Eis alguns vestígios desse rico e atribulado passado.




1.ª Orecchio di Dionisio; 2.ª Teatro Romano; 3. Teatro Grego; 4.ª Uma bela praça italiana.









Vista a partir do teatro grego de Taoarmina (em cima)
Composição feita com a fina areia das praias sicilianas (em baixo)

e, conseguiram evitar um mal maior, é um hino sério à resistência dos espíritos livres que, contra o terrorismo, decidem não abdicar dos valores que as sociedades democráticas defendem. George W. Bush devia ver este filme e reflectir na sua mensagem à medida que vai aniquilando as liberdades civis no País mais esquizofrénico e complexado do planeta. Sob pena de passarmos a ter uma espécie de «sociedade de inimigos», sendo indiscutível que os Estados devem dotar-se de instrumentos jurídicos aptos a permitir uma eficaz resposta à «peste do séc. XXI», nada justifica medidas como o «Patriot Act».




A preguiça do casario ribeirinho,
A altivez das pontes que unem as margens,
Os sons e o ar que inspiro
E que acordam células que levava adormecidas.
Regressar é também voltar ao ponto de partida,
Agora mais rico e, por isso,
Voltar a uma nova partida,
Com os mesmos desafios, alegrias e inquietações,
Mas todas elas sob o granito do Porto,
Não já frio e cortante, mas aconchegante e amigo.
Não sou filho pródigo.
Desejo ser tão-só digno da cidade em que, mal abri os olhos,
Encarei o Infante apontando a rota das Descobertas.
Sei para onde vou; este é o Caminho!
F.L.

Pessoal... e Transmissível e João Lobo Antunes
No panorama radiofónico português, o programa «Pessoal... e Transmissível», de Carlos Vaz Marques, na TSF, é uma canção que nos embala ao fim do dia, de regresso a casa e antes do costumado noticiário televisivo das 20 h. Sempre com uma excelente qualidade ao nível da locução, dos textos e da investigação que o jornalista coloca em cada entrevista, é, sem dúvida, de escuta obrigatória e a lembrar os tempos em que as ondas da rádio não tinham rival.
Hoje tive a felicidade de ouvir, nesse espaço, a entrevista ao Prof. João Lobo Antunes. O neurocirurgião, reputado dentro e fora de portas, mandatário nacional na campanha para as presidenciais do actual Chefe de Estado, é ainda um escritor. «Sobre a mão e outros ensaios», editado pela Gradiva, foi o pontapé de saída para uma conversa de inteligência acima da média.
Lobo Antunes começa por comparar, numa imagem de rara beleza, a intervenção médico-cirúrgica a um ritual sagrado: há paramentação, purificação dos intervenientes e, acima de tudo, a entrega da vida do paciente nas mãos de um punhado de homens e mulheres num momento em que o doente está com a sua «humanidade ferida», como gosta de referir o médico. Contudo, o professor adverte para o perigo de deificação daqueles que julgam que ser clínico é desafiar permanentemente a lei natural da vida. E eis que surge a morte, tema recorrente nas conversas com João Lobo Antunes. O próprio confessa-se surpreso com a insistência com que lhe pedem que aborde a questão e, numa frase lapidar, resume: «a morte serena e em paz é cada vez mais rara, a morte de ter vivido», lembrando que a boa prática e ética clínicas implicam aceitar o limite da inconveniência da intervenção médica quando nada mais de humano se pode esperar. Cita um escritor inglês para ameaçar a morte – «não sejas vaidosa!» –, nega o estrelato a que simpaticamente o jornalista o quer votar e, de forma emotiva, lembra uma frase de um livro que está a ler e em que o epitáfio que a mulher do defunto escolheu seria também aquele que o neurocirurgião quereria para si mesmo: «Aqui jaz um homem que fez algumas coisas que era preciso fazer e disse algumas coisas que era preciso dizer». Uma espécie de «my way» de Sinatra.
Não esconde as suas convicções. Tem por divisas duas parábolas: a do bom pastor e a dos talentos, reconhecendo nesta última aquela que mais o identifica, porquanto traduz em toda a plenitude a vontade do serviço. Assume a sua «intervenção cívica» ao lado de Cavaco Silva sem peias e com uma elegância e um desprendimento de quem, como ele, não precisa da «politiquice» (que não a verdadeira ars de governo da polis).
E remata com duas ideias que me deixaram meditativo. A primeira: o pessimismo, até do exclusivo prisma clínico, é um mal que se concretiza no momento em que se acredite nele. A segunda: temos de aprender a «vendermo-nos caro» (tradução de uma expressão norte-americana que marcou o Prémio Pessoa nos mais de dez anos que exerceu
E assim se chega a casa de alma cheia!

O aniversário da estrela queirosiana que se apagou há 106 anos é um feliz pretexto para partilhar a clarividência e inteligência com que o Eça fez a crítica dos costumes da época, qual Gil Vicente (ridendo castigat mores), e para verificar que um século é, na verdade, quase nada na evolução ou involução da mentalidade comunitária.
Tal como na sociedade coetânea, encontramos a cada passo o «Chico-esperto», o «fura-vidas», tantas vezes erigido em exemplo e desculpado pela própria sociedade que nele se revê e aí considera residir o absoluto de uma certa manha. Estas personagens povoam o imaginário colectivo e, tal como os burlões, constituem uma espécie de reduto em que as leis humanas não almejam, muitas vezes, o papel de controlo social que se lhes adscreve.
Há ainda, na imensa galeria queirosiana, uma tipologia humana quase em extinção: o sonhador depressivo, desalentado com o mundo em seu redor e que aspira às coisas simples e verdadeiras do existir. Assim leio Carlos e, nos seus traços gerais, revejo um certo optimismo antropológico que, com a idade, acredito que vamos perdendo. Quantas vezes nos defrontamos com a afirmação «isto já não me surpreende»? Neste linguajar vai encerrado quer um desalento a combater, quer uma fria, racional e sempre protectora adaptação à realidade. O difícil, como se sabe, é encontrar o ponto óptimo entre ambas as concepções do mundo, na certeza de que rodearmo-nos de muralhas elevadas é sempre cortar o istmo que liga a península ao continente ou, dito de outro modo, cortar o cordão umbilical do sonho e da beleza existente no simples contemplar do ser Pessoa.
Para quem vai sendo um pessimista antropológico, a obra de Eça, retrato impressionista do que nos cerca, é também um convite à aceitação do diferente e dos pontos de luz titulados por cada ser. Quando leio A Cidade e as Serras, sinto este convite ao aproveitamento daquilo que de positivo há em cada um de nós e à verificação, ao mesmo tempo de singela simplicidade e urdida complexidade, de que a crítica ao Outro é, de forma sub-reptícia, a exaltação do egoísmo e a pretensão de sermos mais do que os nossos semelhantes, como se, por magia, tivéssemos sido bafejados por um endeusamento desmedido.
Ao lembrar Eça percorre-nos a certeza de que o mundo é cada vez mais cinzento e a precisar de muitas pinceladas de cores vivas. Primárias. Num dia escuro e chuvoso a meio de um Agosto sem nada de muito relevante a registar.

Nos vales escarpados do teu corpo
De água desesperada pelo mar,
Depositou ele todas as munições do verbo “amar”,
Levantando sobre leiras e em vãs estacas
O silêncio comprometido de outrora,
E num abraço eterno venceu a aurora.
-Astro fosforescente,
Em dias de sol ardente,
Transformaste o homem retraído
Em glória do momento protraído!
E esse que ora em teu ombro repousa,
É sombra de dia nunca nascido
Ou realidade escrita em lousa
Da escola do afago prometido?
-Moldei-te ao meu feitio!
-Erro humano do mais ímpio gentio…
-Deixa, é bálsamo de ilusão!
-Que sejas sempre amputada de razão…


merece as restantes componentes fílmicas.




Liberdade perdida reencontrada
No auge da vida desguarnecida
É prazer de gente bem amada
Enquanto a lágrima é escondida.
Momento plácido e deleitado
Em teu regaço colhido,
Instante de oiro captado,
Que trazes na alma adormecido.
Acordar hoje é proibido,
Viver amanhã é tempo perdido!
F.L.