terça-feira, julho 18, 2006

Batalha, erro histórico ou a visão dantesca do Outro


German-Austria must return to the great German mother country, and not because of any economic considerations. No, and again no: even if such a union were unimportant from an economic point of view; yes, even if it were harmful, it must nevertheless take place. One blood demands one Reich. (…)

When man attempts to rebel against the iron logic of Nature, he comes into struggle with the principles to which he himself owes his existence as a man. And this attack I must lead to his own doom. (…)

Unfortunately, the military defeat of the German people is not an undeserved catastrophe, but the deserved chastisement of eternal retribution. (…)

A state which in this age of racial poisoning dedicates itself to the care of its best racial elements must some day become lord of the earth. May the adherents of our movement never forget this if ever the magnitude of the sacrifices should beguile them to an anxious comparison with the possible results. (…)


Excertos de Mein Kampf.

****

A 18 de Julho de 1925 era publicada «Mein Kampf» de Adolf Hitler. Certamente não é uma das minhas obras de cabeceira, mas há algum tempo atrás tive curiosidade de o ler. Sempre me impressionaram os fenómenos de loucura colectiva, de alienação em torno de um líder clarividente que, qual Rei Sol, anuncia que a verdade reside em si mesmo.
O que mais me tocou foram a maneira singela como o esperanto é apresentado como parte de uma conspiração judaica de controlo do mundo e as explicações de meridiana clareza explanadas a propósito da Alemanha da década de vinte do passado século.
Obra de um homem alienado, mostra o perigo das explicações redutoras e das conclusões apodícticas. Lembro-me de ter escrito à margem de uma página: «o determinismo levado ao extremo é não apenas a negação da liberdade, mas também da própria humanidade». Judeus e alemães estariam, segundo Hitler, condenados quase geneticamente a uma posição de vassalo-suserano. A superioridade ariana, assente em clamorosos erros históricos, justificaria a «educação» da Europa e do Mundo, incapaz de perceber o real alcance de Vestefália.
Os erros históricos pagam-se muito caros e a capitulação dos povos perante uma plateia de vencedores sequiosos e loquazes foi o melhor húmus em que frutificou o que o Führer sabia que todos temos de mais humano e profundo: a desconfiança pelo Outro, o medo da diferença.
«Mein Kampf» não é só um livro ideológico, marca do nacional-socialismo. É também, por rectas contas, um romance que insufla auto-estima em um povo desalentado. Ultrapassando qualquer «Índex», demonstra-se à saciedade que essa luta encontra pasto incandescente nas sociedades hodiernas. Pasto este que será de chama aberta enquanto não aceitarmos de vez que receamos o diferente e enquanto não o integrarmos. Não tanto através de manobras estaduais sensacionalistas e de efeito avulso, mas dentro das nossas relações mais próximas, ou melhor, dentro de nós mesmos. Aquele pensamento «diferente» que tive deve transformar-se na minha luta, ou devo lutar contra ele?

domingo, julho 16, 2006

Só(l) telúrico


Corpo flácido e sem tez
Prostrado sobre a rocha messiânica
Num embalo sem murmúrio
Resgatando ao mundo a placidez.
Estertor da luta balcânica
Reforçado pelo condimento do telúrio,
Transforma o dogma em fluidez.

Fluidez de viver,
Tempo veloz correndo,
Ansiedade de deter
O sol em mim escorrendo!

F.L.

Quadro de Vincent van Gogh, Sower with Setting Sun, 1888, Rijksmuseum Krueller-Mueller, Otterlo.

sábado, julho 15, 2006

Rembrandt




O pintor da luz e da cor, exemplo do Barroco na pintura, nasceu há precisamente 400 anos. O holandês de família humilde conheceu a ascensão, a glória e o declínio, tudo isto acompanhado de tragédias pessoais (três dos seus quatro filhos morreram e, depois, o mesmo destino leva a sua amada Saskia van Uilenburgh) e de uma dose daquele ingrediente a que chamam «loucura», o qual acompanha todos os grandes génios.
A obra de Rembrandt Harmenszoon Van Rijn, o pintor de Leiden, é o mais eloquente discurso que lhe pode ser dirigido. O exagero dos auto-retratos, a luminosidade da sua Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp (1632), o maldito quadro Nightwatch (a tradução portuguesa é má), início do fim dos compradores das suas obras, são meros exemplos da paixão com que o artista pintava.
Contudo, sempre que contemplo O Regresso do Filho Pródigo, uma sensação inexplicável invade-me. Não apenas por ter lido o famoso livro homónimo de Henri Nouwen (4.ª ed., Braga: Ed. A.O., 1999), mas simplesmente pelo modo como as mãos do pai recebem o filho que tudo gastara «em uma vida dissoluta». Mãos enrugadas, calejadas, ternas, quase andrajosas.
Ao fim e ao cabo, recordar Rembrandt é também, para mim, lembrar a casa paterna, o vínculo familiar indissolúvel e a certeza de que nesse local, por mais que não sejamos dignos dele, a luz do pintor encontrará o melhor ângulo sobre a mesa posta em festa pela magia do regresso.

Obrigado, Rembrandt!

De cima para baixo:
*O Regresso do Filho Pródigo, c 1668/69, The Hermitage, S. Petersburgo, Rússia.
*Rembrandt a Desenhar a uma Janela, 1648, Rijksmuseum, Holanda.
*A Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp, 1632, Mauritshuis Museum, Haga, Holanda.

sexta-feira, julho 14, 2006

Early Night Posts (3)


«(...) citei Rilke: "Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém - é a isto que é preciso chegar.»(...)

Se há coisas na vida que contam com o tempo, são a amizade e a velhice. (O tempo fez-me perder a primeira, enquanto acentuava a segunda.) (...)

Mas ninguém possui verdadeiramente alguma coisa. As coisas do mundo pertencem a todos e, sobretudo, a quem aprendeu a nomeá-las. E eu já não consigo nomear nada. (...)

Deixei que os ventos e as chuvas apagassem o desejo no rasto dos répteis incandescentes. (...)

Não confio nos homens, ainda menos em Deus. (...) Repito: não confio nos homens. Confio na sabedoria remota das minhas mãos. (...)
Há homens com quem se pode aprender a ver aquilo que dentro de nós existe e não sabíamos.
Reconhecêmo-los pelo olhar. Quando se aproximam, a noite reflecte-se clara nos seus rostos. Têm gestos lentos, precisos, como os dos deuses marinhos que habitaram, além, no mar rente à ilha. (...) Transportam no coração a alegria de quem viaja.»

Al Berto, O Anjo Mudo, 2.ª ed., Lisboa: Assíro & Alvim, 2001, pp. 26-28, 32, 34.

Promoções Peste & Sida - É a 100!!



No Verão de 1986, na cidade mourisca de Lisboa, nasciam os Peste & Sida com João San Payo (baixo), Luís Varatojo (guitarra) e Raposo (bateria). Editam o (à época) LP " Veneno", claramente com influências punk em temas como " Veneno", "Furo na Cabeça", "Gingão" ou " Carraspana". O som do grupo começa a ultrapassar as fronteiras do punk e alarga-se a outros géneros como o reggae, o rock e o rap. Esta evolução nota-se no segundo disco "Portem-se Bem", um LP que tem no tema "Sol da Caparica" uma versão de um tema americano dos anos 60, o seu maior sucesso. Outros temas são " Chuta Cavalo...E Morrerás", a versão do tema popular alentejano "Vamos Lá Saindo" e "Paulinha".
O grupo começa a ter uma actividade paralela sob o nome de Despe & Siga, interpretando versões em português de clássicos do rock. Durante algum tempo existiriam os Peste e os Despe, até que a saída de San Payo (que queria manter os dois grupos) leva à extinção dos Peste & Sida.
Contudo, o regresso foi anunciado e a banda apresentou-se na passagem do ano 2003/2004 na RTP 1.
Comemoram, pois, 20 anos de carreira. Facto já de si marcante no Portugal musical.
O T&L, geralmente (?) bem informado, chama a atenção dos fãs para o passatempo comemorativo que os managers da banda estão a organizar, até 20 de Julho: oferecem 10 Cd´s e crachás a quem responder à seguinte questão: quais os títulos dos álbuns dos Peste & Sida até agora editados? e a quem sugerir o nome para o novo álbum do grupo. O registo (gratuito) é em: http://www.espantaespiritos.com/site/mailinglist.aspx?lang=PT.

Quem é amigo, quem é?

quinta-feira, julho 13, 2006

Kahlo(u-se) há 52 anos





Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón (6 de Julho de 1907 - 13 de Julho de 1954).

Eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.

Espero alegremente a saída - e espero nunca mais voltar - Frida. (última frase do seu Diário)

9 de novembro de 1951
Menino-amor. Ciência exacta. Vontade de resistir vivendo. Alegria saudável. Gratidão infinita. Olhos nas mãos e tacto no olhar. Limpeza e maciez de fruta. Enorme coluna vertebral que é a base para toda a estrutura humana. Um dia veremos, um dia aprenderemos. Há sempre coisas novas. Sempre ligadas à antiga existência. Alado - Meu Diego meu amor de milhares de anos. Sadga. Yrenáica. Frida. DIEGO
.

quarta-feira, julho 12, 2006

A Vida Animal como ela é - II ou a devida homenagem a um amigo provocador


"O lama é um animal que pode ser encontrado na região da cordilheira dos Andes (no Peru, na Bolívia e na Argentina), desde os tempos pré-colombianos (antes da chegada de Cristóvão Colombo à América), graças à sua excelente capacidade para sobreviver em altitudes elevadas (2300 a 4000 metros). (...) Estes animais suportam bem as altitudes relativamente elevadas, porque o seu sangue (mais especificamente, a hemoglobina) tem maior afinidade para o oxigénio do que acontece nos outros mamíferos."
Também assim há pessoas que têm uma rara capacidade de se alçar a patamares elevados da existência humana, assimilando e fazendo frutificar aquilo que de melhor a vida oferece...

Pintado de fresco (I)


Acordara revigorado. A noite passara-a em branco ao som de um adágio vespertino de um CD emprestado por um amigo.
Estava agora em frente ao espelho acariciando uma barba farta e negra. Lembrava-se de Saramago: «o homem duplicado». A imagem reflectida agradava-lhe. Curiosamente agradava-lhe. Decidira, de véspera, num daqueles momentos existenciais passados em frente a um produto em promoção numa grande superfície comercial, mudar de perspectiva.
Não mais teria pena de si mesmo enquanto reclamava com o mundo e o fado que lhe fora destinado. Tomara essa resolução ao olhar embevecido para uma criança rechonchuda e sardenta, com cabelo crispado, ao colo de uma mãe disforme vestindo calças de licra. Sempre fora assim: deixava-se tocar por imagens grandiosas de fealdade e beleza justapostas.
Frequentemente pensava que tinha a mania de ser diferente e fazia gala disso. «Ser diferente é ser alguém!», lera num desses calendários com pensamentos vendidos a metro e prontos a consumir por cérebros com mais de um neurónio. E sempre desejara ser alguém. Também não ansiava ser alguém enorme, com um busto à entrada de uma escadaria fria e distante. Bastava ser aquela pessoa de gestos simples (mesmo simplórios) que cumprira as funções que a Natureza lhe ditara.
Entretanto, um fio vermelho escorria-lhe pela face, recordando-lhe que acabara de adicionar ao rol um problema desta feita comezinho: estancar o sangue. Um arrepio gélido acordou-o do meio-sono em que mergulhara.
Voltou a olhar para o espelho enquanto uma força inelutável o impelia a deixar corre a água no lavatório.
Voltou às funções que se impusera enquanto homem e ao rosto da criança sardenta. Apetecia-lhe ouvir Korsakov. Afinal, não era todos os dias que tinha programa para a noite.

Lírio branco



Desejara hoje ver Tanatos
Face a face, dente a dente.
Atirar-lhe-ia qual Pilatos:
-Lavo as mãos do Omnipotente!

Quisera entregar-te uma flor
Para mergulhar no fundo do torpor!

É cedo ainda para me teres
Enjaulado no teu banco eterno.
-Prepara-te então para renasceres
E conquistares o teu Eu fraterno!

Conseguira entregar-te uma flor
Para emergir do fundo do torpor!

Caminho errante sem descanso,
Mas com a paz do lírio branco.

F.L.

terça-feira, julho 11, 2006

Bolinhos e aloé ou a vã glória de não mandar (no jantar)



São fantásticas as propriedades do aloé vera! Quase tão boas como as dos bifidus activos que povoam os iogurtes e substâncias quejandas. Junte-se a estas maravilhas da modernidade os produtos light, a fenilalanina, vulgo adoçante, e temos tudo aquilo de que o português médio precisa para ser feliz, sobretudo nesta época de estio em que o calor aperta e temos vergonha em mostrar aquele pneuzinho que ao longo do ano fomos carinhosamente alimentando. As babes estão na praia e o pneu não dá mesmo jeito nenhum… É também nessa altura que nos lembramos daquela resolução de ano novo de frequentar o ginásio, de puxar ferros e malhar forte e feio durante o ano todo para, no Verão, impressionarmos o sexo oposto com uns bíceps, tríceps e outros músculos de que agora não me lembro (sem malícia…) capazes de fazer o Schwarzenegger corar de inveja e de nos elevar ao ponto de um dos Rocky. Mas não. Relaxámos na forma e agora o aloé é o milagre por que tanto ansiávamos! Não há cá Nossa Sra. do Caravaggio que nos valha!
Essa maravilhosa planta com propriedades curativas e diuréticas elimina o dito pneu, cura o furúnculo, o pé de atleta, aquela unha encravada desde Novembro e mesmo a caspa que povoa os nossos ombros quais flocos de neve em árvore de Natal fora de época. Para além disto, é ainda o aloé vera responsável por importantes filosofias pós-modernas como o movimento das «aloé românticas» ou das «aloé surrealistas». Para já não falar no importante impacto na economia nacional e internacional. A pertinência e relevância da afirmação são tão evidentes que dispensam qualquer comentário suplementar pela certa chato e que não passaria de mais uma treta, tão ao gosto do T&L. Como diria alguém: a relação entre o aloé, a economia e os bolinhos de bacalhau do almoço que tenho de gramar agora ao jantar são como um elefante: uma pessoa vê-o (ao elefante) e percebe logo o que é (ou não…)!
É bom saber que uma distinta Fundação da nossa cidade se dedica a assuntos que realmente alegram e instruem a malta! Tudo com altos patrocínios de entidades insuspeitas.
Contudo, porque queremos ser democráticos, para aquela ínfima percentagem da população que não aprecia o aloé, aqui fica outra iniciativa igualmente interessante. Rapem os cabelos do peito (quem os tiver; não recomendável a senhoras) e embarquem em noites de puro deleite numa danceteria emblemática, quase tão boa como uma que recebeu ainda há muito pouco um embrulho de celofane… A não perder.
E lembre-se: tome aloé antes que precise mesmo dele! E sim, lá vou comer os bolinhos do meio-dia…

Aviso: tentei, juro que tentei, mas não consegui colocar a imagem do convite da Fundação. Fica o link http://www.bonjoia.org/

domingo, julho 09, 2006

Ocas


Aviso: para o possível leitor mais incauto, adverte-se que este «post» é auto-destrutivo.

O tema é tudo menos novo, tanto mais que estou firmemente convencido de que nada inventamos. A maiêutica socrática lá tinha a sua razão. O mote são as palavras, ou melhor, o modo desbocado como em regra as pronunciamos. O tom fácil como a elas recorremos em momentos (que deviam ser) simples da vida.
«Amigo», «Amor», «Gratidão», «Obrigado», «Sim», «Não».
As palavras têm uma ressonância própria, um conteúdo, uma forma, uma linha de corpo mais ou menos pronunciada qual corpo de uma mulher. A repetição torna-as ocas, banais, quase obscenas. Corremos o risco de, quando o significante na verdade (outra palavra empregue em vão) corresponde ao significado, não mais termos no nosso campo lexical um som ou conjunto de sons expressos de modo gráfico e reconhecido por uma comunidade que seja dotado da intensidade que lhe desejamos atribuir. Quantos «amigos» deveriam ser só «colegas» (palavra risível) ou «conhecidos»; quantos «amores» no máximo almejariam o epíteto de «desejos» ou «caprichos»? Quantos «sins» são verdadeiramente «nãos»?
Tudo isto porque as palavras são perfumes frágeis que se acondicionam em frascos pequenos e esguios. Que se partem e sentem todas as ressonâncias. Que, quando abertos, se evaporam num brado só e se gastam amiúdas vezes somente para esconder odores e não para os realçar. Palavras desbotadas, descoloridas, inertes, esvoaçantes qual coberta em janela ribeirinha fria, honrada e a tresandar a gente. Gente que mais do que palavras usadas, usa os gestos. Feios, brutos, ignóbeis, sublimes, humanos. Tudo, no fundo, palavras gastas.

Quadro de Vieira da Silva, "Bibliothéque en Feu", 1974, óleo sobre tela
Centro de Arte Moderna,
Fundação Calouste Gulbenkian



sexta-feira, julho 07, 2006

Guerra Junqueiro e a Lei



Em dia de aniversário da sua morte (7/7/1923), o T&L homenageia o escritor bacharel em Direito.

Falam Condenados

Faminto, nu, sem mãe, sem leito,
Roubei um pão.
Quem vai além de farda e de grã-cruz ao peito?
- Um ladrão!

Todos os crimes da Desgraça
Em mim reúno.
Quem vai além tirado a parelhas de raça?
- Um gatuno!

Pela miséria crapulosa,
Eu fui traído.
Que esplêndido palácio em festa! Quem o goza?
- Um bandido!

Viola, seduz, furta, assassina,
Milhão, És rei!
Que prostituta está cantando àquela esquina?
- A Lei!

quinta-feira, julho 06, 2006

Regresso ao passado (take #1)




Quem não se lembra do "Cinema de Animação" do Vasco Granja, aos sábados de manhã, sempre com o seu inconfundível "olá, amiguinhos!" e os "filmes animados" dos antigos países satélites da ex-URSS? Dava gosto ouvi-lo falar de um Mistovitch qualquer que esboçara uns traços que me pareciam muito estranhos, muito rectilíneos, enquanto olhava a TV a preto e branco como que hipnotizado.
E as típicas entrevistas que VG fazia? Tipo:

Vasco Granja - "então pequenino, como te chamas?"
Miúdo - dizia o nome
VG - "e que idade tens?"
M - dizia a idade
VG - "Então e gostaste dos desenhos animados que mostrámos agora do polaco Miroslav Kusturica?"
M - acena com a cabeça dizendo que sim de forma pouco convincente
VG - "então e gostas dos desenhos animados do búlgaro Pavlov Meszaros?"
M - fica silencioso, com uma expressão entre o embaraçado e o atordoado
VG - "então e do romeno Miklosj Dragulescu?"
M - continua silencioso, ainda com uma expressão de profundo embaraço, e começa a ficar vermelho...
VG - "e então pequenino, diz lá de que desenhos animados gostas mais?"
M - começava a desbobinar - "do Pernalonga, do Dáfidâque, do bipebipe..."
VG - "ah pois, esses hoje não temos para mostrar, por isso vamos antes ver uns lindos desenhos animados do soviético "Dmitryi Kurchatov..."

Chamem-me velho ou nostálgico, mas já não se fazem "filmes animados" como naquela altura nem apresentadores de programas para crianças tão improváveis e autênticos como Vasco Granja!

Early Night Posts (2)


O eterno retorno é uma ideia misteriosa de Nietzsche que, com ela, conseguiu dificultar a vida a não poucos filósofos: pensar que, um dia, tudo o que se viveu se há-de repetir outra vez e que essa repetição se há-de repetir ainda uma e outra vez, até ao infinito!(...)
O mito do eterno retorno diz-nos (...) que esta vida (...) é semelhante a uma sombra, é desprovida de peso (...)
Se o eterno retorno é o fardo mais pesado, então, sobre tal pano de fundo, as nossas vidas podem recortar-se em toda a sua esplêndida leveza.
Mas, na verdade, será o peso atroz e a leveza bela?

In: Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser.

Descentralização cultural


O T&L afirma-se (entre outras coisas) como um espaço de divulgação cultural «de largo espectro» (tipo antibiótico). Tudo (excepto o chamado «pimba») tem lugar de destaque, principalmente se amador e longe dos grandes centros urbanos. A cultura não pode ser privilégio de alguns! (Chiça, parece que estou com o «vírus PREC»...)

Douro vinhateiro em versão verde branco

Pano negro


Pegámos num pano negro e nele depositámos todos os nossos medos. Primeiro os mais antigos, os de criança que julgávamos esquecidos no baú das recordações poeirentas de um passado longínquo. Depois, lentamente, em um silêncio ensurdecedor, com o suor a escorrer das têmporas, fomos desfiando os medos actuais. A voz embargada e o olhar perturbado em busca de um ponto onde não existisse pedaço de outrem. Um ponto asséptico perante o qual o confronto com o medo fosse menos assustador. Falhar. Atónitos, verificámos que tudo se reconduz a este verbo taciturno, a este Ente malévolo. Esboçámos um sorriso cúmplice. Uma solidariedade mais que improvável percorreu-nos à medida que ganhávamos consciência de que a massa humana é a mesma. Medo, coragem, falhanço, avanço, recuo. Alguém lembrou: «O medo pode ser bom. É também ele que nos faz atravessar as ruas com cuidado.»

quarta-feira, julho 05, 2006

Early Night Posts (1)



Bucólica

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga, «Diário I» (1941)

JL


O T&L, geralmente com fontes bem colocadas «in high places», soube que o grupo empresarial em que o mítico «Jornal de Letras» se insere está a equacionar terminar com o título. Seria mais uma machadada na já débil cultura portuguesa. Não proponho uma espécie de «corrente de fé», mas apenas que se compre o «JL», quanto mais não seja para dizer, com conhecimento de causa, que não se gosta e que a lei da oferta e da procura deve fazer o seu trabalho.

Klimt


Meia desilusão, este «Klimt» de Raoul Ruiz. Uma fotografia de bom nível para um argumento relativamente banal. A narração «in media res» levada ao exagero nunca foi sinónimo de qualidade. Malkovitch surge com uma representação que, apesar de não estar ao nível de outras a que nos tem habituado, não desmerece o consagrado actor. No final, de entre uma câmara que teima em rodar demasiado e de uma nudez por vezes exposta sem sentido, fica um retrato fiável da loucura e da ténue linha que a separa da sanidade. Não sei bem porquê, mas saí da sala a trautear interiormente uma das «Elegiac Melodies» de Grieg. Se mais não fora, os 5 € já valeram por isso…