segunda-feira, julho 31, 2006

Instante


James Goodwyn Clonney, Waking Up, 1851, Boston Museum of Fine Arts, Boston, EUA.


Liberdade perdida reencontrada
No auge da vida desguarnecida
É prazer de gente bem amada
Enquanto a lágrima é escondida.

Momento plácido e deleitado
Em teu regaço colhido,
Instante de oiro captado,
Que trazes na alma adormecido.

Acordar hoje é proibido,
Viver amanhã é tempo perdido!

F.L.

Intervalos de lucidez, vida de loucura


Bosch, La Nef des Fous, 1498, Le Louvre.

Não tinha esse perfume, dos Narcisos!...
Nem o calor fervente dos Abraços!...
Aquela, a quem um dia abri os braços...-
que me encantava a alma de sorrisos!...
- Vi seus olhos, então!... - os lagos lisos
Não são mais cristalinos...nem mais frios!...
- Pobres Almas de Moços... - Balbucios
E Inocentes! - e ínscios!... - E indecisos!!!...


Ângelo de Lima, in: Poesias Completas, org., pref., e notas de Fernando Guimarães, Assírio & Alvim, 1991.

Em Ângelo de Lima, poeta portuense (1872-1921), encontra-se o eixo de intersecção entre a poesia, o génio e a loucura. Internado no hospital psiquiátrico de Conde de Ferreira e depois no hospital de Rilhafões (Lisboa), onde morreria, apenas em 1971 foram publicadas as suas Poesias Completas. Em quase todas elas perpassa um sabor a alucinação, a desprendimento corpóreo do espírito, a divinização de palavras que o poeta cria, porventura atrás de grades e sob influência de tratamentos hoje banidos da psiquiatria. Dono de intervalos lúcidos, escreveu no segundo volume da revista Orpheu (1915), ao lado de nomes como Pessoa, Mário de Sá Carneiro ou Almada Negreiros. A cidade que o viu nascer para a loucura da vida deve-lhe uma homenagem. Mesmo que seja apenas num simples intervalo de lucidez.

(Leia-se, com interesse, Fernando Hilário, A Loucura de Ângelo de Lima. Eu sinto sempre o que escrevo, Ed. UFP, € 12,00.)

Early Night Posts (6)

Auto-retrato de Leonardo da Vinci (1512-1515)
"Era velho, certamente (por isso é que se lhe chama velho).
Mesmo assim: não é porque o velho fosse velho que ele era velho - ou seja, não era um senhor idoso (embora também não fosse jovem, claro) (por isso é que se lhe chama velho).
O mais simples, provavelmente, seria dizer a sua idade (se é que não temos horror a certezas tão duvidosas que mudam de ano para ano, de dia para dia, iclusive de hora para hora) (e quem sabe durante quantos anos dias e horas se estende a nossa história) (e em que sentido se estende e inflecte, a bem dizer) (por conseguinte, e repentinamente, encontrar-nos-íamos numa situação em que já não poderíamos assumir a responsabilidade das nossas afirmações irreflectidas)."
"A recusa", Imre Kertész, Editorial Presença, p. 13

sábado, julho 29, 2006

Palco das tretas - Ensaio, de José Peixoto



As Três Irmãs de Tchekhov constituem o pano de fundo à peça de teatro Ensaio, com texto de José Peixoto, direcção de Roberto Merino e elenco composto por Diana Couto (Catarina), Diana Morais (Sofia) e Sandra Ribeiro (Inês), alunas finalistas do curso superior de Teatro da ESAP, em exibição desde quinta-feira (27/7) até hoje, sempre às 21:30h, no Pequeno Auditório do Rivoli Teatro Municipal.
O T&L esteve na estreia e ficou sobretudo impressionado com a elevada qualidade do texto, bem como com a simplicidade do cenário, bem ao gosto dos que têm do teatro uma visão mais «purista»: mais palavra e menos «fita». No decurso de um ensaio numa casa suburbana em lugar remoto e com cocós de cão pelos passeios, as três actrizes intercalam o riquíssimo texto de Tchekhov com reflexões sobre as relações humanas. Cada uma delas, qual três irmãs, é um microcosmos em ebulição. Desde a loura frívola, de voz quase irritante, empenhada em mostrar um «polimento» que não tem e perdida em constantes telefonemas de um homem casado com quem se relaciona, até uma personagem mais densa, ideologicamente comprometida com uma esquerda complexada em choque com uma representante de uma espécie de direita envergonhada, esposa, mãe e amante, disparando boutades em todas as direcções, maxime em relação aos homens, terminando numa outra mais sofisticada, bloco de pedra aparente que acaba por revelar segredos escondidos e que constitui o contra-peso de inteligência, tudo caminha para o fim do ensaio, dando a sensação de que a densidade do texto perde pela profusão exagerada de temas e por interpretações que, como é natural, comportam ainda grande espaço de evolução.
Peça aparentemente anti-masculina, de permanentes paradoxos, transforma-se num hino à expressão de sentimentos e à admissão da mera condição humana de Malraux.

Orfeu e Narciso


Qual andarilho emigrado, vou sentindo que Eros e a Civilização de Herbert Marcuse corresponde a uma espécie de nova Utopia de Tomás Moro: a libertação do Homem entregue nas mãos de Orfeu e Narciso. Se este último me levanta fundadas dúvidas, é também exacto que contemplarmo-nos tem a virtualidade da auto-análise cada vez mais imperiosa. O exílio do filósofo alemão em terras americanas foi ainda um grito de revolta contra a sociedade de consumo e da tara perdida que nos calhou viver. Vale a pena pensar em Orfeu e Narciso no dia em que, em 1979, se apagou aquele que muitos consideram um dos mais exuberantes cometas do século passado.

Sombra



Revê-se no sorriso de açúcar da criança
Agachada por trás dos arbustos,
Rodeada de serafins e de querubins.
Implora a pureza de outrora
Que em vão hoje perscruta
No olhar dos que o cercam.

A ave que sobre ele voa
Impende uma sombra
Seráfica e nobre
Que o não deixa de cabeça erguida
Olhar o céu.

Avança e recua,
Debalde procurando fintar o monstro,
Quando o Sol sobre a Lua se abate

Em piruetas de borboleta
De mil cores enfeitada
E que no seu ombro repousa.

- És tu, Dia?
- Não, apenas sou o que segue a Noite.


Pintura de Vincent van Gogh, Starry Night Over the Rhone, 1888, Musée d'Orsay
Zoomático

Ao sabor do vento - rtp


“Nisto descobriram trinta ou quarenta moinhos de vento que há naquele campo; e logo que D. Quixote os viu disse ao seu escudeiro:
- A ventura vai guiando as nossas coisas melhor do que poderíamos desejar; porque vês ali, amigo Sancho Pança, donde se avistam trinta ou poucos mais desaforados gigantes, com quem penso travar batalha (…);
- Que gigantes? – perguntou Sancho Pança.
- Aqueles que ali vês – respondeu seu amo – de braços compridos, que alguns costumam ter quase duas léguas.
- Olhe vossa mercê – retorquiu Sancho – que aqueles que ali se avistam não são gigantes, e o que neles parecem braços são as aspas que volteadas pelo vento, fazem girar a pedra do moinho.
- Bem se vê que – observou Dom Quixote – que não estás formado nisto de aventuras; aquilo são gigantes, e se tens medo afasta-te daí e põe-te em oração enquanto eu vou entrar com eles em fera e desigual batalha.”

Miguel de Cervantes, “O Engenhosos Fidalgo Dom Quixote da Mancha”, Civilização, 1999, p. 54.

sexta-feira, julho 28, 2006

Séquences Jazz Mix


A todos os melómanos que gostam de mesclas musicais recomenda-se uma dose diária de "Séquences Jazz Mix". Encontra-se todos os dias, entre as 23h e as 24h, no canal de televisão Mezzo. Consiste numa interessante sucessão de clips musicais e de fragmentos de concertos, em que se mistura o jazz com outras sonoridades como o soul, électro, hip hop, world...
Este é, para mim, um dos momentos favoritos oferecidos pela estação. Porém, a Mezzo vale por toda a sua programação.
(Auto)Define-se como uma "classic-jazz tv". Destacam-se, por isso, para os mais puristas (:-))) programas paralelos àquele, mas com uma natureza impoluta (ie, livre de mix): "Sequences Classic" (diariamente entre as 5h e as 8h45, entre as 11h e as 12h35 e entre as 19h e as 19h35) e "Sequences Jazz" (diariamente das 18h às 19h).
PS1 – Para que não restem dúvidas o supra-postado não são meras tretas (isso já era!), mas antes verdadeiras letras.
PS 2 – O Blog está a ressentir-se da ausência (forçada é certo!) do filipelamas.

Mãos que falam


Porto, 28 de Julho de 2006.

Tiago,

Acho que este é o teu primeiro aniversário longe de nós. Não que haja uma tradição nesse domínio cá por casa, tirando os típicos bolo e espumante e as prendinhas da praxe. Também em nada me entristece o motivo pelo qual estás do outro lado deste gelado oceano.
Do que hoje sinto falta é do olhar maroto que trazes na face durante o dia de anos. Um misto entre a porfia a uma idade ainda bem jovem e a recordação latente de quando em miúdo te empoleiravas no guarda-fatos para descobrir o presente que afadigadamente e em vão tentáramos esconder.
Não é este o local nem o meio para dizer o que gosto em ti. Até porque não temos esse hábito. Ainda bem. Basta-me a confiança que depositamos um no outro e a cumplicidade que vamos tendo, quantas vezes sem a opacidade do ruído. Basta-me ser também o irmão mais velho, por vezes armado em pai conselheiro, chato e rezingão.
Neste dia que é teu, lembro-me sempre do quanto desejava ter um irmão e da forma, diria «artística»(!), como o pedia: ia para debaixo da cama dos pais e por tal rezava. Finalmente alguém (pelo menos os pais…) me ouviu e, depois dos ciúmes habituais que me fizeram ler compulsivamente «Rosa, minha irmã Rosa», de Alice Vieira, pontuado pela fúria (confesso que até nem era: ver-te assim pequenino com a tua mãozita agarrada à minha) de ter de te embalar e não poder ir brincar para o «pátio do café», eis que temos o «rapaz» quase formado (não se vejam aqui laivos pequeno-burgueses), opinativo, brincalhão e capaz de, com uma simples frase, fazer instalar a dúvida metódica cartesiana.
É teu o Mundo! Ele está aí para ser vivido e é à Vida que hoje brindamos! Com o costumado espumante manhoso cujas bolhas se encontram, este ano, algures a meio do Atlântico…
Para não variar, andei às voltas, perdi-me em didascálicas e figuras de estilo... Ao ouvir umas músicas que deixaste no computador (terrenos desconhecidos para mim), apetece parafrasear-te

Parabéns e abração, grande mano!
Leonardo da Vinci, Estudo para mãos.

quinta-feira, julho 27, 2006

COOL-Xeia (de tretas Musicais) ... OU In a Silky-smooth Mood





Título: Dreaming wide awake
Interprete: Lizz Wright
Formato: CD
Junho de 2005





Lizz Wright esteve em Portugal, na semana passada. Cantou, no dia 19 de Julho, no Casino de Espinho. O espectáculo integrou-se no 32º Festival Internacional de Música de Espinho e serviu para apresentar, no nosso país, o seu mais recente álbum (Junho de 2005), Dreaming wide awake. O T&L não quis perder este ensejo para dedicar umas linhas a este disco e, sobretudo, à sua autora.
É o seu segundo trabalho, tendo conseguido satisfazer as expectativas criadas com o primeiro, Salt (2003). Em ambos apresenta temas originais e revisita temas já conhecidos, casando o jazz, o R&B, o gospel e o pop.
Em Dreaming wide awake, ao lado de 3 inéditos (escritos pela própria Lizz, com a ajuda de Jesse Harris, compositor do bem conhecido “Don't Know Why” de Norah Jones) aparecem, entre outras, versões de “A Taste of Honey” (Beatles), “Old Man” (Neil Young), “Stop” (de Joe Henry, mas popularizado por Madonna em “Music”!!).
Lizz Wright apropria-se destes temas – no sentido literal desta expressão: torna-os seus!
E é a voz desta intérprete de 26 anos que comunica originalidade a toda a obra. É uma voz profunda, densa, encorpada e ao mesmo tempo melíflua. Já foi mesmo comparada a Sinatra (se ele tivesse sido uma african-american woman do novo milénio, segundo Will Layman).
O produto final é, então, de uma suave harmonia. É um cd para todo ano; uma banda sonora para as 4 estações. Lizz Wright fez o que pretendia, um conjunto de canções que “criam momentos”.


Dreaming wide awake
Lizz Wright

My eyes burn
I have seen the glory of a brighter sun
My heart aches
It has felt the peace of perfect love
My mind fails
As I try to recall the bliss of a glorious day
When I was sleeping, eyes wide open
Dreaming wide awake

Who are you, stranger
To come here, and answer all my prayers?
Where are you from, angel?
You saved my life and disappeared
How do I find you?
Will you come when I need you?
Oh, how I´d love,
I´d love to be sleeping, eyes wide open
Dreaming wide awake


PS – Um agradecimento muito grande a MJLP pela dica e pelo disco!

terça-feira, julho 25, 2006

Zoomático


Parque atrás do Palácio de Charlottenburg. Ao fundo Belvedere (datado de 1788, projectado por Carl Gotthard Langhans e reconstruído após a II Guerra Mundial). Berlim.

Early Night Posts (5)


Miranda: (….) O! I have suffered
With those that I saw suffer: A brave vessel, (…)
Dashed all to pieces (…)
Had I been any god of power, I would
Have sunk the sea within the earth, or e’er
It should the good ship so have swallowed, and
The fraughting souls within her. (…)

William Shakespeare, The Tempest, Hertfordshire: Wordsworth Editions, 1994, p. 6.

Pintura de Richard Dadd (1819-1897). Come unto these yellow sands, 1842, colecção privada.

Pintado de Fresco (II)

Tinha sido uma jornada intensa. Só se apercebeu da corrida do tempo, quando, ao sair do moderno arranha-céus onde trabalhava, foi atingida à socapa pelos primeiros raios do sol que, envergonhado, espreitava no horizonte.
Pôs-se a caminho de casa, saboreando a brisa refrescante que varria a cidade e lhe deixava em desalinho as longas madeixas de cabelo. Respirou fundo. Sentia-se livre ao comando da sua velhinha vespa azul-bébé. Gostava de andar de mota. Fora um hábito que lhe ficara do tempo que vivera em Roma, em que enfrentava o trânsito infernal em hora de ponta, serpenteando pelas elegantes ruas da cidade eterna. Recordava com saudade esse período em que estagiara numa revista de moda italiana situada oportunamente na luxuosa Via Condotti nascida no sopé da Scalignata di Spagna. Espantou as recordações com um longo bocejo.
Em cada esquina, era surpreendida com a face ainda ensonada da cidade. As ruas desertas, as lojas fechadas, as persianas corridas, esparsas luzes a pontilhar os edifícios - tudo emprestava feições desconhecidas a um cenário familiar. Era uma sensação agradável, mas estranha, para quem sempre se sentira mais confortável no meio da confusão e do bulício citadino.
Embrenhada nestes pensamentos, e sem sentir a chuva miudinha que se esforçava por acordar a cidade, vence o percurso. Ainda antes de entrar em casa, faz uma paragem na pastelaria em frente para calar um lamento do estômago. Sai sem prestar atenção às notícias bombardeadas por uma apresentadora frenética e sem reparar no vizinho do andar de baixo que, numa mesa ao fundo, despede o sono com um café fumegante.
Finalmente em casa, deita-se exausta mas com a sensação de dever cumprido. Percorre de memória o artigo sobre Amsterdão, em que trabalhara afincadamente no último mês. No dia seguinte estaria nas bancas o novo número da revista de viagens de que era directora.
Regula o despertador para as cinco da tarde. O talão azul em cima da mesinha-de-cabeceira recorda-lhe que ainda não fora buscar o vestido azul à lavandaria. Precisava dele para o jantar daquela noite. A redacção em peso ia festejar o fecho atempado de mais uma edição.

Regresso ao passado (take #2)


De sua graça José Carlos Souto de Sousa Veloso, este engenheiro agrónomo que, de 1959 a 1990, começou por apresentar, depois produzir, montar e realizar o mítico TV Rural é mais uma das personagens que povoa a infância da malta da minha criação. Lembro-me do «Bom dia, senhores telespectadores! Sejam muito bem-vindos a mais um programa» que ecoava na velha sala da minha avó, vindo de um aparelho de televisão a preto e branco, alimentado por um enorme transformador que fazia pendant com o dito aparelho em quinta ou sexta mão. Era o indício que faltava para o costumado «cozido à portuguesa» domingueiro que se seguia. Por entre veredas, campos de cultivo, cooperativas e montes alentejanos, o Eng.º Sousa Veloso, de brilhantina no cabelo, passeava a sua figura garbosa de galã de cinema, durante cerca de 1500 edições, com a mesma simplicidade com que entrevistava o jornaleiro, a respectiva mulher ou o Ministro. À sua maneira, foi uma espécie de visionário: hoje seria uma figura do jet set, presença constante em eventos sociais. Já estou a imaginar: Sousa Veloso ameaça deixar Cinha se esta não o acompanhar à Feira da Golegã (Vip, Caras, Flash, Lux)...
Bem, o cozido está na mesa e o puto já tem fome depois de ter visto as técnicas da poda, os sulfatos, as nabiças, tomates, gado e cenouras. Tudo servido no prato de domingo.
Como diria o Eng.º: srs. telespectadores, despeço-me com amizade, até ao próximo programa!

domingo, julho 23, 2006

Parede(s) dedilhada(s)


A arte é, de facto, uma forma única, espantosa, de tornar simples e claras coisas extremamente complexas.
Carlos Paredes

Nos acordes da tua guitarra todo um povo que, de verdes anos vestido, faz do movimento perpétuo um porto santo. Espelho de sons na corrente de uma balada que é não só de Coimbra mas também de um País cansado de invenções livres. Os teus «dialogues» terrestres cessaram há dois anos, mas as asas sobre o mundo que dedilhas ecoam na corrente desta que é canção para ti!

Early Night Posts (4)

Salvador Dali, Persistência da Memória, 1931 - Colecção Privada, Nova Iorque

" (Os dias) Iam então agora seguir-se assim em fila, idênticos uns aos outros, inumeráveis, nada trazendo de novo! (...) O futuro era um corredor todo escuro que tinha ao fundo uma porta bem fechada.
(...)
- Veja bem como os pobres agricultores são dignos de lástima! - disse o padre, depois de voltar para junto de Emma, enquanto desdobrava o seu grande lenço de chita, segurando-lhe uma ponta com os dentes.
- Há mais quem o seja - respondeu ela.
- Pois com certeza! Os operários das fábricas, por exemplo.
- Não são esses ...
- Queira desculpar-me, mas tenho lá conhecido pobres mães de família, mulheres virtuosas, posso-lhe garantir, verdadeiras santas, que até falta de pão passam.
- E aquelas - continuou Emma (que falava contorcendo os cantos da boca) -, aquelas, Sr. Prior, que têm pão e não têm ...
- Fogo para se aquecer no Inverno - atalhou o padre.
- Que importa isso?
- Como? Que importa? A mim parece-me que, quando se tem bom aquecimento, boa alimentação ... porque, enfim ...
- Oh, Meu Deus! Meu Deus - suspirava ela."

Madame Bovary, Gustave Flaubert, Europa-América, pp. 62 e 104.

Palavras de vime


Para a Helena e para o Rui

Eis o dia que pedistes:
A Natureza, em valsa lenta,
Emoldura o quadro que sonhastes.
A Vida à porta está, sedenta,
Armada com naus de gestos floridos
E dias de matizes coloridos!

Não há cestos para palavras de vime
Em dia tão indizível e sublime!

Do meigo cisne a pairar
Em água turva ou transparente,
Fizestes divisa a recordar
A entrega do dom eloquente!
-Cisne, não tenhas medo de voar;
O infinito é teu de par em par!

Não há cestos para palavras de vime
Em dia tão indizível e sublime!

Se lei alguma conheceis,
É a do Amor incondicional
Que a todos nós ofereceis
Em vaso de perfume celestial!
Inebriantes, encontrareis a Vida
Em um trago sôfrego bebida!

Não há cestos para palavras de vime
Em dia tão indizível e sublime!

A certeza do olhar,
A angústia partilhada,
O secreto chilrear
Da lágrima encordoada…
Tudo vivereis,
Nada vos será tirado,
Decerto porque amareis
O íntimo cântico entoado!

Não há cestos para palavras de vime
Em dia tão indizível e sublime!

Aquele que em nós habita,
Mais do que num sacrário,
Seja sempre o que nos incita
A aspirar ao frondoso imaginário
De rostos que de frente se olham
E nunca, por nunca, se antolham!

Não há cestos para palavras de vime
Em dia tão indizível e sublime!

F.L.

Pintura de Jan van Eyck, The Arnolfini Marriage
1434, National Gallery , London , England

sexta-feira, julho 21, 2006

COOL-XEIA (de tretas musicais)





Título: Ingravito
Interprete: MACACO
Formato: CD



Trata-se do quarto trabalho do Grupo catalão Macaco, encabeçado por Dani «El Mono Loco» Carbone, ex-colaborador de Ojos de Brujo – que também dão ajudinha neste álbum. Uns e outros, aliás, estiveram presentes no Festival Mestiço organizado pela Casa da Música nos passados dias 10 a 13 de Maio. O T & L (então, ainda in fieri) não faltou, tendo assistido ao espectáculo dos segundos. (E diga-se, en passant, que não ficou fã da acústica do Parque de Estacionamento do Piso -1, onde decorreu todo o festival. Apesar de original, a ideia, na sua concretização, revelou-se falha de eficácia. A ressonância daquele espaço transformava todo o som que lá (se) tocava num ruído amorfo e pouco aprazível. Houve mesmo quem alvitrasse que de um espectáculo de Heavy Metal se tratava. Não foi, Rocky?)
A música dos Macaco é cozinhada num caldeirão de sonoridades, onde se adicionam, entre outros ingredientes, a rumba catalã, o hip-hop, reggae, e umas pitadas de sons latinos e brasileiros. (Lembra Manu Chao – a espaços!). É uma mezcla interessante, ou melhor, exquisita.
Depois do afamado “Entre Raíces y Antenas”, eis que surge “Ingravitto”. O nome do álbum é explicado na primeira faixa, onde pode ouvir em várias línguas (entre elas o português – do Brasil) que: “Con los pies en el suelo y las manos levantadas. Observarse adentro desde fuera y mirar a fuera desde dentro, conectarse para actuar y desconectarse para soñar. Al conjunto de estos actos se le llama estado ingravitto.”
Apesar de não ter tido tempo de ouvir com atenção o CD, deu para perceber que é de todas as suas obras, aquela que apresenta a sonoridade mais pop. Mas, como (parte da) banda sonora do (meu) Verão, cumpre parece cumprir a tarefa com suficiência. É leve, fresco e simpático.
Da fugaz audição, retive no ouvido (para além do já muito conhecido “Sideral”) a letra da canção n.º 2, “Con la mano levantá”. Apesar de muito simples, pobre estilisticamente até, e assaz repetitiva (o acompanhamento musical dá-lhe o brilho que a letra, a seco, parece não ter – ou melhor, não tem!), ela retrata o meu estado de espírito.
Por isso, pedindo antecipadamente desculpa a filipelamas (é quase um atentado, depois da bela filigrana com que me – nos - brindou ontem. SORRY!), e como I`m in a cool mood, aqui vai …

Con la mano levantá (feat. Juanlu El Canijo – Calima)
Con la mano levantá al pasado le digo adiós / y el futuro que vendrá dicen que pende de un hilo / y el presente aquí contigo mano a mano/ oye mi hermano disfruta el camino / con la mano levantá al pasado le digo adiós / y el futuro que vendrá dicen que pende de un hilo / y el presente aquí contigo mano a mano/ oye mi hermano disfruta el camino / con la mano levantá yo tocaré, voy tocando el cielo / de puntillas pa tocar / o subiendo un escalón / escribiendo otra canción de escaleras al cielo / busco un sitio pa saltar / que me de alas pa volar / realidad a ras de suelo / con las manos levantás no nos vieron al pasar / cuantas manos hay que alzar para que escuchen de nuevo / tu arma la imaginación / tu escudo no protección / intuyendo el movimiento / con la
mano levantá yo tocaré, voy tocando el cielo / con la mano levantá yo tocaré, voy tocando el cielo / Salté la valla, corrí mil batallas / pero aquí estoy de nuevo / perdí el aliento, pero no me siento / busco carrerilla pa saltar! Pa saltar! Pa saltar! / con la mano levantá / yo tocaré, el cielo.

Letra e Música: Dani Macaco “El Mono”

quinta-feira, julho 20, 2006

T&L em festa!!


Com a singeleza de «Parabéns»

As linhas das mãos são carris de sentimentos
À espera de desaguar no mar.
Amigos há que desse mar fazem oceano
De tranquilidade, de paz calma e inebriante,
De presença certa e constante, de olhar doce e transbordante.
A palavra «amigo» é por definição singular,
Tal como aquela cujo nascimento hoje assinalamos
Com a certeza de que esse oceano
Aspira ao infinito
E acorda o anjo envergonhado que em nós habita,
Fazendo da Felicidade um momento perpétuo
Composto por pequenos nadas que são tudo!

F.L.

Marc Chagall, L'Anniversaire (1915).
The Museum of Modern Art. New York.

quarta-feira, julho 19, 2006

Escritos do Marquis (I)



Terras do Forno, aos 19 de Julho de 1886
Meu ilustre e prezado amigo Senhor Conde de Alteres,

Escrevo-lhe não apenas pelo subido gosto com que sempre o faço, mas também, perdoe-me o atrevimento, para lhe dar nota de uma melancólica quanto inexorável notícia. Desapareceu hoje do mundo dos vivos aquele comerciante-poeta que ocupou parte das nossas conversas no último estio em que Vossa Senhoria teve a bondade de me acolher em seus domínios com a irrepreensível e secular hospitalidade dos Sotto d’Albuquerque.
Falo-lhe do Senhor Cesário Verde. Depois de uma derradeira viagem a Paris, a maleita colectiva que a todos nos traz em cuidados ceifou tão jovem ser. Não lhe fora suficiente o desgosto da morte dos irmãos, pais e mesmo de um filho, a Farpa que Ramalho Ortigão lhe lançou, comparando-a a Baudelaire e jogando de forma desabrida com o que de mais nobre um homem tem: o seu nome. Tal ignomínia será, por certo, vingada por amigos como os Senhores Silva Porto, Malhoa ou Columbano.
«Poeta de jornal», oiço alguns apelidarem-no! Que El-Rei nos não escute e que a presente missiva lhe seja entregue com o meu selo intacto, mas aquele fundo de res publica que de Vossa Senhoria não consigo nem ouso esconder, invade-me qual doce prazer quando vislumbro as puras letras em jornal, mesmo que o povo o não saiba ler e sempre que recordo a troça do Senhor Cesário Verde àquela estirpe de gente que se diz da burgeoise. E mesmo em relação àquela outra ordem que me traz com o tempo desalentado, o bom Senhor Cesário teve palavras certeiras, na excelsa homenagem ao imortal Camões, publicada num jornal com sede na cidade à qual melhor assentaria o título de capital do Reino: «Duas igrejas, num saudoso largo,/Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:/Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,/Assim que pela História eu me aventuro e alargo.»
Meu bom amigo e Senhoria nossa: a pena também ela me desfalece e não obstante o tempo ledo que em minhas propriedades assentou arraiais, é sempre com o coração pesado que vejo partir um cultor das letras (mesmo que com arrebiques de vendedor de maçãs e vinhos), principalmente quando o Senhor Cesário Verde sentenciou o que venho afirmando com palavras mais prosaicas – Reino este que é «foco de mandriice e de asneiras»!
Creia-me, como sempre, Senhor Dom Manoel d’Albuquerque, atento e venerando Vossa Senhoria e ilustríssima Família,


António de Mendes Castro e Themudo, Marquis de Terras do Forno.