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segunda-feira, novembro 26, 2007

Curtas sobre Metragens - Manuale d'Amore


Manuale d’Amore – Manual de Amor
Realização: Giovanni Versonesi.
Argumento: Vincenzo Cerami, Ugo Chiti.
Elenco: Carlo Verdone, Silvio Muccino, Luciana Littizzetto, Sergio Rubini, Margherita Buy, Jasmine Trinca.
Itália, 2005.
Sítio oficial: http://www.manualedamore.it/


Manuale d’Amore não é uma simples comédia. É uma obra literária com hinos pungentes e estupidamente alegres. Com encontros e desencontros, capítulos, partes e títulos.
Enamoramento, crise, traição, desencanto. Até que tudo volta a uma estaca quase inicial, em ciclo fechado e aberto.
O coração bombeia e pulsa entre 120 a 140 vezes por minuto quando estamos apaixonados. O filme, através de interpretações que comovem pela simplicidade e pela rapidez com que nos identificamos com as personagens, só nos pretende dizer uma coisa muito simples: aproveita cada fase em todo o seu esplendor. Mesmo a traição e a crise. Não queiras ultrapassar nenhuma delas.
Ridículo, aventuroso, assim é o Manual do Amor. Tão ridículo como a ideia de que existe um Manual para estas coisas. Aí reside a essência do filme: se houvesse Manual, essa coisa não seria mais simples, apenas mais sem-sabor.
Viver sem manuais é caminhar solto pela areia de uma praia, calcando não os passos dos outros, mas os grãos de areia certos: os que têm mais sal.


segunda-feira, agosto 13, 2007

"Death Proof", Quentin Tarantino


“Death Proof”, “À Prova de Morte”
Argumento/Realização: Quentin Tarantino
Elenco: Kurt Russell, Rosario Dawson, Vanessa Ferlito. Jordan Ladd, Sydney Tamiia Poitier, Tracie Thoms, Zoe Bell, Quentin Tarantino.
90 minutos, EUA, 2007.

www.deathproof.net

É certo que estamos em plena “silly season” e que o habitual deserto de ideias que ataca por esta época é bem capaz de toldar os espíritos. Mas o caso não é esse. Falo do último filme de Tarantino, “Death Proof”, parte do projecto “Grindhouse”, que associa aquele realizador a Robert Rodriguez, ambos cultores dos “B movies”.
Começo por dizer que não sou grande fã deste dito “mago” do cinema, mas em anteriores películas admirava alguns diálogos absolutamente improváveis, planos de realização bem conseguidos e bandas sonoras imprevisíveis.
Em “Death Proof”, tudo ruiu. Do pouco que para mim existia. A ideia de base não é má, apesar de pequenina (ao contrário do enorme desejo do realizador que aqui desempenha um pequeno papel como Warren, the Bartender): um perturbado, por certo ejaculador precoce, incapaz de demonstrar os seus sentimentos na vida social, transforma-se num “serial killer” quando ao volante de carros potentes, à prova de morte (para o condutor), mata jovens de origens duvidosas e outras nem tanto, em manobras acrobatas que muitas vezes me fizeram lembrar (para pior) “The Three Dukes” (bons tempos…, no “Agora escolha”, com a Vera Roquette).
São apenas duas histórias em que de caçador, Stuntman Mike (Kurt Russell) passa a presa, às mãos de três moçoilas bem resistentes, também elas ligadas ao “showbizz”, em especial, ao maravilhoso mundo dos “duplos”. Muita violência gratuita, com pernas literalmente cortadas, diálogos pobres e cortes permanentes, como aliás o espectador é avisado logo no início da exibição do filme. E benditos cortes. 90 minutos chegam bem para resultados tão deprimentes. O original é mau e o mau não é original.
Nota positiva apenas para Russell, num papel diferente daquele a que estamos habituados e demonstrativo de que, apesar da idade, está em boa forma.
Bem tentei encontrar a crítica social, a sátira ácida. A questão do divertimento, do seu “nonsense” apenas é aflorada, de modo inconsequente. A dualidade brutalidade/ternura, na personagem de Stuntman Mike é só uma espécie de apanhado. A velha ideia de que a velocidade altera o comportamento humano é aqui retratada de modo buçal e através de uma plasticidade tal que chega a ser confrangedor ver um realizador como Quentin Tarantino contentar-se com tão pouco.
Eduardo Prado Coelho escrevia no “Público” da semana que ora termina que “Death Proof” era um dos filmes que mais o havia interpelado nos últimos tempos. O colunista de “O fio do horizonte”anda a ser pouco interpelado… Contudo, nestas coisas “tarantinas”, as opiniões valem o que valem… as boas e as más…

Fica o “trailer” do filme, bem ao gosto de “Lauro Dérmio”…


quarta-feira, junho 13, 2007

Curtas sobre metragens - Climas


Título original: Iklimler / Climates
Relizador: Nuri Bilge Ceylan
Interpretações: Ebru Ceylan, Nuri Bilge Ceylan, Nazan Kirilmis
Género: Drama
Classificacao: M/12
Estúdios: NBC Productions
FRA/Turquia, 2006, Cores, 101 min.

O filme chama-se "Climas" (Iklimler) e retrata as mudanças climáticas que assolam a relação de um casal (Isa e Bahar), à medida que as estações do ano se vão sucedendo.
Tudo começa em período estival nas paradisíacas praias de Kas. As nuvens que toldam o semblante de Isa, apesar do sorriso com que procura iluminá-lo, prenunciam tempestades que o sereno azul do céu ainda não permitiria antecipar.
Com o vento que varre a paisagem e à medida que o estado climatérico se vai agravando, conhecemos, num passar de tempo em ritmo quase real (a lentidão de alguns planos, ainda que quase sempre compreensível, roça o excessivo), o deserto em que Isa e o seu marido se movem. A ausência de diálogo, o desencontro de interesses, a pretérita traição que intuímos são sinais (efeitos?) de uma solidão vivida a dois.
Sinais que os espectadores lêem ao mesmo tempo que os protagonistas. A tempestade instala-se então. O filme retrata-a ao mesmo tempo que nos dá a conhecer, no Outono de Istambul, o percurso proceloso daquelas duas almas melancólicas separadas por um abismo cavado na distância dos seus mundos, dos mundos que foram construindo.
A meus olhos, essa narrativa poderia ter sido desfiada de uma outra forma. Ganharia se se descontasse a presença desnecessária de episódios anódinos ou inconsequentes (a história do PC que estranhamente aparece ligado!) e se se suprisse a ausência de episódios reveladores da essência da história contada.
Tenho, no entanto, de aplaudir aquele que me parece ser o tom característico do filme: a sua genuinidade. Revelada na pureza dos sons – da chuva, dos passos, da respiração, do movimento da areia. – e na limpidez da imagem. É muito belo o plano da praia quando Isa sonha, ou aquele em que ela espreita por uma janela enevoada, já para não falar naquele que encerra o filme.
Gostei de "Climas", quarta longa-metragem de Nuri Bilge Ceylan, realizador que é também o protagonista do filme (na tela é uma espécie de George Clooney da Turquia, tomando de empréstimo uma opinião e imagem alheias!) junto da sua mulher, Ebru Ceylan.
O filme não o é, nem suscita, um intenso dilúvio de emoções. Revela-se, apenas (?), como uma vagarosa e prolongada morrinha de afectos. A cena final dos flocos de neve que cobrem de Inverno a paisagem ainda enevoa a minha alma.

sábado, maio 05, 2007

Curtas sobre metragens - O mistério da estrada de Sintra

O mistério da estrada de Sintra
Realização
: Jorge Paixão da Costa
Elen
co: Ivo Canelas, António Pedro Cerdeira, Rogério Samora, Giselle Itiê, Flávio Galvão, José Pedro Vasconcelos, Nicolau Breyner, Bruna di Tullio, James Weber Brown, João Miguel Rodrigues e João Lagarto.
Portugal/Brasil, 2007.

Sítio oficial: http://www.filmesfundo.com/omisteriodaestradadesintra/.

Originais das cartas em: http://purl.p
t/34/2/.

Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, fartos do marasmo em que vivia a sociedade portuguesa em 1870, decidiram enviar, de forma anónima, um conjunto de cartas dirigidas ao director do «Diário de Notícias» – DN – em que narravam, sob a forma de um folhetim policial (considerado o primeiro do género no nosso País), o mistério de um rapto na estrada de Lisboa para Sintra que levaria um jovem escritor a uma casa onde jazia, morto, um oficial inglês (Rytmel), em virtude de uma excessiva dose de ópio que lhe fora dada pela sua amada Luísa, mulher de um conde português de baixa índole e que a fazia infeliz.
É no meio desta crítica de costumes a uma sociedade monárquica e farta da política (o conde de Abranhos também aparece), com lascivas condessas, lúgubres primos, oficiais garbosos, maridos cornudos e cubanas fogosas, que a película de Jorge Paixão da Costa se desenrola.
As referidas cartas – enviadas entre 24/7/1870 e 27/9/1870 – fizeram do Verão lisboeta um dos mais tórridos da época. A avidez do público era engrossada pelo anonimato dos escritores – apenas desvendado dois meses após a publicação do primeiro episódio –, a que acrescia uma estranha semelhança da ficção romanesca com a realidade. A crítica satírica e corrosiva de costumes de Ramalho e Eça (em tempos, professor e aluno no Colégio da Lapa, no Porto) fez mesmo surgir um surto de paranóia colectiva (comparável , porventura à actual «Floribella») que afastou várias pessoas dos caminhos para Sintra.
O romance «O mysterio da estrada de Cintra», publicado em 1884, relata acontecimentos que serviram de base ao realizador que lhes juntou uma perspectiva da amizade entre Ramalho Ortigão e Eça de Queirós, integrada na «Geração de 70» e na luta contra o Romantismo, a qual retrata com correcção a ténue linha entre a Amizade pura e o ódio mais comezinho.
As interpretações de Ivo Canelas (Eça) e de António Pedro Cerdeira (Ramalho) são de bom nível, especialmente a do primeiro actor, encarnando um Eça como o imaginamos: altivo, cáustico e com traços físicos bem marcados (o «Fura-Vidas» da SIC, em que Ivo Canelas contracena está a anos-luz deste trabalho). Nicolau Breyner, no papel do director do «DN» confirma o que já todos sabemos – a excelência de actor que é: a paradoxal mansidão e a rispidez do director não podiam ter encontrado melhor protagonista. A interpretação dos actores Flávio Galvão e Giselle Itiê não traz nenhum especial «apport» ao filme. Luísa, a condessa devassa, interpretada por Bruna di Tullio surge um pouco deslavada e sensaborona.
O som é péssimo – os nossos realizadores ainda não dominam as técnicas de conjugar a voz dos actores com o som que o público deve apreciar; as «décalages» são constantes. Nota positiva para a fotografia, embora a iluminação seja fraquita. Como alguém dizia no final, a banda sonora era demasiado previsível e, acrescentamos nós, até mesmo «pimba» dentro do género clássico.
O filme custou 2,3 milhões de euros. Para o preço exigia-se mais, principalmente ao nível do acordar de consciências e da crítica de comportamentos e preconceitos sociais. Bem vistas as coisas, o género humano, as suas volúpias, desejos inconfessados e traumas são os mesmos, estejamos em 1870 ou em 2007.
A RTP (que não a nossa treteira!) anuncia a rodagem de uma mini-série intitulada «Os novos mistérios da estrada de Sintra», realizada pelo mesmo Jorge Paixão da Costa, e que se propõe acompanhar o enredo desde o séc. XIX à actualidade. Veremos se aí há rasgo para os aspectos que gostaríamos de ver retratados.

terça-feira, abril 24, 2007

Curtas sobre Metragens - A pianista


Título original: «La Pianiste».
De Michael Haneke.
Com Isabelle Huppert, Benoît Magimel e Annie Girardot.
130 minutos.
Áustria/França.
2001.

Associada à viva recomendação que me fora feita deste filme vinha apenas a vaga advertência do seu peso, que o tornaria alegadamente indigesto para os estômagos mais sensíveis e optimistas. Na verdade, passadas algumas semanas, ainda não o consegui digerir inteiramente, mas também não creio na eficácia do poder catártico desta crónica!
O filme encontra a protagonista, Erika Kohut, nos seus quarenta anos. Professora de piano no Conservatório de Viena, ela vive ainda com a mãe, uma mulher dominadora que usa todos os meios para forçar a filha a atingir os objectivos desde cedo traçados: ser uma pianista genial e reconhecida como tal. São objectivos que exigem uma dedicação total à profissão, mesmo que esvaziem a protagonista de vida própria e tornem a relação mãe-filha insuportável e violenta: a mãe revista-lhe a carteira, controla-lhe os horários e destrói-lhe as roupas demasiado femininas. Cedo se percebe que os objectivos são da mãe e não da filha, que se sente subjugada. Pegando nas palavras de Michael Haneke, a família é o locus de uma guerra em miniatura. A pergunta que se impõe a cada instante é: por que é que Erika não se revolta?
A única fuga a este «outro mundo» que Erika empreende são as idas praticamente diárias a peep shows e sessões de cinema pornográfico. A sexualidade representa para ela uma libertação do domínio materno, mas nunca é vivida na primeira pessoa - sempre por intermédio das vivências dos outros. Ela respira, observa e consome um pouco da vida dos outros, na falta de uma vida própria. Esta atitude de voyerismo é acompanhada de um masoquismo que chega à auto-mutilação. Será para ver se é capaz de sentir algo? Curiosamente, quando encontra um aluno seu a espreitar revistas pornográficas, admoesta-o fortemente, considera-o um pervertido, humilha-o e ameaça-o. Tudo isto na sala de aula, claro, o seu território exíguo de poder. Na verdade, submissa ao poder da mãe, Erika faz questão de submeter à sua tirania os alunos que orienta, inspirando-lhes medo e provocando-lhes humilhações. Perante eles, ela é, ao mesmo tempo, uma pianista dotada e uma mulher gélida e inclemente.
A esperança parece, finalmente, surgir quando Walter Klemmer (interpretado de forma muito convincente por Benoît Magimel), um jovem estudante de piano, entra na vida de Erika. Fascinado pela professora quando a ouve interpretar Schubert, declara-se apaixonado e tenta por todos os meios seduzi-la, usando dois trunfos importantes: o seu ar irresistível e o seu talento aparentemente inato para o piano. Aqui começa, porém, um jogo de recíproca submissão e dominação que conduzirá, não à esperada salvação mas à destruição. Surpreendendo todas as expectativas de Walter, Erika cede às suas investidas, mas em vez de mostrar, pela primeira vez, alguma afectividade, traz à luz do dia todas as suas neuroses: o medo das emoções, o medo de perder o controlo e o medo de se submeter mais uma vez. Erika afirma que é desprovida de sentimentos e que, se algum dia vier a tê-los, eles nunca poderão vencer a sua inteligência. A sua reacção a estes medos é inesperada: Erika exige a Walter que a torture de forma cruel, de acordo com regras rigorosamente traçadas numa carta escrita, já que estes desejos são demasiado inconfessáveis para serem ditos. Ela assume o comando da «relação», exigindo a sua própria submissão! Confirma-se: também o sexo é um palco do poder. De ser amado, a personagem interpretada por Isabelle Huppert passa a ser abjecto, desprezado e incompreendido. No entanto, ela limita-se a transportar para a relação com Klemmer os elementos da violência, da submissão e da falta de afectividade, bem presentes na relação filial. Ela magoa e quer ser magoada, tal como terá aprendido durante a infância e a juventude.
E, afinal, tudo o que ela exige concretiza-se brutalmente, mas num momento em que, aparentemente, já nada deseja. As lágrimas que chora são verdadeiras e amargas. Já não encontra prazer na violência – só sofrimento. Somos confrontados com a perda de qualquer réstia de dignidade humana, com a degeneração completa. A pianista vive (a pedido) a experiência de uma mulher desprovida de todo o poder numa sociedade machista e repressiva. Porque é maltratada, maltrata e maltrata-se. Assim ela não vive, ela vai morrendo interiormente.
Isabelle Huppert desempenha com mestria o papel. Sem qualquer exuberância dramática, conduz-nos permanentemente para a penumbra que habita e impede-nos de desviar o olhar. Mergulha-nos na introspecção e aprisiona-nos na sua imobilidade. Choca-nos com a sinceridade das suas pulsões contraditórias e inconfessáveis.
Sabemos que o livro de Elfriede Jelinek, no qual se baseou o filme, é, em grande parte, autobiográfico. A mãe da escritora galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 2004 morreu aos 96 anos, completamente louca. Partilhavam a mesma casa em Viena, na qual a velha mulher, nos últimos tempos, proibira a entrada do genro. Tal como Erika, também a escritora tem uma sólida formação musical, na qual a mãe concentrou todas as suas ambições. Ao contrário daquela personagem, porém, Elfriede conseguiu escapar a este domínio.
Diferentemente do que sucede com o livro de Jellinek, que ainda recua ao passado de Erika na tentativa de explicar o presente, o filme de Michael Haneke nada explica, limitando-se a relatar experiências com o intuito de deixar ao espectador liberdade total para interpretar e tirar conclusões sobre o que vê. Trata-se, porém, de um presente envenenado: perante uma falta de explicação para a violência e para a perda do que é mais essencial no Homem, o espectador sente-se sem esperança, desalentado, desiludido. A ferida provocada pelos tempos que correm fica exposta: será este o resultado das constantes lutas de poder, da busca desenfreada do sucesso, da perda de solidariedade e do esvaziamento da importância da família e do afecto?

domingo, março 18, 2007

Curtas sobre metragens

The last king of Scotland, O último rei da Escócia.
Realização
: Kevin Macdonald.
Elenco
: Forest Whitaker, James McAvoy, Kerry Washington.
Argumento
: Peter Morgan, Jeremy Brock.

EUA, 2006.
Sítio oficial: http://www.foxsearchlight.com/lastkingofscotland/

Arreigada está a ideia, no dito “mundo civilizado”, que o mal de África é o povo africano. Xenofobia e racismo à parte, é esta a plasticidade que europeus e norte-americanos desejavam emprestar à opinião pública mundial em décadas próximas da nossa e, porventura, ainda nos dias que correm.
"O último rei da Escócia" é uma aula de real politik. Um órfão criado pelo exército britânico por entre tarefas menores e sevícias maiores transforma-se em animal de estimação que, na altura conveniente, é militar e economicamente apoiado para derrubar o anterior pet que se encontrava, neste caso, no Uganda. Da ilusão (alguma vez terá existido?) de que Idi Amin Dada (Forest Whitaker) mudará o seu país, fazendo dele um lugar mais próspero e justo, depressa somos conduzidos a uma personalidade doentia, obsessiva, caricatural.
Num outro ponto do globo, o recém-formado Nicholas Garrigan (James McAvoy) anseia fugir da sombra tutelar do pai e parte à aventura (humanitária?) para aquele país africano. Um encontro fortuito transforma-o no filho branco de Amin, projecção de uma terrível infância do Presidente em que o agora médico pessoal do regime representa o papel de pai e de mãe, de porto seguro contra a traição, contra o medo de crescer.
A criança grande evolui para ditador enorme com laivos de genialidade operatória do dia-a-dia (veja-se a conferência de imprensa do “estadista”). O olhar perturbado de Amin tresfolga entre o amor a Garrigan e o ódio pela aparente verticalidade que ele representa. Até ao momento em que o médico imaturo se deslumbra com o luxo reservado a muito poucos no meio do caos e da extrema miséria de quase todos. Aí, deixa de haver personagens boas e más; apenas pessoas e a sua condição.
A representação que fez reverter para Forest Whitaker o Óscar de melhor actor principal surge de modo tão natural como a personagem se densifica ao longo do filme, antecipando-se a enorme dificuldade que Whitaker deve ter sentido ao despir a farda do general Amin.
No final, sai-se com o travo amaro de que a situação política em certas regiões continuará a sofrer condicionamentos exógenos. Nessas paragens, a liberdade do Estado e dos cidadãos individualmente considerados é uma miragem proporcional à riqueza, à corrupção e à podridão de várias potências ocidentais.
Não obstante, ficam os sorrisos das crianças africanas. Ao menos daquelas que ainda reúnem forças para correr atrás de anafados carros presidenciais.

quarta-feira, março 14, 2007

Curtas sobre Metragens

As Vidas dos Outros
Das Leben der Anderen
Realização de: Florian Henckel von Donnersmarck
Interpretações: Ulrich Muhe, Martina Gedeck, Sebastian Koch
ALE, 2006, Cores, 137 min.

Já há muito tempo que não via um filme que me agradasse tanto. Fora ao cinema a medo. O Óscar para melhor filme estrangeiro fazia-me temer o pior, depois de ter visto "The Departed" a arrebatar o prémio da Academia para melhor filme. A história de polícias e bandidos não me convencera. As superiores interpretações do veterano Jack Nicholson e de um surpreendente Leonard Dicaprio não foram suficientes, na minha opinião, para sustentar o filme e erigi-lo a um plano de tal destaque. Ainda mais em detrimento do preferível "Babel", com o seu puzzle de histórias (só a passada no Japão me pareceu claramente deslocada e anódina) arrumadas de modo original por um Alejandro González-Iñárritu que assim fecha uma interessante trilogia.
Uma sms apologética do filme, um punhado de críticas abonatórias e o decisivo argumento da muito útil oportunidade de treinar o ouvido para a língua de Goethe venceram os meus medos. E ainda bem que tal aconteceu. "Das Leben der Anderen" destila humanismo.
A história começa em 1984. O muro, ainda, divide as duas Alemanhas, abafando aqueles que vivem na sociedade orweliana da parte dita democrática. Uma rede de informações é tecida por muitos (tantos!) cidadãos pacatos (estranhamente "normais") que se dedicam, submissa e acomodadamente, a ver, ouvir, e relatar todos os passos de vizinhos e companheiros de trabalho. A ler a vida dos outros, à procura de passagens dissonantes com a narrativa que o regime silenciosamente impunha, num texto ditado e que todos deviam repetir.
O Capitão Gerd Wiesler (Ulrich Muhe) destaca-se da mancha anónima de informadores. Convicto elemento Stasi, cumpre escrupulosamente as suas funções. Fareja os recantos das vidas daqueles que lhe parecem suspeitos – e poucos são os que escapam ao olfacto apurado deste profissional treinado. Como académico reputado ensina os seus métodos de interrogatório aos novatos que vão sendo amestrados. Recebe, por isso, com agrado a incumbência de seguir a vida de um dramaturgo famoso, George Dreyman (Sebastian Koch) que vive em harmonia, pelo menos aparente, com o poder instituído. Não são intuitos interesseiros de progressão nos quadros do partido que o acicatam – como acontece com o oficial de alta patente Anton Grubitz (Ulrich Tukur), seu colega de escola - nem outros vis desejos mundanos – como os apetites carnais do Ministro da Cultura Bruno Hempf pela actriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck), companheira de Dreyman. Move-o, apenas, a superior missão de salvaguarda do regime que aprova.
Wiesler segue a vida de Dreyman. Assiste ao seu desenrolar, sentado a uma secretária com auscultadores atentos e écrans vigilantes. Perscruta-a até aos mais ínfimos pormenores. Vive-a, à míngua de uma que lhe pertença. A vida de Dreynman inunda a sua. Ocupa o vazio que o habita. É ela que lhe oferece as suas únicas emoções. Só tem a vida de Dreynmar e de Sieland. A vida dos outros. Agarra-se, então, a ela. Procura remendá-la. Para isso trai o regime, esconde-lhe informação. Deixa que Dreyman – sem que este suspeite da vigilância a que é sujeito e da conivência com que é brindado - publique um artigo altamente comprometedor no ocidental "Der Spiegel". Enquanto o texto é preparado em segredo na casa do escritor, Wiesler forja, para os relatos oficiais, uma "falsa" peça que o dramaturgo estaria a escrever para comemorar os 40 anos da RDA. Cria uma trama ficcional em que Dreyman desempenha um papel sem o saber.
O que o leva a manipular o curso de acontecimentos? Um coração que entretanto começara a bater? Um imperativo ético que, entretanto, o conquistara? A soberba interpretação de Ulrich Muhe, que poupa em artificios e exageros, deixa espaço para a suposição. A derrocada do pétreo e insensível stasi dá-se simbolicamente aquando da sua conversa com a criança no elevador. Aí transige com a sua férrea actividade persecutória. Nasce um novo Wiesler. No entanto, a pele permanece a mesma. Sentimo-lo, percebemo-lo, porque Ulrich Muhe no-lo dá a conhecer quase imperceptivelmente. Não precisa de palavras, esgares ou olhares mais impressivos. À transparência, lemos-lhe a alma renovada.
Com o incumprimento do dever que o vinculava face ao regime, liberta-se. Reganha a sua vida, recupera a sua humanidade. Conquista o seu direito à "Sonata para um homem bom".
E o filme podia ser só isto. Mas é muito mais. Deixa-nos muitos pontos para reflectir. Dele podemos tirar muitas lições para a sociedade controladora em que vivemos. Ensina-nos a estar de atalaia para novas formas de ditadura informacional que se vão instalando, a pouco e pouco.
O filme tem, também, o mérito de não cometer o pecado que podia ser capital - o encontro sentimentalão entre o stasi arrependido e o vigiado agradecido. Salva-se in extremis. O relato da história passada, escrita pelo punho de Dreynman, em livro publicado já após a queda do muro de Berlim, serve os intuitos apaziguadores. Basta-nos que, na última cena do filme, Wiesler - aquele que um dia fora o agente „HGW XX/7" - com um leve sorriso no rosto, após comprar o livro, o reclame do vendedor despido de embrulhos supérfluos "por ser para ele" a sonata nele contida.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Curtas sobre metragens - Diamante de sangue


Blood Diamond, Diamante de Sangue

Realização: Edward Zwick
Elenco: Leonardo Di Caprio, Jennifer Connelly, Djimon Hounsou
Argumento: Charles Leavitt
EUA, 2006
Sítio oficial: http://blooddiamondmovie.warnerbros.com

Nomeado para os Óscares da Academia, Blood Diamond não desmerece. Para além de uma realização cuidada, com pormenores interessantes ao nível das técnicas de filmagem por intermédio de câmaras de mão que conferem às cenas de guerra uma grande veracidade e mesmo crueldade, o filme vale, essencialmente, pelo acordar das consciências para o contrabando de diamantes que, em alguns países de África, são o sustentáculo económico de guerras civis, de matanças bárbaras e de jogos de poder e influência de que beneficia a Europa e a América do Norte.
O filme não exagera o tom do chamado “comércio justo”. Sendo certo que, quase no fim, quando Solomon Vandy (Djimon Hounsou) está em Londres onde vende o valiosíssimo diamante rosa que havia achado como escravo numa mina em Serra Leoa, somos confrontados com as vidas e as atrocidades que reluzem no dedo, no pescoço e no pulso de esbeltas senhoras, não há um exagerado tom recriminatório na película.
Di Caprio impressiona pela positiva. Danny Archer revela-se um filho de África na verdadeira acepção da palavra: “TIA” (This is Africa) é o mote que o leva a entrelaçar o seu sangue com a terra vermelha daquele continente esquecido e alvo da cobiça do mundo. Uma interpretação de muito bom nível, bem trabalhada e cheia de antíteses: o outrora soldado idealista da Rodésia (actual Zimbabwe), entretanto mercenário sem escrúpulos, transforma-se em alguém que, por via de uma jornalista americana (Maddy Bowen Jennifer Connelly) que ainda acredita na mudança do mundo, é capaz de um gesto final de altruísmo, também ele motivado por Solomon, no filme seu retrato oposto. Merecida a nomeação para melhor actor principal.
O drama das crianças-soldado é muito bem captado, por intermédio de Dia, filho de Solomon que, depois de ser raptado por um grupo de revolucionários (RUF), o transforma em “homem”, o enche de ideais sem sentido e o transforma em joguete nas mãos daqueles que da sua própria terra somente querem dinheiro e poder.
Na verdade, o mal de África é a enorme riqueza que nela existe.

domingo, novembro 19, 2006

Curtas sobre metragens - Viúva rica solteira não fica


Viúva Rica Solteira Não Fica

Realização: José Fonseca e Costa
Argumento: João Constâncio, Mário de Carvalho, José Fanha, José Fonseca e Costa e Augusto Sobra

Elenco: Bianca Byington, Cucha Cavaleiro, José Raposo, Rogério Samora, Ricardo Pereira
Portugal / Brasil. 2006. 135 min

Argumento que podia ter sido escrito por Eça, filme que podia ter sido realizado por Almodovar ou outro dos “donos” do chamado “cinema de Autor”. Certo é que “Viúva Rica Solteira Não Fica” conta com a escrita sagaz, inteligente, mordaz e de crítica acertada de costumes (ridendo castigat mores, já dizia o nosso Gil Vicente) de João Constâncio, Mário de Carvalho, José Fanha, José Fonseca e Costa e Augusto Sobral e com a profissional realização de José Fonseca e Costa.

O cineasta já merecia um filme assim, capaz de retirar o cepticismo com que muitos portugueses (nos quais me incluo) encaram o cinema que por terras lusas (Casa da Ínsua, neste caso) se vai fazendo. Subsidiado – como quase toda a nossa Cultura (dado preocupante) –, a película percorre o final do séc. XIX e o início do século passado, acompanhando a história de D. Ana Catarina (Bianca Byington), filha de D. Francisco de Silgueiros, nobre emigrado no Brasil (fica a dúvida se se teria dedicado ao tráfico negreiro) e que regressa ao solar de origem onde - figura que me aparece central - o Sr. Abade (José Raposo irrepreensível, certamente a alma do filme) se esforça por estabelecer a ponte entre o divino e o profano, sempre auxiliado por uma excelente ama de D. Ana Catarina (Cucha Carvalheiro).

É genial o modo como a prática de crimes (Conde de Fallorca – Diogo Dória –, Capitão Malaparte – Rogério Samora – e Williamson – Anton Skrzypicie) é justificada com tautologias, com silogismos e teologia "de trazer por casa", num retrato a traço fino e fiel de um certo clero que desconfio não ter ainda desaparecido, mormente no interior do nosso País.

Ana Catarina vai matando sucessivos maridos até que atinge a felicidade junto a Adriano, afilhado (filho?) do abade (Ricardo Pereira uns furos acima das novelas, porém ainda com muito caminho pela frente), feito barão por uma realeza que se aproxima do fim e que desata a vender títulos.

A direcção de actores é eficaz e a fotografia, não sendo o melhor do filme, é suficiente. Os planos surgem em regra acertados, porventura necessitando, aqui e além, de um pouco mais de vivacidade a acompanhar um magnífica banda sonora.

Mais do que provar que os filmes portugueses também são de bom nível, com humor interessante e que não cedem à piada fácil, “Viúva Rica Soleira Não Fica” vale pelo argumento que nos transporta para o melhor que a nossa literatura já produziu em termos de crítica social e prova que as co-produções luso-brasileiras podem ser, de facto, frutuosas.

Rematando – e parafraseando o filme –, o problema daquele mundo (e do nosso) é “haver muitos copos”: leia-se, muito sítio onde nos revermos.

Vá lá, toca a ir ao cinema e usar o “slogan” de umas antigas bolachas: “o que é nacional é bom”!

domingo, novembro 12, 2006

Curtas sobre Metragens


Titulo: Rapariga com Brinco de Pérola (Girl with a Pearl Earring)
Duração: 96’
Ano: 2003
Realizador: Peter Webber
Argumento: Olivia Hetreed
Actores: Colin Firth, Scarlett Joahnsson, Tom Wilkinson

Num sábado à noite mais caseiro, olhei de soslaio a estante e deparei com um filme integrado nesta mania de acenar aos leitores dos jornais com um bónus dado já não bastar o periódico em si.
Baseado no romance aclamado de Tracey Chevalier, Girl with a Pear Earring baseia-se, como se sabe, no famoso quadro de Johannes Vermeer (1632-1675), pintor holandês que viveu e morreu em Delft (pintura hoje à guarda do Mauritshuis, Haia) e cuja vida se encontra, ainda hoje, envolta em grande mistério. Em especial a pintura em causa é, em regra, considerada como tendo sido inspirada na filha mais nova do pintor – Maria.
O argumento transforma uma excelente Scarlett Joahnsson em Griet, criada que vai servir para a casa de Mestre Vermeer (Colin Firth). Para além das dificuldades iniciais de uma vida duríssima numa Holanda ainda dilacerada pelas divisões Protestantismo/Catolicismo (estamos em 1665), Griet deixa-se enamorar pela arte do seu patrão e, em consequência, pelo próprio. Paixão essa que permanece sempre platónica, embora pelo menos em dois momentos o espectador esteja prestes a ver concretizados os desejos dos dois personagens. Curiosa é, do prisma da densidade psicológica de Griet, que a mesma, sabendo o amor com Vermeer impossível, canalize a sua paixão para um jovem talhante a quem se entrega, certamente pensando naquele que verdadeiramente ama. Apesar de o argumento estar a bom nível, eis um ponto que não é suficientemente explorado.
Fotografia e guarda-roupa irrepreensíveis, mereceram nomeações para os Óscares, a que acrescentaríamos nomeação para melhor actriz principal de Scarlett. Alia, na perfeição, o ar angelical com a volúpia do desejo mal escondido num corpo jovem, bem como a ignorância das letras a uma inteligência emocional fora do comum, capaz de ver a arte nas nuvens do céu e numa simples cadeira que estraga a composição cénica que serve de base a uma obra encomendada a Vermeer.
O quadro e a sua feitura ocupam – como não podia deixar de ser – grande parte do argumento, o qual termina com realismo, mas de modo perfeitamente expectável. Os brincos da mulher de Vermeer só poderiam servir de pagamento a Griet pela inspiração e como prova envergonhada de um amor proibido.

terça-feira, outubro 10, 2006

Curtas sobre metragens

Uma Verdade Inconveniente
Título original: An Inconvenient Truth
De: Davis Guggenheim
Género: Documentário
M/16 EUA, 2006, Cores, 100 min.

Estava a adiar o cumprimento deste dever – o de falar de "An Inconvenient Truth", um documentário que aborda a problemática do aquecimento global do planeta.
Nele, o antigo vice-presidente dos EUA, Al Gore, apresenta-se à frente das câmaras para fazer uma palestra semelhante às que vinha realizando, nos últimos anos, em vários pontos do mundo.
O filme tem o mérito indesmentível de alertar para um problema que toca a todos e cujas consequências, em larga medida, permanecem desconhecidas – ainda que as previsões se apresentem muito negativas.
O tom jocoso de algumas passagens suaviza a aridez da exposição, onde abundam informações técnicas e gráficos ilustrativos. As várias referências a episódios da vida de Al Gore (o da morte da irmã com cancro dos pulmões e que provocou um terramoto na família que, até então, se havia dedicado à produção de tabaco; o do acidente com um dos filhos que o levou a repensar o valor da vida e a importância de contribuir para a construção de um mundo melhor para legar às gerações vindouras; etc.) dão uma densidade humana ao palestrante e procuram explicar o imperativo categórico que parece (assim procura convencer-nos, pelo menos) movê-lo. Com estes dois ingredientes, o documentário é mais facilmente digerível por um público mais vasto.
Perpassa, no entanto, em todo o filme uma confessada postura anti-bush que lhe comunica um sabor a propaganda e lhe retira alguma seriedade. Apesar das críticas ao presidente americano, na minha opinião, nunca se afigurarem excessivas – em geral, e em particular no que concerne a esta problemática com a não assunção das obrigações plasmadas no Protocolo de Quioto – o protagonismo assumido por elas no contexto do documentário revela-se desproporcionado.
No fim, é lançado aos espectadores o repto de contribuírem para uma mudança de mentalidade. São sugeridas várias acções realizáveis à escala individual. Uma delas é falar do filme a outras pessoas. Decidi fazer a minha parte. Publiquei este post.

domingo, setembro 24, 2006

Curtas sobre Metragens


World Trade Center
EUA, 2006.
Realização: Oliver Stone.
Argumento: Andrea Berloff
Elenco: Nicolas Cage, Michael Peña, Maggie Gillenhall, Maria Bello.
Sítio oficial: www.wtcmovie.com


Cinco anos volvidos, é natural e desejável que o luto nunca completo do 11/9/2001 se transforme em momento de catarse. Mais ainda quando nenhum guionista de Hollywood alguma vez poderia imaginar enredo mais dramático e comovente do que aquele que a História real traria aos americanos e ao mundo.
É sob este pano de fundo e no campo tensional entre a vertente de documentário e a exaltação de valores pátrios que se insere a mais recente obra de Oliver Stone. Não sendo uma obra-prima, World Trade Center consegue, quase sempre, um equilíbrio entre os vectores assinalados.
Baseado na história de três sobreviventes e na sua luta pela vida debaixo dos escombros do que é hoje o Ground Zero, Jimeno (Michael Peña) e McLoughlin (Nicolas Cage) representam todos quantos naquela terça-feira deram o melhor de si pelos outros. O tom condenatório não transparece na maior parte do argumento, tirando uma sinistra personagem – marine que decide vir ajudar nas operações de salvamento – que encarna os EUA do nacionalismo bacoco e da explicação fácil de acontecimentos que, em abono da verdade, não têm justificação.
Fica-se tocado pelas imagens de Jimeno e McLoughlin a saírem das «sepulturas antecipadas» em que se encontravam, em interpretações medianas de Nicolas Cage e de Michael Peña.
Banda sonora com excelentes temas, realização atenta e profissional, porém sem rasgo e contida, porventura na medida em que Stone e Berloff acusaram a camisa-de-forças que os abraçava: um relato pungente e ideologicamente comprometido ou um mero documentário factual e, ao menos na aparência, imparcial e directo. Algures pelo meio ficou o World Trade Center.

terça-feira, setembro 19, 2006

Curtas sobre Metragens

Havana, cidade perdida
Realização: Andy Garcia
Argumento: G. Cabrera Infante
Interpretações: Andy Garcia, Inés Sastre, Tomas Milian, Dustin Hoffman, Bill Murray
Classificacao: M/12
Duração: 143 m.

EUA, 2005



Através da história da família Fellove, Andy Garcia pretendeu fazer o (seu) retrato de um importante pedaço de história de uma cidade (Havana) e de um país (Cuba).
E fê-lo às claras. Logo no início do filme, assistimos, nos escritórios do fluorescente (e florescente) cabaret El Tropico, a uma reunião familiar da parte masculina do clã. Discutem o destino da família que se joga, também, na encruzilhada do destino de Cuba.
Estamos em 1958, numa Havana que mais do que uma "capital city", é sinónimo de "capital sin". Garcia pinta-a, num luminoso postal, como uma cidade divertida, despreocupada, onde se respira música e se vive inebriado ao ritmo da dança.
O paterfamilias Don Federico Fellove (Tomás Milián), especialista em Direito Constitucional, é professor universitário. Adepto do Zugzwang (táctica, no xadrez, que se traduz em manter a posição das peças, para não entibiar as possibilidades da vitória), acredita na força das palavras (invoca Séneca que sozinho derrotou Calígula e Nero), na construção ordeira de uma sociedade democrática e, portanto, na possibilidade de uma transição política pacífica. Não consegue, porém, convencer todos os seus filhos da bondade da sua tese.
Um deles, Luis (Nestor Carbonell) integra o Directório Revolucionário, rejeitando, ao mesmo tempo, o ideário dos guerrilheiros que se acantonam na Sierra Maestra (por ver neles, apenas, uns seguidores cegos do ideário fidelista, onde ele vislumbra autoritarismo em vez de pluralismo). Como Peligro, seu nome de código, luta pela liberdade e democracia, recorrendo à força das armas para derrubar Fulgêncio Baptista. Engrossa, depois, a extensa lista de vitimas da máquina de terror do ditador, que se limita a escolher se pretende que os inimigos sejam eliminados "com ou sem plumas". Luís perde, assim, a vida, mas ganha a aura de heroísmo, que mais tarde a sua viúva Aurora Fellove (Inês Sastre) pretende honrar e de que o regime castrista se vai, também, aproveitar (tornando-a viúva da revolução do ano)
Outro, Ricardo (Enrique Murciano), filho mais novo, junta-se a Che – bebe-lhe as palavras: "na insurreição (que é a luta armada), os fins (a revolução) justificam os meios - e a Fidel, alimentando assim a sua rebeldia de filho mimado de uma classe rica. Entra vitorioso, ao lados deles, em Havana, depois de Baptista ter abandonado o país na passagem para o ano de 1959. Mais tarde, é ele que, em nome do regime recém-instaurado, vai comunicar ao tio e padrinho Don Donoso Fellove (Richard Bradford), aquela que será a sentença de morte de ambos: a perda das terras que o latifundiário reservava, como herança, para o seu sobrinho. O primeiro morre do choque, o segundo não consegue sobreviver àquilo em que se tornara.
Por fim, outro, Fico Fellove (Andy Garcia), filho mais velho e dono do cabaret El Tropico, é um bon vivant, amante dos prazeres da vida e leal a todos os que lhe são próximos por sangue ou amizade. Para ele, a família vem sempre primeiro. Procura mantê-la, qual ilha, unida e ilesa, no mar revolto que a rodeia por todos os lados. O Tempo, no entanto, está contra ele!
A trama da historia é pontuada com imagens reais (só aí se vê o, então jovem, Fidel); é aligeirada com alguns apontamentos humorísticos (como o da proibição do instrumento capitalista que é o Saxofone, por ter sido inventado na Bélgica) e com as tiradas desconcertantes (algumas desconcertadas!) de um escritor sem nome (Bill Murray) que cai de pára-quedas no enredo.
O que dizer do filme? Podia concentrar-me na unidimensionalidade de muitas personagens, na linearidade do papel de Baptista, na inverosimilhança do mafioso interpretado por Dustin Hoffman. Podia considerar indesculpável a parcialidade da objectiva de Garcia, que, talvez influenciado pela sua própria história de exilado, olha apaixonadamente para História , tratando de modo diferente duas ditaduras Pinta com tintas muito mais escuras as atrocidades do regime castrista, envolvendo com um véu de nostalgia as do tempo de Baptista.
Não foi, no entanto, o que fiz. Deixei-me levar pela música (A banda sonora é cativante). Vivi o drama insular daquela família. Apreciei a fotografia - o cenário natural ajuda. Não desgostei de ver Andy Garcia na pele de galã (assenta-lhe bem, apesar de o ter preferido com a paleta de Modigliani). Saí, por isso, da sala de cinema agradada com o filme. São 143 minutos – podia/devia ser um pouco menos – de bom entretenimento.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Curtas sobre Metragens - A lula e a baleia



The Squid and the Whale, A Lula e a Baleia
Realização
: Noah Baumbach.
Elenco: Jeff Daniels, Laura Linney, Jesse Eisenberg, Anna Paquin, William Baldwin.
EUA,2005, 81 min.
Sítio oficial: http://www.squidandthewhalemovie.com/

O título do filme não era prometedor, mas o conselho de um Amigo que tenho por sábio, levou-me a ver a mais recente película de Noah Baumbach, considerada filme do ano pelo New York Film Critics Online.
Às primeiras cenas percebe-se que não é um vulgar argumento de um casal da década de 80 que se divorcia em virtude de incompatibilidades descobertas ao fim de 17 anos de casamento e, porventura, também por um ciúme mudo do marido – escritor outrora consagrado e hoje simples professor de literatura – ao observar de camarote a ascensão da mulher como romancista e colunista no The New York Times. Descobrem-se traições passadas com o refinamento próprio da maldade humana de deixar bilhetes comprometedores à vista de todos e ficamos ainda na dúvida se Bernard Berkman (o marido) – Jeff Daniels – não terá feito o mesmo a Joan (a mulher) – Laura Linney –, embora de modo mais recatado.
A narrativa vai sendo desenrolada pelo casal e pelos dois filhos que, numa «reunião familiar» são confrontados com a terrível notícia e com uma coisa moderna chamada «guarda conjunta». Cedo descobrem que este sistema de exercício do poder paternal os transforma em marionetas a correr de uma casa para outra, a ouvir os podres dos progenitores (Bernard é, neste particular, mais exímio), a confrontar-se com a realidade cruel de uma solidão ancorada na «guarda conjunta».
As desordens psicológicas são particularmente impressivas no filho mais novo (Frank, Owen Kline, 12 anos): trava contacto com as bebidas alcoólicas, masturba-se na escola e espalha o sémen pelas lombadas dos livros da biblioteca. O filho mais velho – Walt, 16 anos (Jesse Eisenberg) – só à primeira vista surge como um resistente. As idas com a mãe ao Museu de História Natural em que contempla a lula e a baleia são pedras em falta no edifício da maturidade que ainda está a construir. De forma arguta, numa narrativa aberta que surpreende o espectador, é esta a última imagem do filme.
Nota muito positiva para alguns momentos de fino humor, como aquele em que Walt convence os pais (e não só) de que compusera o Hey You dos Pink Floyd, bem como os diálogos serpenteados de tom hilariante que Bernard troca com uma aluna de 20 anos com quem namora, que traz para casa e por quem o filho mais velho se parece apaixonar, numa projecção freudiana.
Quase diríamos que se trata de um diário pelo qual perpassam mais factos que sentimentos. Na verdade, não estando estes últimos ausentes (veja-se as cenas em que Frank caminha num sentido de profundo desespero), o argumento quis mostrar com toda a crueza as consequências de um divórcio. Sem falsos moralismos, sem atribuições de culpas.
Desempenho a bom nível de Jeff Daniels e de Laura Linney, embora tenhamos sido mais sensíveis à expressividade do olhar do pequeno Owen Kline.
Filme urbano, de problemas do dia-a-dia, retrato de uma sociedade em que pouco se investe em instrumentos para aplainar as normais divergências entre personalidades. A não perder!

segunda-feira, agosto 28, 2006

Curtas sobre Metragens



United 93, Vôo 93
Duração: 90 min.
Origem: EUA, 2006.
Realização: Paul Greengrass.
Argumento: Paul Greengrass.
Produção: Zakaria Alaoui, Tim Bevan, Eric Fellner, Lloyd Levin, Mairi Bett.

Acabo de ver o United 93 (Vôo 93). Quase cinco anos volvidos sobre aquela manhã de 11 de Setembro de 2001, o mundo não é já o mesmo, descontada a normal evolução (ou involução) que Cronos a todos nos traz.
Dedicado à memória daqueles que sofreram na pele os horrores do fanatismo religioso, o filme impressiona pela objectividade com que a História é contada. Não se detectam moralismos, sentimentalismos patrióticos bacocos ou um excessivo aproveitamento da desgraça. Tudo, enfim, ao invés do que de mau uma certa corrente de Hollywood representa. Mesmo as notórias falhas de coordenação entre os serviços estatais é assumida de forma não titubeante.
O argumento e a realização andam de mãos dadas numa sinfonia bem orientada. A escolha do ângulo do único vôo que, graças à intervenção de cidadãos anónimos, falhou o seu alvo, é uma homenagem pela positiva ao abominável desespero que enlutou os EUA e o mundo. Ver na desgraça uma luz de esperança, representada pelos passageiros que, seguros da morte, conseguiram evitar um mal maior, é um hino sério à resistência dos espíritos livres que, contra o terrorismo, decidem não abdicar dos valores que as sociedades democráticas defendem. George W. Bush devia ver este filme e reflectir na sua mensagem à medida que vai aniquilando as liberdades civis no País mais esquizofrénico e complexado do planeta. Sob pena de passarmos a ter uma espécie de «sociedade de inimigos», sendo indiscutível que os Estados devem dotar-se de instrumentos jurídicos aptos a permitir uma eficaz resposta à «peste do séc. XXI», nada justifica medidas como o «Patriot Act».
Destaco ainda a inexistência de protagonistas dado que, na realidade, personagens foram todos os que, naquele dia, acordaram para um choque civilizacional que se adivinhava e com o qual teremos de continuar a lidar.
Termino com uma tocante cena do filme: poucos segundos antes de o avião se despenhar, as orações sentidas de muçulmanos e cristãos a Deus e a Alá fazem-nos acreditar que, não sendo o «ópio do povo», as religiões são antes, no fenómeno terrorista, uma justificação metafísica para algo bem mais terreno – o poder.

terça-feira, agosto 08, 2006

Curtas sobre Metragens


Le Goût des Autres, O Gosto dos Outros, 2000.
Realização: Agnès Jaoui.
Argumento: Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri.
Elenco: Agnès Jaoui, Jean-Pierre Bacri, Anne Alvaro, Alain Chabat, Gérard Lanvin, Christiane Millet.
Duração: 110 minutos.
*****
Tributário do chamado «cinema de autor» ainda tão em voga em França, Le Goût des Autres (O Gosto dos Outros), realizado, escrito e também interpretado por Agnès Jaoui, parece, às primeiras cenas, uma comédia romântica sem conteúdo. No entanto, basta ultrapassar esse pré-conceito inicial e rapidamente se verifica estarmos perante um excelente filme, premiado com três Césars em 2001, melhor argumento nos Prémios Europeus do Cinema de 2000, Grande Prémio das Américas no Festival de Montreal em 2000 e nomeação para os Óscares, na categoria de melhor filme estrangeiro (2001).
O argumento reflecte o contraste e o sectarismo entre os mundos das personagens, verdadeiros porta-estandartes de cada um de nós. Jean-Jacques Castella (Jean-Pierre Bacri, marido de Agnès), um rico industrial, self made man, casado com Angélique (Christiane Millet), decoradora frustrada, de gosto muito duvidoso (casa florida, cheia de cores que ferem a vista), frívola, mais interessada em salvar um passarinho ferido do que o seu próprio casamento, vive no seu mundo de gostos simples, quase simplórios, com parcos conhecimentos de música, cinema, teatro ou pintura. A peça Bérénice, na qual se apaixona à primeira vista por Clara (Anne Alvaro), actriz de 40 anos («faltam-me dois minutos para conceber», observa ela), semi-amadora, desiludida com os homens e com o mundo, é o ponto de viragem no mundo do industrial, principalmente quando descobre que Clara é a sua professora de Inglês, língua da qual necessita para concluir um importante negócios. Aulas responsáveis por momentos de fino humor, como aquele em que Castella aprende a pronunciar the ou nothing. De gostos requintados, conhecedora das belas-artes, com um círculo de amigos pseudo-intelectuais e em que alguns deles fazem gala da sua diferença (bem explorada a questão da homossexualidade vista pelo homem do povo que é Castella, ao mesmo tempo buçal e de uma ternura desarmante), a actriz aceita, de modo relutante, a entrada do seu aluno no seu grupo de amigos, onde começa por ser tratado como um ignorante (sem que este se aperceba), até ganhar um certo ascendente (muito por via de uma boa conta bancária à qual nem os mais intelectualóides permanecem imunes).
A história de amor desenvolve-se: Castella declara-se a Clara através de um poema que escrevinha em Inglês, mal recebido pela professora, demasiado amedrontada para embarcar num amor verdadeiro aos 40 anos. Mais um preconceito – a idade –, que faz com que o espectador, aqui como em outras cenas, adivinhe o enredo que se seguirá – aspecto menos positivo do filme este da previsibilidade.
Choque ainda entre dois homens: o motorista (Bruno Deschamps, o actor Alain Chabat) e o guarda-costas de Castella (Franck Moreno, o actor Gérard Lanvin). O primeiro, algo ingénuo, à procura de manter uma relação à distância com a namorada que se encontra nos EUA a fazer um estágio, embora durma com Manie (Agnès Jaoui), empregada de um bar, com quem «já o fizera uma vez»; o guarda-costas, ex-polícia desiludido com a corrupção que grassa no país, supostamente pragmático e realista, até que disputa Manie, com quem vive um romance que, se houvesse coragem de ambos, acabaria em algo duradoiro. No meio, o mundo de Castella e o de Weber (Xavier De Guillebon), licenciado em Universidade parisiense de referência, bem-falante e com bons fatos, de tom paternalista e quase desprezando a (ausência de) cultura de Castella.
O filme termina com a resposta à interrogação do porquê de Bruno aparecer a ensaiar flauta transversal vezes sem conta. Afinal, ele faz parte de uma banda, local onde se sente verdadeiramente integrado. Aliás, Agnès Jaoui resume aqui de modo soberbo a mensagem do filme: por mais diversos que sejam os nossos gostos, todos procuramos um lugar onde nos sintamos parte de um todo, de preferência sem que tal obnubile a nossa originalidade.
Banda sonora interessante, com alguns clássicos de Verdi, Mozart ou Schubert, fotografia a deixar um sabor a pouco, para representações de bom nível. A iluminação desmerece as restantes componentes fílmicas.
No ouvido, uma das frases iniciais, na boca de Bruno: «só por encontrares uma ostra estragada, não vais deitar fora as outras» e uma das deixas da segunda peça interpretada por Clara: «o mais difícil é depender dos outros». Ostras e pessoas, neste particular, a diferença não é grande.

domingo, agosto 06, 2006

Curtas sobre Metragens


The Wind That Shakes the Barley, Brisa de Mudança, 2005.
Realização: Ken Loach
Elenco: Cillian Murphy; Padraic Delaney; Liam Cunningham; Gerard Kearney; William Ruane
Argumento: Paul Laverty
Género:Drama
Duração:127 min.

Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2006, o filme interroga-nos de modo pungente sobre os valores em que acreditamos e sobre os limites até aos quais estamos dispostos a levá-los. No argumento (de Paul Laverty), em geral de muito boa qualidade, dois irmãos ligados pela mesma vontade de uma Irlanda livre do jugo britânico, caminham lado a lado até ao ponto em que a real politik entra em cena e, como tantas vezes, um deles opta pelo possível e realista, enquanto outro, um sonhador e porventura utópico médico, não capitula perante um tratado de paz com o poderoso Reino Unido e, fiel à morte de um companheiro de brincadeira que se viu forçado a infligir em nome dos seus princípios, junta-se a outros camaradas para passar a lutar, agora contra outros irlandeses. A luta fratricida acaba em desgraça, com uma intensidade dramática adequada, sem cair em dramalhões soturnos e sem apego à realidade.
Esta é, também – ou sobretudo – uma reflexão sobre a inflexibilidade e a teimosa extrema que, em nome de princípios democráticos, nada mais é que uma dura tirania. Através de alguns planos de paisagens deslumbrantes da orografia da República da Irlanda, somos conduzidos à certeza de que a vida faz-se com soluções de compromisso. Ao invés, a luta intransigente e cega por propalados valores é apresentada como egoísmo egocêntrico (a redundância é propositada) e posta com toda a sua crueza: a morte física de Damien (Cillian Murphy) e a morte interior de Teddy O´Donovan (Padraic Delaney).
«Daqui a algum tempo, ajuda o Teddy. Ele vai precisar. Acredito que uma parte dele já estará morta nesta altura», escreve Damien à sua amada Seamus, em carta que o próprio mandante Teddy se encarrega de levar à mulher destroçada. Frase poderosa não apenas pela grandeza do gesto do perdão de quem percebe que os ideais extremados são contra natura, mas também pela lição histórica: os extremismos vividos na Irlanda de 1920 são, no essencial, os mesmos que hoje pululam, entre outros, na guerra entre Israel e o Hezbollah (ou o Líbano, consoante a leitura política que se prefira).
Representações acima da média de Cillian Murphy e de Padraic Delaney, em especial do primeiro, para um guarda-roupa que, sem ser excelente, faz jus ao filme. Contudo, algumas cenas do filme poderiam, sem prejuízo do argumento, ser retiradas, de tal modo que a película ganhasse ainda mais acutilância.
Em época de silly season, eis um bom motivo para manter alguma ginástica mental. Ken Loach continua em bom nível depois de Land and Freedom (1995), não se aproximando em demasia de Michael Collins, o que é sempre tentador nesta temática.

terça-feira, julho 18, 2006

Curtas sobre Metragens



Maria Madalena
Ficha Técnica:
Título original – Mary
Realização – Abel Ferrara
Interpretações: Juliette Binoche, Forest Whitaker, Matthew Modine
Classificação: M/12
EUA/FRA/ITA, 2005, Cores, 83 min.

Sítio oficial: http://speciali.rossoalice.virgilio.it/speciali/mary/index.html


Em poucas palavras, pode dizer-se que este filme premiado com o Leão de Prata, Grande Prémio do Júri da 62ª edição do Festival de Cinema de Veneza (2005), se ocupa do retrato de uma miríade de situações de crise. Do conjunto destaca-se a vida fracturada de três personagens.
A de Mary Palesi (Juliette Binoche), uma actriz que não consegue despir a pele de Maria Madalena depois de interpretar a controversa figura no filme “This Is My Blood” sobre a vida e morte de Jesus Cristo (as cenas deste movie inside the movie acabam por povoar “Maria Madalena”, enlaçando as histórias que compõem o seu enredo)
A do cineasta Tony Childress (Matthew Modine), um realizador e actor que pretende “vender” aquele filme (onde também interpreta o papel de Jesus) sobre a temática mais comercial do momento (quando questionado sobre a eleição do teor do argumento confessa despudoradamente que se moveu pela expectativa de amealhar uma elevada receita de bilheteira), hasteando a bandeira da defesa do direito à liberdade de expressão (rebelando-se contra as tentativas de boicote à exibição do seu filme)
A crise existencial de Ted Younger (Forrest Whitaker), um apresentador de um bem sucedido (com elevadas audiências – pasme-se!) programa televisivo em que é analisada – numa perspectiva (quase apenas) retórica e argumentativa – a essência da religião cristã, mas que se conduz na vida pessoal com desrespeito pelos valores apregoados e pelas lições propaladas (o exemplo ilustrativo máximo é o adultério – interesseiro, intui-se – quando a sua mulher se encontra num estado avançado da gravidez)
Neste tríptico vai contida a pintura, em esboço, de um mundo moderno caótico e também ele em crise. Por isso mesmo, este drama religioso tem o mérito de abordar matéria sensível, numa dupla dimensão – macro e microscópica. Assim, num primeiro nível, apresenta-nos a problemática levantada pelos Evangelhos Gnósticos; aflora o debate vivo em torno da controversa figura de Maria Madalena (tão em voga com o “Código da Vinci” de Dan Brown); explora o aproveitamento económico de todas estas temáticas (em particular pela via cinematográfica e televisiva); não esquece, também, as repercussões políticas das lutas feitas tantas vezes em nome de um Deus diferente (o cenário efervescente do médio Oriente é trazido à liça). Num segundo nível desce ao particular, procurando fotografar a vivência individual da fé, que, por essência é díspar. Aí nos surge a crente por revelação e convicção (Mary Palesi) e o crente por contrição e expiação.
Em Maria Madalena, louva-se a colocação da perguntas e a não imposição de respostas; o lançamento do mote para a reflexão e a ausência de conclusão; a história, mas sobretudo o modo de a contar.
Disse que o filme retrata a crise. Ora, a crise, no seu sentido (grego) original, compreende a ideia de encruzilhada, de bifurcação, de pluralidade de alternativas para uma opção (difícil) … o filme deixa-nos, por isso, em crise. Oferece-nos uma oportunidade para meditar. Faz pensar. (Tarefa particularmente difícil neste período de canícula ;-))

rtp

Tentei fazer jus ao hemisfério do blog que concerne às tretas. As letras vão ficando (e muito bem) por conta de filipelamas.