terça-feira, outubro 17, 2006

ZOOMático


Pôr-do-sol (I)
Saudades do Verão

domingo, outubro 15, 2006

Pintado de Fresco (VI)

Aviso: Este é o 6.º capítulo de uma novela da vida moderna escrita a 4 mãos, entre mim e o filipelamas.

Amilcar enterrou no bolso roto das calças o post-it amarelo, depois de o revirar e dobrar em dois. Sem intenção de fazer de cupido, descobriu-lhe, de imediato, outras utilidades.
Encaixou-se no vão de uma porta, aconchegando-se ao granito gasto pelo seu corpo e que lhe servia de cama. Aqueles 20 euros eram uma grande ajuda. Mas ainda não dera a noite por terminada. Queria mais umas moedinhas e, se possível, umas notas inesperadas como aquela. Inquieto, beliscado pela sua dependência, manteve-se atento ao respirar da praça. Afagou a nota encolhida nas suas mãos sujas, secas e sulcadas. Emocionou-se com a perspectiva de ser útil pela primeira vez desde que vivia na rua. Sabia que segurava os fios que sustentavam os sonhos de gente limpa e bem-cheirosa. O sucesso daquelas pessoas mordia-o com violência. Lembrou-se de quando levava recados às clientes de sua mãe ...
Calou o vício que lhe gritava por dentro e esperou, embalado pelo barulho da música do restaurante vizinho.
A festa parecia animada. Muita música, um estrépito repetido de gargalhadas.
Apenas o vislumbre do passado, no beijo fugidio de há pouco, azulara o espírito de Margarida, criando uma surpreendente combinação com a sua indumentária. Esforçava-se com sacrifício por empurrar da memória o peso dos primeiros e únicos meses de casada. Como pudera enganar-se tanto? Ou a vida enganara-os a eles? Conhecera Rodrigo na Faculdade de Letras. Ambos estudantes. Ali se apaixonaram, ali cresceram num abraço de cumplicidades convertido solenemente em aliança. A perda do filho tão desejado, pouco tempo depois do casamento, tumultuou-lhes a existência. Enegreceu-lhes os desejos. Acinzentou-lhes os sonhos. Toldou-lhes o horizonte.
Rodrigo ruíra sob o peso da realidade. Perdera o emprego, entregara-se ao álcool e a outras substâncias. Recusara a sua mão amiga. Fora isso que jamais lhe perdoara. Não lhe permitira cumprir os votos tão ledamente assumidos. Para a saúde e para a doença, para a fortuna e para a desventura.
Nunca mais o vira desde que haviam assinado um montinho de papeis que mãos alheias lhe entregaram como sinal do fim do seu amor.
Onde estaria o Rodrigo? Perguntou-se novamente, silenciando o insulto. O arrependimento reprovava-lhe o epíteto de há pouco. Não, não era um estupor. Era um farrapo de vida.
Ela também se arrastara numa existência lusco-fuscada durante um par de meses. Fugira para Roma. Depois de um exílio de ano e meio, voltara amanhecida. Novinha como uma folha de papel reciclado. De vez em quando, ainda era atingida por estes aguaceiros de recordação. Eram frios, fortes, mas fugazes. Cada vez mais espaçados.
Para empurrar este que viera agora importuná-la, desenlaçou-se do doce abraço de Bernardo. Num acto temerário afoitou-se no karaoke. Percorreu o dossier de folhas plastificadas. A escolha era difícil. Optou pelo "Lado lunar" de Rui Veloso. "Não me mostres o teu lado feliz/ A luz do teu rosto quando sorris/ Faz-me crer que tudo em ti é risonho/ Como se viesses do fundo de um sonho"
Nem reparou no sucesso da sua actuação. Olhava com enlevo para o Bernardo e só via o seu sorriso luminoso.
Todos se uniram no refrão, que soou a hino de encerramento da festa.
As vozes líquidas espalharam-se pela noite que parecia imóvel. As janelas do Palácio ainda iluminadas. A praça adormecida. A vespa abandonada.
- Não te esqueças. Quando te quiseres desfazer desta preciosidade, diz. – estridentava Xana com os restos de baton fugidio
O barulho belisou Amilcar no seu sono. Primeiro só viu sombras. Aproximou-se e lá estava a vespa no meio do magote de pessoas e a seu lado a loira no vestido turquesa apertadinho como uma luva nova a estrear. Não teve dúvidas. Era ela a destinatária da mensagem.
- Toma lá! É para ti. E uma moedinha, faz favor. O gajo tem muita guita. O carro era uma bomba ... ele não tinha unhas para aquilo... Então, a moedinha?
- Pega lá e vai-te embora – despediu-o o Luís, com uma moeda de 50 cêntimos.
- Só isto pelo arranjinho?! – resmoneou Amilcar enquanto corria em perseguição de dois convidados da festa do palácio que lhe prometiam uma melhor colheita.
- Oh, Xana. Sempre a fazer estragos! – atirou-lhe Margarida.
- Oui, c`est moi. Deve ser o presidente da Vince ... Cruzei-me com ele há pouco. Deixou a porta do elevador fechar-se na minha cara. Nada cavalheiro...
Olhou para o post-it. Os últimos números haviam saído a custo com uma tinta desbotada.
- Uhm... o Dr. Gustavo cansou-se da Madalena?
- Aquela mulher cansa qualquer um – ripostou Luís.
As cabeças voltaram-se todas para ele.
- Não que o saiba por experiência própria... Diz-se ...
- Bem, isso tem de ser averiguado, noutra altura... que se faz tarde.
Por entre beijos e abraços o grupo foi-se despegando.
Na boleia até ao parque da Alfândega, Margarida ziguezagueou propositadamente por entre os trilhos do eléctrico. Bernardo enroscou-se mais, num abraço de segurança.
- Então, gostaste do passeio? – brincou Margarida, enquanto via a lua a bailar no soalho encerado do rio.
- Dentro do género. Uma espécie de desporto radical!
- Radical? Estás muito mal habituado, flor de estufa. - e pousou o olhar num barco rabelo que baloiçava exausto na outra margem do Douro.
- Flor de estufa, eu? Dá-me uma oportunidade. Deixa-me mostrar o meu lado lunar.
Sem esperar resposta enfiou-lhe uma pulseira verde no pulso. Leu Dj Good Vibes na discoteca Vogue. No dia seguinte.
- E é desta forma que pensas fazê-lo? ... uhm... bem, vou ter de descobrir roupa que combine com esta fluorescência!
Margarida arrancou com o sorriso de Bernardo estampado na retina.

Mário dormia um sono intermitente. As horas escorriam lentas.
O percurso pacificara-o. Também pudera. Quase galgara o passeio! O susto obrigara-o a acalmar. Ao entrar em casa, o silêncio e a escuridão terminaram a tarefa. Foi invadido por um torpor.
Deitou-se, evitando a censura do espelho.
O telemóvel, que jazia entre a "Criação do Mundo" e o cinzeiro, remexeu-se várias vezes. Afónico arquivou na sua memória mais uma chamada perdida.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Teatro: "Biblioteca Infernal" - Biblioteca da FDUP

Grupo de Teatro da FDUP Direitoàcena.
O "cenário" da Biblioteca da FDUP Prof. Doutor Jorge Ribeiro de Faria será utilizado pelo Grupo de Teatro da FDUP Direitoàcena, para apresentação de uma adaptação do texto "Biblioteca Infernal" do sérvio Zoran Zivkovic, nos próximos dias 23, 24 e 25 de Outubro.
Bilhetes à venda a partir de 17 deOutubro, na FDUP.


Quem não comparecer pode bem contar com uns chamuscos do Inferno!!!!

quinta-feira, outubro 12, 2006

Tisanas

Realidade invertida *


Tisanas? Nunca tinha ouvido falar!
Li três e fiquei muito agradada.
Sim, não são para beber - ou talvez sejam, em pequenos tragos para saborear todas as nuances do seu paladar. São pequenos textos escritos por Ana Hatherly . Não se deixam classificar através das categorias tradicionais. A autora (poeta, romancista, ensaísta e tradutora, para além de ser professora universitária), com uma obra vasta e diversificada, escreve desde 1956, estas infusões líricas em que desconstroi a realidade para a voltar a recriar. À primeira vista não parecem fazer muito sentido, mas depois de digeridos abrem-se numa vastidão de significância.
Aqui ficam duas Tisanas (dizem-me que não são as melhores – fiquei com vontade de ler mais).

"Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come. " (Ana Hatherly, Tisana 61)

"Os românticos diziam que a morte é o desaparecimento do outro porque na verdade como é que eu posso conhecer o desaparecimento de mim. Penso nisto e olho para o telefone. Penso em ti. O que é que não se tornou um lugar-comum." (Ana Hatherly, Tisana 106)
* NL, procurei aplicar, nesta foto, a a técnica ensinada no iníicio do ano. Aguardo a crítica severa (até já antecipo parte)

Homenagem a um Blog amigo (I)

Luís de Freitas Branco


Nascia a 12/10/1890 um dos grandes vultos do Impressionismo na música clássica portuguesa. Tendo contactado com Débussy, Luís de Freitas Branco introduz-nos no Modernismo e cria no nosso País um gosto sinfónico. Não esquece grandes nomes da nossa literatura como Quental e Camões e publica a História Popular da Música, em 1943. Um compositor capaz de ombrear com os seus contemporâneos estrangeiros que nunca renegou as suas origens. Se apenas por isso fosse, já merecia a nossa homenagem.

Emoções

Nas linhas da tua mão me perco.
Nas feições do teu rosto me encontro.
O dedilhar de emoções no
Solene abraço em que contemplamos o sol
É penhor do enredo
Em que sonho e acordo.
Belisca-me.
O teu olhar penetrante de avelã pintado
É desafio hercúleo que espero merecer.
O cheiro catalogado em escrínio de memória
Desperta a visão sem ver, o tacto sem tocar.
Do clarão da vida nasceste.
À certeza de hoje volveste.

F.L.

quarta-feira, outubro 11, 2006

ZOOMático

Redemoinho nebuloso

Filosofia da treta (I)

Pormenor de A Criação de Adão, Miguel Ângelo, c. 1511, Capela Sistina, Cidade do Vaticano.

A dimensão de Deus é facto alheio ao entendimento humano. Não que isto signifique um divórcio entre a razão e a fé, a ciência e a religião. Muito pelo contrário, a dialéctica é a única via para enfrentar os desafios fracturantes com que vamos convivendo. A ideia de Deus faz o Homem aspirar ao Absoluto sem, todavia, com este se confundir. Absolutizar a aspiração da vida é ultrapassar limites de finitude de sentimentos que nos impedem de aceder ao que realmente importa, mesmo que tal não signifique qualquer perspectiva altruística. Posso ser o mais egoísta e realizar a felicidade dos outros desde que esteja empenhado em construir a minha própria. Se assim é, o egoísmo, entendido no sentido de legítima aspiração ao bem-estar, deve ser incentivado.
Contra uma certa corrente da generosidadezinha e do caritatismo pseudo-cristão, uma moderada – note-se – lógica hedonista pode bem temperar acessos que perturbam a racionalidade do diálogo humano. Deste modo, complexos de culpa e quejandas psicopatologias são aptas a transformar-se em fontes de prazer em estar com os outros numa perspectiva de serviço a si mesmo que, por reflexo, se transmuta em serviço ao alienus. Ponto é que esse outro não seja encarado como portador de uma capitis deminutio. Se o for, nem o indivíduo egoísta encontra um interlocutor capaz de satisfazer os seus instintos mais intra-centrados, nem esse interlocutor tem, pelo menos, a doce (e falsa) sensação de estar a ser alvo de atenção. De objecto necessário ao egoísta e de simulacro de pessoa na auto-concepção desse outro, passa a objecto inútil e desinteressante para o primeiro e a objecto com consciência de si para o outro. E assim nasce um diálogo de surdos condenado ao insucesso.
Ao contrário do que prima facie se julgaria, a paridade é condição essencial para a dialogia. A supra e infra-ordenação só no curto prazo tornam os seres felizes.

terça-feira, outubro 10, 2006

Curtas sobre metragens

Uma Verdade Inconveniente
Título original: An Inconvenient Truth
De: Davis Guggenheim
Género: Documentário
M/16 EUA, 2006, Cores, 100 min.

Estava a adiar o cumprimento deste dever – o de falar de "An Inconvenient Truth", um documentário que aborda a problemática do aquecimento global do planeta.
Nele, o antigo vice-presidente dos EUA, Al Gore, apresenta-se à frente das câmaras para fazer uma palestra semelhante às que vinha realizando, nos últimos anos, em vários pontos do mundo.
O filme tem o mérito indesmentível de alertar para um problema que toca a todos e cujas consequências, em larga medida, permanecem desconhecidas – ainda que as previsões se apresentem muito negativas.
O tom jocoso de algumas passagens suaviza a aridez da exposição, onde abundam informações técnicas e gráficos ilustrativos. As várias referências a episódios da vida de Al Gore (o da morte da irmã com cancro dos pulmões e que provocou um terramoto na família que, até então, se havia dedicado à produção de tabaco; o do acidente com um dos filhos que o levou a repensar o valor da vida e a importância de contribuir para a construção de um mundo melhor para legar às gerações vindouras; etc.) dão uma densidade humana ao palestrante e procuram explicar o imperativo categórico que parece (assim procura convencer-nos, pelo menos) movê-lo. Com estes dois ingredientes, o documentário é mais facilmente digerível por um público mais vasto.
Perpassa, no entanto, em todo o filme uma confessada postura anti-bush que lhe comunica um sabor a propaganda e lhe retira alguma seriedade. Apesar das críticas ao presidente americano, na minha opinião, nunca se afigurarem excessivas – em geral, e em particular no que concerne a esta problemática com a não assunção das obrigações plasmadas no Protocolo de Quioto – o protagonismo assumido por elas no contexto do documentário revela-se desproporcionado.
No fim, é lançado aos espectadores o repto de contribuírem para uma mudança de mentalidade. São sugeridas várias acções realizáveis à escala individual. Uma delas é falar do filme a outras pessoas. Decidi fazer a minha parte. Publiquei este post.

domingo, outubro 08, 2006

Regresso ao passado (take #3)


Um preto de cabeleira loira ou um branco de carapinha… Saudades do restaurador Olex. Não o usava eu, mas era presença constante na barbearia do meu avô. Ele próprio o utilizava e a minha avó queixava-se das almofadas pintadas de preto. O meu avô, imperturbável, dizia-me: -Disto é que os clientes gostam! Vai à tua avó que traga mais um frasco de Olex que este está a acabar.
E lá trazia. Pelo meio vinham mais umas toalhas acabadas de secar nas traseiras, nas cordas do quintal, por entre hortaliça que era o regalo e o domínio absoluto da minha avó Aurora.
Produtos como este não deviam acabar. Também eu, um dia, dele precisarei e já por cá não anda quem mo aplique ou quem mo chegue, com um afago no cabelo.

Saramago Nobel



Há oito anos atrás, José Saramago inclinava-se perante o Rei da Suécia para receber o Prémio Nobel da Literatura. Portugal - e não Espanha, como por vezes se vocifera - passava a contar, depois de Egas Moniz, com mais um laureado. Goste-se ou não - e eu pessoalmente gosto muito -, Saramago é um escritor de entre os primeiros. Já as suas posições políticas e cívicas deixam, na minha opinião, muito a desejar. Se tem palavras acutilantes e que todos precisamos de ouvir, não pode Saramago querer tornar-se uma espécie de «reserva moral» quando apoiou (será que ainda apoia?) um ditador como Castro. Fidel ou Raul. Gunther Grass é um exemplo paradigmático da «décalage» entre a palavra e a acção.
ZOOMático



Graffitti azulejar nas paredes do metro de Lisboa ou um bom mote para começar a semana

Pérolas e pontapés (I)



Num autocarro em Lisboa assisti, in loco, a uma pérola da nossa língua.

Um casal muito simpático, aí dos seus 17-18 anos, comentava:

-Olha, nunca sei se se diz «eu caibo» ou «eu cabo».

-Sim, não é fácil. «Eu cabo» soa mal, mas também não existe o verbo «caiber»... - replicou ele com ar professoral.

A primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo «caber» agradece.

sábado, outubro 07, 2006

Parabéns envergonhados

Faz hoje 54 anos. Ele é Vladimir Vladimirovitch Putin.
A Federação Russa merecia melhor do que este ex-líder do KGB.
E o mundo também. Longe de mim defender um retorno a uma qualquer
«guerra fria», mas é essencial uma Rússia forte para a manutenção
dos equilíbrios indispensáveis com os EUA.
Um poleiro necessita de pelo menos dois galos. E Putin, apesar da
aparência, é mais do tipo garnizé...

Mozart e Lopes-Graça no São Carlos



Ao fim dos anos e das horas é um ciclo de música em homenagem a Lopes-Graça, Mozart e Shostakovitch. Começou ontem no São Carlos, na capital e por lá estive.
O teatro merece uma visita, em especial para contemplar o camarote real.
A Orquestra Sinfónica Portuguesa (OSP), sob a direcção de Yaniv Dinur, começou por interpretar Die Maurerfreude e Eine kleine freimaurer-Kantate, ambas de Mozart. O barítono Luís Rodrigues esteve genial, com profissionalismo e alma. Só com profissionalismo, o tenor Mário João Alves. Boa execução da OSP, sob uma direcção algo imatura, mas com muito pulso sobre a orquestra, o que é algo de paradoxal se atentarmos na jovem idade do maestro.
A segunda parte foi preenchida com Dom Duardos e Flérida, de Lopes-Graça. A peça é demasiado longa e chega mesmo à monotonia. Valeu a magnífica interpretação do Coro do Teatro Nacional de São Carlos, que conseguiu encher a sala de um doce embalar e de um enlevo só com alguma comparação na voz inigualável do narrador Luís Miguel Cintra. Nota muito negativa para a fraquíssima qualidade do castelhano da contralto Maria Luísa Freitas. Com tão poucas falas podia ter treinado a língua. É certo que estávamos em Lisboa, mas Lopes-Graça escreveu em castelhano.
Registei a ligação quase «política» entre Mozart e Lopes-Graça. Afinal, os extremos sempre se atraem…

Na Casa da Música, no dia 31/10, a não perder, pela mesma orquestra e coro, Mozart (Sinfonia n.º 38, K. 504 «Praga») e Lopes-Graça (Requiem pelas vítimas do fascismo em Portugal).

quarta-feira, outubro 04, 2006

Vento

Candido Portinari, Despejados, 1934.

Parto com a lembrança do lugar em que me fiz gente. As rugas, as mãos gastas pelo árduo trabalho do campo. As ruas empedradas em direcção ao pelourinho centro de angústias, de romarias, de funestos murmúrios. A carreira velha que une aquele pedaço de idílio ao resto do mundo-cão sobe já a custo a estrada íngreme em que a Rosário há boas décadas pôs termo a uma existência errante. As copas das árvores cochicham sobre os motivos da minha partida. Quero ver mundo, mesmo que seja para descobrir que não há mundo para além daquele microcosmo em que me enlevo todas as manhãs desde que nasci. Visto o fato de fazenda que a madrinha me deu pela Páscoa e que me serviu para acolitar o padre que por cá aparece duas vezes ao ano. A mala puída que meu pai comprou com a última cabeça de gado que lhe restava transporta pouco mais que umas calças e umas camisas andrajosas. No meio deste espectáculo de mau gosto, a Bíblia. Dentro dela as pratas de um chocolate que comi uma vez em que os tios de França vieram ver o avô que morria. Sim, é o meu avô. Está ali sentado à porta da venda e acena-me encorajadoramente. –Sempre foste o meu herói! Deste a volta a esta enxovia! –Vai, não olhes para trás! Olha que o vento sul está a levantar-se e o cheiro a terra que ele traz é força invencível para o que parte. – Sim, avô. Virei buscar-te!

Há Música na Casa

Sendo pouco atreito a dias de isto e dias daquilo, considero, no entanto, que festejar a música é festejar a vida. Assim, no passado dia 1/10, em boa companhia, assisti a um concerto de bom nível na agora chamada «Sala Suggia». Com a particularidade de os bilhetes serem grátis e de ter estado na fila desde manhã cedo, em pleno domingo… Quem corre por gosto…
Fiquei deveras satisfeito com a verificação – de que já suspeitava – que a música clássica não é para um conjunto (mínimo) de seres míopes, feios, desinteressantes, com dificuldade de relacionamento humano e que vivem em entropia num mundo de sinfonias, cantatas e árias. A sala tinha gente de todas as idades e de todos os quadrantes da sociedade. Foi, nesta acepção, um dia da música verdadeiramente democrático.
A Orquestra Nacional do Porto (ONP) interpretou «Uma pequena serenata nocturna. KV 525» (1787), de Mozart. Fico sempre com a sensação – como alguém de forma lapidar disse no final – que a ONP não tem (ainda) «unhas» para Mozart… O «Concerto para três pianos e orquestra, KV 242» (1776), do mesmo compositor, teve em António Rosado o seu mais lúcido intérprete. Com a surpresa de o maestro titular da ONP –Marc Tardue – ter também ele assegurado um dos pianos, num esforço meritório e com alguma «qualidade cénica» - resultava bem vê-lo levantar-se volta e meia para dirigir a orquestra e marcar os tempos de entrada.
Na segunda parte, Shostakovich e a «Suite for variety orchestra – “Jazz suite n.º 2”» deram um tom festivo e que me transportou para aquilo que imagino terem sido reuniões magnas do Comité Central do PC da ex-URSS. Qual Praesidium, tudo acabou com o público a cantar juntamente com a ONP, numa iniciativa de interactividade que registei. Marc Tardue marcou uns pontos. Não tanto pela execução – mediana, diria e com um programa muito colado à moda dos 250 anos do nascimento de Mozart e 100 anos do nascimento de Shostakovich –, mas pela alegria que conseguiu transmitir a um concerto tido normalmente por «seca profunda».
Para quem tinha ido, na noite anterior, assistir a um grupo todo modernaço que me deixou com os (poucos) cabelos em pé, foi uma melhoria considerável!
Ir à Casa da Música está a tornar-se um vício gostoso na minha vida. Quando lá estou com Amigos, o gosto é ainda maior.

terça-feira, outubro 03, 2006

Early Night Posts (8)



"Começo daqui a pouco, costumava pensar e permitia que os dias passassem por mim, daqui a pouco, daqui a nada, amanhã será diferente, amanhã acordo e o dia nasceu extraordinariamente azul, (...).
Começo onde me esqueci de começar, se for possível, começo no princípio de tudo, no princípio do tempo em que nem tempo havia e juro-te, pai, que vou fazer tudo para absorver bem os minutos, por beber todos os segundos, começar onde me esqueci de começar, (...).
Daqui a nada o dia começará a clarear, abrirá os braços longos sobre as sombras e expulsará a noite, daqui a nada fecharei a janela, a madrugada despertará em mim o frio que ainda não sinto, ..."
Rodrigo Guedes de Carvalho, Daqui a nada, Dom Quixote, 2005, pp. 133, 134 e 147.

domingo, outubro 01, 2006

ZOOMático no Dia Mundial da Música (1. Outubro.2006)


Balada de Coimbra em pleno Tiergarten

Em dia de homenagem à música fui recuperar uma fotografia tirada no dia de Páscoa, no maior parque natural da capital alemã.
Ali, em pleno coração verde de Berlim, a meio da manhã, fui surpreendida por uma melodia conhecida (A balada de Coimbra), no timbre do maior carrilhão da Europa.

Pintado de fresco (V)

Aviso: Este é o 5.º episódio de uma novela da vida moderna escrita a quatro mãos entre mim e a rtp.
Bernardo estava especado a olhar para Margarida. Um sorriso nervoso fugia-lhe por entre os lábios. Na casa dos 25, loiro, de olhos azuis, encorpado, era um Adónis dos tempos modernos. De fato escuro, gravata vermelha, com gel no cabelo e de olhar terno, pensava agora para consigo que só Margarida conseguia que as suas mãos gelassem perante a ideia de a encontrar.
-Olá, Bernardo! Por aqui? Tens a certeza de que não te enganaste na festa? Olha que aqui não há caviar…
-Típico comentário… Vá, deixa-te disso! A festa da Tempo está uma daquelas secas… Ah! Tirando a parte em que a minha chefe deu um estaladão na cara de um armante qualquer com quem ela andou metido…
-Sempre a cortar na casaca… Ora aí está o Bernardo da escola secundária…
Depois de alguma conversa e de uns quantos copos de tinto bem bebidos, Margarida deu-se conta de que estava nos braços daquele que sempre fora um apaixonado por si. No momento em que os lábios de ambos se tocaram, múltiplas interrogações assolaram a jornalista. Decerto arrepender-se-ia de sucumbir agora aos encantos de um filhinho da mamã rico, exactamente o oposto de Rodrigo, o pai do filho que perdera a meio de uma gravidez tumultuosa, há quase dois anos.
«Sim, onde estaria aquele estupor do Rodrigo?», pensava Margarida enquanto se agarrava cada vez mais a Bernardo.

Mário acabara por entrar no seu bólide. Estava de rastos. Madalena fizera-o relembrar o quanto sofrera naqueles quatro meses em que partilhara a sua casa com aquela mulher. Amava-a como nunca amara, mas não perdoava traições. Quando descobriu Madalena enrolada com o presidente do conselho de administração da consultora em que ele próprio trabalhara, decidiu não perdoar. Expulsou-a de casa e afrontou o traidor. Como forma de comprar o silêncio, o presidente arranjara-lhe uma promoção.
-Um par de cornos vale uma promoção… – dizia Mário em voz baixa, enquanto duas grossas lágrimas rolavam pela face em direcção ao queixo, terminando o seu percurso na aba do smoking.
De repente, uma energia fulgurante acordara-o do torpor em que por vezes caía. Afinal, havia decidido naquela manhã não mais ter pena de si mesmo. Limpou as pistas do desespero e olhou para o lado. A vespa ainda se encontrava ali. A miúda que a conduzia tinha-o impressionado. Sempre gostara de mulheres joviais e com a alegria contagiante que aquela parecia ter.
Saiu do bólide, chamou o arrumador que entretanto estava a contar os trocos para a dose da noite e entregou-lhe um bilhete enrolado numa nota de 20.
-Entrega isto à dona desta vespa. Ouviste? Tens aqui dinheiro. Olha que é importante!
Meio envergonhado, Mário arrancou em grande velocidade, quase galgando um passeio cheio de estudantes trajados. Ouviu uns impropérios e começou a contar os copos de whisky que emborcara.
Amílcar – assim se chamava o arrumador – não resistiu a ler o escrito. «Desculpe a minha falta de educação. Foi uma noite complicada… Gostava de a conhecer. Sei que não é nada ortodoxo, mas deixo-lhe o meu telemóvel».
-Que tanso! Sai-me cada cromo… Eu é que meto prá veia... – balbuciou Amílcar através dos raros e podres dentes que exibia.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Pintado de fresco (IV)

Aviso: Este é o 4.º capítulo de uma novela da vida moderna escrita a 4 mãos, entre mim e o filipelamas.
Poucos se aperceberam do que realmente tinha ocorrido. Mas, treinados para farejar a notícia, os repórteres fotográficos accionam as suas máquinas, sem hesitação.
Madalena ofereceu-lhes um dos seus melhores sorrisos, ciente de que o tempo de reacção impedira uma foto em flagrante.
À falta de desenvolvimento, os convidados pegam, distraídos, nos fios das conversas deixadas em suspenso. A pouco e pouco, os círculos de convívio retomam a forma interrompida. O rumorejar sobe de volume.
Percebendo que evitara os estragos que o seu acto irreflectido poderia ter causado, Madalena volta-se para Mário, disparando-lhe com um ar glacial:
- Já fizeste o teu número. Vai-te embora. Não me estragues a festa. Esta fica por conta da …
Os acordes iniciais de um excerto de Scheherazade abafam o resto da frase.
Madalena afasta-se com uma andar meneado procurando esconder o sobressalto que a domina.
Mário, um tumulto por dentro, mas seráfico por fora, com a flute de champagne que um empregado nervoso, entretanto, lhe colocara nas mãos, cumpre competentemente a sessão de cumprimentos que aquele infeliz acontecimento quase perturbara. Quando dá por si, está no patamar exterior. De cada um dos lados, os últimos convidados esforçam-se por galgar apressadamente os lanços de escada, iluminados por pequenas velas azuis.
A noite já aterrara na cidade. Mas a lua cheia derrama um brilho prateado sobre a praça, quase deserta. Um grupo de jovens ruma alegremente à beira-rio. Do outro lado da rua, como que num outro mundo, o mundo sem fardas e smokings, um arrumador andrajoso descansa na soleira de uma porta. Um pouco acima, à boca de uma ladeira iluminada pelo reclame de um pitoresco restaurante, uma silhueta azul ciranda sem sentido. Mário sorri. Reconhece, na distância, a rapariga empertigada que numa tangente ao seu carro, estacionara a sua pequena vespa numa nesga entre dois carros.
- Cuidado! Olhe por onde anda! Não estamos em Itália! – ainda lhe gritara, depois de travar a fundo.
Como resposta recebera um grande sorriso da inesperada cinderela que, de um salto, já estava no passeio sem capacete e num vestido azul de alças que lhe denunciava as formas elegantes. Ficara desarmado quando ela rematara, com um piscar de olhos: “É vero! Desculpe”.
Distintamente aquele ponto azul era ela. Ainda pensara que fosse uma convidada da festa a que ia assistir. Assim o esperou. Via agora que em vão.
Margarida permanecia perto do local onde estacionara. Fora pontual, para variar. Esforçara-se, numa quase sonâmbula sucessão de acções, por vencer os ponteiros do relógio. Conseguira. E para quê? Ali estava aprumada, à espera dos outros membros da redacção. De qualquer modo, tinha de dar o exemplo, era a sua directora. Cantarolava o “Bang, Bang” de Nancy Sinatra, com que acordara e que não mais lhe saíra da cabeça – “Seasons came and change the time…”.
Felizmente, o cenário que tinha defronte dava-lhe distracção suficiente para ocupar o tempo. Era um rodopio a festa da revista “Tempo”. Uma revista de antiguidades com um orçamento milionário festejava o primeiro ano de vida com pompa e brilhantismo. A sua, com quase a mesma idade, sobrevivia a custo, contando os tostões para permanecer nas bancas. Podia estar do outro lado, na festa. Teria feito bem, quando recusara um lugar na redacção da "Tempo"? Preferira a liberdade de dirigir uma revista descomprometida. Confirmou o acerto da sua decisão à medida que iam chegando os 18 colaboradores que a acompanhavam, desde o início, naquele projecto e que, agora, sentia como seus amigos.
Enchiam o pequeno restaurante onde se encontravam depois do fecho de cada uma das 11 edições da revista. Não lhe agradava a perspectiva do karaoke prometido para o fim da noite. Fora ideia da Xana, seu braço direito. As garantias de que era muito divertido e que fomentava a confraternização não a haviam convencido. Mas como podia discordar de quem frequentava festas como hobby?
Meio-adormecida e deliciada com a amena cavaqueira familiar que a rodeava, lembrou-se do incidente do início da noite com o bólide metalizado. Recordou o atractivo yuppie que o conduzia e a surpresa que lhe ficara estampada no rosto. Sorriu por dentro. Tinha de ter mais cuidado. Já não estava em Roma.
Bang, Bang. Acordou pela segunda vez nesse dia, agora com um leve toque no braço e:
- Para ti. Uma rosa para ti, Margarida.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Pressa

Tenho pressa de chegar.
Onde? Não sei.
Acordei com pressa,
Depois de sono apressado em
Noite apressada e turbulenta.
Corro, corro.
Em busca de quê? De pequenos nadas.
Para quê? Colecciono-os.
Guardo-os numa caixa de cetim
Debaixo do leito de ilusões
Em que repouso.
Não é hora de repousar!
Corre! Foge!
Com tanta pressa
Esqueço-me da razão que me faz correr.
Porventura não existe.
Mas enquanto corro não penso.
E pensar faz sofrer.

F.L.

segunda-feira, setembro 25, 2006

ZOOMático
Com os pés bem assentes na terra

Porto-pedra


Porto, Abreu Pessegueiro.


Inspiro em sonho o cinzento do Porto.
Dos Guindais contemplo a ponte,
Com a Ribeira em baixo de tom absorto.
De imediato, a Serra do Pilar no topo do monte.
O rio dormente de caudal nervoso
Leva-me à Foz velha de ruas sinuosas.
Identifico casas de perfil pomposo
E becos e ilhas mirando duvidosas.
Enfim, o Bolhão, decrépito e gasto,
Com pregões de voz esganiçada,
Compõe o suave pasto
Em que em rebanhos há gente esperançada.

Porque gente é a seiva do Porto vivido;
Pensar o contrário é delírio assumido!

F.L.

domingo, setembro 24, 2006

Por outro lado

"Por Outro lado", na :2, Terça-feira, às 23h30, com Ana Sousa Dias é um oásis no panorama televisivo nacional. Ela sabe entrevistar. Lança as questões e deixa o entrevistado falar. Não o interrompe, mas também não o abandona. Acompanha o que é dito, deixando que o seja até ao final. E sabe ouvir. Só assim consegue retirar a seiva das respostas, fazendo nascer delas novas e oportunas questões. São deliciosas as suas conversas desfiadas.
Nesta semana, o convidado foi o professor e constitucionalista Gomes Canotilho. Falou sobre questões jurídicas. Debruçou-se sobre o Estado Social e os desafios que lhe são colocados. Emocionou-se com a evocação do seu irmão mais velho, já falecido, o advogado Mário Canotilho.
E, quase no final, garantiu que a tão esperada nova edição da Constituição, anotada em parceria com Vital Moreira, será publicada em breve.
A entrevista com o Prémio Pessoa de 2003 pode ser (re)vista na :2 na próxima terça, às 2 h 30 (só para noctívagos, portanto!).
PS 1 - O programa radiofónico da apresentadora é igualmente interessante. Na Antena 2, "Dias levantados", Domingos, às 13horas. Porque com ela, as palavras valem mais do que milhares de imagens.
PS 2 - O "Por outro lado" da próxima semana augura-se muito bom. O entrevistado é Fernando Savater, filósofo espanhol, professor de Ética, na Universidade do País Basco. É altura de conhecer o autor, depois de ter contactado com a obra.

Diário


Uma Visão do Passado, Eanger Irving Couse.
1913, Butler Institute of American Art , Youngstown, OH, USA.

Folhas amarelecidas pelo tempo
Que foi passando sem pressa,
Encontrei-te neste momento
E entabulei conversa.

-Que ridículo era nessa altura!
-Ridículo é apenas o que se não sente.
-Era de pessoa pouco madura…
-Não, uma outra forma de mente.

-O que será feito desta personagem?
-Trataste-a tão mal…
-Estava a meio da viagem…
-E ela nunca foi o teu sal…

Fechei-te, diário meu.
Olhar para trás não me é grato.
Porventura fujo à aritmética do meu e do teu,
Mas só assim vejo o meu retrato.

Passado passante passaste.
Ao colo comigo andaste.
F.L.

Curtas sobre Metragens


World Trade Center
EUA, 2006.
Realização: Oliver Stone.
Argumento: Andrea Berloff
Elenco: Nicolas Cage, Michael Peña, Maggie Gillenhall, Maria Bello.
Sítio oficial: www.wtcmovie.com


Cinco anos volvidos, é natural e desejável que o luto nunca completo do 11/9/2001 se transforme em momento de catarse. Mais ainda quando nenhum guionista de Hollywood alguma vez poderia imaginar enredo mais dramático e comovente do que aquele que a História real traria aos americanos e ao mundo.
É sob este pano de fundo e no campo tensional entre a vertente de documentário e a exaltação de valores pátrios que se insere a mais recente obra de Oliver Stone. Não sendo uma obra-prima, World Trade Center consegue, quase sempre, um equilíbrio entre os vectores assinalados.
Baseado na história de três sobreviventes e na sua luta pela vida debaixo dos escombros do que é hoje o Ground Zero, Jimeno (Michael Peña) e McLoughlin (Nicolas Cage) representam todos quantos naquela terça-feira deram o melhor de si pelos outros. O tom condenatório não transparece na maior parte do argumento, tirando uma sinistra personagem – marine que decide vir ajudar nas operações de salvamento – que encarna os EUA do nacionalismo bacoco e da explicação fácil de acontecimentos que, em abono da verdade, não têm justificação.
Fica-se tocado pelas imagens de Jimeno e McLoughlin a saírem das «sepulturas antecipadas» em que se encontravam, em interpretações medianas de Nicolas Cage e de Michael Peña.
Banda sonora com excelentes temas, realização atenta e profissional, porém sem rasgo e contida, porventura na medida em que Stone e Berloff acusaram a camisa-de-forças que os abraçava: um relato pungente e ideologicamente comprometido ou um mero documentário factual e, ao menos na aparência, imparcial e directo. Algures pelo meio ficou o World Trade Center.

quinta-feira, setembro 21, 2006

El Lamento de los muros ou o Murmúrio do Tempo

Chamava-me a exposição "El lamento de los Muros" da fotógrafa argentina Paula Luttriger, patente no Centro Português de Fotografia até dia 24 de Setembro. Vinte e cinco fotografias que testemunham episódios dolorosos da história da ditadura militar do General Videla (1976-1983). Fiquei tocada com os pequenos relatos (das vítimas de tal regime) que acompanham as imagens e só eles lhes emprestam alguma expressividade.


O que podia ter sido uma desilusão, acabou por não o ser. Aproveitei o ensejo para conhecer o interior de um dos edifícios emblemáticos do Porto, sentindo-me estrangeira na minha cidade. É, aliás, uma experiência – a de visitar monumentos que, fazendo parte da mobília urbana, só conheço por fora e a de olhar para o já conhecido com olhos de turista – a repetir.

A Cadeia (e Tribunal) da Relação merece uma visita. Não a tendo conhecido antes, não posso ajuizar da bondade do projecto de renovação da autoria de Souto Moura e Humberto Vieira (2000-2001). Fiquei, no entanto, satisfeita por ver que se encontra em bom estado (destoa do panorama imediatamente adjacente e do da próxima Praça Carlos Alberto, em parte, tão degrada) e que se adequa às funções que desempenha: casa do Centro Português de Fotografia e do Arquivo de Fotografia do Porto.
As várias "enxovias" albergam várias e singelas exposições. Numa sala pequenina ouve-se (vê-se) o "Murmúrio do Tempo" do edifício, encontrando-se aí a memória da gente com nome que lá se encontrou cativa.

quarta-feira, setembro 20, 2006

COOL-Xeia de Música

O retomar da parceria entre José Peixoto e Maria João gerou o CD "Pele", inteiramente gravado na cidade do Porto. O trabalho editado em Abril deste ano percorre os caminhos, sempre estimulantes, da World Music.
Nele brilha a guitarra tocada por aquele que já foi músico dos Madredeus e a voz camaleónica de Maria João. São onze canções que merecem ser ouvidas com atenção para saborear os poemas de Eugénia de Vasconcellos e, sobretudo, os de Tiago Torres da Silva (Não deixes o tempo para depois/ Não deixes o fado por desatar/ dentro do sol há milhões de outros sóis/ que dão à lua apenas um luar/ não deixes que as minhas mãos vazias procurem outras que não as tuas/ ...).
O resultado discográfico é interessante. Gostei em particular de "Que nome posso Ter", "Milhões de sois" e "Sei melhor". Parece-me, no entanto, que, pelo menos, ouvido de uma assentada, apresenta um registo um pouco monótono e tristonho.
Ganha mais brilho no palco. A pele torna-se outra, encorpada pela presença física dos músicos. Pude constatá-lo quando, em finais de Julho, na Casa da Música, assisti, na primeira fila à apresentação do CD. Aí, em boa companhia, senti-me transportada para um sem número de outras paragens, umas mediterrânicas, outras orientais, algumas tribais ... Maria João inventa sonoridades. A sua voz epidérmica, ora sussurra, ora se confunde com a percussão. E tudo faz sentir à flor da pele.
Agora que o Outono se aproxima sabe bem recordar esse concerto de Verão, para me despedir da pele morena com pingos de sol.

terça-feira, setembro 19, 2006

Pintado de fresco (III)

AVISO: Este é o 3.º capítulo de uma novela da vida moderna escrita a quatro mãos entre mim e a rtp. A minha mora quase se convertia em incumprimento definitivo. Espero que ainda mantenham o interesse objcetivo (e subjectivo) nesta prestação e que façam um update lendo os outros dois episódios que constam já dos arquivos do T&L.

Mário saía enfim de casa. O lusco-fusco daquele dia de Outono iluminava o seu carro topo de gama e dava um especial destaque ao smoking que comprara de véspera. O anterior estava fora de moda e a soirée por ocasião do primeiro aniversário da revista cujo nome lhe tinha passado por completo exigia especiais cuidados na indumentária. Estaria o presidente do conselho de administração da corretora em que trabalhava e, enquanto administrador com, de entre outras, a área das relações públicas, tinha de gramar festas do tipo.
Durante a viagem, a queimar os semáforos vermelhos, acordou para a realidade de ter de encarar Madalena. Desde que ela era directora da revista Tempo (afinal o nome aparecera-lhe com estranha clareza), as relações entre ambos haviam deixado aquele rame rame de um flirt que só lhe trouxera dores de cabeça. A mulher era danada! Inteligente, acutilante, adivinhava-lhe os pensamentos e desarmava-o de um certo charme que um trintão gosta de impor.
Aproximava-se agora do Palácio da Bolsa e entregava a chave a um daqueles moços simpáticos de gravata posta à pressa e que lhe faziam lembrar um galã de cinema dos anos 70 cruzado com um arrumador da modernidade.
-Vê lá se tens cuidado e não deixes que as tuas trombas falem por ti! – reflectia.
O ambiente era de luxo. Demasiado até para uma revista como aquela. Sorriu-se com malícia ao pensar que Madalena poderia estar a relacionar-se demasiado bem com o velho gordo e calvo que dirigia com pulso de ferro o grupo editorial em que a Tempo se integrava.
Cumprimentou uns quantos circunstantes e vislumbrou Madalena, de copo na mão, sorriso rasgado, vestido preto comprido colado ao corpo, de decote generoso e com a cabeleira negra que recordava das noites passadas a dois.
Apercebeu-se que ela o vira e que, de propósito, se enlaçara num abraço artificial com um fulano empertigado que conhecia de reuniões de negócios em Lisboa.
Por lhe dar especial gozo, dirigiu-se a Madalena como um verdadeiro profissional:
-Sra. Dra., em nome da Vince Consultants, endereço-lhe as mais vivas felicitações pelo sucesso que a Tempo tem registado ao longo deste ano!
Madalena estava incrédula e Mário sentia-se triunfante.
-Muito obrigada, Mário. Evite a formalidade falsa. Vai mal com o seu currículo.
Apesar da rapidez das frases, elas traziam um misto de surpresa, pouco à-vontade e daquela determinação que caracterizava Madalena.
-Sim, de facto o meu currículo é impressionante. Há uma ou outra mancha…
-Vícios ocultos, Dr. Mário?
-Encontros que nunca deviam ter acontecido. Mas deixemo-nos de conversa fiada. Não há champagne nesta festa, em especial para o representante de uma empresa que financia esse vosso pasquim?
Levada pelo instinto, em pleno Salão Árabe do Palácio da Bolsa, Madalena levou a fina mão atrás e só a viu parar na face angulosa de Mário. O som ecoava como um relâmpago. O ruído de fundo calara-se e as objectivas dos fotógrafos ofuscavam o rosto endurecido de mulher despeitada.

Curtas sobre Metragens

Havana, cidade perdida
Realização: Andy Garcia
Argumento: G. Cabrera Infante
Interpretações: Andy Garcia, Inés Sastre, Tomas Milian, Dustin Hoffman, Bill Murray
Classificacao: M/12
Duração: 143 m.

EUA, 2005



Através da história da família Fellove, Andy Garcia pretendeu fazer o (seu) retrato de um importante pedaço de história de uma cidade (Havana) e de um país (Cuba).
E fê-lo às claras. Logo no início do filme, assistimos, nos escritórios do fluorescente (e florescente) cabaret El Tropico, a uma reunião familiar da parte masculina do clã. Discutem o destino da família que se joga, também, na encruzilhada do destino de Cuba.
Estamos em 1958, numa Havana que mais do que uma "capital city", é sinónimo de "capital sin". Garcia pinta-a, num luminoso postal, como uma cidade divertida, despreocupada, onde se respira música e se vive inebriado ao ritmo da dança.
O paterfamilias Don Federico Fellove (Tomás Milián), especialista em Direito Constitucional, é professor universitário. Adepto do Zugzwang (táctica, no xadrez, que se traduz em manter a posição das peças, para não entibiar as possibilidades da vitória), acredita na força das palavras (invoca Séneca que sozinho derrotou Calígula e Nero), na construção ordeira de uma sociedade democrática e, portanto, na possibilidade de uma transição política pacífica. Não consegue, porém, convencer todos os seus filhos da bondade da sua tese.
Um deles, Luis (Nestor Carbonell) integra o Directório Revolucionário, rejeitando, ao mesmo tempo, o ideário dos guerrilheiros que se acantonam na Sierra Maestra (por ver neles, apenas, uns seguidores cegos do ideário fidelista, onde ele vislumbra autoritarismo em vez de pluralismo). Como Peligro, seu nome de código, luta pela liberdade e democracia, recorrendo à força das armas para derrubar Fulgêncio Baptista. Engrossa, depois, a extensa lista de vitimas da máquina de terror do ditador, que se limita a escolher se pretende que os inimigos sejam eliminados "com ou sem plumas". Luís perde, assim, a vida, mas ganha a aura de heroísmo, que mais tarde a sua viúva Aurora Fellove (Inês Sastre) pretende honrar e de que o regime castrista se vai, também, aproveitar (tornando-a viúva da revolução do ano)
Outro, Ricardo (Enrique Murciano), filho mais novo, junta-se a Che – bebe-lhe as palavras: "na insurreição (que é a luta armada), os fins (a revolução) justificam os meios - e a Fidel, alimentando assim a sua rebeldia de filho mimado de uma classe rica. Entra vitorioso, ao lados deles, em Havana, depois de Baptista ter abandonado o país na passagem para o ano de 1959. Mais tarde, é ele que, em nome do regime recém-instaurado, vai comunicar ao tio e padrinho Don Donoso Fellove (Richard Bradford), aquela que será a sentença de morte de ambos: a perda das terras que o latifundiário reservava, como herança, para o seu sobrinho. O primeiro morre do choque, o segundo não consegue sobreviver àquilo em que se tornara.
Por fim, outro, Fico Fellove (Andy Garcia), filho mais velho e dono do cabaret El Tropico, é um bon vivant, amante dos prazeres da vida e leal a todos os que lhe são próximos por sangue ou amizade. Para ele, a família vem sempre primeiro. Procura mantê-la, qual ilha, unida e ilesa, no mar revolto que a rodeia por todos os lados. O Tempo, no entanto, está contra ele!
A trama da historia é pontuada com imagens reais (só aí se vê o, então jovem, Fidel); é aligeirada com alguns apontamentos humorísticos (como o da proibição do instrumento capitalista que é o Saxofone, por ter sido inventado na Bélgica) e com as tiradas desconcertantes (algumas desconcertadas!) de um escritor sem nome (Bill Murray) que cai de pára-quedas no enredo.
O que dizer do filme? Podia concentrar-me na unidimensionalidade de muitas personagens, na linearidade do papel de Baptista, na inverosimilhança do mafioso interpretado por Dustin Hoffman. Podia considerar indesculpável a parcialidade da objectiva de Garcia, que, talvez influenciado pela sua própria história de exilado, olha apaixonadamente para História , tratando de modo diferente duas ditaduras Pinta com tintas muito mais escuras as atrocidades do regime castrista, envolvendo com um véu de nostalgia as do tempo de Baptista.
Não foi, no entanto, o que fiz. Deixei-me levar pela música (A banda sonora é cativante). Vivi o drama insular daquela família. Apreciei a fotografia - o cenário natural ajuda. Não desgostei de ver Andy Garcia na pele de galã (assenta-lhe bem, apesar de o ter preferido com a paleta de Modigliani). Saí, por isso, da sala de cinema agradada com o filme. São 143 minutos – podia/devia ser um pouco menos – de bom entretenimento.

segunda-feira, setembro 18, 2006

M.C.P.B. - Junta-te a nós!


Lanço daqui o apelo a todos os Portugueses de bom gosto para que se juntem a mim no M.C.P.B. - Movimento Contra a Peúga Branca! Vamos eliminar esta vergonha de pés de gesso em qualquer fato, jeans, calças de sarja ou bombazina. É certo que os alemães gostam delas, principalmente com a sandalocha, mas sempre desconfiei dessa malta... Pelo bom gosto, pela decência!
Seja esta uma causa nacional!

N.B.: Se não ler ou comentar este post, amanhã mesmo sentirá um pivete que tresanda a chulé de quinze dias! Veja lá se isto não é pior que as lengalengas do Professor Kibombo ou do curandeito do pau preto...

domingo, setembro 17, 2006

Infalibilidade papal?


Mostra-me o que Maomé trouxe de novo. Tu não encontras senão coisas diabólicas e desumanas, como a ordem para espalhar a fé através da espada.
Diálogo entre um imperador bizantino do séc. XIV e um erudito muçulmano persa.

Sabemos todos que a História tem demonstrado que as religiões têm sido amiúde usadas como arma de arremesso político, como longa manus do Estado, como justificação para o inexplicável e que as religiões têm, de idêntico modo, convivido e quantas vezes servido o poder temporal. Não é demais relembrar que houve Cruzadas, Inquisição, martírios em nome de diferentes crenças, não só em eras longínquas mas, de forma acutilante, no tempo que nos coube viver. Ninguém poderá, por isso, atirar a primeira pedra. Também me parece evidente não poder ignorar-se que, para além da dimensão espiritual, o Romano Pontífice é o Chefe de um Estado (exíguo, como o apelida a doutrina do direito internacional público) e, nessa qualidade, tem especiais responsabilidades de condução, digamos, de «política externa».
Sendo tudo isto exacto, não deixo de reconhecer que, não obstante Joseph Ratzinger ser um eminente teólogo, acusa o facto de ser «caloiro» na condução da dita «Igreja Universal». Ser a reserva dogmática de João Paulo II é bem diferente de encontrar-se agora sob as luzes de um mundo cada vez mais mediatizado e no qual infelicidades linguísticas têm impensadas repercussões. Daqui não se extraia – apesar de, muito particularmente, nele não acreditar enquanto católico – que as recentes afirmações de Bento XVI na Universidade de Regensburg são a prova da inexistência do dogma da infalibilidade papal. Tenho lido gente muito respeitável afirmá-lo, o que revela desconhecimento de que tal dogma só existe em questões de fé, manifestamente longe do caso concreto. Analisadas de modo distanciado as afirmações do Papa – e contextualizando-as na alocução que proferia, o que poucas vezes se faz no jornalismo que por aí campeia –, elas limitam-se a um truísmo para todas as religiões: nenhuma deve impor-se pela força e nenhuma delas deve ser causa de guerras e discórdias. Retorquiu já o Vaticano que se tratava de uma citação de um imperador da Idade Média e que tal não reflectia a posição de Bento XVI e da Igreja Católica. Para mim, esse não é o ponto crucial.
O que me preocupa é que, reconhecendo embora que um Chefe de Estado deve ter cuidado com as citações que escolhe, de modo particular numa fase da História em que o choque Ocidente/Oriente está tão acirrado, a liberdade de expressão acabe por se tornar numa miragem.
Ao fim e ao cabo, todos estamos rendidos ao «politicamente correcto». Assim o exige a necessidade de ganharmos o pão-nosso de cada dia. Mas que diabo, uma citação de outrem não estará a ser usada como forma de os países de maioria muçulmana encontrarem agora mais uma justificação para um ódio ao Ocidente que, diga-se também, mal se esforça por compreendê-los? Temo bem que sim e que Ratzinger esteja a servir de marioneta involuntária no xadrez político internacional. Só assim se explica que se queimem bonecos representando o Papa e que, mesmo após a contextualização das afirmações, se exija um pedido de desculpas formal e em pessoa.
Ensinam os Evangelhos que devemos dar a outra face a quem nos ofende. Lembro-me de, em miúdo, ter tido uma discussão monumental com o padre da minha paróquia sobre esta parábola e, ainda hoje – por certo como mau católico – admito ter muitas dificuldades em colocá-la em prática. Principalmente quando, se tivesse sido alguma autoridade religiosa muçulmana a referir-se a uma controversa citação sobre o Cristianismo, estou seguro de que o mundo católico reagiria de modo diverso.
A vida de Papa não é fácil, mesmo para quem tem a experiência da Cúria de Ratzinger. Com toda a imodéstia do conselho: seja puro como as pombas e prudente como as serpentes.

quinta-feira, setembro 14, 2006

ZOOMático

Pausa (para a fotografia)

quarta-feira, setembro 13, 2006

Chove


Joseph Mallord William Turner. Rain, Steam and Speed. 1844
The National Gallery , London


Chove na minha rua.
O tom cinzento do céu emoldura os contornos das casas
De uma cor de prata
Reflectida na água envergonhada que cai.
A ondulação de uma palmeira
Traz-me a lembrança do sol
Que partiu, que fez as malas
E rumou ao encontro de outros cheiros.
A pele já me devolve a frescura ansiada,
A roupa regozija-se pela sua utilidade acrescida.
Recosto-me na cadeira,
Contemplo estes caracteres escritos
Contra virtual página branca.
Rio-me desta mania de descrever sentimentos
Que porventura nem a mim interessam.
Sinto a paz dedilhada em cada tecla
E anseio, numa calma esperançosa,
Aquecer uma vida que está morna,
À espera de uma torrente que a tome.

F.L.

terça-feira, setembro 12, 2006

Verde, Verde, Verde


E o blog tinha que fazer a sua primeira incursão no futebol, depois da brilhante prestação da equipa do S.C.P. perante a equipa do Inter de Milão.
Os jovens leões (Nani, Miguel Veloso – que grande jogador! -, Yannick, Moutinho, ...) desorientaram as estrelas da grande equipa transalpina (Aquela entrada do Patrick Vieira foi muito feia!). E conseguiram traduzir a superioridade em campo em superioridade no marcador, com um grande golo do Caneira.
Esta metade do blog que tem coração de leoa regozija-se com o resultado e endereça votos de igual êxito para o FCP e, já agora, para o SLB!

segunda-feira, setembro 11, 2006

Post Scriptum

Da acção ficcional de Fortaleza Digital, passei à realidade jornalística de "À Procura de Sana", última obra de Richard Zimler, autor que muito aprecio. Conheci-o através da história da família judia Zarco numa Lisboa quinhentista que assiste ao início da perseguição dos judeus na sequência do édito de D. Manuel I, em "O último cabalista de Lisboa". Acompanhei-o a ele e aos descendentes daquela família num Porto liberal de oitocentos, e numa América no dealbar da sua história independente e ainda dominada pela escravatura, em "Meia-noite ou O princípio do mundo". Reencontrei-o em "Goa ou o Guardião da Aurora" sobre o domínio português por terras do Oriente. Tudo romances históricos com uma forte vertente policial em que o suspense é um dos principais ingredientes.
Agora o registo é diferente. "Á procura de Sana" é um relato jornalístico empolgante de acontecimentos vividos pelo autor. Por isso, ele é o narrador e a história é escrita na primeira pessoa.
Tudo começa na Austrália, a 9 de Fevereiro de 2000, onde Richard Zimler se deslocara para participar num encontro de escritores, em Perth. No hotel onde se instala conhece uma mulher cativante, bailarina de profissão, que lhe pede que autografe um exemplar de "O último cabalista de Lisboa", livro que, nas suas palavras, muito a marcara. Satisfaz o pedido, dedicando-o a Helena, nome com que se apresentara.
No dia seguinte, a assim conhecida Helena põe fim à vida, atirando-se da janela do quarto que ocupava no hotel. O facto, de si trágico, assume uma coloração mais assombrosa, dado que Zimler se encontrava na esplanada a poucos metros do local onde o corpo aterra sem vida.
Um ano mais tarde, numa livraria parisiense onde apresentava um novo livro, o episódio que ainda não digerira inteiramente é reanimado, quando, inesperadamente, se apercebe que uma mulher que dele se abeira tem a versão assinada em Perth. Mais assombrado fica quando se apercebe que esta, sim, era a verdadeira Helena. Sabe, então, que o fugaz contacto na Austrália se dera com Sana.
A partir daqui (e nesta parte consomem-se apenas 17 páginas), o livro conta a investigação que o autor/jornalista empreendeu para conhecer a história de Sana. Esta busca leva-o à Haifa dos anos 50, em que árabes e judeus viviam em paz lado a lado, às posteriores alterações produzidas naquele canto do mundo e aos mais recentes episódios do conflito israelo-árabe. Condu-lo, por fim, a conhecer pormenores arrepiantes da preparação dos atentados de 11 de Setembro e de que deu o devido conhecimento às entidades policiais competentes.
Curioso é que tenha eu lido o livro, em Agosto, numa altura em que o conflito entre Israel e o Líbano estava incandescente e que sobre ele escreva neste dia (era o tema que tinha escolhido para o post seguinte sem me aperceber do significado do dia de hoje). Sem pretender desvendar muito, quero dizer que a foto não retrata as torres gémeas de Nova Iorque, mas duas torres em Bolonha: a Torre degli Asinelli (a mais alta) e a Torre Garisenda, símbolos daquela cidade italiana. E a contemplação dessas torres muito teve a ver com o fatídico acontecimento vivido em Manhattan. E mais não digo... a leitura entusiasmante do livro revelará o resto.

Sem título

11 de Setembro de 2001:
2829 pessoas mortas
1.8 milhões de toneladas de destroços.











5 anos depois: o silêncio da memória.

domingo, setembro 10, 2006

In loco

Coliseu composto, ainda que com algumas clareiras. As luzes apagam-se. Em completa escuridão começa a ouvir-se "Universo ao meu redor". Por breves instantes, sob uma luz branca intensa, vislumbra-se Marisa a encimar uma cascata onde se encontram os nove músicos que a acompanham. Foi apenas um flash. Faz-se novamente breu e a música continua: "Graças a Deus um passarinho/ Vem me acompanhar/ cantando bem baixinho/ E eu já não me sinto só/ Tão só, tão só/ Com o Universo ao meu redor".
Assim se iniciou o segundo espectáculo de Marisa Monte no Coliseu do Porto, Quarta-feira, dia 6 de Setembro, integrado na digressão Universo Particular. Estava, também, lançado o mote para cerca de duas horas de música, onde a voz de Marisa teve como parceiros, não só uma multiplicidade de instrumentos (vários tocados por ela), mas também uma profusão de interessantes recursos cénicos.
Desfilaram – misturadas - canções dos cd`s gémeos "Universo ao meu redor" e "Infinito Particular" e êxitos de outros discos, em especial dos do projecto Tribalistas. (Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown estão, aliás, quase permanentemente presentes. Marisa não se cansa de os evocar).
Tudo envolvido por atractivos artifícios visuais: jogos de luzes; plataformas móveis que, deslizando, criam espaços mais intimistas ou mais amplos; gruas que se denunciam; candeeiros iluminados que se passeiam de um lado ao outro do palco. Tudo muito bem concebido e bem sucedido. Destaca-se, no entanto, na música "Meu Canário", a presença de uma gaiola com dois "canários enjaulados ecologicamente correctos": eram dois cubos cor-de-rosa que balouçavam à cadência da música dentro de uma gaiola ("Levitação Cúbica" de Franklin Cassaro).
O publico manifestou-se timidamente. Foi generoso quando ouviu a "Velha Infância" e cantou efusivamente quando, no encore, surgiu "Já sei namorar". A generosidade amena do público foi retribuída com o profissionalismo da artista. Faltou arrebatamento de parte a parte; faltou cumplicidade. Faltou o clima especial de comunhão e emoção que senti, por exemplo, ao ouvir Maria Rita na mesma sala, há quase dois anos.
Em suma, um espectáculo morninho a que faltaram "Beija eu " e "Amor I love you".

Conversas à mesa

É uma bela tradição - não sei se apenas portuguesa - o almoço de Domingo, mais prolongado no tempo, com uma ementa melhorada e regado com um vinho (tinto, claro) uns furos acima do Paizinho, Campelo ou Presidente. Mais do que a gastronomia, na vida agitada de todos nós, é um momento especial de troca de impressões sobre a semana, como se a família analisasse a semana (muito melhor que o Prof. Marcelo) e preparasse a vindoura.
Ora, estávamos cá em casa em tal sossego quando um dos membros da família - que prefere manter o anonimato (e não, não sou eu) -, em tom grave e sério, desproporcionado até em relação à ligeireza do assunto em mérito, anunciou o pensamento do dia e da semana: «Mantém o coração no sítio, um dos pés à frente e outro atrás!». Seguiram-se risos do tipo: «que sentido isto faz?», contudo, logo nos apercebemos que comentário tão repentino nos obrigava a reflectir.
Deixo-vos a interpretação do ditote, na certeza de que ele foi importante para o nosso almoço de Domingo. Ah! E perdoem o tom paroquial do post, mas a vida também é feita destas coisas e de momentos como estes, de sincera ternura familiar.

sábado, setembro 09, 2006

ZOOMático
Vislumbre de um sol envergonhado
Matosinhos, ontem, dia 8 de Setembro, às 16h50
Como a caríssima a. tinha dito em Matosinhos havia uns vislumbrezitos tímidos de sol.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Zoomático



Farol da Boa Nova, Leça da Palmeira, hoje, dia 7 de Setembro, às 15h50m