terça-feira, setembro 19, 2006

Curtas sobre Metragens

Havana, cidade perdida
Realização: Andy Garcia
Argumento: G. Cabrera Infante
Interpretações: Andy Garcia, Inés Sastre, Tomas Milian, Dustin Hoffman, Bill Murray
Classificacao: M/12
Duração: 143 m.

EUA, 2005



Através da história da família Fellove, Andy Garcia pretendeu fazer o (seu) retrato de um importante pedaço de história de uma cidade (Havana) e de um país (Cuba).
E fê-lo às claras. Logo no início do filme, assistimos, nos escritórios do fluorescente (e florescente) cabaret El Tropico, a uma reunião familiar da parte masculina do clã. Discutem o destino da família que se joga, também, na encruzilhada do destino de Cuba.
Estamos em 1958, numa Havana que mais do que uma "capital city", é sinónimo de "capital sin". Garcia pinta-a, num luminoso postal, como uma cidade divertida, despreocupada, onde se respira música e se vive inebriado ao ritmo da dança.
O paterfamilias Don Federico Fellove (Tomás Milián), especialista em Direito Constitucional, é professor universitário. Adepto do Zugzwang (táctica, no xadrez, que se traduz em manter a posição das peças, para não entibiar as possibilidades da vitória), acredita na força das palavras (invoca Séneca que sozinho derrotou Calígula e Nero), na construção ordeira de uma sociedade democrática e, portanto, na possibilidade de uma transição política pacífica. Não consegue, porém, convencer todos os seus filhos da bondade da sua tese.
Um deles, Luis (Nestor Carbonell) integra o Directório Revolucionário, rejeitando, ao mesmo tempo, o ideário dos guerrilheiros que se acantonam na Sierra Maestra (por ver neles, apenas, uns seguidores cegos do ideário fidelista, onde ele vislumbra autoritarismo em vez de pluralismo). Como Peligro, seu nome de código, luta pela liberdade e democracia, recorrendo à força das armas para derrubar Fulgêncio Baptista. Engrossa, depois, a extensa lista de vitimas da máquina de terror do ditador, que se limita a escolher se pretende que os inimigos sejam eliminados "com ou sem plumas". Luís perde, assim, a vida, mas ganha a aura de heroísmo, que mais tarde a sua viúva Aurora Fellove (Inês Sastre) pretende honrar e de que o regime castrista se vai, também, aproveitar (tornando-a viúva da revolução do ano)
Outro, Ricardo (Enrique Murciano), filho mais novo, junta-se a Che – bebe-lhe as palavras: "na insurreição (que é a luta armada), os fins (a revolução) justificam os meios - e a Fidel, alimentando assim a sua rebeldia de filho mimado de uma classe rica. Entra vitorioso, ao lados deles, em Havana, depois de Baptista ter abandonado o país na passagem para o ano de 1959. Mais tarde, é ele que, em nome do regime recém-instaurado, vai comunicar ao tio e padrinho Don Donoso Fellove (Richard Bradford), aquela que será a sentença de morte de ambos: a perda das terras que o latifundiário reservava, como herança, para o seu sobrinho. O primeiro morre do choque, o segundo não consegue sobreviver àquilo em que se tornara.
Por fim, outro, Fico Fellove (Andy Garcia), filho mais velho e dono do cabaret El Tropico, é um bon vivant, amante dos prazeres da vida e leal a todos os que lhe são próximos por sangue ou amizade. Para ele, a família vem sempre primeiro. Procura mantê-la, qual ilha, unida e ilesa, no mar revolto que a rodeia por todos os lados. O Tempo, no entanto, está contra ele!
A trama da historia é pontuada com imagens reais (só aí se vê o, então jovem, Fidel); é aligeirada com alguns apontamentos humorísticos (como o da proibição do instrumento capitalista que é o Saxofone, por ter sido inventado na Bélgica) e com as tiradas desconcertantes (algumas desconcertadas!) de um escritor sem nome (Bill Murray) que cai de pára-quedas no enredo.
O que dizer do filme? Podia concentrar-me na unidimensionalidade de muitas personagens, na linearidade do papel de Baptista, na inverosimilhança do mafioso interpretado por Dustin Hoffman. Podia considerar indesculpável a parcialidade da objectiva de Garcia, que, talvez influenciado pela sua própria história de exilado, olha apaixonadamente para História , tratando de modo diferente duas ditaduras Pinta com tintas muito mais escuras as atrocidades do regime castrista, envolvendo com um véu de nostalgia as do tempo de Baptista.
Não foi, no entanto, o que fiz. Deixei-me levar pela música (A banda sonora é cativante). Vivi o drama insular daquela família. Apreciei a fotografia - o cenário natural ajuda. Não desgostei de ver Andy Garcia na pele de galã (assenta-lhe bem, apesar de o ter preferido com a paleta de Modigliani). Saí, por isso, da sala de cinema agradada com o filme. São 143 minutos – podia/devia ser um pouco menos – de bom entretenimento.

segunda-feira, setembro 18, 2006

M.C.P.B. - Junta-te a nós!


Lanço daqui o apelo a todos os Portugueses de bom gosto para que se juntem a mim no M.C.P.B. - Movimento Contra a Peúga Branca! Vamos eliminar esta vergonha de pés de gesso em qualquer fato, jeans, calças de sarja ou bombazina. É certo que os alemães gostam delas, principalmente com a sandalocha, mas sempre desconfiei dessa malta... Pelo bom gosto, pela decência!
Seja esta uma causa nacional!

N.B.: Se não ler ou comentar este post, amanhã mesmo sentirá um pivete que tresanda a chulé de quinze dias! Veja lá se isto não é pior que as lengalengas do Professor Kibombo ou do curandeito do pau preto...

domingo, setembro 17, 2006

Infalibilidade papal?


Mostra-me o que Maomé trouxe de novo. Tu não encontras senão coisas diabólicas e desumanas, como a ordem para espalhar a fé através da espada.
Diálogo entre um imperador bizantino do séc. XIV e um erudito muçulmano persa.

Sabemos todos que a História tem demonstrado que as religiões têm sido amiúde usadas como arma de arremesso político, como longa manus do Estado, como justificação para o inexplicável e que as religiões têm, de idêntico modo, convivido e quantas vezes servido o poder temporal. Não é demais relembrar que houve Cruzadas, Inquisição, martírios em nome de diferentes crenças, não só em eras longínquas mas, de forma acutilante, no tempo que nos coube viver. Ninguém poderá, por isso, atirar a primeira pedra. Também me parece evidente não poder ignorar-se que, para além da dimensão espiritual, o Romano Pontífice é o Chefe de um Estado (exíguo, como o apelida a doutrina do direito internacional público) e, nessa qualidade, tem especiais responsabilidades de condução, digamos, de «política externa».
Sendo tudo isto exacto, não deixo de reconhecer que, não obstante Joseph Ratzinger ser um eminente teólogo, acusa o facto de ser «caloiro» na condução da dita «Igreja Universal». Ser a reserva dogmática de João Paulo II é bem diferente de encontrar-se agora sob as luzes de um mundo cada vez mais mediatizado e no qual infelicidades linguísticas têm impensadas repercussões. Daqui não se extraia – apesar de, muito particularmente, nele não acreditar enquanto católico – que as recentes afirmações de Bento XVI na Universidade de Regensburg são a prova da inexistência do dogma da infalibilidade papal. Tenho lido gente muito respeitável afirmá-lo, o que revela desconhecimento de que tal dogma só existe em questões de fé, manifestamente longe do caso concreto. Analisadas de modo distanciado as afirmações do Papa – e contextualizando-as na alocução que proferia, o que poucas vezes se faz no jornalismo que por aí campeia –, elas limitam-se a um truísmo para todas as religiões: nenhuma deve impor-se pela força e nenhuma delas deve ser causa de guerras e discórdias. Retorquiu já o Vaticano que se tratava de uma citação de um imperador da Idade Média e que tal não reflectia a posição de Bento XVI e da Igreja Católica. Para mim, esse não é o ponto crucial.
O que me preocupa é que, reconhecendo embora que um Chefe de Estado deve ter cuidado com as citações que escolhe, de modo particular numa fase da História em que o choque Ocidente/Oriente está tão acirrado, a liberdade de expressão acabe por se tornar numa miragem.
Ao fim e ao cabo, todos estamos rendidos ao «politicamente correcto». Assim o exige a necessidade de ganharmos o pão-nosso de cada dia. Mas que diabo, uma citação de outrem não estará a ser usada como forma de os países de maioria muçulmana encontrarem agora mais uma justificação para um ódio ao Ocidente que, diga-se também, mal se esforça por compreendê-los? Temo bem que sim e que Ratzinger esteja a servir de marioneta involuntária no xadrez político internacional. Só assim se explica que se queimem bonecos representando o Papa e que, mesmo após a contextualização das afirmações, se exija um pedido de desculpas formal e em pessoa.
Ensinam os Evangelhos que devemos dar a outra face a quem nos ofende. Lembro-me de, em miúdo, ter tido uma discussão monumental com o padre da minha paróquia sobre esta parábola e, ainda hoje – por certo como mau católico – admito ter muitas dificuldades em colocá-la em prática. Principalmente quando, se tivesse sido alguma autoridade religiosa muçulmana a referir-se a uma controversa citação sobre o Cristianismo, estou seguro de que o mundo católico reagiria de modo diverso.
A vida de Papa não é fácil, mesmo para quem tem a experiência da Cúria de Ratzinger. Com toda a imodéstia do conselho: seja puro como as pombas e prudente como as serpentes.

quinta-feira, setembro 14, 2006

ZOOMático

Pausa (para a fotografia)

quarta-feira, setembro 13, 2006

Chove


Joseph Mallord William Turner. Rain, Steam and Speed. 1844
The National Gallery , London


Chove na minha rua.
O tom cinzento do céu emoldura os contornos das casas
De uma cor de prata
Reflectida na água envergonhada que cai.
A ondulação de uma palmeira
Traz-me a lembrança do sol
Que partiu, que fez as malas
E rumou ao encontro de outros cheiros.
A pele já me devolve a frescura ansiada,
A roupa regozija-se pela sua utilidade acrescida.
Recosto-me na cadeira,
Contemplo estes caracteres escritos
Contra virtual página branca.
Rio-me desta mania de descrever sentimentos
Que porventura nem a mim interessam.
Sinto a paz dedilhada em cada tecla
E anseio, numa calma esperançosa,
Aquecer uma vida que está morna,
À espera de uma torrente que a tome.

F.L.

terça-feira, setembro 12, 2006

Verde, Verde, Verde


E o blog tinha que fazer a sua primeira incursão no futebol, depois da brilhante prestação da equipa do S.C.P. perante a equipa do Inter de Milão.
Os jovens leões (Nani, Miguel Veloso – que grande jogador! -, Yannick, Moutinho, ...) desorientaram as estrelas da grande equipa transalpina (Aquela entrada do Patrick Vieira foi muito feia!). E conseguiram traduzir a superioridade em campo em superioridade no marcador, com um grande golo do Caneira.
Esta metade do blog que tem coração de leoa regozija-se com o resultado e endereça votos de igual êxito para o FCP e, já agora, para o SLB!

segunda-feira, setembro 11, 2006

Post Scriptum

Da acção ficcional de Fortaleza Digital, passei à realidade jornalística de "À Procura de Sana", última obra de Richard Zimler, autor que muito aprecio. Conheci-o através da história da família judia Zarco numa Lisboa quinhentista que assiste ao início da perseguição dos judeus na sequência do édito de D. Manuel I, em "O último cabalista de Lisboa". Acompanhei-o a ele e aos descendentes daquela família num Porto liberal de oitocentos, e numa América no dealbar da sua história independente e ainda dominada pela escravatura, em "Meia-noite ou O princípio do mundo". Reencontrei-o em "Goa ou o Guardião da Aurora" sobre o domínio português por terras do Oriente. Tudo romances históricos com uma forte vertente policial em que o suspense é um dos principais ingredientes.
Agora o registo é diferente. "Á procura de Sana" é um relato jornalístico empolgante de acontecimentos vividos pelo autor. Por isso, ele é o narrador e a história é escrita na primeira pessoa.
Tudo começa na Austrália, a 9 de Fevereiro de 2000, onde Richard Zimler se deslocara para participar num encontro de escritores, em Perth. No hotel onde se instala conhece uma mulher cativante, bailarina de profissão, que lhe pede que autografe um exemplar de "O último cabalista de Lisboa", livro que, nas suas palavras, muito a marcara. Satisfaz o pedido, dedicando-o a Helena, nome com que se apresentara.
No dia seguinte, a assim conhecida Helena põe fim à vida, atirando-se da janela do quarto que ocupava no hotel. O facto, de si trágico, assume uma coloração mais assombrosa, dado que Zimler se encontrava na esplanada a poucos metros do local onde o corpo aterra sem vida.
Um ano mais tarde, numa livraria parisiense onde apresentava um novo livro, o episódio que ainda não digerira inteiramente é reanimado, quando, inesperadamente, se apercebe que uma mulher que dele se abeira tem a versão assinada em Perth. Mais assombrado fica quando se apercebe que esta, sim, era a verdadeira Helena. Sabe, então, que o fugaz contacto na Austrália se dera com Sana.
A partir daqui (e nesta parte consomem-se apenas 17 páginas), o livro conta a investigação que o autor/jornalista empreendeu para conhecer a história de Sana. Esta busca leva-o à Haifa dos anos 50, em que árabes e judeus viviam em paz lado a lado, às posteriores alterações produzidas naquele canto do mundo e aos mais recentes episódios do conflito israelo-árabe. Condu-lo, por fim, a conhecer pormenores arrepiantes da preparação dos atentados de 11 de Setembro e de que deu o devido conhecimento às entidades policiais competentes.
Curioso é que tenha eu lido o livro, em Agosto, numa altura em que o conflito entre Israel e o Líbano estava incandescente e que sobre ele escreva neste dia (era o tema que tinha escolhido para o post seguinte sem me aperceber do significado do dia de hoje). Sem pretender desvendar muito, quero dizer que a foto não retrata as torres gémeas de Nova Iorque, mas duas torres em Bolonha: a Torre degli Asinelli (a mais alta) e a Torre Garisenda, símbolos daquela cidade italiana. E a contemplação dessas torres muito teve a ver com o fatídico acontecimento vivido em Manhattan. E mais não digo... a leitura entusiasmante do livro revelará o resto.

Sem título

11 de Setembro de 2001:
2829 pessoas mortas
1.8 milhões de toneladas de destroços.











5 anos depois: o silêncio da memória.

domingo, setembro 10, 2006

In loco

Coliseu composto, ainda que com algumas clareiras. As luzes apagam-se. Em completa escuridão começa a ouvir-se "Universo ao meu redor". Por breves instantes, sob uma luz branca intensa, vislumbra-se Marisa a encimar uma cascata onde se encontram os nove músicos que a acompanham. Foi apenas um flash. Faz-se novamente breu e a música continua: "Graças a Deus um passarinho/ Vem me acompanhar/ cantando bem baixinho/ E eu já não me sinto só/ Tão só, tão só/ Com o Universo ao meu redor".
Assim se iniciou o segundo espectáculo de Marisa Monte no Coliseu do Porto, Quarta-feira, dia 6 de Setembro, integrado na digressão Universo Particular. Estava, também, lançado o mote para cerca de duas horas de música, onde a voz de Marisa teve como parceiros, não só uma multiplicidade de instrumentos (vários tocados por ela), mas também uma profusão de interessantes recursos cénicos.
Desfilaram – misturadas - canções dos cd`s gémeos "Universo ao meu redor" e "Infinito Particular" e êxitos de outros discos, em especial dos do projecto Tribalistas. (Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown estão, aliás, quase permanentemente presentes. Marisa não se cansa de os evocar).
Tudo envolvido por atractivos artifícios visuais: jogos de luzes; plataformas móveis que, deslizando, criam espaços mais intimistas ou mais amplos; gruas que se denunciam; candeeiros iluminados que se passeiam de um lado ao outro do palco. Tudo muito bem concebido e bem sucedido. Destaca-se, no entanto, na música "Meu Canário", a presença de uma gaiola com dois "canários enjaulados ecologicamente correctos": eram dois cubos cor-de-rosa que balouçavam à cadência da música dentro de uma gaiola ("Levitação Cúbica" de Franklin Cassaro).
O publico manifestou-se timidamente. Foi generoso quando ouviu a "Velha Infância" e cantou efusivamente quando, no encore, surgiu "Já sei namorar". A generosidade amena do público foi retribuída com o profissionalismo da artista. Faltou arrebatamento de parte a parte; faltou cumplicidade. Faltou o clima especial de comunhão e emoção que senti, por exemplo, ao ouvir Maria Rita na mesma sala, há quase dois anos.
Em suma, um espectáculo morninho a que faltaram "Beija eu " e "Amor I love you".

Conversas à mesa

É uma bela tradição - não sei se apenas portuguesa - o almoço de Domingo, mais prolongado no tempo, com uma ementa melhorada e regado com um vinho (tinto, claro) uns furos acima do Paizinho, Campelo ou Presidente. Mais do que a gastronomia, na vida agitada de todos nós, é um momento especial de troca de impressões sobre a semana, como se a família analisasse a semana (muito melhor que o Prof. Marcelo) e preparasse a vindoura.
Ora, estávamos cá em casa em tal sossego quando um dos membros da família - que prefere manter o anonimato (e não, não sou eu) -, em tom grave e sério, desproporcionado até em relação à ligeireza do assunto em mérito, anunciou o pensamento do dia e da semana: «Mantém o coração no sítio, um dos pés à frente e outro atrás!». Seguiram-se risos do tipo: «que sentido isto faz?», contudo, logo nos apercebemos que comentário tão repentino nos obrigava a reflectir.
Deixo-vos a interpretação do ditote, na certeza de que ele foi importante para o nosso almoço de Domingo. Ah! E perdoem o tom paroquial do post, mas a vida também é feita destas coisas e de momentos como estes, de sincera ternura familiar.

sábado, setembro 09, 2006

ZOOMático
Vislumbre de um sol envergonhado
Matosinhos, ontem, dia 8 de Setembro, às 16h50
Como a caríssima a. tinha dito em Matosinhos havia uns vislumbrezitos tímidos de sol.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Zoomático



Farol da Boa Nova, Leça da Palmeira, hoje, dia 7 de Setembro, às 15h50m

Albúm de férias do T&L - Day VI

Para o último dia das (breves!) férias, reservámos a visita a um dos locais que integram a selecta lista da UNESCO dos bens Património da Humanidade: as Ilhas Eólias. Depois do mergulho na História, faltava o mergulho na Natureza! Partimos de Milazzo, num barco de Pavilhão Português (o Leviathan Madeira), desbravando o Mar Tirreno. Apreciámos de longe Vulcano (foto 2) até aportarmos na vizinha ilha de Lipari (a maior do Arquipelago e que, também, empresta o nome ao mesmo).
Em vão procurámos Éolo, filho de Posídon e Deus do Vento, que, segundo indicações fidedignas, ali residia. Optámos, então, por dedicar a tarde a uma refrescante despedida das praias sicilianas. Para o dia seguinte estava marcado o regresso a terras lusas.















quarta-feira, setembro 06, 2006

O Príncipe


O Príncipe viu hoje o Sol nascer
Envergonhado por entre brumas matinais.
Não tinha por hábito conjugar o verbo “comover”
E uma grossa lágrima despertou os madrigais.

Era esta a riqueza dos que à porta pediam?
A sucessão astral dos acontecimentos?
Ousara ele ser senhor dos momentos
E escutar apenas as paixões que em si viviam!

Mas não. Queria-se grande. Queria-se inteiro.
E sê-lo era anestesiar emoções,
Fazer da rotina lugar primeiro
E refrear em surdina as pulsões.

É certo que dos falhanços fizera materiais vitórias,
Mas à custa de acres glórias.

Permitiu-se um sorriso colegial.
Faria daquele dia um simples dia
Sem nada de especial
Excepto a certeza de que vivia!

F.L.

Quadro de Diego Vélasquez, Príncipe Carlos Baltasar, 1635, Museu do Prado, Madrid.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Post Scriptum


Há mais de uma década que nas minhas férias estivais, não dispenso uma estadia num ponto específico da costa oriental espanhola, onde o sol nasce e se põe no mar. Um verdadeiro pedacinho de paraíso na terra. Aí me encho de paz e energia.
No remanso deste meu refúgio, aproveito para pôr a leitura em dia, esquecendo a rígida disciplina que autoinflijo, ao longo do ano, para não me perder no meu vício: os livros. Lanço-me, então, à pilha de espécimes variados que vou acumulando na mesinha de cabeceira. Géneros dispares, estilos dissemelhantes, autores diversos.
Neste ano, comecei por um livro levezinho, não pelo seu peso (tem 440 páginas, o que já é considerável), mas pela despojamento da sua substância. Trata-se do recém-publicado em Portugal, Fortaleza Digital de Dan Brown. (O livro datado de 1998 apareceu agora em terras lusas arrastado pelo fenómeno Código Da Vinci do mesmo autor).
Correspondeu às expectativas que formara. Não as superou, nem defraudou. À semelhança de "Anjos e Demónios", "A Conspiração" e "O Código da Vinci" é um livro de acção bem construído. Tal como neles, a história aparece temporalmente concentrada (tudo se passa num fim-de-semana – e tudo é mesmo muita coisa), numa espiral vertiginosa de acontecimentos com pormenores mirabolantes e de reduzida (para não dizer nula) verosimilhança.
Parte das virtualidades crescentes que os avanços técnicos proporcionam e da concomitante diminuição de liberdade que acarretam. (Diz-nos, a páginas 155, o narrador: "Na era digital, a privacidade tornara-se uma coisa do passado; havia sempre registos de tudo e mais alguma coisa. As companhias telefónicas sabiam exactamente quem ligara para quem e durante quanto tempo tinham falado"). Aborda a questão do voyeurismo tecnológico e da vigilância permanente, lançando apenas uma pergunta "Quis custodiet ipsos custodes?"
Prende o leitor enquanto é lido – os fios da história vão aparecendo cruzados; as personagens ora actuam, ora cedem o protagonismo a outras, ficando suspensas um capitulo até serem de novo lançadas no turbilhão dos acontecimentos – mas depressa é esquecido. As suas marcas são indeléveis. Nada de perene acrescenta ao leitor.
É, por isso, um bom livro para ler em início de férias e de um só golpe (basta um dia e com intervalos para não estupidificar). Não damos trato ao pensamento; oferecemos (algum) descanso ao raciocínio; concedemos férias ao intelecto. Preparamos os sentidos para novas aventuras, suspirando, já, por outras leituras.
PS - Um agradecimento ao NL que gentilmente me ofereceu o livro.

Curtas sobre Metragens - A lula e a baleia



The Squid and the Whale, A Lula e a Baleia
Realização
: Noah Baumbach.
Elenco: Jeff Daniels, Laura Linney, Jesse Eisenberg, Anna Paquin, William Baldwin.
EUA,2005, 81 min.
Sítio oficial: http://www.squidandthewhalemovie.com/

O título do filme não era prometedor, mas o conselho de um Amigo que tenho por sábio, levou-me a ver a mais recente película de Noah Baumbach, considerada filme do ano pelo New York Film Critics Online.
Às primeiras cenas percebe-se que não é um vulgar argumento de um casal da década de 80 que se divorcia em virtude de incompatibilidades descobertas ao fim de 17 anos de casamento e, porventura, também por um ciúme mudo do marido – escritor outrora consagrado e hoje simples professor de literatura – ao observar de camarote a ascensão da mulher como romancista e colunista no The New York Times. Descobrem-se traições passadas com o refinamento próprio da maldade humana de deixar bilhetes comprometedores à vista de todos e ficamos ainda na dúvida se Bernard Berkman (o marido) – Jeff Daniels – não terá feito o mesmo a Joan (a mulher) – Laura Linney –, embora de modo mais recatado.
A narrativa vai sendo desenrolada pelo casal e pelos dois filhos que, numa «reunião familiar» são confrontados com a terrível notícia e com uma coisa moderna chamada «guarda conjunta». Cedo descobrem que este sistema de exercício do poder paternal os transforma em marionetas a correr de uma casa para outra, a ouvir os podres dos progenitores (Bernard é, neste particular, mais exímio), a confrontar-se com a realidade cruel de uma solidão ancorada na «guarda conjunta».
As desordens psicológicas são particularmente impressivas no filho mais novo (Frank, Owen Kline, 12 anos): trava contacto com as bebidas alcoólicas, masturba-se na escola e espalha o sémen pelas lombadas dos livros da biblioteca. O filho mais velho – Walt, 16 anos (Jesse Eisenberg) – só à primeira vista surge como um resistente. As idas com a mãe ao Museu de História Natural em que contempla a lula e a baleia são pedras em falta no edifício da maturidade que ainda está a construir. De forma arguta, numa narrativa aberta que surpreende o espectador, é esta a última imagem do filme.
Nota muito positiva para alguns momentos de fino humor, como aquele em que Walt convence os pais (e não só) de que compusera o Hey You dos Pink Floyd, bem como os diálogos serpenteados de tom hilariante que Bernard troca com uma aluna de 20 anos com quem namora, que traz para casa e por quem o filho mais velho se parece apaixonar, numa projecção freudiana.
Quase diríamos que se trata de um diário pelo qual perpassam mais factos que sentimentos. Na verdade, não estando estes últimos ausentes (veja-se as cenas em que Frank caminha num sentido de profundo desespero), o argumento quis mostrar com toda a crueza as consequências de um divórcio. Sem falsos moralismos, sem atribuições de culpas.
Desempenho a bom nível de Jeff Daniels e de Laura Linney, embora tenhamos sido mais sensíveis à expressividade do olhar do pequeno Owen Kline.
Filme urbano, de problemas do dia-a-dia, retrato de uma sociedade em que pouco se investe em instrumentos para aplainar as normais divergências entre personalidades. A não perder!

Albúm de férias do T&L - Day V

Com a costa oriental da Sicilia razoavelmente bem explorada (sobretudo, os extremos: Siracusa e Messina), fizemo-nos à estrada com destino à cidade de Agrigento situada na parte sul da ilha.
Dedicamos o dia a percorrer o Vale dos Templos, onde, num espaço amplo e paisagisticamente afortunado (encaixado entre a montanha e o mar), se encontram vários testemunhos monumentais da rica Akragas fundada por colonos gregos.





domingo, setembro 03, 2006

Monteiro, o carteiro

Muito se tem escrito sobre a aparente crise existencial em que a Direita portuguesa, rectior, Manuel Monteiro e uns quantos apaniguados, tem mergulhado. Longe vão os tempos em que as diversas concepções ideológicas configuravam divisões estanques: a esquerda cuidaria da classe operária, dos pequenos industriais, basear-se-ia numa doutrina socialista/comunista, ao passo que a direita velaria pelos interesses dos grandes latifundiários, da burguesia comercial e financeira então nascente, num misto de liberalismo e de alguma intervenção do Estado, entre nós, como em outros Países europeus, sob forte influência da doutrina social da Igreja.
Estes tempos estão mortos e não se antevê o seu regresso em situação de normalidade constitucional. Apenas uma ruptura de regime seria capaz de fazer voltar a dicotomia que, por paradoxal, se limitou ao modo como os parlamentares se sentavam na assembleia popular saída da Revolução de 1789.
Não volta esse tempo de antanho, na medida em que as pessoas com ideologias tão vincadas são espécies em vias de extinção. E percebe-se porquê: tendo sido historicamente útil a destrinça – e não negando que ainda o possa ser, mesmo que de forma residual –, as populações (não gosto da expressão “povo”, dado estar demasiado gasta e hoje pouco mais ser que um conceito jurídico) cedo compreenderam que a agenda de um ou de outro lado, pelas próprias características dos seres humanos, não estão como que pré-determinadas por um código genético liberal/intervencionista, mas sim por um legítimo desejo de alcançar e manter o poder.
Se assim é, mais do que as ideologias, interessam as pessoas que, com o fito de atingirem os lugares cimeiros da governação, estão condenadas a centralizar o discurso. Avisadas pois as palavras de Vasco Pulido Valente (Público, 2/9/2006): «Em Portugal não há, nem pode haver uma direita. Em Portugal pode haver e há um “centrão”, com alguns, leves, cambiantes, que absorve e paralisa o resto. No seu melhor, a direita de que por aí se fala é uma sensibilidade e um sentimento».
Acrescentaria que, mutatis mutandis, o mesmo é aplicável à esquerda. Somente a História recente de pouco mais de 30 anos de democracia tem obnubilado que a dita esquerda é também centro, hoje mascarado de poder. Na verdade, estas pretensas crises só ocorrem quando um sector político está na oposição. No Governo tudo se aglutina em torno de um filósofo socrático com ares de respondão e que gosta de lançar charme correndo no “calçadão” e gozando férias em destinos pitorescos como o Quénia.
Se Manuel Monteiro deseja tornar-se carteiro, aconselha-se a jovem contratação dos CTT a não se esquecer da caixa de correio de Sócrates. No intervalo do jogging e da leitura dos panfletos do Continente, Lidl & Ca., ele ficará grato. E Monteiro terá prestado, porventura, a mais relevante contribuição política que lhe conhecemos. A bem da Nação.

Albúm de férias do T&L - Day IV

Sentindo-nos um pouco acanhados no espaço insular, decidimos espreitar a Itália continental. Fizemo-lo com o estreito de Messina de permeio, a escassos 6 quilómetros de distância.
Aproveitamos para visitar a cidade (de Messina) - pouco turística - e para morenar (apropriei-me da tua palavra, pakito!) na praia do Capo Peloro.










O resgate de Hébuterne


André Hébuterne, Notre Dame.
André Hébuterne, Sud algérien.

No intuito de contribuir para o conhecimento de pintores menos visíveis, comemora-se hoje o aniversário do nascimento de André Hébuterne (1894-1992). Nascido em Meaux, Seine-et-Marne (França), o pintor ficou para a história como o irmão de Jeanne, companheira de Modigliani. Contudo, também ele tem trabalhos interessantes e que motivaram a inclusão de alguns deles na empresa de reedição de Gargantua, inspirado no escritor da Renascença francesa François Rabelais.
A clareza das suas linhas, a boa escolha das cores e dos materiais e um certo toque que faz lembrar remotamente Dalí, fazem de Hébuterne um pintor relegado para a penumbra da História e que importa reabilitar.