem que deixariam de ser humanos caso o fizessem.

Se bem que, deixar de ser humano depois da tampa de ontem era muito tentador. Também quem é que ia adivinhar que a tipa com ar de santinha afinal era uma interesseira que só queria uma porcaria de emprego de secretária na fabriqueta nos arrabaldes da cidade? Nem era muito bem paga…

«A taxa de desemprego voltou a subir. A Comissão Europeia recomenda…»

Bem, esta tipa da rádio anda a ler-me os pensamentos! E os bacanos da Comissão se mandassem em vez de recomendar, as coisas estariam melhor. Como diz o X, esse grande intelectualóide de esquerda punhos de renda, era importar políticos! Assim como assim, já importamos tudo e não nos importamos nada…

Ai a filha da mãe da jeitosa que estancou no amarelo! Será que esta gente não tem pressa de chegar ao trabalho? Não deve ir trabalhar… A avaliar pela bomba que tem nas mãos, deve ser dessas dondocas que só levam os pirralhos ao colégio…

Isso, agora espana por aí fora…

Fazia então bem à saúde comer vegetais. Era útil, pelo menos a quem desejasse viver mais uns anos. E valeria a pena? O aquecimento global, o degelo, o efeito de estufa e essas coisas todas que os ambientalistas agora erguem como bandeiras e que até dão prémios a ex-presidentes do maior poluidor mundial, tornariam útil a vida neste planeta? E útil era o quê, afinal? Que jeito lhe dava ter estado mais atento às aulas da stôra de Filosofia do secundário, em vez de espreitar pelo decote da Y, com um belo par de matéria-prima pronta a sair daquele top musculado que agrilhoava aquelas hormonas prontas a encontrar abrigo no seu acne borbulhoso. Hum, que imagem linda…

Desligou a ficha e ligou à terra onde não se pensava em nada, mas simplesmente se acompanhava a mudança de velocidades com uma carregadela na embraiagem do citadino barato que lhe servia de lata e que comprara em suaves prestações mensais a uma TAED estupidamente elevada com o dinheiro que a avó (que Deus a tenha em eterno descanso) lhe havia deixado em boa hora às portas da morte. Esta de a morte ter portas faz dela uma espécie de casa, talvez mesmo com janelas, móveis, biblots, carpetes, cortinados, portiers. Quem morará nessa casa? O Diabo? O Diabo e os Santos em alegre convívio? Sorrira levemente, erguendo o lábio superior daquela maneira sexy que usava como arma de arremesso sempre que conhecia uma miúda nova. Mas não queria desenvolver a ideia da morte, de uma casa e de um eventual paralelismo sórdido entre o fim da vida e bairros pobres ou chiques. Deixaria isso para quem, àquela mesma hora, estaticamente na China, estaria a ter a mesmíssima ideia, só que em outra língua, ou melhor, em outro idioma que se projectava em ondas sonoras que ecoavam na caixa craniana pois, ao que consta e ele se apercebesse, o seu pensamento ainda não fazia barulho.

Entrara no edifício, designação demasiado simpática para um casebre em madeira e tijolos já velhos que albergavam dois recém-licenciados que estavam para descobrir aquela fórmula que faria do algodão importado uma espécie de seda mais barata e que lhe daria a tal vantagem competitiva. Pelo menos assim gostava de pensar ao vê-los embrenhados em pipetas e tubos de ensaio. Mesmo que tal não acontecesse, os miúdos ficavam baratos com os programas governamentais que existiam, reforçados em véspera de eleições. Benditas manifestações soberanas do poder do Povo escolher livremente, em sufrágio directo e universal, os seus lídimos representantes na casa comum da Democracia!

Que belo discurso! A minha mãe sempre disse que eu estava bem era na política…

Fábula do país adormecido

Era uma vez um país muito antigo que, em «depressão major», chegou a uma encruzilhada. Como em vários locais de (in)decisão, duas placas indicando a «Terra do Faz-de-Conta» e a «Terra da Realidade».

A decisão afigurava-se grave: ia-se (sobre)vivendo em estado pré-comatoso (comatoso?) induzido pela pletora arcaica de achaques e arrebiques de passados lautos engalanados com candeeiros de fuste e chiques camas de dossel, tudo seduzindo para um mundo rosa de riqueza mantida à custa de balões de oxigénio contaminado, chamados «bancos», propagandeando regaladas férias ao sol, princesas e príncipes perfeitos, cidades de chocolates e galáxias de brinquedos.

Escolher a realidade implicaria optar pela bruxa má e pelos monstros feiosos que obrigavam os meninos a despender energias em projectos concretizados à medida das migalhas de bolachas que se tinha no bolso. O terror maior era, porém, dar razão à irritante formiga trabalhadora e aforradora, bem como queimar em lume inquisitorial inapagável o papel de figurante do tal país em que se podia ostentar uma superioridade ociosa escondida sob um mando de inferioridade coitadinha de fado inelutável, mesmo que esse papel amiúde terminasse com oiro, pimenta e cravinho transformados em incómodas complicações gástricas.

Estava o dito país de Inês posto em desassossego quando soaram incómodos barulhos de exércitos de esfomeados, estropiados e demais classes malcheirosas. Anunciavam uma crise social profunda, uma perda de identidade e de espírito gregário de um povo partilhando, até ali, língua, cultura (?) e etnia similares, tidas por poção mágica contra qualquer mal.

Estremeceu o país e quem carregava o leme, ansiando por um milagre ao jeito de umas pequenas crianças em aldeia perdida nas serranias. À falta de intervenção divina, por ali passou um mocho escolástico debitando teorias e análises multifactoriais, por horas discursando. Embevecido, o país deu vivas e ordenou a construção de um estádio com o nome do mocho. Todavia, logo perscrutou que nada mudara por duas razões: estava sobretudo acostumado ao imobilismo e soavam mais fortes as rocas dos bandos urrantes.

De novo atando as mãos à cabeça, pejorando contra divindades e amaldiçoando bolorentas bonomias seculares, o vento de Leste trouxe uma chita magra e simpática que, após amena cavaqueira, engoliu o tal país e, engordada, seguiu em frente, por uma terceira via dita progressista, humanista e sensível a profundos sentimentos sociais.

E assim, no interior da barriga da ágil chita, limitando-se a escolher o melhor lado onde estender o travesseiro, o tal país viveu feliz para sempre.


quinta-feira, fevereiro 28, 2008

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Early Night Post (39)

Gustave Coubert, A falésia de Étretat depois da tormenta
"- (...) Sabe a história do homem a quem perguntaram por que andava ao longo da praia, depois de uma tempestade, devolvendo à água as estrelas do mar que a corrente arrastara para terra quando havia milhares delas que deviam morrer? Ele respondeu que o fazia porque as poucas que podia salvar voltariam para o mar e seriam felizes.
- Até à próxima tempestade, não era o que ia dizer, (...)?
- Não, mas talvez o pensasse. E interessa-me o facto de você estar a pensar do mesmo modo.
- Quer dizer que estou a pensar de modo mais realista (...)?
- Quero, sim, é isso mesmo. Mas já lhe disse muitas vezes que tem muito mais estrelas nos olhos do que lhe conviria para seu próprio bem."
Doris Lessing, O Sonho mais doce, Editorial presença, 2007, p. 292.

domingo, fevereiro 24, 2008

Juno

Com as sensações produzidas pelo filme "Juno" ainda por amortecer e com as suas singelas músicas a ecoar nos ouvidos - portanto, sem espaço (nem tempo, já agora!) para as palavras do merecido post que ele deverá suscitar - deixo aqui a canção "All I want is You" de Barry Louis Polisar do genérico.

"If I was a flower growing wild and free /All I'd want is you to be my sweet honey bee/ And if I was a tree growing tall and greeen/ All I'd want is you to shade me and be my leaves(...) All I want is you, will you be my bride/ Take me by the hand and stand by my side/ All I want is you, will you stay with me? Hold me in your arms and sway me like the sea. If you were a river in the mountains tall,The rumble of your water would be my call. If you were the winter, I know I'd be the snowJust as long as you were with me, let the cold winds blow (...) If you were a wink, I'd be a nodIf you were a seed, well I'd be a pod.If you were the floor, I'd wanna be the rug. And if you were a kiss, I know I'd be a hug. (...) If you were the wood, I'd be the fire.If you were the love, I'd be the desire. If you were a castle, I'd be your moat,And if you were an ocean, I'd learn to float.All I want is you, will you be my brideTake me by the hand and stand by my side All I want is you, will you stay with me? Hold me in your arms and sway me like the sea.(...)"

E já agora, porque toda a banda sonora é especial (e hesitei muito quanto ao que aqui devia postar), fica, também, a tocante "Anyone else but you" cantada pela protagonista Ellen Page (que bela interpretação!) e pelo actor Michael Cera: http://www.youtube.com/watch?v=nBDbUVXXp-U

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Porto de Vista Esclarecida (XXIII)

O filipelamas acertou! Parabéns!
Tratava-se, de facto, de uma fotografia do tecto de um átrio junto à entrada principal da Faculdade de Letras da Universidade do Porto!
A razão de ter escolhido esse pormenor foi precisamente a oposição entre a sua branca sobriedade e o policromatismo do edifício, em particular do seu exterior. Tentei, dessa forma - mas em vão - dificultar o desafio.
Não apreciando a estética do projecto arquitectónico em questão – e de que não consegui identificar o autor, por falta de tempo –, julgo que inconveniente maior é a falta de funcionalidade do edifício e a quantidade de "espaço" perdido na estrutura labiríntica.

Berlim: Uma Cidade, Dois Olhares




Ainda a propósito da exposição Berlim: Uma Cidade, Dois Olhares, aqui fica a correcção de que a mesma estará patente até ao dia 1/3/2008 e, para vos tentar ainda mais, deixo algumas das fotografias expostas, agradecendo ao Nuno Lago a sua disponibilização.

sábado, fevereiro 16, 2008

There Will Be Blood


É mesmo verdade que é excelente não termos todos os mesmos gostos, mas uma tão grande diferença já começa a preocupar…

There Will Be Blood (realização de Paul Thomas Anderson, 2007) está apontado como grande candidato ao Óscar de melhor filme e de melhor actor principal, entre outras categorias. Quanto a mim, imerecidamente.

O argumento é sofrível (do realizador, baseado no romance Oil, de Upton Sinclair); contar-se-ia num instante, sem necessidade de tantos minutos. É exacto que a representação de Daniel Day-Lewis é muito boa, contudo não a caracterizaria como surpreendente ou sublime, atenta uma certa homogeneidade de conteúdo e de expressões que podiam bem ser mais diversificadas tendo em conta a personagem construída. Ficou-me a impressão de que mais tempo de interiorização de um lunático explorador de poços de petróleo (Daniel Plainview) não teria sido prejudicial.

A fotografia não desmerece e a banda sonora tem o dom de criar momentos de «suspense», embora irrite aqui e além.

Mensagens de sempre: ganância, glória, a conquista do Oeste e a podridão que o vil metal pode infundir, os sentimentos cruzados, a religião como máscara de charlatanice, o aproveitamento do homem pelo homem…

Enfim, para tanta publicidade exigia-se, em meu entender, mais sumo (ou mais sangue…).

Sítio oficial: http://www.paramountvantage.com/blood/

New Beginning

A antecipar mais um recomeço de algumas actividades, aqui fica o New Beginning da inigualável Tracy Chapman, faixa incluída no CD homónimo, de 1995.



Em particular, retenho esta parte da letra:

We need to make new symbols

Make new signs
Make a new language
With these well define the world

É um belo desafio!

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

It`s all right

"It`s all right" dos promissores Marlango.

"There is choreography in traffic jams/ A weird poetry in people walking by / There is music in the streets / And harmony in machines / There's every thing I need to do / A little dance for me
(...)
And tigers also stop at traffic lights/ Tigers know their game/ But we are all so busy/ Thinking people look at us/ We miss the miracle in their eyes ..."

Porto de Vista (XXIII)

Exposição fotografia: Berlim - Nuno Lago e Luís Reina


Berlim: Uma Cidade, Dois Olhares

Espaço Moda e Arte Ana Santos
Rua Álvaro Castelões, 172 (junto ao mercado de Matosinhos e à ponte móvel de Leça)
2.ª a 6.ª das 10-13 h e 15-19,30 h
Sábados 10-13 h
De 9/2/2008 a 1/3/2008

Nuno Lago e Luís Reina convidam-nos para uma sensação única de desfrutar de um espaço bem decorado e com peças de vestuário pouco comuns à qual estes dois fotógrafos juntam diferentes mas complementares olhares sobre a bela cidade de Berlim.

Resultado de um desafio proposto por Luís Reina, já com algumas exposições no curriculum, a Nuno Lago, o resultado salda-se por um muito bem passado tempo em volta de recordações de uma cidade que teima em não fazer esquecer a longa noite nacional-socialista através de memoriais tocantes em locais emblemáticos como aquele em que os judeus eram empurrados para comboios do terror a caminho da morte mais cruel que homem algum já pôde desenhar para um seu semelhante.

Cidade de contrastes, também lá temos as belas e elegantes avenidas, os edifícios paradoxais, alimentados pela sanha persecutória e pela novidade de um Estado que se afirma na vanguarda dos direitos fundamentais.

Tudo isto com jogo de luzes e de texturas muito interessantes. Na verdade, digno de registo é que os autores imprimiram as fotografias directamente em PVC, técnica muito inusual entre nós.

Apenas a ideia de aliar a moda à fotografia, bem como a outras formas de arte, uma vez que o local exibe exposições ao longo de todo o ano (pintura, joalharia…), a que junta música e promete novidades para 2008, são motivos de sobra para que aconselhemos uma visita a este espaço único!

Na falta de uma foto dos autores (têm de passar por lá!), aqui fica uma da base de dados…

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Mares, Céus e Almas


«Outros Mares e Outros Céus, a Mesma Alma» (no prelo, Coimbra Editora) é a “última aula” de Jorge de Figueiredo Dias. Uma das peças de retórica mais belas e densas que já tive a oportunidade de ler, fazendo justiça ao autor, Manuel da Costa Andrade e ao homenageado.

Desfiando o percurso deste «caput scholae» por entre veredas da mais fina poesia de Horácio e Virgílio, embelezado por densas sínteses da obra do Mestre, vale mesmo a pena ler esta aula que, de tão inolvidável nos atira para a metáfora da amendoeira do profeta Jeremias que, perante uma Jerusalém sitiada e triste, proclama as flores de Inverno, invocando a protecção divina para o Professor. Oxalá!

Duas palavrinhas


Justiça: «Não a [Justiça] que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo.»

Globalização: «(…) se não interviermos a tempo, isto é, já, o rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização económica.»

José Saramago, «Este mundo da injustiça globalizada», Fórum Económico Mundial, 18/3/2002.

Porto de vista Esclarecida (XXII)

E como já vem sendo hábito, o Duarte acertou no último "Porto de Vista"!
A fotografia retratava uma das estátuas que encimam a imponente Igreja da Lapa construída entre 1755 e 1863.
Sem tempo para pesquisar, apenas deixo aqui a referência a três pormenores mais salientes..
O coração de D. Pedro - que aqui assistia à missa dominical durante o cerco do Porto - encontra-se, na capela-mor, num cofre tumular feito de granito retirado das fortificações construídas para resistir à investida miguelista.
No interior da Igreja, ampla e de uma só nave, destaca-se um órgão romântico alemão.
No cemitério contíguo estão depositados os restos mortais do escritor Camilo Castelo Branco.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Borla da semana (I)

Num tempo em que ninguém dá nada a ninguém, propomo-nos trazer-vos coisas "grates". Verdadeiro serviço público pelo qual nos candidatamos ao Nobel (parece que se lê "Nóbel"...) qual tipo indiano que descobriu (?) o micro-crédito.

Eis, pois, a bem da cultura, que o governo brasileiro (não podia ser o português...) disponibiliza, em livre acesso, música clássica e obras intemporais como "A divina comédia", "Romeu e Julieta", "MacBeth", "Dom Quixote", "Cândido" e tantos outros génios da literatura.

É só aceder em

http://www.dominiopublico.gov.br

Boas músicas e boas leituras a custo zero!

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Nos 400 anos de Vieira


"Para falar ao vento bastam palavras; para falar ao coração são necessárias obras."

Um excelente mote para a vida que não é só uma verdade cristã, mas uma premência do ser humano se relacionar com os outros, não somente como parte de uma ética com ou sem qualquer fundo religioso, mas sobretudo como necessidade (mesmo egoísta) de nos irmos a todos suportando. E que doce pode ser esse suportar. É curioso, há palavras pesadas como esta: «suportar». Contudo, dita em som melodioso ela transforma-se em pluma. Mais: se nos lembrarmos que «suportar» também é estar próximo, sustentar outrem de quem se gosta, então a palavra recobre-se de tons mais alegres. Sim, as palavras (como as obras) são o que delas quisermos fazer.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Jorge Ribeiro de Faria

Partiu como viveu. Sereno, sem alaridos (não apreciava protagonismos estéreis), anunciando o que estava a acontecer com a verdade a que os mais próximos estavam habituados. Gostaria de crer que no momento decisivo acenou ao futuro com o sorriso dos que sabem que estiveram presentes sempre que era essencial, defendendo a Liberdade que tanto amava, os Valores Universais que a todos nos ensinou e aquela reflexividade impeditiva de atitudes precipitadas. Talvez não tenha sido, porém, um sorriso, mas um leve esboço de lábios que se descolam, pois o medo faz parte do Homem, e sempre se orgulhou em sê-lo. Assim: em cumes e baixios, em planícies e terrenos acidentados de orografia exposta de quem comandou gente de carne e osso em colónia penal, nas salas do poder, na Academia que tantas vezes o surpreendia por não resistir (podê-lo-á fazer?) a manter-se o último bastião da decência, da honestidade e da humildade.

Imagino-o agora a conversar com as suas árvores, em amena cavaqueira com as suas folhas, em elevadíssimos diálogos teóricos e práticos com as suas flores, terminando essa jornada de trabalho gostoso com aquela forma peculiar de sorrir, aquele cofiar de cabelo puxado para trás, em prova plena de fronte sempre levantada, nunca em tom porfiador, mas em oferenda pacata de transparência. Sim, por trás dos óculos que punha e tirava, os olhos pequenos brilhavam quando pedia licença para passar (nunca pisar) pelo primeiro e pelo último degrau de uma escada convencionalmente chamada «sociedade».

Sem saber, ajudou-me muito. Saí do seu gabinete com pesos de consciência, com penas leves de felicidade, com gestos concretos de alento. Só nunca saí do espaço que fazia o favor de comigo partilhar igual ao que havia entrado.

Onde vou (vamos) agora encontrar isto?

A morte é vivida com o egoísmo da ausência para quem fica e com o altruísmo dos que partem, dizendo a quem os queria tanto que agora o palco é só deles. Possamos todos quantos o amamos – sim, no presente –, ao menos, não fechar a porta a ninguém.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Life is a miracle

Bubamara em vésperas do concerto de Emir Kusturica e da No Smoking Orchestra.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Dicionário Alternativo

Depois de lautos banquetes e faustosas visitas de Estado, Sua Excelência Sereníssima O Senhor Marquis do Reino do Forno volta a ordenar-nos que coloquemos o seguinte desafio ao vasto auditório, sobre este vetusto termo dessa mui nobre língua, o Fornense:
Zubaida.
Alguém arrisca?

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Porto de Vista (XXII)

Early Night Posts (38)

"- Daniel, não podes contar a ninguém o que vais ver hoje. (...) Bem vindo ao Cemitério dos Livros Esquecidos, Daniel. (..) Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce torna-se forte. (...) Neste lugar os livros de que já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar um dia às mãos de um novo leitor, de um novo espírito. Na loja nós vendemo-los e compramo-los, mas na realidade os livros não têm dono. Cada livro que aqui vês foi o melhor amigo de alguém. Agora só nos têm a nós, Daniel, achas que vais poder guardar este segredo?
(...) Daí a pouco, assaltou-me a ideia de que atrás da capa de um daqueles livros se abria um universo infinito por explorar (...).
(...) Um segredo vale o que valem aqueles de quem temos de guardá-lo."
Carlos Ruiz Zafón, A sombra do vento, pp. 13 -15 e 21.

Portugal de Vista Esclarecida (VIII)


O último desafio do Portugal de Vista era, reconhecidamente, muito difícil! Trata-se de um pormenor da Sala dos Actos da Universidade de Évora.
A fotografia foi-me enviada por Baudolino, a quem aproveito para agradecer.
Deixo uma foto de uma das praças mais conhecidas da belíssima cidade de Évora: a praça do Giraldo.

Porto de Vista Esclarecida (XXI)

Tardou, mas chegou a resposta, sob a forma de fotografia, ao último Porto de Vista.
Tratava-se, de facto, d "A Pérola do Bolhão".
Parabéns ao Duarte!

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Comptine D'un Autre Été

"Comptine D'un Autre Été" composta por Yann Tiersen e integrada na banda sonora de "Le fabuleux destin d’Amélie Poulain".

Early Night Post (37)


"- Estavam a tocar a Sonata de Kreutzer, de Beethoven. Conhece o primeiro presto? Conhece? – exclamou – Ooh! ... Esta sonata é uma coisa terrível. Precisamente esta parte. E a música em geral. (...) O que é a música? O que é que ela nos faz? E por que é que faz o que faz? Dizem que a música provoca um efeito sublime na alma ... Mentira, absurdo! Provoca um efeito, um efeito terrível (estou a falar de mim), mas não sublime. (...). A música faz-me esquecer de mim próprio, da minha verdadeira situação, transporta-me para outro espaço qualquer que não é o meu: a música parece que me faz sentir o que na verdade não sinto, que me faz compreender o que não compreendo, parece que, com a música, posso fazer o que na verdade não posso (...)"

Lev Tolstói, A sonata de Kreutzer, p. 90.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

ZOOMático

Em tons de branco natalício (Dezembro 2007)

Morning Yearning

Morning Yearning de Ben Harper.

sábado, janeiro 05, 2008

Casetas raianas

Ao Ti Manel, com a gratidão pelo abraço fraterno com que a todos nos acolheu.

Guardas as casetas da raia,
passas a salto gente sedenta
d’espaço, de mente, de novidade.
Salpicas a noite de tiros cavos,
cuspidos por armas foscas de
tiranias subtis que de podres
caem das cadeiras.

Cuidado! Ali atrás!
Sim, na mata!
Ei-la, a jovem matriarca de
seis irmãos escanzelados
está a passar-te a perna!
Não olhes muito!
Dizem que é feiticeira;
que das florestas dos olhos
florescem demónios sensuais!

Olhaste?
Já passou… ela e os esmiuçados da fome…
Vá, esconde o contrabando
de Português Suave antes que
de Lisboa venham o cartão e os bufos!

F.L.

domingo, dezembro 23, 2007

Snoopy's Christmas

Snoopy's Christmas dos The Royal Guardsmen
"Christmas bells those Christmas bells/ Ringing through the land /Bringing peace to all the world /And good will to man."

Do meu e-mail (IX) + Inspiring Quote(11) ou Os meus votos de Boas Festas com um excelente mote para o Novo Ano de 2008

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.”
Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Early Night Post (36)

A árvore da Vida - Gustav Klimt

"Reflectiu profundamente, como se se deixasse mergulhar até ao fundo dessa sensação, até ao local onde repousam as causas, pois reconhecer as causas, assim lhe parecia, é realmente pensar, e somente assim as sensações se transformam em conhecimento e não se perdem, ganham vida e começam a irradiar aquilo que contêm".

Siddhartha, Herman Hesse, Casa das Letras, 2005, p. 45

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Desafio: 5 filmes - 5 bandas sonoras

Quando vi o desafio que o joe me lançou – indicar o nome de 5 filmes marcantes pela sua banda sonora – julguei-o demasiado difícil. Sendo melómana confessa, sou uma melómana por devoção e não por ilustração.
A minha primeira reacção foi a de pensar nos meus filmes favoritos ou em filmes recentes de que gostei, procurando ver se tinham um acompanhamento musical de eleição. (Qual a banda sonora de "A vida dos outros", "Babel", ...).
Depois recordei-me de passagens de filmes em que a música era fundamental: a cena de um Al Pacino na pele de Coronel Frank Slade a ensinar a dançar o tango ou uma ária das "Bodas de Figaro" de Mozart a ecoar pela prisão nos "Condenados de Shawshank", ...
Mas a verdade é que rapidamente me lembrei de um punhado de filmes que satisfaziam os critérios. E até são filmes de que gosto muito - alguns deles cabem no grupo dos meus favoritos. Aqui vão eles:


"The namesake" de Mira Nair com banda sonora de Nitin Sawhney "Frida" de Julie Taymor em cuja banda sonora pontificam Lila Downs, Chavela Vargas e Caetano Veloso. "Life is a miracle" de Emir Kusturica, mas também podia ser "Black cat, white cat". "The Golden Door" de Emanuele Crialese com muitas músicas de Nina Simone (destaca-se o "Sinnerman" final)
Virgens Suicidas com música dos "Air", mas também podia ser o Lost in translation (também dos Air, entre outros) ou o Marie Antoinette, todos da Sofia Coppola.
Ficam de fora muitos outros como "A minha vida sem mim" de Isabel Coixet com música de Alfonso Vilallonga e dos Alpha ou do Gino Paoli entre outros; "O Carteiro de Pablo Neruda" de Michael Radford com música de Luis Enríquez Bacalov; "Lições de Felicidade" - no original "Odette Toulemonde - com músicas de Josephine Baker e Nicola Piovani; "Magnolia" de Paul Thomas Anderson com músicas de Aimee Mann ...
E descobri que - para surpresa minha - tenho imensas Bandas Sonoras!

Lanço o mesmo desafio ao Carlos Manta de Oliveira, ao GBN, ao Domingonomundo, ao Baudolino e à Joaninha.

Curtas sobre metragens - Young Adam


Young Adam
Realização: David Mackenzie
Argumento: baseado no romance homónimo de Alexander Trocchi (1957); David Mackenzie
Elenco: Ewan McGregor, Tilda Swinton, Peter Mullan.
EUA, 2003.

Young Adam apresenta-se como um “thriller” intenso e erótico.
Quando li este “leit motiv” fiquei simultaneamente curioso e receoso de que fosse um “barrete”. Felizmente assim não foi.
Joe Taylor (Ewan McGregor, em trabalho excelente) é um misterioso jovem, algures na década de 50 do século anterior, cujo passado vamos conhecendo por recurso a analepses e prolepses, entre Glasgow e Edimburgo, apresentando-se como alguém em busca de um destino, demasiado medroso para compromissos e sempre pronto a mudar de poiso e de cama. Aquela que mais o cativou cai acidentalmente à água de um rio no decurso de uma zanga entre ambos. Tal como em “Paranoid Park”, também aqui Joe decide calar o sucedido e o acaso fá-lo descobrir, juntamente com o seu companheiro Les Gault (entretanto traído por Joe), o corpo da bela rapariga que, na verdade, foi aquela que mais se aproximou de uma vida em conjunto que Joe tanto esconjurava.
Sucessivos empregos e sucessivas traições a maridos pouco felizes no casamento fazem de Young Adam uma história de despeito, de planos eróticos bem conseguidos, embora um tanto vulgares. A intensidade dramática é bem doseada e o fundo do rio vai descrevendo a vida do protagonista, servindo de cemitério a objectos de que Joe se vai descartando, como o faz com as pessoas e, de modo reflexo consigo próprio. Tal como a água do rio que acompanha a narrativa em presença notada mas nunca fastidiosa, para o que muito ajuda a boa banda sonora.
O consagrado realizador David Mackenzie mantém uma estrutura narrativa baseada em sentimentos nada complexos, em triângulos amorosos não demasiado intensos, quase pintando numa maneira impressionista. Porventura a sua contenção é compensada pelos bons planos que consegue.


Fica o trailler:

sábado, dezembro 15, 2007

Obrigado, sempre!


Meus muito queridos Amigos,

O fim de tarde de ontem, no Clube Literário do Porto, com o lançamento do meu pequeno livro de poemas "Breviário" foi, para mim, um dos dias mais inesquecíveis da minha vida.
Obrigado, do fundo da minha alma, a todos os que estiveram fisicamente presentes e àqueles que, de longe, permaneceram no meu espírito.
Sois, todos vós, pedaços de mim.
Para quem estiver interessado, ficaram exemplares para venda no Clube Literário do Porto (R. Nova da Alfândega, 22, Porto, frente ao parque de estacionamento da Alfândega).

Um forte abraço do

André (Filipe Lamas) Leite

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Latin Jazz Thrill

"Latin Jazz Thrill" é o nome da primeira obra do promissor Samuel Quinto Trio, um trio de jazz latino de rara qualidade.
Depois de ter assistido com muito agrado a algumas actuações no B-flat, no Hot five e no Servartes, aguardava com curiosidade o lançamento do seu primeiro trabalho – que já estava a tardar.
Na passada quarta-feira, na Fnac do Gaiashopping, foi possível saborear um pouquinho do som do trio que tocou algumas das canções que integram "Latin Jazz Thrill".
Começaram com a refrescante "Água de beber" de Tom Jobin. Passaram pela electrizante "Armando`s rhumba" de Chick Corea e pelo contagiante forró "Asa branca/Qui nem jiló" de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Apresentaram um "Summertime" de George Gershwin vestido de guajira cubana e – uma das minhas favoritas – o Spain de Chick Corea renascido fantasticamente na sonoridade de um samba. Terminaram com "Sandália de Prata (Isto aqui, o que é?)" de Ary Barroso.
O trio, composto pelo exímio pianista Samuel Quinto - que dá nome ao trio e é responsável pelos arranjos musicais – pelo arrebatado Gil Batera na bateria e pelo expressivo Edamir Costa no baixo eléctrico, está, sem dúvida de parabéns.
Depois de uma passagem pelas lojas FNAC, vão fazer o lançamento oficial do cd, amanhã, dia 15 de Dezembro, Hot Five às 23h30. A não perder!

terça-feira, dezembro 11, 2007

Poeta Filipe Lamas lança BREVIÁRIO

É grande gosto e subida honra que anunciamos o lançamento do livro de poemas BREVIÁRIO do treteiro Filipe Lamas, que ocorrerá na próxima sexta-feira, dia 14, pelas 18h30m, no Clube Literário do Porto. A apresentação estará a cargo do Professor Doutor Cândido da Agra.
O Poeta já prometeu que daria autógrafos...
Apareçam!!

By
RTP e Rocky

The Great Escape

The Great Escape de Patrick Watson...

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Algum candidato?

Curtas sobre Metragens: Paranoid Park






Paranoid Park

Argumento e realização: Gus Van Sant (baseado na novela Paranoid Park, de Blake Nelson)
Elenco: Gabe Nevins, Dan Liu, Jake Miller, Taylor Momsen.
Sítios oficiais:

http://www.paranoidpark.co.uk/ e http://www.paranoidpark-lefilm.com/
França/EUA, 2007

Gus Van Sant tem-nos habituado a entrar em mundos mais ou menos desconhecidos do grande público, conjugando temáticas gastas com um olhar penetrante e quase ingénuo sobre realidades que preferíamos, tantas vezes, esconder debaixo do tapete.
No seu mais recente filme, o realizador aborda a comunidade skater, os dramas de um adolescente de 16 anos filho de pais em processo de divórcio, a queda de valores sociais, a relativização do valor da vida e, sobretudo, as consequências que uma decisão pode ter no nosso quotidiano.
Alex, miúdo quase normativo, comete um crime e decide não revelá-lo a ninguém. Escreve sim uma carta, que no final queima, a Macy, amiga acidental. A história desenrola-se em analepses quase constantes, porventura de uso exagerado. As técnicas de desfocagem são amiúde usadas e o início da película quase nos transporta para o Blairwitch Project, tamanha é a movimentação da câmara. Felizmente as coisas estabilizam e as tensões da personagem principal desenrolam-se em tom apropriado, triste, mas acima de tudo sério.
Se tivesse de destacar uma frase do filme, a mesma seria da excelente banda sonora que mistura sons tão variados como clássica, punk, rock, rap e country. Deste último estilo, a frase: die like a man.
Alex está a tentar entrar no mundo dos adultos. Fá-lo da forma mais complexa: pelo desafio às normas, pelo ocultar de algo que provoca fortíssima dor interna mas que, na perspectiva do adolescente, o tornará independente.
As filmagens decorrem, em boa medida, no mais conhecido parque de skaters de Portland, Oregon, EUA, também conhecido por Punk Park (nome oficial, O’Bryant Square). Assinale-se alguma perda de intensidade a meio do filme, o que o torna de alguma forma monótono.
Porventura o prémio obtido por Paranoid Park no 60.º aniversário de Cannes deve-se mais à qualidade da novela homónima de Blake Nelson do que à magia de Van Sant, bem melhor em outras películas.