
Aviso: Este é o 7.º capítulo de uma novela da vida moderna escrita, para já, a 4 mãos (de futuro, esperamos que a 6) entre mim e a rtp.
O dia acordara chuvoso. O céu ameaçava com um cinzento típico da cidade granítica em que habitava.
Mário levantou-se com a cabeça a latejar do que se passara de véspera e com a sensação de que cometera um dos mais graves erros da sua vida. Depois de um banho retemperador, com a toalha branca em volta de um tronco que já conhecera maior firmeza muscular, assomou-se à janela do apartamento que comprara em resultado da promoção e que dava para as traseiras da Casa da Música. Enfim, pareceu-lhe que aquele pedaço de estrutura ia paulatinamente ganhando raízes naquela zona e se esforçava por condizer com o meio circundante.
Também ele tinha de fazer o mesmo. Aqueceu uma chávena de café feito de véspera e agarrou o telemóvel. Deu com uma chamada não atendida de véspera cujo número desconhecia. Apesar da hora madrugadora, devolveu a chamada.
-Sim, sou Mário Fontes e tinha no telemóvel uma chamada desse número…
-Quem? – respondeu uma voz ensonada – Não sei quem é…
-Sim, mas a senhora terá um nome, por certo… – atirava Mário com o mau-feitio com que por vezes acordava.
-Margarida… – respondera a medo, arrependendo-se de imediato de revelar a sua identidade e cobrindo-se ainda mais com o lençol.
-Margarida … – Mário percorria a sua agenda pessoal memorizada . – De uma vespa… azul?
-Ah, você é que deixou um bilhetinho… É preciso ter lata…
Mário precisava de tudo menos de uma descompostura. Preparado para ser bruto, saiu-lhe:
-Sim, desculpe. Foi um atrevimento da minha parte… Mas a noite passada foi mesmo difícil, como lhe dizia. Olhe, deixe-me melhorar a imagem que deixei…
Margarida levantou-se da cama e o seu coração entrou num ritmo descompassado que a enervava.
-Bem… Isto não é nada normal.
-Sim, tem razão… Mas acredite que a normalidade cansa. Posso convidá-la para um almoço. Há um sítio muito simpático em que podíamos conversar. Nesta aldeia que é o Porto, por certo ainda temos amigos ou interesses profissionais em comum…
-Hoje é difícil…
-Não entre por aí… Margarida, certo? Pelo que vi ontem já é suficientemente crescidinha para tentar esses jogos… - ripostou Mário com uma raiva incontrolada.
Sem contar, a interlocutora sentia-se, agora ela, descomposta pela professora da primária que tão más recordações lhe trazia.
-Sim, Mário, não é? Não sei como é a sua vida, mas eu tenho um horário de trabalho… Se quiser, apareça em frente ao Meridien às 13 em ponto.
-Lá estarei. E, Margarida, não se deixe impressionar pelas aparências…
Ela desligou de imediato o telefone, sentindo os ecos da noite passada.
Bernardo dirigia-se para a “Tempo” cantarolando Armstrong. Sim, o mundo era maravilhoso. Margarida não resistira aos seus encantos depois de tantas investidas. Olhou de soslaio uma loira no carro ao lado e piscou-lhe o olho. Recebeu um olhar de indiferença em troca e lembrou-se que o Don Juan já não se usava.
Chegado à revista onde exercia funções de director de publicidade, a notícia atingira-o como um raio: Madalena fora demitida. Um sururu imenso arrasava a redacção. Especulava-se sobre os acontecimentos da véspera. Alguém sugeria que o presidente do conselho de administração se cansara dela e dos constantes prejuízos que a revista dava. Mais cáustico, um outro colaborador já classificava Madalena como “antiguidade” a ponto de ser trocada pelo Dr. Gustavo.
Apesar da alegria mal disfarçada da redacção, Bernardo temia pela sua posição. Fora a influência da agora “pecadora proscrita” que o conduzira àquele emprego.
Ligou a Madalena. Voltou a fazê-lo. Nada. Apenas o som cavo dos toques e a voz melodicamente irritante da moça do “voice mail”. Onde raio estaria Madalena.
Na sua casa na Foz, Madalena contemplava, por entre os olhos rasos de lágrimas, a fotografia de Mário. Recebera a notícia do seu afastamento há cerca de uma hora, acordando-a de um sono estranhamente tranquilo.
A besta do Gonçalo tratara-a como a uma criada. Começava a sentir na pele o que fizera a Mário. Somente a réstia de orgulho a impedia de lhe ligar. Desejava permanecer imóvel, em roupão, no sofá de sua casa até ao fim dos tempos.












A entrega do Anel do Pescador a 































