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sexta-feira, janeiro 19, 2007

Early Night Post (19)

Anuviado

"- Patifes, santos, nunca vi nada disso. Nada é preto ou branco, é o cinzento que se impõe. Homens ou almas, tanto faz... Tu és uma alma cinzenta, estranhamente cinzenta, como todos nós ...
- Palavras, nada mais que palavras ...
- Que mal te fizeram as palavras?"

Philippe Claudel, "Almas cinzentas", Edições ASA, p. 89.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Early Night Post (18)


"Quando algo delicioso e irrecuperável se desvanece, temos certamente a sensação de ter acordado de um sonho. No meu caso, essa sensação é extraordinariamente verdadeira. Porque a minha felicidade se formava realmente do mesmo segredo que a felicidade dos sonhos, porque consistia na liberdade de viver todo o possível e imaginável em simultâneo, de confundir ludicamente exterior e interior, de deslocar tempo e espaço como bastidores. Tal como nós, irmãos da Ordem, viajávamos através do mundo sem carro ou navio, tal como conquistávamos o mundo abalado pela guerra e o transformávamos em paraíso através da nossa fé, assim criávamos o passado, o futuro e o imaginário no momento presente. (...)

As velas arderam até ao fim e extinguiram-se, sentindo-me invadido por um infinito cansaço e, voltando-me, parti para encontrar um lugar onde me pudesse deitar e dormir."

Herman Hesse - Viagem ao País da Manhã, Ed. Asa, pp. 26 e 89.

Early Night Post (17)


"É insuportável. É como estar à beira de um abismo, e ter vertigens, e cada vez a gente a debruçar-se mais, e ter medo de cair, e cair, e não chegar ao fundo e acabar, porque o abismo não tem fundo. E, quando se está caindo assim, quereríamos que tivesse. O céu são muitos céus até ao último. A terra muitas camadas até ao fim. O mar, muita água até que há outra terra. A vida, tudo o que tenho tido e me tens dado. O poder, eu posso ter, se quiser todo o poder do Mundo. Mas tudo isto tem fim, pode ter um fim qualquer. Só este abismo não tem. E cada dia me sinto pior, ou me sinto melhor, não sei."

Jorge de Sena, "O físico Prodigioso", Edições ASA, pp. 69 e 70

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Early Night Post (16)


"Fabien avait besoin de déposer les armes, de ressentir sa lourdeur et ses courbatures, on est riche aussi de ses misères, et d`être ici un homme simple, qui regarde par la fenêtre une vision désormais immuable."

Vol de nuit, Antoine de Saint-Exupéry, Éditions Gallimard, 1931, p. 19.

domingo, janeiro 07, 2007

Early Night Post (15) ou Souvenir de Paris (III)

Bleu nuancé
"Vem um belo dia em que esta visão, esta miragem, este sonho, esta febre, esta doença, pode mais do que nós. A vida habitual pesa no nosso espírito como o trambolho no pé de uma galinha, dilatam-se-nos os pulmões, tresdobra-nos a vida, falta-nos o ar em nossas casas, falta-nos a água nas nossas fontes, falta-nos o espaço nas nossas ruas. A cidade então é pequena e o passeio é pouco. Quer-se a viagem, a liberdade a largueza da terra, a vastidão do mar e amplitude do céu – o mundo! Não há outro remédio nestes casos senão fazer o que eu fiz: arranjar a mala e partir.
Para onde? para qualquer parte. Para quê? para voltar depois, porque se volta melhor do que se foi; mais instruído, nem sempre; mais ensinado, sim. Pode-se não aprender nada novo, mas fica-se sabendo melhor o que já se sabia dantes.
E depois, no regresso, o prazer de chegar ... Que há aí no mundo que se lhe compare? (...)
Saudade! amorável e querida vingança dos que ficam! santo penhor da volta!"

Ramalho Ortigão, "Em Paris. Recuperação dos textos originais de 1868", Esfera do Caos, Colecção Esfera das Letras, 2006, p. 10.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Early Night Posts (14)

Joan Miró, La sonrisa de una lágrima, 1973

"Sermos nós próprios, unicamente nós próprios, é algo de extraordinário. Mas como chegar a isso, como alcançá-lo? Ah!, eis o truque mais difícil de todos. Difícil, exactamente, porque não envolve esforço. Tentas não ser isto nem aquilo, nem grande nem pequeno, nem hábil nem desajeitado... estás a perceber? Fazes o que te vem à mão. De boa vontade, bien entendu. Porque nada há que não tenha a sua importância. Nada. Em vez de risos e aplausos recebes sorrisos. Pequenos sorrisos de satisfação - e é tudo. Mas é justamente o próprio tudo... mais do que alguém pode pedir."

Henry Miller, O sorriso aos pés da escada, Edições Asa, p. 37.


segunda-feira, dezembro 18, 2006

Early Night Posts (13)


Amena Tranquilidade
"Os dois amigos afastam-se. Descem o caminho que penetra na floresta. Está um dia de indescritível beleza. O ar cheira a terra molhada e a flor de frangipana. O musgo forma almofadas bordejadas a jade e os bambus estremecem sob o peso de mil pássaros. (...)
No céu, ao sabor de uma ligeira brisa, as andorinhas escrevem poemas invisíveis. (...)
(...) O sol poente salpica de manchas douradas o tapete de musgo, e subitamente, jorrando desse mosaico verde tingido de fogo, surge uma nascente. Aparece entre duas pedras e a água que brota segue cinco direcções, como se desenhasse a forma de uma mão estendida e de cinco dedos afastados, uma mão aberta, uma mão oferecida. (...)
(...) Nela (na água da nascente) restam apenas os bons momentos e as melhores horas, tudo o que há de doce e feliz. As outras recordações, as que magoam, as que ferem, as que retalham a alma e a devoram, todas essas desaparecem, diluídas na água como uma pinga de tinta no oceano. (...) "
Philippe Claudel, A neta do senhor Linh, Edições Asa, pp. 70 e 73.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Early Night Posts (12)

Sang Diû

«Oxalá que aquele a quem o meu "Esclarecimento" for parar às mãos e tiver paciência de lê-lo me considere doido, ou um colegial, ou, antes de mais, um condenado à morte, ao qual pareceu, logicamente, que todas as pessoas com excepção dele dão muito pouco valor à vida, desbaratam-na com demasiada ligeireza, aproveitam-na com demasiada preguiça e desvergonha, e que portanto, não a merecem, todas elas até à última! (...) O que importa é a vida, apenas a vida - o processo da sua descoberta, initerrupto e eterno, ...»
Dostoiévski, "O Idiota", Editorial Presença, pp. 407 e 408.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Early Night Posts (11)

Juan Gris, Arlequim com guitarra

A publicação recente de Percepções e Realidade, de Pedro Santana Lopes, fez-me recordar um excerto d’A Lentidão, de Milan Kundera, que, mais uma vez, transcrevo.

“Todos os homens políticos de hoje, segundo Pontevin, são um tanto bailarinos, e todos os bailarinos se metem em política, o que, apesar de tudo, não deveria fazer-nos confundir uns e outros. O bailarino distingue-se do homem político corrente pelo facto de não desejar o poder mas a glória; não deseja impor ao mundo esta ou aquela organização social (borrifa-se para isso), mas sim ocupar o palco fazendo refulgir o seu eu.
(…) O combate travado pelo bailarino é aquilo a que Pontevin chama judo moral; o bailarino lança a luva em desafio ao mundo inteiro: quem é capaz de se mostrar mais moral (mais corajoso, mais honesto, mais sincero, mais disposto ao sacrifício, mais verídico) do que ele? E maneja todos os recursos que lhe permitam colocar o outro numa situação moralmente inferior.
Se um bailarino tiver a possibilidade de entrar no jogo político, recusará ostensivamente todas as negociações secretas (que são sempre o terreno de jogo da verdadeira política) denunciando-as como mentirosas, desonestas, hipócritas, sujas; adiantará as suas propostas publicamente, de cima de um estrado, cantando, dançando, e chamará os outros citando-os pelo nome a seguirem-no na sua acção; insisto: não discretamente (a fim de dar ao outro tempo para reflectir, para discutir contrapropostas), mas publicamente, e se possível de surpresa: «Está disposto agora mesmo (como eu) a renunciar ao salário do mês de Março em benefício das crianças da Somália?»
(…) [O bailarino] não concluiu como Fausto um pacto com o Diabo, concluiu-o com o Anjo: quer fazer da sua vida uma obra de arte e é nesse trabalho que o Anjo o ajuda; porque, não te esqueças, a dança é uma arte! É nesta obsessão de ver na sua própria vida a matéria de uma obra de arte que se encontra a verdadeira essência do bailarino; ele não prega a moral, dança-a!”

sexta-feira, novembro 17, 2006

Early Night Posts (10)

Pormenor da Cúpula da Rathaus em Potsdam

"Ao contrário de Parménides, parece que Beethoven considerava o peso como algo de positivo. (...) o peso, a necessidade e o valor são três noções intima e profundamente ligadas: só é grave o que é necessário, só tem valor o que pesa.
A origem desta convicção situa-se na música de Beethoven e, (...), hoje quase todos nós a partilhamos: para nós a grandeza de um homem reside no facto de carregar com o destino como Atlas carregava aos ombros a abóbada dos céus. O herói beethoviano é um alterofilista de pesos metafísicos."

Milan Kundera, "A insustentável leveza do ser", Publicações Dom Quixote, 1998, p. 43.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Early Night Posts (9)

De stijl clock - Gerrit Rietveld

"Procede deste modo, caro Lucílio: reclama o direito de dispores de ti, concentra e aproveita todo o tempo que até agora te era roubado, te era substraído, que te fugia das mãos. Convence-te de que as coisas são tal como as descrevo: uma parte do tempo é-nos tomada, outra vai-se sem darmos por isso, outra deixamo-la escapar. Mas o pior de tudo é o tempo desperdiçado por negligência. (...)
Nada nos pertence, Lucílio, só o tempo é mesmo nosso. (...) É tão grande a insensatez dos homens que aceitam prestar contas de tudo quanto - mau grado o seu valor mínimo, ou nulo, e pelo menos certamente recuperável - lhes é emprestado, mas ninguém se julga na obrigação de justificar o tempo que recebeu, apesar de este ser o único bem que, por maior que seja a nossa gratidão, nunca podemos restituir."
Lúcio Aneu Séneca, "Cartas a Lucílio", Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 2004.

terça-feira, outubro 03, 2006

Early Night Posts (8)



"Começo daqui a pouco, costumava pensar e permitia que os dias passassem por mim, daqui a pouco, daqui a nada, amanhã será diferente, amanhã acordo e o dia nasceu extraordinariamente azul, (...).
Começo onde me esqueci de começar, se for possível, começo no princípio de tudo, no princípio do tempo em que nem tempo havia e juro-te, pai, que vou fazer tudo para absorver bem os minutos, por beber todos os segundos, começar onde me esqueci de começar, (...).
Daqui a nada o dia começará a clarear, abrirá os braços longos sobre as sombras e expulsará a noite, daqui a nada fecharei a janela, a madrugada despertará em mim o frio que ainda não sinto, ..."
Rodrigo Guedes de Carvalho, Daqui a nada, Dom Quixote, 2005, pp. 133, 134 e 147.

domingo, agosto 06, 2006

Early Night Posts (7)


Rembrandt van Rijn, O Regresso do Filho Pródigo, c. 1662, Hermitage, S. Petesburgo.
Rembrandt é o filho mais velho como é o mais novo. Quando, nos últimos anos da sua vida, pintou os dois rmãos em O Regresso do Filho Pródigo, tinha atrás de si uma vida à qual não era estranho nem o extravio do filho mais novo nem o do mais velho. (...) Ambos necessitavam de voltar para casa.
Henri J. M. Nouwen, O Regresso do Filho Pródigo, 4.ª ed., Braga: Editorial A.O., 1995, p. 75.

segunda-feira, julho 31, 2006

Early Night Posts (6)

Auto-retrato de Leonardo da Vinci (1512-1515)
"Era velho, certamente (por isso é que se lhe chama velho).
Mesmo assim: não é porque o velho fosse velho que ele era velho - ou seja, não era um senhor idoso (embora também não fosse jovem, claro) (por isso é que se lhe chama velho).
O mais simples, provavelmente, seria dizer a sua idade (se é que não temos horror a certezas tão duvidosas que mudam de ano para ano, de dia para dia, iclusive de hora para hora) (e quem sabe durante quantos anos dias e horas se estende a nossa história) (e em que sentido se estende e inflecte, a bem dizer) (por conseguinte, e repentinamente, encontrar-nos-íamos numa situação em que já não poderíamos assumir a responsabilidade das nossas afirmações irreflectidas)."
"A recusa", Imre Kertész, Editorial Presença, p. 13

terça-feira, julho 25, 2006

Early Night Posts (5)


Miranda: (….) O! I have suffered
With those that I saw suffer: A brave vessel, (…)
Dashed all to pieces (…)
Had I been any god of power, I would
Have sunk the sea within the earth, or e’er
It should the good ship so have swallowed, and
The fraughting souls within her. (…)

William Shakespeare, The Tempest, Hertfordshire: Wordsworth Editions, 1994, p. 6.

Pintura de Richard Dadd (1819-1897). Come unto these yellow sands, 1842, colecção privada.

domingo, julho 23, 2006

Early Night Posts (4)

Salvador Dali, Persistência da Memória, 1931 - Colecção Privada, Nova Iorque

" (Os dias) Iam então agora seguir-se assim em fila, idênticos uns aos outros, inumeráveis, nada trazendo de novo! (...) O futuro era um corredor todo escuro que tinha ao fundo uma porta bem fechada.
(...)
- Veja bem como os pobres agricultores são dignos de lástima! - disse o padre, depois de voltar para junto de Emma, enquanto desdobrava o seu grande lenço de chita, segurando-lhe uma ponta com os dentes.
- Há mais quem o seja - respondeu ela.
- Pois com certeza! Os operários das fábricas, por exemplo.
- Não são esses ...
- Queira desculpar-me, mas tenho lá conhecido pobres mães de família, mulheres virtuosas, posso-lhe garantir, verdadeiras santas, que até falta de pão passam.
- E aquelas - continuou Emma (que falava contorcendo os cantos da boca) -, aquelas, Sr. Prior, que têm pão e não têm ...
- Fogo para se aquecer no Inverno - atalhou o padre.
- Que importa isso?
- Como? Que importa? A mim parece-me que, quando se tem bom aquecimento, boa alimentação ... porque, enfim ...
- Oh, Meu Deus! Meu Deus - suspirava ela."

Madame Bovary, Gustave Flaubert, Europa-América, pp. 62 e 104.

sexta-feira, julho 14, 2006

Early Night Posts (3)


«(...) citei Rilke: "Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém - é a isto que é preciso chegar.»(...)

Se há coisas na vida que contam com o tempo, são a amizade e a velhice. (O tempo fez-me perder a primeira, enquanto acentuava a segunda.) (...)

Mas ninguém possui verdadeiramente alguma coisa. As coisas do mundo pertencem a todos e, sobretudo, a quem aprendeu a nomeá-las. E eu já não consigo nomear nada. (...)

Deixei que os ventos e as chuvas apagassem o desejo no rasto dos répteis incandescentes. (...)

Não confio nos homens, ainda menos em Deus. (...) Repito: não confio nos homens. Confio na sabedoria remota das minhas mãos. (...)
Há homens com quem se pode aprender a ver aquilo que dentro de nós existe e não sabíamos.
Reconhecêmo-los pelo olhar. Quando se aproximam, a noite reflecte-se clara nos seus rostos. Têm gestos lentos, precisos, como os dos deuses marinhos que habitaram, além, no mar rente à ilha. (...) Transportam no coração a alegria de quem viaja.»

Al Berto, O Anjo Mudo, 2.ª ed., Lisboa: Assíro & Alvim, 2001, pp. 26-28, 32, 34.

quinta-feira, julho 06, 2006

Early Night Posts (2)


O eterno retorno é uma ideia misteriosa de Nietzsche que, com ela, conseguiu dificultar a vida a não poucos filósofos: pensar que, um dia, tudo o que se viveu se há-de repetir outra vez e que essa repetição se há-de repetir ainda uma e outra vez, até ao infinito!(...)
O mito do eterno retorno diz-nos (...) que esta vida (...) é semelhante a uma sombra, é desprovida de peso (...)
Se o eterno retorno é o fardo mais pesado, então, sobre tal pano de fundo, as nossas vidas podem recortar-se em toda a sua esplêndida leveza.
Mas, na verdade, será o peso atroz e a leveza bela?

In: Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser.

quarta-feira, julho 05, 2006

Early Night Posts (1)



Bucólica

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga, «Diário I» (1941)